Destemidos
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Amanhece e eu acordo deitada sobre o peito de Himito, levanto devagar e observo a nossa volta e tudo está úmido, nossa fogueira apagada pelo orvalho. O sol aparece no horizonte dando ao céu uma coloração dourada e destaca o azul, não está mais nublado, poucas nuvens ousam cobrir o sol do novo dia. Os cavalos estavam perto dali e então peguei um pouco de comida para o café da manha, não demorou muito Himito acordou e caminhou na minha direção me abraçando:
– Bom dia Kagane – disse.
– Bom dia Himito, porque me abraça assim?
– Não sei bem ao certo – me solta e vai em direção ao seu arco jogado no chão.
– Tem algumas coisas aqui para comer, quer? – perguntei.
– Um pão já está ótimo e um grande gole de vinho.
– Não temos vinho, só água.
– Que seja água, guerreiros sobreviveram nas guerras com apenas isto na mochila para não morrer de fome – disse me encarando.
– Chutei você a noite?
– Não, eu dormi como um anjo. Vamos partir agora!
– Certo.
Partimos adentro da floresta, o silêncio cortava nossa paz e nos deixava mais atenciosos a cada movimento, onde passávamos havia vestígios de que alguém fora morto por um animal. Eu estava assustada e me lembrava das lendas que ouvia dos meus pais, não acreditava até entrar na floresta. Himito estava sério e atendo, observava tudo pronto para pular do cavalo e atacar se algo se movesse.
– Estou com mau pressentimento – disse me encarando – O silêncio está me irritando.
– Estou desde ontem.
– Se aparecer algum monstro aqui, não vamos lutar, vamos fugir!
– Sim – respondi assustada.
Apressamos os cavalos para chegarmos ao lago. Himito estava assustador, parecia enjoado ou desconfiado de algo, continuamos rápido sem trocar nenhuma palavra ficamos mais de uma hora correndo e então chegamos ao lago, desci do cavalo e fui caminhando até a água o puxando, observei à beira e deixei que ele a bebesse, Himito o mesmo fez.
– Será que essa ponte nos aguenta de uma vez? — perguntou apontando para ponte que ali havia.
– Eu não sei, parece estar bem gasta com o tempo – respondi.
– É perigoso, eu vou primeiro sozinho sem o cavalo, se eu cair você me salva – eu ri baixinho – O que? Eu não sei nadar!
Ele foi até a ponte caminhando devagar, ela balançava pouco, mas estava forte, Himito pulava para certificar-se de que era segura e então chegou ao outro lado. Acenou para o cavalo e assoviou não muito alto, o animal foi devagar até Himito passando pela ponte sem dificuldade. Antes que eu atravessasse, dei um suave tapa nas costas do meu e ele foi até Himito, e eu fui logo atrás. Himito fez uma cara feia como se houvesse algum monstro atrás de mim, eu acelerei o passo e quando cheguei ao lado dele apanhei meu arco e uma flecha e mirei para o que havia atrás de mim, Himito começou a rir alto:
– Você caiu direitinho.
– Está achando engraçado?
– Sim, e muito – continuou rindo – É só brincadeira Kagane.
Eu o ignorei e então guardei meu arco e subi no meu cavalo, fui à frente mais rápido, mas o animal de Himito não pode acompanhar não me importei e continuei o caminho “Não preciso da ajuda de um tolo sacrifica sua vida para me salvar, mas na real quem salva sou eu”. Meu cavalo parou de repente levantando e gritando com o que tinha a nossa frente, desci e fui até as ruinas, nas paredes havia desenhos e no chão vestígio de bruxaria, fiquei observando aquilo e nem percebi que Himito tinha chegado, ele veio na minha direção bravo segurando meus ombros:
– Você é louca? Porque me deixou para trás? – perguntou gritando.
– Estou com pressa – respondi.
– Não quero saber você deve ficar ao meu lado – me abraça forte – Não faça mais isso em nome dos deuses, Kagane.
– Estou bem – disse empurrando ele – Precisamos continuar, aqui não é seguro... Veja as escrituras e os desenhos, é ritual de bruxaria, sacrifício.
– Pessoas sacrificadas pelas simbologias... Vamos – disse Himito.
Subimos nos cavalos e continuamos o caminho, nosso objetivo era chegar à montanha de manhãzinha, mas algo me dizia que íamos atrasar. Meio dia, paramos para descansar o sol estava muito quente e precisávamos comer.
– Olha aquele pássaro – disse apanhando seu arco e uma flecha – ótimo almoço.
Acertou a flechada e o grande pássaro caiu sobre nossos pés, eu fiz uma fogueira e Himito pegou alguns gravetos para espetar a carne.
– Comer do que a natureza tem a nos oferecer. Fazíamos isso quando éramos crianças em nossas aventuras.
– E depois você se admira com a minha memória – disse Himito sorrindo.
– Mas eu era fraca nessas aventuras, o gosto era ruim do que comíamos. Hoje eu acho a melhor comida do mundo.
– Nós dizíamos que íamos nos casar quando adultos – disse Himito olhando para a carne na fogueira – E quando meu pai morreu ele disse “Cuide da Kagane meu filho, e não esqueça...
– ... ela é a sua mulher, sua protetora” – continuei, Himito abaixou a cabeça e deixou escorrer algumas lágrimas.
– A carne está pronta – disse depois de um tempo.
– Vamos comer então – disse sorrindo e dando um suave tapa em seu ombro.
Antes de comer, fui até as bolsas e peguei algumas frutas para dar o que comer aos nossos animais, peguei uma vasilha e coloquei água e deixei no chão ao lado deles. Voltei para o lado de Himito com dois pratos pequenos.
– Por que você faz isso – perguntou.
– O que?
– Trata tão bem dos animais e das pessoas – disse Himito me encarando.
– Eu aprendi que não devemos pensar em nós mesmos, os animais também sentem necessidade de interação, talvez não só de outros animais de sua espécie, mas de humanos também, como o cavalo. Eu quero poder ajudar todas as pessoas, desde as mais bondosas até as mais rudes, eu vi muitas serem mortas na minha vila, por egoísmo e ganância. Eu sozinha não pude detê-los, pois era uma criança, por isso hoje estou disponível para qualquer ser que precisar de ajuda – Himito ficou me observando por alguns segundos – O que foi?
– Você é tão linda, como não pude perceber isso antes? É gentil e adorável, quem a vê pela primeira vez nem imagina o quanto é incrível – fiquei envergonhada e comecei a comer.
Terminamos o almoço e estão recolhemos todos nossos pertences e voltamos à trilha. O frio foi aumentando cada vez mais, chegamos a um ponto que não suportamos e precisávamos nos proteger, colocamos nossos casacos. Himito tentou subir em uma árvore para ver se estávamos pertos, mas eram muito altas e continuamos sem saber.
– Creio que estamos chegando, o frio está atacando – disse Himito – O inverno é lindo.
– Me orgulho ouvir isso, sempre detestou o frio – disse sorrindo.
– Mas eu era um caçador amador naquele tempo e não me adaptava a tais temperaturas, hoje admiro mais o frio do que o calor, fico mais atento. Aprendi algumas coisas a mais com você no inverno.
– Mas ainda não sabe caçar tão bem quanto eu.
– Tenho sorte de ter um mestre para me ensinar – disse Himito sorrindo.
Algo surgiu na nossa frente, deu um grito tão alto que nossos cavalos nos derrubaram no chão coberto de neve e correram para entre as árvores. Fiquei paralisada, Himito foi lentamente com as mãos pegar o arco e a criatura gritou novamente:
– Quem são vocês e como ousam entrar em meu solo?
– Somos apenas religiosos e queremos conversar com o monge – disse Himito.
– Não, sinto seu cheiro Destemido – disse – O que querem?
– Eu sou Kagane Yuiru e sou filha de um Destemido, quero que o monge e os anciões me ajudem a liberar meus selos para impedir a guerra que se aproxima.
– Nada mal para uma garotinha, e ele o que quer? – perguntou a criatura.
– Ele é meu amigo, só esteve me protegendo no caminho, seu nome é Himito Rutaga. – respondo;
E então percebi que as pedras que Zugu dizia no enigma eram as que estavam grudadas nas costas da fera e no chão, Himito estava com medo e eu torcendo para que a fera nos deixasse subir a montanha.
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