Destinados à Payre
15 Encontros e desencontros
—- Quem é você?
—- Por que quer saber?
—- Quem é você?
Que estranho. Não era possível sentir nada. Nem cheiros, nem sons. Também não via nada. Existia apenas a estranha voz sussurrada, que parecia penetrar diretamente na sua mente. E causava aquele vazio.
—- Quem é você?
A pergunta novamente. E a sua falta de resposta, pois também não sabia quem era. Será que aquela pessoa poderia lhe dizer?
—- Quem sou eu?
A voz ficou satisfeita. Como sabia disso? Não tinha ideia. Mas, pelo visto, tinha dito a coisa certa.
—- Você é...
Então veio a luz. Tanta, tanta luz.
***
Mona observou a rosa branca e perfeita em suas mãos. Faltavam apenas duas semanas para o Baile. Não tinha mais tempo. Com a elegância pela qual era conhecida, foi ao encontro daquele que seria seu par na festa, embora ele ainda não soubesse disso.
Bateu levemente na porta e entrou.
E parou.
Reconheceu a música, na verdade, reconheceu mais a voz. Aquela maldita voz que não saia da sua cabeça a três dias. A voz de Angel Lancaster.
Seus olhos cruzaram com os frios olhos azuis de Alexis, que a encarava com a expressão impassível de sempre do outro lado da sala. Por um momento ela ficou ressentida. Como ele podia tratá-la daquela forma, a ela, que estava sempre do seu lado, quando várias vezes já havia sido visto sorrindo ao lado da Angel?
Engolindo esses sentimentos amargos, Mona se aproximou da mesa, observando Alexis desligar o celular e, assim, interrompendo a música que tocava.
—- Parece que, assim como nossos colegas, também gostou dos vídeos da Angel Lancaster, Alteza.
—- O que está fazendo aqui, Mona? Já é tarde. – Alexis ignorou totalmente o comentário da garota, o que só deixou com um sabor ainda mais intragável o que ela tentava digerir, já com dificuldade.
Realmente não era o momento para cortesias frívolas.
—- Seu pai, o Rei Hamad, sabe que tem andado com esse tipo de garota? Digo isso porque estou preocupada com vossa Alteza. O Baile se aproxima e soube que o Rei estará presente, significa que certamente ele ouvirá à respeito dela.
Alexis a observou por um momento.
—- Acredito que tenha razão. Pelo visto ele descobrirá.
Mona ficou um tanto confusa com o tom usado pelo príncipe, levemente irônico, mas continuou mesmo assim.
—- Sabe, eu poderia ajudá-lo com isso.
—- Mesmo?
—- Sim. Poderíamos ir juntos e isso serviria como uma cobertura para o falatório.- assim dizendo, Mona depositou a rosa branca sobre a mesa.
Alexis ficou em pé e, ignorando a flor, deu a volta na mesa parando na frente da garota.
Ela o olhou, inclinando a cabeça para trás. Sempre ficava impressionada com a beleza do Príncipe. E com a sua aura de total domínio sobre tudo a sua volta. Aquilo a encantava e atraía. Mas não era ingenua a ponto de, como acontecia com outras garotas tolas, se imaginar nos braços dele. Alexis se tornaria o tipo de homem que destruiria facilmente uma mulher, pois ela seria uma escrava da sua personalidade e magnetismo. Por isso, Mona sempre manteve o foco em uma única coisa. Ser sua parceira de negócios e sua Rainha.
—- Meu pai certamente irá trazer princesas para serem apresentadas a mim. Não acho que ficará feliz em me ver acompanhado por outra garota.
—- Não é minha intenção interferir nessas questões. O acompanharia apenas para minimizar o burburinho sobre o que vem acontecendo na escola.
—- O Rei ficará tão... Aborrecido, tanto com relação a você, quanto com qualquer outra que não tenha sangue real.
Mona mostrou-se ofendida. Não pela discriminação do sangue, mas sim por ter sido colocada na mesma categoria que ela.
—- Sei disso, mas ainda assim, seria melhor estar em minha companhia do que com aquela...
—- Monalisa.- Alexis já não exibia a expressão de indiferença cortês usada até então – Soube que o seu pai também estará presente no Baile.
Mona ficou perplexa. O Príncipe nunca a tinha chamado pelo seu nome completo. Entendera logo no início que ela não gostava e como era educado, evitava o seu uso. Por isso, a surpresa a fez responder mecanicamente:
—- Sim, estará.
—- Que ótimo. Talvez seja a melhor oportunidade para compartilharem impressões sobre os candidatos a genro do futuro presidente americano, que estarão presentes na festa.
Agora ela estava em choque. Tanto pelas palavras quanto pelo brilho gélido dos olhos azuis. Não era capaz de emitir uma única palavra.
—- E quando escolherem essa pessoa, por experiência própria, sugiro que usem métodos mais diretos, assim evitarão o desperdício de anos em algo que nunca teria se concretizado. – Alexis voltou a sentar-se e ligou o celular novamente – Boa noite, Mona. E boa sorte com o próximo acompanhante. Sei que o Choi ainda está disponível.
Dizendo isso, ele colocou os fones de ouvido e virou a cadeira de frente para as janelas, lhe dando às costas.
Mona ficou parada, olhando perplexa para o couro preto das costas da luxuosa cadeira por alguns instantes antes de, furiosamente, sair da sala.
***
Choi olhou para a Coreopsis em suas mãos e suspirou. Ele precisava melhorar esse acpecto da sua personalidade. Ser masoquista nem sempre era um ato de prazer. Ele já tinha feito aquilo no ano passado, entregara uma flor para Monalisa e ouvira sua recusa gélida e indiferente. Mas, infelizmente, ele não era de desistir fácil.
Sabia que ela recusaria e que isso, mesmo fazendo piadas a respeito, o machucaria. Ainda assim, não conseguiria deixar de fazer. Como não conseguia deixar de ter interesse por aquela garota tão difícil. Se pelo menos ele não tivesse conhecido o seu lado real, o seu sorriso sincero, o brilho alegre no dourado dos seus olhos...
Viu a porta abrir e esperou. Estava no salão de treinamento do clube de arquearia. Tinha visto Mona, segurando uma rosa branca, ir em direção a sala de Alexis, então resolveu ir até ali e esperá-la. Tinha certeza que ela estaria irritada e/ou triste e, quando ela estava assim, gostava de praticar com as flechas.
Aguardou enquanto ela pegava o equipamento, para só então ligar a luz de onde estava. Assim que o fez, Mona virou na sua direção. Sim, ela estava furiosa. Talvez, estar naquela situação para lhe oferecer a flor, não fosse a melhor ideia. Quer dizer, aquela ponta de metal nas mãos da garota parecia assustadoramente afiada.
—- O que está fazendo aqui?
Choi resolveu que seria mais saudável manter a distância entre eles.
—- Ora, minha querida, vim trazer isso. – estendeu a delicada flor amarela, mas manteve-se no mesmo lugar. – Quer ir ao Baile em minha companhia? Prometo ir com uma linda gravata e beber apenas refrigerante não batizado. E nada de dançar popping como no ano passado. Juro.
Mona, sem nem mesmo olhou para o que ele oferecia, colocou a flecha no arco, o que deixou Choi com um certo pânico, mas ela virou a ponta na direção dos alvos, que se encontravam em diferentes distâncias ao longo da sala.
—- Já sabe qual é a resposta, agora vai embora.
Ela disparou e acertou um dos alvos mais próximos e, mesmo assim, foi bem longe do centro. Praguejando, Mona pegou outra flecha.
—- Sim, eu sei a resposta. Mas, bem, eu tenho essa coisa de sentir um barato quando recebo as suas palavras cheias de veneno. – Ele ficou pensativo. – Caramba, eu não tinha pensado nisso, mas esse deve ser o motivo pelo qual fico todo arrepiado quando sou esculhambado por você. Acho que acabei viciando na toxina desse veneno delicioso. Será que se você me beijar, eu me curo?
Irritada a garota largou o arco e a flecha a começou a ir na sua direção. Bem, pelo menos agora ela estava desarmada. Mas, Choi não era um iludido total, Mona não parecia que ia beijá-lo. Que pena. Então, notou com curiosidade quando ela olhou para sua mão e parou. E pareceu ficar ainda mais indignada com ele. Que novidade.
—- Não! Não, Choi! Eu não vou a porcaria do Baile com você! – A garota gritou e parou a alguns passos de distância, suas mãos estavam cerradas, como se estivesse se contendo em fazer algo. – Eu nunca quis ir a qualquer lugar em sua companhia, por mais que essa sua cabeça idiota crie fantasias a respeito!
Pela primeira vez, Choi ficou sério.
—- Não são fantasias.
—- São sim! Eu nunca te dei qualquer motivo para pensar o contrário! – Ela arrancou a flor das mãos dele e, sem hesitação, despedaçou as delicadas pétalas amarelas entre seus dedos. – Viu? Fantasias! A realidade é que eu quero alguém muito diferente de você! Não preciso de um cara rico, embora seja o que todos pensem! Eu quero O melhor! Eu quero estar no topo e não olhar para ninguém acima de mim! Você sempre soube disso!
—- Alexis nunca foi pra você.
—- Nem você! Nem você, droga! — Mona parecia fora de si.
Ainda assim, Choi sorriu tristemente, sem se abalar.
—- Está enganada. – Ele olhou para os restos da flor, que ainda permaneciam presas na mão da garota.- E eu espero, e você deveria esperar também, que eu mantenha a vontade de convencê-la disso. Boa noite, minha querida Monalisa.
***
Quando Angel o viu se parabenizou pela ideia idiota que teve. Quem mandou sair do sua bela e confortável rotina, para circular entre os colegas?
Tudo culpa daquela bruxa de olhos amarelos! Desde a discussão com ela, havia remoído sobre como seria frequentar as aulas e os lugares onde todos iam. Na verdade, queria mesmo era descobrir o que Alexis faria. Estava cansada de ser covarde. Estava farta de ter medo.
Mas ali estava ela, no seu primeiro dia e já dava de cara com ele. Ren.
Ele vinha na sua direção, pelo corredor do prédio onde ficavam as salas de aula. Inevitavelmente eles iam ter que passar lado a lado. Com a expressão mais casual do mundo, Angel o fitou por baixo da aba do boné azul que usava. Ren retribuiu seu olhar e continuou a andar, sem alterar seu ritmo. Impossível não reparar que alguns alunos chegaram a parar para assistir o que aconteceria entre eles. Mas, para espanto de todos, até mesmo de Angel, Ren apenas acenou com a cabeça ao passar por ela e seguiu seu rumo.
Muito admirada, ela estacou e olhou para trás. Alguns alunos fizeram o mesmo. Se ela fosse alguém mais enturmada poderia até soltar um “Ei, vocês viram isso? Que loucura!”, mas ela não era. Embora estivesse ali em plena luz do dia, ainda era a garota que usava jeans e tênis velho, moletom puído e boné puxado para frente cobrindo boa parte do seu rosto. Então, ela deu de ombros e seguiu em frente. Mas parou novamente.
Sério? Sério mesmo?!
A outra pessoa também pareceu não gostar muito de vê-la ali. Tanto que fez questão de virar o rosto para o outro lado. Angel, em qualquer outro momento teria o ignorado também e seguido em frente. Mas não naquele dia. Não quando ele estava com ela.
—- Leo? Leo, é você mesmo? Que surpresa, primo!
Os alunos que tinham começado a circular, novamente pararam. Angel, resolvendo que se era para se ferrar, então faria o serviço completo. Tirou o boné e sorriu alegremente para o garoto loiro que se viu obrigado a encará-la.
—- Bom dia, Angel. Estou atrasado para a aula.
—- Eu também! – ela riu, os colegas trocaram olhares curiosos – Mas me diga, desde quando está na Alpha?
—- Pouco tempo.
Angel olhou para Mona de relance, e resolveu continuar ignorando-a.
—- Então não sabe do Baile que vai ter daqui a umas duas semanas?
Leonard franziu a testa sem entender. Ela não era conhecida por ligar para essas coisas.
—- Na verdade eu já sabia.
—- E já tem par?
Ele ficou mortalmente pálido e respondeu prontamente:
—- Sim, tenho! Mona vai me acompanhar!
Há-há! Bingo!
Ainda mais sorridente, Angel finalmente se dirigiu a garota morena.
—- Que surpresa, Monalisa, pensei que iria com Alexis, não é praticamente a noiva do Príncipe?
O silêncio foi total. Uma mochila desastrada caiu.
Leonard piscou, ainda mais confuso. Mona ficou com o rosto e as orelhas vermelhas. De raiva ou de constrangimento. Angel esperava que fosse pelos dois motivos.
—- Está enganada, não sei onde ouviu isso. Somos apenas... colegas.
Mona mantinha um sorriso parecido com o do boneco Chuck, o que acabava por provocar dores no rosto de Angel, na tentativa de segurar o riso.
—- Sério? – ar surpreso, então um sorriso entusiasmado. – Bem, nesse caso espero que, quem sabe, possamos nos tornar primas. Não seria empolgante, Monalisa?
Dando uma piscadela para Mona e acenando para Leonard, Angel se afastou, enquanto voltava a colocar o boné. Até que circular pela escola normalmente não era assim tão terrível, pensou ela, bem mais animada e com melhores expectativas.
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