Notas iniciais
Espero que gostem!

``Se você se sente só,

é porque ergueu muros

em vez de pontes´´

— William Shakespeare.

Nicholas Saltzman.

Levantei-me, guardei meu caderno e estojo na mochila e a botei nas costas, enquanto andava para fora da sala. Assim que passei pela porta, saí no corredor extenso repleto de calouros e veteranos. Encarei a multidão e me enfiei nela, espremendo-me entre as pessoas, até finalmente encontrar a saída para o campus. Senti algo vibrar no meu bolso e percebi que era meu celular, então, o peguei e vi uma mensagem de Alex, dizendo para o esperar porque a aula que ele assistia terminaria em poucos minutos. Olhei em volta, procurando por um lugar para me sentar e esperar, porém, estava nevando bastante, menos do que nos dias anteriores e apesar de ser Primavera, o frio ainda era perturbador e se eu voltasse lá para dentro, talvez nem conseguisse mais sair. As árvores do campus que antes eram cheias de flores e folhas, estavam desnutridas e acabadas, pareciam como a vida, tem começo e tem fim, terminando no mesmo lugar que começa. Sentei-me em um banco de mármore onde não havia ninguém e peguei o livro que estava lendo há dois meses e até agora não terminei, apesar de ser tão fino. O jeito que o autor descrevia a personagem era deslumbrante, com uma naturalidade assustadora, realmente era um ótimo livro, talvez um dos melhores que eu já tinha lido.

— Você que é o Nate? — Escutei alguém perguntar e lentamente, levantei a cabeça para olhar a pessoa e vi uma menina ruiva, o cabelo voava com o vento e notei a presença de sardas em seu rosto, junto com seus olhos azuis. Como o autor do livro que eu estava lendo a descreveria? “Seu cabelo ruivo parecia pegar fogo e chamava tanta atenção quanto seus olhos azuis como o mar, que se destacavam por seus longos cílios. Seu rosto era belo, composto por uma boca rosada e um nariz coberto de sardas, que também revestiam a face inteira, apenas na testa havia uma quantidade menor. Sua pele era clara e suave, nas escápulas o cabelo ondulado cor de sangue caía de forma suave.”

O devaneio acabou quando a escutei limpar a garganta e percebi que não tinha respondido a sua pergunta.

— Nicholas. — Corrigi. — Quem pergunta?

Esperei a resposta, mas ela apenas me encarou e nesses poucos segundos de silêncio, pensei a ter reconhecido de algum lugar, talvez devesse ser da sala de aula, porém, eu não me lembro de tê-la visto alguma vez na aula, talvez fosse de outro lugar, apenas não conseguia construir a lembrança. Então, ela virou o rosto para o lado, até me olhar novamente e responder:

— Sou da sua sala e estou com dificuldade em História da Arte e eu escutei algumas meninas comentando sobre você ser monitor, então, pode me ajudar? — Apesar das palavras poderem ter soado gentis, o tom de voz dela parecia ameaçador e cético, já sua expressão era decidida.

— Só faz um mês que as aulas começaram, tem certeza que quer ajuda na matéria ou...

— Eu não quero seu corpo nu na minha cama. — Ela me interrompeu com a voz áspera. — Se não quer ajudar, eu posso achar outra pessoa.

Ela deu meia volta rapidamente e começou a andar com passos firmes para longe. Faz apenas um mês que as aulas começaram, não é minha culpa achar que ela queria outra coisa totalmente oposta a estudar. Porém, se ela quisesse outra coisa teria o lance de mexer no cabelo enquanto enrola uma mecha, contato físico e até uma voz mais delicada, mas, nada disso aconteceu, ela era totalmente distante, como se nem sequer realmente quisesse ajuda na matéria, mas precisasse.

— Ei! — Gritei e ela parou de caminhar, mas não se virou. — Acho que posso ajudar.

Seu corpo se virou lentamente para mim e deu um passo a frente em minha direção, até me olhar com desdém e analisar-me de cima a baixo. Virei o rosto e vi Alex um pouco longe de braços cruzados e me olhando interessadamente, até que ele fez sinal positivo com a mão e piscou. Virei o rosto para a menina e respondi:

— Podemos marcar no Village Grill às três horas.

Novamente, ela me encarou e ao invés de falar algo, deu meia-volta e andou para longe. Um “ok” poderia ter sido adequado, mas, acho que pelo jeito ela preferiu me encarar e ir embora. De longe, podia ver o cabelo ruivo natural dela se balançar ao vento forte. E agora, não sei se devo ir encontrá-la às três ou não, porque nem sei se aquilo realmente foi um “ok” ou um “deixa pra lá”. Palavras são úteis em certas ocasiões e acho que talvez, alguém precise ensinar isso a ela, porém, por outro lado, se eu for, ganho dinheiro com isso, porque até agora umas cinco meninas me pediram ajuda, mas, estava na cara que elas queriam outra coisa e se eu não ajudar ninguém com a matéria, posso perder o cargo de monitor.

— O que a gata queria? — Alex perguntou entretido.

— Ajuda na matéria. — Respondi.

— Duvido que seja só isso. — O vi sorrindo maliciosamente para mim e esfregar as duas palmas das mãos freneticamente.

— Claro, porque com certeza ela vai querer transar no grill. — Virei os olhos e me levantei, indo embora e deixando Alex para trás.

— Ei, eu já fiz isso! — Escutei ele gritar um pouco distante e ri, balançando a cabeça e apressando os passos.

Skyler Finley.

Ele acha que eu sei onde é esse tal de Village Grill? Pois eu não faço a mínima ideia da onde fica, eu nem sei realmente o caminho da faculdade para a estação ainda, imagina esse tal de Village Grill. Poucos minutos após entrar na estação, o metrô chegou. As portas se abriram e me atirei na multidão que saía do metrô e na outra multidão que tentava entrar, na qual eu fazia parte. Estava bastante cheio, mas por um milagre consegui achar um lugar para me sentar. Espremi-me entre as pessoas e quando finalmente estava prestes a sentar, um moço pegou o lugar e imagino que minha expressão devia ter sido de uma babaca, olhando para a pessoa com a boca ligeiramente aberta e com cara de lerda, talvez. Droga, era Nate que eu encarava. Nicholas, quer dizer. Antes que eu pudesse me enfiar atrás de uma alguém, ele me viu e sua expressão ficou pálida.

— Você ia sentar aqui? — Ele perguntou, enquanto apontava para o próprio lugar. Senti o metrô se mover repentinamente e quase caí no cara ao meu lado, porém, consegui me segurar na barra de cima, que por sinal era bastante alta para o meu tamanho.

Apenas o encarei, até porque era claro que eu iria sentar ali, que pergunta mais idiota. Seus olhos azuis também me encaravam e tentei lembrar-me de Michael nele, mas ele era totalmente diferente. Nate ou Nicholas tinha o cabelo castanho, com algumas mechas mais claras e uma franja lateral que cobria a testa, porém, tinha alguns fios desalinhados, já Michael tinha sempre o cabelo arrumado em um topete. Os olhos verdes-mar de Michael não se comparavam àqueles olhos azuis dele. Michael sempre tinha aquela expressão que me encantava e por mais que eu estivesse triste, me contagiava, já o menino que eu estava em dúvida sobre o nome tinha aquela expressão parcial, onde não se sabe se é de tédio ou de tristeza. Tinha o olhar distante, como se apenas fingisse estar prestando atenção aqui, mas estava perdido em seus pensamentos. Eu até o entendo, talvez minha expressão fosse a mesma.

É uma droga quando a saudade de Michael invade minha mente, é como uma pessoa que chuta uma porta com toda a força e invade a propriedade privada. Depois que me mudei para cá, a vida é tão chata e sem gosto, que acho que a coisa mais emocionante do meu dia é quando tenho esperança de achar um lugar para me sentar no metrô e agora, eu havia perdido o meu para o monitor da sala. Não sei se estou bem, se estou mal, não sei como anda minha vida, com as pernas ou com muletas, ou talvez, com pernas tortas na verdade, pois nunca sabe pra onde vai. Ela está chata, tediosa, deprimente, diferente, e ao mesmo tempo a mesma coisa, estranha e irritante e isso me faz enjoar dela. É, vida, você já me encheu, já me estressou, já me deixou feliz, já me fez chorar, já fez tudo, você que é bipolar, não eu. Uma hora me faz feliz, outra me faz triste, outra me estressa, outra me acalma, se decida, vida! E agora, vida, a única coisa que você sabe fazer é me lembrar do Michael e sim, eu gostaria muito que ele estivesse aqui e pior, que eu não tenho a quem culpar, nem a você, pois fui eu que o deixei, eu que vim para Nova Iorque cursar a faculdade dos meus sonhos, viver na cidade dos meus sonhos e agora, estou aproveitando? Não, estou pensando no quanto minha vida ficou miserável!

— Parada para Upper West Side. — A mulher do interfone, como sempre, avisou.

Olhei para o menino que eu ainda estava em dúvida sobre o nome e saí, antes que ele me olhasse também. Subi as escadas da estação e então, saí nas ruas de Manhattan, mais especificamente, Upper West Side. Atravessei a rua e comecei a caminhar em direção a casa de Annie. Alguns minutos depois, estava em frente ao apartamento e logo, falei com o porteiro que por sinal nem respondeu por estar muito ocupado vendo tevê. Subi as inúmeras escadas já que o elevador estava ruim e então, cheguei ao loft. Peguei a chave no bolso lateral da mochila e destranquei a porta. Entrando no loft, e em como toda vez que fazia isso, senti que aquele lugar não fosse meu lar e toda vez que eu me olhava no espelho, também não me reconhecia, não conseguia encontrar as marcas de um pós-sorriso envolta da boca, não conseguia encontrar um resquício de emoção. Eu só quero de volta toda aquela felicidade que eu sentia simplesmente por ter Michael ao meu lado. Inesperadamente, senti a saudade escorrer por meus olhos e não a impedi, me virei e fechei a porta, enquanto tirava meu sobretudo, deixando minha blusa de meia manga que estava antes tampada por ele, agora à mostra.

— Skyler. — Escutei uma voz masculina falar e subitamente, reconheci de quem era. Mas, como isso era possível? Virei-me e respondi a minha própria pergunta quando vi Michael do outro lado da sala de estar. Se eu soubesse que ele estaria aqui, marcaria em outro lugar para nos encontrarmos, não na sala de estar do loft onde morava agora, no qual era uma sala totalmente bagunçada e com a cozinha no mesmo cômodo, apenas dividida por um pequeno balcão. Mas isso não importava mais, porque eu me perguntava o porquê dele estar aqui. Isso é relevante agora? Ele está aqui, isso sim é importante.

— Michael? — Perguntei incrédula.

— Precisamos conversar. — Ele disse de maneira severa e senti meu corpo todo gelar, enquanto percebi que a lágrima que havia rolado há alguns segundos atrás estava ainda traçando lentamente seu caminho por meu rosto, então a limpei com a mão, rompendo seu trajeto.

Joguei a mochila no canto e me sentei no sofá, fiz um gesto para ele se sentar também e então, ele se sentou. Encaramos-nos por um pequeno tempo, meus olhos azuis conectados a seus olhos esmeraldas, seu cheiro de menta perfurando meus pulmões. Era uma tentação não me jogar em seus braços e dizer o quanto estava com saudade, porém, o olhar dele não parecia querer aquilo.

— Annie me contou por telefone que você não está... feliz. E acho que precisamos conversar sobre isso. — Ele se remexeu no sofá, parecia desconfortável com o assunto. — Você precisa esquecer o passado e viver agora, antes que seja tarde, Sky.

Engoli em seco.

— Por dentro, me sinto morta sem você. — Sussurrei e abaixei a cabeça.

— Você está em Nova Iorque, não precisa de mim para aprovei...

— Acha que é fácil ficar aqui sem você? — Levantei-me do sofá raivosamente, interrompendo o resto de sua frase enquanto falava com gestos desgovernados. — Sabia que todos os meus dias aqui são uma luta sem você?

Abaixei meus braços que estavam abertos e comecei a chorar, não achando motivo algum para parar. Era horrível estar sem ele e era horrível também estar com ele quando ele dizia claramente, só que com outras palavras, para eu seguir minha vida sem ele.

— Skyler... — Ele disse e se levantou do sofá, então, tentou me abraçar, mas, me afastei, enquanto sentia uma avalanche cair dos meus olhos.

— Eu não quero seu abraço agora pra depois não ter nunca mais! — Gritei com a voz embargada pelo choro e por um segundo, fiquei parada, até correr para ele e o abraçar com toda minha força, não queria ter que deixá-lo novamente e nem reviver a vez em que tive que o deixar no aeroporto e vir para Nova Iorque. — Por que manda eu seguir minha vida sem você? Por que não damos um jeito de ficarmos juntos?

— Porque às vezes, o que temos que fazer é o melhor para as pessoas que amamos, mesmo que isso nos machuque e a elas também. — A voz dele que antes estava séria, ficou frágil como vidro e como o vidro também é altamente perigoso, com a ponta afiada perfurou minha alma com aquelas palavras que eu sabia que eram mais verdadeiras do que nunca, mas era difícil aceitar isso. — Esse sempre foi o seu sonho, não o estrague quando finalmente foi realizado.

Apertei meus olhos com força e senti os lábios de Michael duros feito mármore tocarem minha testa derradeiramente, até o envoltório de seus braços se desfazerem e eu abrir os olhos, não vendo mais ele na minha frente. Virei-me rapidamente e vi a porta sendo fechada e então, fiquei sozinha, apenas com o silêncio e a consternação presente na minha alma.

Nicholas Saltzman.

Olhei-me no espelho assim que terminei de me vestir e logo, peguei um par de sapatos e saí do quarto, em direção à sala. Quando cheguei, vi que Alex estava sentado no sofá arreganhado, vendo tevê com uma garrafa de cerveja na mão. Bufei e me sentei ao lado dele e comecei a botar o par de meias.

— Vai encontrar a ruivinha? — Ele perguntou e deu um gole na cerveja.

— Vou, por quê?

— Porque ela era gata e... essa roupa não vai agradar a ela. Se bem que vocês devem tirar a roupa depo...

— Cala a boca, Seymount! — Gritei e comecei a calçar os sapatos o mais rápido possível para sair dali e não ter que ouvir mais ladainhas de Alex. — Ela parecia estar com raiva quando falou comigo. — Disse mais calmo.

— Ah, as raivosas são as melhores... — Ele disse relaxado até de mais. — E ainda é ruiva. As ruivas são tão... tão... ruivas. Saca só: — Ele se ajeitou no sofá, sentando-se de lado para mim — Ela vai se fazer de difícil e pá pá pá, aquele joguinho, sabe? Mas quando ela se soltar, meu caro... Não há quem a segure.

— Cara, não é um encontro.

— Porra, tu é gay? — Ele se levantou do sofá.

— Não. — O olhei com indiferença e Alex começou a andar para a cozinha que era separada por um balcão de mármore. — Apenas não quero ser igual a você que pega uma e não consegue nem segurá-la por uma semana.

Olhei para Alex e vi que ele estava mexendo na geladeira, talvez procurando por outra cerveja, até fechar a geladeira e olhar pra mim como se me achasse um estranho.

— É, definitivamente você é gay.

TO BE CONTINUED...

Notas finais
O capítulo não foi tão grande, pois é. Mas é que se eu fizer capítulos enormes, a fanfic não vai durar e vai acabar que ela termina no décimo capítulo. Espero de coração que tenham gostado e comentem o que acharam, podem criticar, dizer no que posso melhorar, se expressem, ou seja, sejam sinceros!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.