Destinados
2 Incertezas
Notas iniciais
Summer levou Josh até a parte mais isolada do parque da cidade, onde tinha um pequeno lago cristalino com alguns patos e gansos nadando. Para ela, era o lugar mais bonito de toda a cidade, além de ser o mais calmo, o lugar perfeito para relaxar e botar os pensamentos em ordem. Ela estendeu a toalha na grama, próximo ao lago, com uma visão perfeita para os animais, era uma manhã bem calma, talvez por ser domingo. Ao longe se podia ver pessoas correndo, passeando com cachorros e fazendo seus demais exercícios matinais, assim como se podia ver alguns esquilos subindo as árvores e entrando em seus buracos, os pássaros cantavam felizes... era um dia no mínimo perfeito.
Ela se sentou em cima da toalha convidando Josh para fazer o mesmo, e tirando de dentro da cesta dois pratos prontos com bacon e ovos, ouviu o estômago de Josh roncar alto.
— Desculpe – ele riu.
Summer sorriu e alcançou um dos pratos, junto de um garfo e uma faca, para um Josh que atacou o bacon e ovos sem dó nem piedade.
— Ei, ei, devagar aí Sr. Leão – disse ela começando a comer sua porção – Não vai engasgar.
— É a fome, não tem controle – ele respondeu de boca cheia, os ovos e bacon semi-mastigados quase saltando para fora – Ainda mais sabendo que foi você que fez.
Ela corou. Como ele sabia?
— C-como você sabe?
— Tem gosto de carinho.
O sorriso dele foi sincero, ele realmente sentia o carinho, e ela, é claro, ficou encabulada ao extremo. A garota ficava assim com qualquer elogio. Ele e Summer eram amigos há anos, e tudo que ela fazia, seja na cozinha, seja no papel, ficava ótimo. Sem falar nas suas notas, que ano após ano estavam no hall de estudantes que ganharam prêmios e mais prêmios pelo seu esforço e dedicação. Bom, ele também esteve nesse hall, mas em segundo lugar, porque em primeiro estava Summer, ela superava qualquer nerd, de qualquer lugar. Summer era simplesmente incrível. Incrível, delicada, inteligente, radiante, vivaz e linda. Com certeza linda. Talvez porque sua beleza não estivesse simplesmente por fora, nos cabelos loiros pintados de azul e nos olhos azuis, mas por dentro também, sua personalidade cativava todos a sua volta, todos queriam andar com Summer, todos queriam ser seus amigos e é claro, todos queriam “tirar uma casquinha”. Não só os caras, mas as garotas também, o que de certo modo, incomodava Josh profundamente. Ela era a garotinha dele, a melhor amiga dele, era a... Josh se repreendeu mentalmente naquele momento. Apenas amigos. Era isso que eles tinham sido desde que ele tinha oito anos e ela seis, esse sentimento de posse não fazia sentido. Ela era livre para beijar quem ela quisesse, assim como ele era livre para transar com quantas garotas quisesse, o que por um acaso, era o que ele fazia. As vezes ele recebia algumas “broncas” da amiga – que estavam mais para avisos do que para broncas — do tipo “cuidado com a AIDS”, “se eu descobrir que você não está usando camisinha eu te mato”, “sempre pergunte as garotas se elas tomam anticoncepcional, não quero ter um afilhado tão cedo assim” e etc. Era divertido ouvir isso, era a forma que ela tinha de cuidar dele, mas mesmo assim, lhe arrepiava a ideia de que ela podia estar por ai beijando um cara ou até mesmo... transando com um. Mas ele não podia impedir, podia? Ela nunca o impediu, afinal.
— Cara... vou sentir falta da sua comida na faculdade.
— Faculdade? – por um momento Summer ficou confusa com a afirmação do amigo, até se lembrar – Ah é, faculdade... até tinha me esquecido.
— Mente fraca você ter – disse ele brincalhão – Só tenho mais três semanas aqui, depois irei para a independente vida de universitário.
— Três semanas e dois dias* — corrigiu Summer.
— Que seja, bobona.
Os dois terminaram de comer e deixaram os pratos de lado, Josh apreciara bastante a refeição, porque passava os dedos no prato e os lambia compulsivamente.
— Com sede, esfomeado? – perguntou Summer.
— Bastante.
— Tome – disse ela alcançado para ele um copo e servindo suco de laranja – Não tome ainda, espere um minuto.
Ela colocou a garrafa de suco em um lugar seguro e começou a revirar a cesta em busca de aspirina. Demorou um pouco até ela enxergar o pacotinho bem no fundo da cesta.
— Aspirina?
— Como você sabia que eu estava com dor de cabeça?
— Querido, eu simplesmente sei.
Josh riu e tomou a aspirina junto com o suco, ele realmente estava com dor de cabeça e realmente, Summer sempre sabia das coisas. Era um dom, ela sempre via quando ele estava mal, talvez os anos de convivência tenham contribuído para isso, e com isso, ele quis dizer que ela sabia que ele tinha ficado bêbado na noite anterior.
— Na faculdade eu não vou ter ninguém para me fornecer uma aspirina quando estiver com dor de cabeça – disse ele.
— Provavelmente. Mas também é bem provável que lá você conheça uma garota legal, que vai te amar muito e que, consequentemente, te dê uma aspirina para quando você estiver com dor de cabeça.
— Não sabemos o que o destino nos reserva, não é mesmo?
Summer assentiu, ficando distraída por um momento com a paisagem, esquilos e patos do lugar. Ela sentiria saudade de Josh.
— Realmente – disse ela – Realmente não sabemos. Vou sentir saudade.
— Não se preocupe, farei visitas regulares.
— Se você não fizer, não precisa nem mais olhar na minha cara.
Josh riu.
— Fale o que quiser, mas mesmo que eu não venha por um ano inteiro, quando eu vier, vou ir na sua casa te visitar e você, bondosamente, abrirá as portas para mim.
— Vai sonhando, bobalhão – disse ela socando de leve o braço do amigo – Meu coração é duro como pedra.
— Nós dois sabemos que não.
Os dois riram da verdade: coração mais mole que o de Summer não existia. A garota colocou os pratos, talheres e copos usados com cuidado dentro da cesta e se deitou na toalha, sentindo o sol da manhã ir aquecendo seu rosto aos poucos. A sensação era ótima, revigorante. Josh deitou ao seu lado, partilhando da mesma sensação.
— Summer?
— O que?
— Eu também vou sentir saudade.
Summer sorriu, ela sabia que sim, palavras não mais eram necessárias. Os dois amigos tinham uma conexão especial, intensa, sabiam o que outro estava pensando antes mesmo de abrirem a boca para dizer algo. Mas... será que Josh a “substituiria” na faculdade? Será que ele se tornaria tão amigo de outras quanto era dela? Que ele ia conseguir fazer mais meio mundo de garotas abrirem as pernas para ele, era fato, verdade comprovada. Mas será que ele faria amizades assim, tão intensas? Sinceramente, ela esperava que não, Josh era dela. Bem, não necessariamente dela, não era sua posse nem nada do tipo, mas era o seu melhor amigo, certo? É normal sentir ciúmes dos amigos. Claro que é normal, completamente normal. Summer ainda tinha três semanas e dois dias, tempo suficiente para curtir bem o amigo antes que ele fosse para a faculdade estudar Direito e se dedicar a sua complexa vida de universitário.
— Então, vamos lá? – perguntou ela.
— Lá aonde?
— Voltar para casa, dormento.
Josh se levantou para que Summer pudesse dobrar a toalha e colocar na cesta, e dando uma alongada, não pode deixar de reparar nas curvas, nas pernas, no corpo da amiga em geral. Summer era com certeza gostosa, e com certeza Josh já havia sentido de roubar um beijo e sentir o gostinho da boca da amiga, ele era homem acima de tudo, mas ele se controlava, mas sobretudo, eram amigos e ele não queria fazer nada que prejudicasse essa amizade.
— Então...
— Será que você, excelentíssima dama – disse Josh cortando Summer – poderia me dar a honra de a acompanhar até em casa?
— Claro.
Josh estendeu o braço para a amiga, que dessa vez não hesitou em aceitar e então, os dois rumaram para a casa de Summer, se despedindo na porta. Na ida de volta para casa, Josh percebeu de verdade, quanta saudade sentiria de Summer. Ela cuidara dele por tanto tempo, limpara seu vômito inúmeras vezes e incontáveis vezes lhe ofereceu uma aspirina, sabendo que ele estava com uma dor de cabeça do caramba pela ressaca, mesmo que ele não tenha demonstrado ou dito nada.
Summer com certeza era uma garota de ouro. Josh estremecia só de pensar, mas era fato: o cara que conquistasse o coração de Summer seria muito sortudo.
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