Destemidos
2 Capítulo 2
Notas iniciais
O dia amanhece nublado e os moradores do vilarejo estão assustados com o que aconteceu na noite anterior, Himito estava dormindo e então comecei a arrumar nossas bolsas e preparar os cavalos. Eu estava suspeitando de tamanha calma depois da invasão no vilarejo, olhei pela janela da cabana e vi que as tropas se posicionavam em seus postos, arqueiros estavam atenciosos com seus arcos armados outros chegavam e substituíam os cansado. Himito acordou e viu que eu estava arrumando as coisas:
– Por que não me acordou para ajuda-la?
– Bom dia Himito. Vai se arrumar, estamos prontos para partir, se quiser comer deixei alguns pães na mesa e têm frutas, o restante é para a viagem. Apresse-se.
– Está tudo bem, Kagane? – perguntou.
– Creio que sim, mas tenho maus pressentimentos.
– É a guerra se aproximando – foi até a janela – Ontem estava estrelado como nunca e hoje nublado sem mostrar se quer a cor azul do céu. Vai dar tudo certo estamos juntos.
– Estamos sim.
Neste instante Gilbert o líder do vilarejo entrou:
– Bom dia. Apenas quero desejar uma boa viagem e que os deuses os iluminem em cada passo até a montanha. E levem casaco, está frio no norte.
– Obrigada Gilbert, iremos nos prevenir.
Saímos da cabana e colocamos as bolsas nos cavalos, alguns moradores do vilarejo nos olhavam assustados e não se aproximavam de nós. Himito arrumou sua espada no cinto e o arco nas costas, colocou algumas flechas junto ao arco, observei seus gestos e seu ritual para subir no cavalo:
– O que você acabou de fazer? – perguntei.
– Sei que não é meu cavalo, mas devo demonstrar a ele que sou seu condutor, é uma questão de ganhar a confiança dele – respondeu.
– Vamos lá amigo, agora é a nossa vez!
Seguimos para a saída do vilarejo, alguns arqueiros e guardas de cima da torre gritavam e nos desejavam sorte no caminho. Quando entrei na floresta eu senti novamente como era sair e caçar com Himito, ele estava feliz e não parava de sorrir para mim:
– O que foi? – perguntei.
– Eu estava com saudade das nossas aventuras.
– Himito, sempre vivemos aventuras, apenas nos adaptamos e hoje é tudo normal.
– Estamos indo em busca de um monge no topo da montanha, e para chegarmos logo precisamos cortar caminho pela floresta, é uma grande aventura.
– Tem razão, será uma grande aventura pela frente. Isso me faz lembrar a primeira vez que nos vimos, em um concurso de caça onde acertamos o mesmo javali – disse – e você odiou ter perdido de mim.
– Não gostei, mas em compensação eu a conheci e pude aprender a ser um bom caçador. Lembro-me das vezes que íamos caçar com nossos arcos frágeis e flechas feitas de qualquer material encontrado no chão d floresta – disse sorrindo.
– Você se lembra de tanta coisa, me admiro com tamanha memória – disse provocando uma risada baixa.
– Pare de falar isso, você se lembra de tudo isso – disse Himito rindo.
Um barulho nas árvores cortou nosso assunto, Himito parou o cavalo e desceu, pegou o arco em suas costas e o armou, foi em direção ao barulho, eu estava preparada em cima de meu cavalo com o meu arco e na minha mira havia um grande javali, tentei avistar Himito, mas ele já estava longe, eu precisava matar o animal antes que ele percebesse que estava sendo caçado. Dei uma flechada em seu olho e pulei do meu cavalo, o animal ficou maluco e correu na direção de Himito e então eu dei uma flechada em seu outro olho e ele caiu no chão gritando, pequei minha espada e cortei o pescoço do javali:
– Quer se achar o herói? Chegasse mais um passo do javali e agora estaria morto – disse me levantando lentamente.
– Desculpe, eu não sabia...
– Você está esquecendo como ser um caçador? Foi um erro fatal o que fez quantos já morreram por essas burrices...
– Eu sei Kagane, chega de gritar comigo!
– Não importa, você é um arqueiro e deve observar a distancia, e nunca descer do cavalo!
– Vocês ai, vão parar de brigar? Está atrapalhando o meu sono matinal – uma voz misteriosa vinda de uma árvore – Himito, você sabe que ela está certa, deveria ter observado a distancia.
– Olha quem encontramos aqui, Zugu, quanto tempo, não? – disse pegando o meu cavalo.
– Sim Kagane, estive viajando por todo lugar procurando algo onde me encaixasse, resultado, sou um guardião de enigmas – disse Zugu.
– Não era de se esperar – disse Himito montando em seu cavalo.
– Para onde vão? O que buscam? – perguntou Zugu.
– Nada de seu interesse – disse Himito.
– Perdoe-o. Estamos indo para a montanha, encontrar Xitsu Hai, o monge – respondi.
– Aquele que no alto fica, sabe que qualquer um pode visita-lo, coloca suas pequenas pedras no caminho, não as revela e nem as apanha apenas sabe que se alguém as tocá-las congelará – disse Zugu.
– Nossa que engraçado “guardião de enigmas” – disse Himito andando a frente – Vamos logo Kagane.
– Se pensa que é lenda, acredite, pois se algum dia o encarar sem crer, não acreditará mais em seus sentidos – complementou Zugu – Boa sorte amigos!
Voltamos ao caminho para mais fundo na floresta densa, era extensa que dificilmente conseguíamos ver o céu e parecia não ter fim. A noite caiu mais rápido do que esperava Himito e eu precisava parar para descansar e comer o javali que matamos antes que o mesmo apodrecia. Paramos no meio de duas grandes árvores, acendemos uma pequena fogueira e cortamos algumas partes do javali para assar.
– O que será que Zugu quis dizer “se algum dia o encarar sem crer, não acreditará mais em seus sentidos”? – perguntei a Himito.
– Kagane, ele é louco, ficou tanto tempo na floresta comendo capim que ficou assim – respondeu.
– Mesmo assim, não consigo parar de pensar no que ele diz... Acho que vamos ter algumas surpresas à frente.
– Por favor, durma um pouco e pare de pensar nisso... Ficarei de vigia aqui – disse – Quando a carne estiver pronta te chamarei, fique tranquila Kagane.
– Tenha cuidado me chame se acontecer algo – disse deitando no colo de Himito.
Quando fechei meus olhos senti a mão dele acariciando meus cabelos suavemente me deixando calma e confortável, ouvi que ele soprava algumas palavras e reconheci a música que cantávamos nas caças “Será que serei um bom caçador... Se um javali for bom, qualquer caça será... Venha minha amiga, vamos caçar, estarei te protegendo e você me protegerá” me senti bem ao ouvir sua voz grave e seu carinho em meus cabelos, eu estava prestes a pegar no sono quando ouvi “Vou te proteger como a minha vida Kagane”. Apaguei em seu colo quando me acordou:
– Eu já comi um pouco enquanto você dormia, tem mais aqui. Agora é minha vez de dormir – disse sorrindo.
– Certo caçador – respondi levantando-me.
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