Destinados
3 Beijos
Notas iniciais
O domingo passou tranquilo depois do café da manhã dos dois e Summer e os pais foram ainda convidados para um almoço na casa de Josh, com a presença ilustre de toda a família Christensen. Os almoços com a família de Josh eram sempre divertidos, talvez porque todos comparecessem ao evento e todos rissem e contassem muitas histórias. Josh tinha seis primos pequenos (com menos de dez anos), quatro adolescentes (entre treze e dezesseis anos) e três maiores de idade (entre vinte e um e vinte e quatro), sem contar os tios e tias que não tinham filhos. Com certeza era uma família bem grande, mas era aconchegante, confortável, era bom estar com todos eles.
Summer e Josh estavam no quarto do garoto, rindo um do outro enquanto jogavam Just Dance, nenhum dos dois era exatamente bom no quesito dança, o que para Summer era um tanto irônico: ela fizera ballet até completar dezesseis. De vez em quando, os primos pequenos de Josh adentravam o quarto como furacões, atrapalhavam o jogo e saiam correndo outra vez, mas nada que deixasse os dois irritados, eles apenas riam mais.
— Ganhei! – Josh vibrou quando a partida acabou – We are the champions, my friend!
— Ladrão! – exclamou Summer – Como você consegue ganhar pulando e mexendo os braços que nem boneco de posto?
— Summer, eu sou mestre do Just Dance, apenas aceite.
A garota lhe mostrou a língua de modo debochado.
— Que mané mestre, boneco de posto, isso sim!
Josh riu e desligou jogo. Cansados, os dois deitaram na cama e suspiraram. O vento que entrava pela janela era refrescante, o que era maravilhoso depois de dançar tanto.
— Acho que vou tomar um banho – disse Josh se levantando.
— Mas nem pensar – a garota o puxou de volta para a cama – Eu não vou ficar suada e fedorenta sozinha. Você fica.
Josh aproximou o rosto do pescoço e axilas de Summer.
— Você é cheirosa Summer, eu sou que nem um porco. Vou lá tomar banho.
Summer já estava se atirando por cima de Josh, para impedir que ele se levantasse e fosse tomar banho, mas obviamente mais forte, Josh conseguia tirar Summer de cima dele. Mas a garota era persistente e sempre se jogava de volta.
— Não senhor – disse ela – Você vai ficar sentadinho e bem quietinho!
De repente a porta abriu e dois dos primos mais velhos de Josh entraram: Harry, de vinte e um, moreno de olhos castanhos, e Ian, de vinte e três, que era loiro de olhos verdes.
— Ahn, hum... Estamos atrapalhando alguma coisa? – perguntou Ian enquanto olhava Summer se atirar nos ombros de Josh, que a jogava de volta na cama como um saco de batatas.
Summer e Josh olharam para os dois rapazes, que adentraram o quarto sem qualquer aviso e se ajeitaram rapidamente, ambos se sentindo um pouco constrangidos pela cena que estavam fazendo e se sentando lado a lado na cama.
— Não – disseram os dois em uníssono.
Os dois rapazes riram dos dois amigos, que agiam de forma tão natural, mesmo depois de estarem se atirando um por cima do outro.
— E aí, Josh – cumprimentou Harry.
— E aí. Fala, Ian!
— E aí, cara – retribui Ian.
Um momento de silêncio.
— Essa é a Summer, se lembram dela?
— Summer? Aquela menininha desengonçada? – perguntou Harry olhando espantando para a garota, que apenas de um sorrisinho sem graça.
— É, sou eu.
Os dois mais velhos se olharam e assentiram, como se firmassem algum tipo de acordo entre eles.
— Eu, hum, vou no banheiro – disse Summer meio sem jeito – Josh, não tome banho.
A garota saiu do quarto, bem a tempo de não ver os dois primos de Josh a comendo com os olhos. Os dois se olharam mais uma vez, e depois olharam para o mais novo com um misto de deboche e, não sei, safadeza talvez?
— Então... vocês nunca transaram? – perguntou Ian.
— Ahn, não.
— Nem ficaram? – perguntou Harry.
— Não.
— Nem um selinho? – tentou Ian mais uma vez.
— Nem um selinho. Algo do tipo estragaria nossa amizade – respondeu Josh, dando de ombros – E tenho certeza de que ela não quer isso.
Os dois se olharam novamente, fazendo Josh perceber que os dois formavam algum tipo de acordo silencioso, ele só não sabia bem o que. Será que eles tentariam...? Não, com certeza não. Eles teriam pelo menos um pouco de respeito com o garoto, não teriam? Claro que teriam. Não é?
— Essa sua amiga – começou Ian – Ela é bem gostosa.
Dito e feito. Onde estava o respeito que Josh tanto queria?
— Põe gostosa nisso – continuou Harry – Ela tem umas coxas que, meu Senhor, dá uma vontade de...
— Parou com a palhaçada, né?
Os dois riram.
— Vamos tirar a sorte? – perguntou Harry.
Os dois se levantaram e se preparam.
— Essa será uma competição justa, de cavalheiros – disse Ian.
Harry concordou.
— JO KEN PO! – gritaram os dois em uníssono.
Ian colocou pedra e Harry colocou tesoura.
— Há! Ganhei! – comemorou Ian – Pega essa, otário!
Ian ficou pulando, dançando e mostrando o dedo médio para Harry por uns três minutos seguidos, ele queria ter certeza de que o primo mais novo se sentira completamente humilhado pela derrota no Jo Ken Po. Ele conseguira a garota, o primo não. Ele iria beijá-la, o primo não. Enquanto isso, Josh ficava cada vez mais irritado, quem aqueles babacas pensavam que eram? O garoto só pensava em soca-los. Summer não era desse tipo, quer dizer, do tipo que podia ser usada. Ela com certeza era mais do que só uma transa ou só um beijo, ela era especial.
— Escute aqui, seu babaca infeliz – disse Josh chegando bem perto de Ian – Não faça nada que ela não queira, não toque nela de um jeito que ela não queira e, acima de tudo, não quebre o coração dela. É só isso que eu te peço.
— Tudo bem, tudo bem – disse Ian – Vou cuidar dela, não se preocupe.
— Acho bom.
Harry apenas observava a cena, claramente se divertindo bastante. É claro que Ian ia conseguir roubar uns beijos da “amiguinha” de Josh, e é claro, que ele próprio faria o mesmo depois. Ela era linda, e muito gostosa também. Ele não ia deixar barato para Ian, com certeza não ia.
— Será que alguém pode me dizer o que está acontecendo aqui? – perguntou Summer, claramente confusa.
— Nada – respondeu Josh num tom tranquilizador – Não se preocupe.
A garota deu de ombros e se sentou na cama.
— Sua mãe está chamando para o café – disse ela.
— Ah, claro. Vamos lá, então.
Os quatro desceram as escadas e se juntaram ao resto da família na mesa, que já estava praticamente toda alimentada. Junto com os outros, tomaram café, e todo o tempo, Ian lançava olhares bem sugestivos para Summer, além de provocar Josh e Harry enquanto conversava com a garota. Depois de alimentados, voltaram para o quarto de Josh, que se jogou na cama, sentindo sua cabeça quase explodir de preocupação. Era a menininha dele, que ia beijar seu primo canalha. Bem... na mesma manhã a amiga chamou Cadie Simons de vadia, então, não tinha porque ele ficar preocupado, tinha? Claramente que não. De canto, Josh viu Ian abrir a porta para levar Summer para a varanda lateral de seu quarto, e diante de tal cena, só pode virar para o outro lado e esperar.
*****
Summer olhava para o garoto ao seu lado: com certeza bonito, loiro de olhos verdes, nariz fino e definitivamente gostoso, com braços fortes, praticamente saltando para fora da meia manga da camisa xadrez branca. Era cristalino que ele estava tentando algo, ela já percebera isso só pelas perguntas que ele fazia. Perguntava a idade, onde estudava, o que gostava de fazer... a típica cantada.
— A quanto tempo você e Josh são amigos?
— Desde que eu tinha seis anos.
— Uau, é bastante tempo.
— Com certeza. Ele é um doce.
Ian levantou as sobrancelhas.
— Sim, um doce. Bem querido e tal... por isso que as garotas abrem as pernas para ele.
— É mesmo?
— Sim, não é segredo para ninguém. A não ser para a mãe dele.
— Hum...
O garoto foi chegando mais perto.
— Você namora?
— Eu? Não, e você?
— Não no momento. Você tem dezessete, então?
— Sim, o último ano do ensino médio me aguarda, afinal. Preciso estudar mais. E você?
— Ah, sim. Mas você aguenta. Ah, tenho vinte e três.
— Seis anos de diferença – ponderou Summer.
— Idade não é um problema, não no seu caso, pelo menos, já que você é mais madura do que parece.
— Uau – ela corou, ato que Ian achou definitivamente meigo e fofo – Obrigada.
E então, silêncio. Eles ficaram assim por um bom tempo, apenas olhando para as luzes da cidade ao longe e ouvindo os ruídos noturnos do bairro: cachorros latindo, gatos miando e grilos cantando. Ian tinha uma respiração leve, o que de certa forma, deixava o ar bem mais confortável, na verdade, as palavras certas seriam menos tenso. Summer sabia porque ele a tinha chamado para essa conversa em particular, e claro, isso não era um problema, a preocupação estava realmente no que ela teria que fazer: ela nunca tinha beijado ninguém.
Bem, de certa forma ela tinha, mas foi um selinho, sem contar que ela tinha treze anos e fugiu depois de mal ter encostado nos lábios de Tyler Parker. Não tinha sido ruim, mas ela estava nervosa e com medo do que podia acontecer. Exatamente como agora. Ian ia se aproximando cada vez mais e mais, até que a deixou contra a parede, de um jeito que ela não pudesse sair, mas que pudesse ouvir sua respiração e sentir seu hálito bem perto. O coração da garota batia rápido, quase saltava para fora da boca. O que ela tinha que fazer? Deixar ele conduzir ou tomar algum tipo de atitude? Onde ela devia botar as mãos, de que jeito devia mexer a língua? Como ela devia...
E então estava acontecendo.
Era gostoso. Suave e quente. Não que ela soubesse o que fazer, mas aparentemente estava dando certo. Suas línguas se moviam juntas, talvez não no sincronismo perfeito, mas se moviam. As mãos de Ian, que estavam depositadas em sua cintura, subiam e desciam, num carinho ardente, mas suave. O garoto avançava cada vez mais, apertando seu corpo contra o pequeno corpo dela. Os dois se beijaram até faltar ar.
— Isso foi, meu Deus, uau – disse Summer, suspirando e ofegando ao mesmo tempo.
Ian sorriu para ela e se encostou na grade de madeira da varanda, convidando-a para fazer o mesmo. Durante o resto da tarde, os dois conversaram mais um pouco, se beijaram, conversaram e se beijaram. Summer descobriu que faltava um ano para Ian terminar a faculdade de veterinária, e que ele fazia bicos em alguns consultórios: cuidava de uma pata quebrada, tirava espinhos do focinho, cortava unhas, receitava remédios... essas coisas. A garota ficou impressionada com a boa vontade que ele tinha de cuidar dos animais, mas não só isso, a paciência também. De acordo com ela, era uma profissão muito nobre. Ele contou inúmeras coisas que aconteciam em seus plantões veterinários, e várias histórias engraçadas também, como por exemplo, da vez em que um gato vomitou os remédios e tudo o que tinha comido, em cima de seu tênis novinho. Ela riu bastante.
— Summer – era Josh do outro lado da porta – Sua mãe tá te chamando, acho que ela quer ir embora.
— Bom, eu... vou indo, então – disse ela se dirigindo para a porta – Nos vemos por aí.
— Talvez futuramente eu abra uma clínica veterinária aqui em Annapolis, mas até lá, pode me visitar em Nova York.
— Meio longe, não?
— Então eu venho – disse Ian puxando Summer para mais um beijo – Até mais, gatinha.
— Até – disse ela saindo.
Summer entrou no quarto e encontrou Josh vidrado no computador, ele provavelmente estava jogando algum jogo.
— Nos falamos depois, então – disse ela para ele.
— Claro.
E então ela foi para casa. Tomou um banho e colocou pijama, mexeu um pouco no computador, leu, e quando desligou as luzes para dormir, viu uma mensagem de Josh chegar no seu celular.
“E então?”
“E então o que?”, perguntou ela, confusa.
“O que rolou?”
“Nós ficamos.”
E então Josh não mandou mais nenhuma outra mensagem. Será que ele tinha ficado bravo com ela? Por causa de um beijo? Se fosse o caso, ela não conseguia acreditar. Ele beijava e transava com mil garotas, o que não lhe dava o direito de ficar bravo com ela, não é? É. Para parar de pensar nisso, Summer bloqueou o celular, se virou para o outro lado e, ao se abafar em suas cobertas, dormiu.
Fale com o autor