Despertar [Revisão]
38 Maldição
Notas iniciais
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre, sem saber que o pra sempre, sempre acaba.
(Por Enquanto) Renato Russo
A sala de Kakashi estava vazia quando Sakura entrou e talvez ficasse. O segundo dia após a morte de Kiba não era obrigatório e grande parte da colégio havia deixado de ir na aula para ir ao seu enterro. Sakura não. Ela acreditava que talvez fosse um sinal de desrespeito. Afinal de contas, quem o garoto mais odiava do que ela?
Sentou-se na sua carteira de sempre e esperou. De alguma forma sabia que mais nenhum aluno iria chegar, mas onde mais deveria ficar? Não tinha cabeça para tentar estudar sobre si mesma, não sabia se encontraria alguém pelo colégio e ficar em casa, pensou ate em encontrar a enigmática mulher de cabelos róseos, mas ela só aparecia quando tinha vontade. Quão provável seria de a encontrar quando queria?
— Então realmente veio uma aluna? — Kakashi entrou na sala de aula e parecia um tanto surpreso ainda próximo a porta.
— Não imaginei que seria a única. — explicou cansada vendo que não teria aula no dia. — Parece que todos foram ao enterro do Kiba. — completou para que o silêncio não ficasse na sala de aula.
— Ou simplesmente estão fugindo dos professores e aulas chatas. — suspirou inconformado, era como se Kakashi estivesse sempre decepcionado com os jovens, em sua mente existia uma ideia sobre os mesmos. Ideia que dificilmente mudaria. — Jovens, sempre fazendo escolhas erradas. — continuou a falar no mesmo tom de antes, fazendo Sakura rir. — Acha engraçado isso? Ninguém ter interesse ou preocupação? — a encarou quase serio.
— Acho engraçada a forma extremista que vê as coisas. — explicou um pouco pensativa e observou enquanto Kakashi se aproximava até que sentasse na carteira em frente a dela.
— Não é extremismo Haruno, é experiência. — a encarou, parecia disposto a uma boa conversa o que era de se surpreender, geralmente Kakashi era desligado demais para conversas. — Sabe um dos fatores da maldição sobre matar um humano? — não deu tempo que ela falasse. — É o envelhecimento do corpo. Mexe tanto com o ser que até as células não conseguem trabalhar normalmente.
— Eu não sei muito sobre a maldição. — murmurou tentando imaginar o que a maldição que caia sobre um sobre-humano poderia causar.
— Interessante. — ele rebateu divertido. — É um acordo que foi feito, onde entre milhares de coisas, era previsto que os sobre-humanos não deveriam utilizar seus poderes para matar ou sequer ferir um humano, como punição quem fizesse isso sofreria uma maldição onde a sua ligação agiria contra o próprio corpo o desestabilizando completamente. Alterando, modificando e porque não destruindo? — parecia pensativo. — Existem casos em que filhos de Aqua morreram afogados em pleno ar, filhos de Ignis congelaram em temperaturas amenas. Nunca se sabe o que vai acontecer. Só existe uma coisa em comum em todos os casos. — ergueu um dedo. — Nenhum consegue utilizar mais seus poderes normalmente, é sempre contra si mesmo. — completou e Sakura engoliu seco.
— E o do senhor? — não queria ser invasiva, mas a curiosidade era mais forte. — Porque sofreu pela maldição correto? Por isso esta me contando.
— Curiosa, tão jovem. — murmurou reclamando, mas não mal humorado. — Nem todos fazem a pessoa morrer, eu só notei a minha real maldição anos depois. — as mãos foram até a mascara fazendo Sakura arregalar os olhos. Sabia que não se conhecia uma única pessoa que já tivesse visto o rosto de Kakashi. Porém ele destampou apenas o outro olho.
— Meu Deus! — o grito saiu de sua garganta enquanto os olhos se enchiam de lágrimas. Em contraste com uma pele nova e bonita aparentando no máximo trinta anos, o outro olho e pele aparentava ter no mínimo cem. — Você...
— Tive o corpo dividido? — a voz dele estava divertida, talvez pela reação dela. — Uma parte demora a envelhecer e a outra envelhece duas vezes mais rápido. Minha maldição é ver enquanto parte do meu corpo envelhece e apodrece. — completou tapando o olho novamente.
Sakura sentia uma pontada na cabeça de dor e embora soubesse que era um sentimento não muito bom, uma mistura de pena e asco se unia dentro dela. Entendia agora o motivo de todos terem medo da maldição. Ela temia.
— Faz muito tempo? — questionou um tanto espremida contra a cadeira.
— Pode-se dizer que sim. — ficou pensativo. — Acho que sessenta, setenta anos. — havia duvidas em sua face.
— Quantos anos você tem? — perguntou em um reflexo e observou ele a encarar com o mesmo olhar decepcionada em relação aos jovens que sempre olhava.
— Muitos. — ele não queria ser exato e embora Sakura estivesse curiosa, achou melhor respeitar a sua privacidade. — O suficiente para ter uma grande ideia de como são os jovens e ser extremista. — completou chegando ao seu objetivo, explicar que tinha suas idéias por experiência e não por acaso.
— Alguns podem ser diferentes. — o que ela teria a argumentar? Depois do que havia descoberto, era como se Kakashi tivesse direito de achar o que quisesse.
— Não são. — afirmou. — Neste momento mesmo, grande parte dos lideres estão no enterro do Kiba, alguns instrutores também. Ou simplesmente aproveitando a folga que o colégio está oferecendo. — fez um sinal negativo com a cabeça. — Tolos, tão despreocupados. — suspirou.
— Com o que deveriam se preocupar. Acha que o assassino do Kiba pode entrar aqui novamente? — realmente não tinha pensado nisso. De uma forma estranha se sentia segura no colégio, se sentia segura ao saber que poderia matar uma pessoa com as mãos em defesa própria e qualquer coisa, alguém, de preferência Sasuke, poderia lhe ajudar. Onde mais estaria segura se não ali?
— Entrar? — ele estava descrente. — Sabia que foi um filho Tenebris que matou o garoto? — a questionou novamente. Sakura tinha ouvido alguém dizer isso enquanto ia para a sala de aula, mas o colégio estava cheio de especulações desde o instante que o corpo de Kiba foi descoberto.
— E não foi qualquer um, foi um forte, que consegue utilizar uma habilidade realmente rara. — continuou a falar, intuitivamente ela sabia onde Kakashi queria chegar. — Estranhamente, a família que mais sabe utilizar essa habilidade tem seus dois filhos residindo neste colégio. — a encarou duramente e Sakura arregalou os olhos sentindo o coração bater forte ao se lembrar da noite mais negra e do atraso de Sasuke. — Onde estavam os dois Uchihas mais novos quando o garoto estava sendo assassinado? — perguntou.
Sakura perdeu tanto a expressão que por alguns instantes pensou se seria possível que Kakashi notasse a sua desconfiança. Mas logo se deu conta que ele já tinha as suas próprias e provavelmente, eram as mesmas que as dela, ou semelhantes. Já que destinava ao menos uma pessoa em comum. Uchiha Sasuke.
— Eu... Eu tenho certeza que alguém entrou no colégio. — se ergueu rapidamente pegando seus materiais. — Bom, tenho que ir. — se afastou da mesa sentindo os olhos de Kakashi a avaliarem por completo. — Tenho muitas coisas a resolver. — completou e antes de ter uma resposta, já estava na saída da porta.
— Sabe qual eu considero o maior erro dos jovens Haruno? — Kakashi perguntou a observando. — São facilmente cegados pelas emoções. — completou vendo a rosada assentir e sem dizer uma única palavra sair da sala.
Suspirou cansado. Jovens realmente eram decepcionantes. O problema era que o destino do mundo estava nas mãos dos jovens. Principalmente dos jovens da família Haruno.
•••
Pensou em ir atrás de Hanabi. Sabia que a amiga estava sofrendo. Mesmo assim não conseguiu. Não só pelos machucados, mas porque não queria ser vista. Shizune havia sido enfática sobre isso, se Tsunade soubesse que Tenten havia saído da área hospitalar, seu emprego e integridade física estariam em risco.
Não pretendia colocar a morena em situação difícil por ter a ajudado.
Não pretendia aparecer no enterro e encarar a sua família que mesmo indo até o colégio, não havia mostrando um pingo de curiosidade e nem preocupação para saber seu estado. Manteve-se escondida por todo o tempo e se manteria assim até que todos fossem embora. O que graças à chuva não demoraria a ocorrer.
Não demorou.
Ou ela não viu o tempo passar.
De todas as formas assim que a última pessoa, no caso os pais de Kiba acompanhados do padre que dizia palavras de conforto, saíram ela se aproximou. Mancando, dolorida e com algumas faixas começando a se avermelhar mostrando que as feridas estavam abrindo. Nada disso doía quanto encarar o tumulo, cheio de flores sujas de barro e terra.
A flor que estava em sua mão era branca e bela, ainda intocada pela sujeira ao redor. Mesmo assim era a mais suja. Tenten sabia o motivo da morte de Kiba, ainda mais ao ter certeza que foi um filho Tenebris que o matou, sabia que ele havia falado e agido demais. Coisa que ele não faria se ela não tivesse o contado tudo antes.
Como não se sentir culpada? Havia tentado o fazer parar, imaginando que poderia causar problemas a forma que ele vinha agindo, nunca imaginou que uma simples conversa entre primos, dividindo segredos, traria a morte dele. Sinceramente ainda não conseguia imaginar o quão grande era o segredo que ela sabia a ponto de que tirassem uma vida. Não. O segredo em si não era perigoso. Tenten sabia, mas os planos que tinham era perigoso. Kiba estava certo. Poderia destruir o mundo. Havia o destruído.
— Desculpe por te envolver nisso. — murmurou apertando firme o guarda-chuva sentindo a mão machucada arder. — Se eu soubesse. Eu nunca iria nos envolver nisso. Eu sei que é tarde para pedir desculpa, mas. — um soluço lhe escapou aos lábios. — Já que eu não posso me perdoar, por favor, me perdoe. — implorou jogando a flor no tumulo.
Como um pedido negado, antes mesmo da flor repousar sob as demais, o vento fez com que voasse na direção contraria. Mais distante, mais longe. O perdão estava sendo negado ou não era necessário? O vento não falava, e Kiba não poderia jamais responder.
Seguiu o caminho da flor que mais parecia um pássaro triste e solitário, entretanto gracioso que voava por toda a área verde que seria bela caso não fossem os túmulos. Por fim a flor repousou aos pés da única coisa que não combinava com o ambiente belo e cruel. Hyugga Neji.
O encarou um tanto surpresa. Desde quando ele estava ali? Qual o motivo para o moreno estar ali depois de todos? Ele assim como ela, não queria que as demais pessoas o vissem?
Desviou seus olhos e voltou a encarar o tumulo. Neji não importava. Os problemas do Hyuuga nunca tiveram algo relacionado a ela e não era agora que começaria a ter. Pelo contrario, se possível, se afastariam mais e mais. Até que não pudesse o encarar e lembrar da morte do primo.
— Espero que não tenha fugido do hospital. — era quase um julgamento a forma que a voz dele saiu. Normal, Neji geralmente tinha o péssimo habito de julgar as pessoas. Principalmente humanos.
Não respondeu, apenas observou enquanto ele se abaixava e depositava a flor branca dela, junto a outra da mesma cor, sobre o tumulo de Kiba. Não usava nada para se proteger da chuva o que o deixava completamente encharcado fazendo a roupa completamente negra ficar colada ao corpo.
— O que esta fazendo aqui? — perguntou em um fio de voz. Odiava demonstrar fraqueza, não se lembrava da última vez que chorou na frente de alguém, excerto é claro, de Neji. Na noite em que perdeu Kiba. Ao vê-la assim pela segunda vez, estava se transformando na pessoa que estava mais próxima a si nos momentos em que se mostrava mais fraca.
— Não acho que seja do seu interesse. — Neji sempre seria Neji. Grosso, mal educado e arrogante.
— O Kiba acreditava que você fosse uma pessoa boa. — em sua visão periférica ela conseguia ver Neji se erguendo, não parecia ter a intenção de sair. — Ficaria feliz em saber que ao menos você se importar com ele. — completou sabendo que talvez o Hyuuga não se importasse, mas o primo gostaria que ele ouvisse isso. Que Neji soubesse que alguém acreditava nele.
— Hum. — foi todo o som que teve como resposta. Nada ríspido sobre não precisar que alguém acreditasse nele, como qualquer um esperaria, ou não se importar com o que Kiba acreditava ou não. Ficou apenas em silêncio e não mencionou o quão, a achava fraca por estar chorando.
E pela primeira vez Tenten não se importou em chorar e parecer fraca na frente de alguém. Ficaram apenas de pé, lado a lado, por mais tempo que qualquer um os dois jamais imaginou que ficariam no mesmo ambiente.
•••
A casa se encontrava completamente inundada. O piso, paredes, teto e até as roupas no baú que Kiba usava como armário. Hanabi não sabia se a culpa era sua ou não. O fato foi que desde o momento que entrou na casa as goteiras haviam começado e agora parecia que estava chovendo.
Não que ela se importasse. Hanabi estava apenas esperando. Sabia que Kiba iria voltar para casa, iria voltar para ela. Afinal era isso que o amor fazia, as pessoas ficarem juntas. Sabia que o que sentiam era eterno. Para sempre. Por isso no momento em que Hinata e Temari conseguiram a tirar de perto do corpo do garoto, ela havia ido para a casa dele.
Diziam que no momento em que um filho de Terra ia embora ou morria a casa se trancava até o próximo descendente da família. Mas a casa se abriu para ela. E agora, vestindo apenas as roupas dele e dentro da casa onde mais se encontravam. Não existiria uma única pessoa no mundo capaz de fazer Hanabi acreditar que Kiba não voltaria.
E ela esperaria. Ele poderia demorar um pouco, mas voltaria para ela. Sabia que sim. Afinal, que outro motivo a faria deixar de ir ao enterro se não a certeza que ele jamais iria a deixar? Kiba não estava sendo enterrado, ela não encontraria lá. Não poderia, porque isso era atestar que ele se foi. O que obviamente não era verdade.
Porque ela ainda estava lá, e se iriam ficar juntos para sempre, não tinha como ele partir sozinho. Ela se recusava a acreditar no que todo mundo dizia, eles não sabiam de nada.
Balançou a cabeça quando a primeira duvida se ergueu sobre ela. Não poderia duvidar, não poderia mesmo. Se ela duvidasse quando Kiba voltasse ele ficaria chateado porque ela não acreditou. E ele iria voltar. Repetia mil vezes em sua cabeça.
Ergueu-se da cama causando um barulho estranho devido ao estado encharcado que o colchão e colchas estavam. Por pouco as pernas não falharam a lembrando que ela estava sem comer e dormir a mais tempo do que o considerado seguro até para um sobre-humano. Quase dois dias. mesmo assim conseguiu caminhar até a porta.
Assim, quando Kiba chegasse ela poderia correr até ela e gargalharia quando ele chamasse a sua atenção pela falta de cuidado consigo mesma.
Ao pensar disso as lágrimas que saíram de seus olhos eram de felicidade. No batente da porta, com o corpo um tento quanto fraco, se escorou a espera de quem sabia que iria voltar.
Foi rápido. Poucos segundos após chegar, um barulho próximo se fez.
Automaticamente ela correu pelo batente escorando-se ao segura corpo. Estava escuro, talvez estivesse anoitecendo e chovia, mas ela conseguia ver claramente. Com certeza havia alguém ali. Contudo a chuva se intensificando de forma desenfreada a alertou.
Não era Kiba.
— Quem está aí? — gritou, mas a voz saiu fraca, rouca e inútil.
Não houve resposta. Apenas a chuva se intensificando. Hanabi correu os olhos para o céu que embora estivesse fechado pela chuva, não mostrava indícios de noite. A escuridão, obviamente não indicava o fim do dia.
Voltou a encarar a direção de onde havia vindo o barulho. Uma pontada de esperança ainda gritava desesperadamente que poderia ser Kiba. Mas ela sabia que não. Era mais provável que fossem quem havia o matado. O filho Tenebris que havia a tirado Kiba.
Arregalou os olhos levando as mãos até a cabeça. Morrido, o tirado dela. Era como se o pensamento lhe ardesse à mente. Como se uma bomba tivesse explodido lhe revelando a verdade. Nunca mais veria Kiba.
— Não. — murmurou se virando em direção a porta da casa que agora estava fechada. As mãos foram até a fechadura que nem ao menos se movia. — Não. — o tom aumentou enquanto Hanabi forçou o corpo contra a porta. Ela não poderia ter se fechado. Nunca poderia fazer isso. — Não faz isso comigo. — implorou socando a porta com toda a força que tinha. No primeiro soco a mão doeu, no quinto sua mão já estava machucada. — Não! — berrou enquanto esmurrava a porta e chutava.
O choro vinha alto, a chuva só fazia aumentar e o desespero a consumia completamente. Estava tão desesperada que não notou a pessoa escorada na arvore a observando com um sorriso nos lábios e um brilho de satisfação nos olhos negros como a noite.
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