Despedindo-se de Peter Pan

8 VIII - Meninos Perdidos


Notas iniciais
Boa Leitura.

Mais alguns minutos e eu não teria conseguido partir. Eu queria voltar o mais rápido possível, mas precisava resolver muitos problemas antes de tentar uma vida... talvez comum. Eu não permitiria a mim mesmo continuar mantendo contato com Mary sabendo do risco que ela correria ao meu lado.

Supondo que ela... ficasse ao meu lado.

Assim que pulei o murinho da varanda da mansão Thatcher eu corri através do jardim para dentro da floresta densa que rodeava a propriedade. De lá eu saberia me virar. Menos de uma hora andando e eu logo cheguei nas ruas da cidade em si.

No mundo obscuro dos ilegais, Londres tinha um apelido interessante: Terra do Nunca. Por que esse nome? Porque era a cidade onde ninguém nunca chegava a lugar algum. Caminhei pelas ruas como se eu fosse alguém normal. Ou quase normal procurando por qualquer posto policial para me esconder.

Cheguei ao subúrbio sem mais delongas e adentrei um beco muito conhecido por mim, onde eu encontraria uma escada de incêndio que me levaria a um telhado, e só então eu poderia entrar na Toca. E assim o fiz. Quando eu bati na janela da Toca, ninguém respondeu. Bati mais cinco vezes, ritmicamente, imitando o som de um galo.

– Senha? – Pediu a voz de Piuí ao outro lado da janela. Eu suspirei impaciente.

– Não enche, Piuí, sou eu. – Falei irritado.

– Eu quem? – Ele perguntou com aquela voz de lesado de sempre.

– Saí daí, Piuí, é o Peter. – Ouvi alguém dizer e logo as trancas estavam sendo abertas. Abriram a janela e eu entrei.

Era um cômodo único com sete camas e uma mesa no meio, e era óbvio que estava tudo de ponta cabeça, exceto a minha cama. Eles nunca tocariam na minha cama.

– Peter! Eu guardei sua Flauta de Peter! – Disse Cabelinho, o mais novo do grupo. Ali era a assim, todos tinham nomes estranhos e falsos, porque talvez nem lembrassem mais seus próprios nomes.

– Flauta de Pã, sua anta. – Falou Deleve, e logo a confusão começou. Os Meninos Perdidos não passavam de alguns retardados que sabiam roubar muito bem. Consideravam-se como uma espécie de Alladin.

Ao todo éramos sete: Eu, Peter Pan, o líder; Deleve, de cabelos castanhos claros e olhos pretos, era mais alto que eu e muito mais magro; Piuí, com alguns quilos a mais que o normal e azar para dar e vender, tinha cabelos escuros e olhos da mesma cor; os gêmeos, que até hoje não sabemos o nome de nenhum, e se soubéssemos nunca conseguiríamos distingui-los; Bicudo, que tinha cabelo castanho acinzentado e olhos castanhos, era um malandro de primeira categoria, além de poucos centímetros menos que eu; e Cabelinho, o mais novo do grupo que tinha cabelo e olhos pretos, era baixinho e meio lerdo, porém sempre muito invocado.

Tínhamos tudo para dar errado, e demos. Bicudo sempre tentava se sobressair no grupo, enquanto Deleve sempre tentava me envenenar com suas ideias. Apesar de criticá-los, eu deveria ser o pior deles.

Depois de explicar o que havia acontecido, porém omitir o meu... relacionamento, com Mary, os Meninos Perdidos pareceram esquecer em poucos segundos que eu tinha passado o mês fora. A bagunça era irritante depois de tanto tempo na organização de Mary. E então minha obsessão começou.

Eu pensava em Mary o tempo todo. Eu comparava a minha vida com a dela, e com a minha vida ao lado dela. Eu mal podia acreditar, não conseguia controlar e não queria parar de pensar nela. Eu queria escrever algo para ela, era tudo o que eu mais queria. Mary gostava de ler, então o que eu poderia fazer por ela?

– Peter, dá pra parar de frescura, velho? – Perguntou Deleve no meu primeiro fim de semana de volta à Toca. Ele parecia irritado demais, e todos nos olharam completamente surpresos quando ouviram-no. Eu estava sentado na minha cama e encostado na parede, tocando minha flauta bem baixinho.

Parei com minha canção baixa e olhei para ele erguendo uma sobrancelha.

– O que disse? – Eu perguntei, com uma voz mais macabra do que eu havia planejado. Aquele era eu, o Peter Pan que nunca tive coragem de mostrar à Mary depois que a conheci.

– Só estou dizendo que você está muito meloso, faz três dias que não parar de tocar flauta! – Argumentou na defensiva, enquanto se remexia na cama onde ele mesmo estava sentado, nervoso. – Estou falando o que todos aqui queriam falar. – Disse por fim, jogando a culpa para os outros e me fazendo soltar uma risada um tanto assombrosa.

– Era isso que vocês queriam falar? – Perguntei encarando o resto dos meninos, distribuídos nas cadeiras da mesa e em suas próprias camas. Cabelinho negou com todas as forças enquanto os outros apenas se entreolhavam. – E o que querem que eu faça? São inúteis ao ponto de não darem um passo com os próprios pés? – Perguntei ríspido e com um tom baixo de voz.

– Peter, não é assim que funciona. Se você é o líder, tem que fazer alguma coisa. – Falou Deleve, mais ousado que o normal. Eu me virei na cama para ficar com os pés no chão, apoiei uma mão no joelho e o cotovelo no outro, com a cabeça encaixada em meu punho fechado enquanto eu encarava Deleve nos olhos.

– É mesmo, garoto? – Perguntei ironicamente. – Querem que eu faça alguma coisa? Que tal eu começar recuperando a minha moral? – Minha voz ia se alterando, ficando mais rouca, mais grave e mais alta. – Um mês longe e vocês se rebelam? Esqueceram de como as coisas funcionam? A gente faz algo quando EU disser que é pra fazer, e se eu não disser nada, não façam NADA! – Gritei me levantando. – Querem ordens? Querem fazer alguma coisa? Então comecem organizando esse chiqueiro, porque eu não quero criar porcos nesse esconderijo de merda! – Quando terminei de falar, Deleve me encarava um tanto amedrontado enquanto todos os outros baixaram o olhar.

Ficaram quietos e silenciosos, sem mais ousadia ou contradições.

– VAMOS! – Eu gritei batendo palmas para eles como um “incentivo delicado”. – Eu mandei arrumar essa bosta toda! – Berrei e logo eles começaram a se mover com pressa, me obedecendo de cabeça baixa.

Me sentei de volta na cama e peguei a minha flauta, encarando-a seriamente. Eu sentia os olhares de Deleve no meu rosto vez ou outra, mas preferi ignorar. Depois daquela gritaria, eu não me sentia digno de tocar aquela flauta. Havia sido um presente da calma e amável Elizabeth, e eu não queria suja-la com minhas energias furiosas.

Eu estava mais nervoso do que deveria.

Talvez eu estivesse estranhando tudo ali. Era um outro Pan, no mundo do velho Pan. Se era para escolher qual Pan ser, eu queria ser aquele com 12 anos que morava com Elizabeth e abraçava todos os dias. A casa era num bairro de classe média, que hoje não passava de algumas ruínas abandonadas depois do furacão.

Dois dias se passaram com rapidez que me pareceram dois séculos. Eu precisava mesmo mexer as peças, estávamos ficando sem comida e logo eles se virariam contra mim. Mas eu não queria voltar a roubar, não achava certo.

Não era como se eu tivesse opção. Um mês passou muito rápido, enquanto eu tentava fazer coisas mais justas ao redor dos Meninos Perdidos... Roubar? Roubamos, mesmo contra a minha vontade. Eu me esforcei para planejar roubos à pessoas que eram desleais, tentava me sentir menos culpado com aquilo mas nunca funcionou.

Eu lembrava que tinha que voltar para vê-la, mas o mês que se passou me trouxera problemas demais. Deleve estava cismado com o meu comportamento, mas parecia estar calculando algo antes de agir. Os outros acabavam se metendo em confusão pela rua.

Quando eu finalmente decidi procurar por Mary de novo eu fui na casa dela, pela mesma porta da biblioteca. Era um quinta-feira à tarde, eu achei que ela tinha ido tomar banho, mas depois de passar a tarde inteira esperando-a, ela sequer apareceu na biblioteca.

Quando eu estava quase indo embora, vi a porta se abrir e se fechar, e um vulto entrar na biblioteca. Era um homem, aquele que dava aulas à ela. Mas ele estava com roupas chiques e arrumadas, tinha vindo buscar uma maleta que estava ali.

– Louis, vamos?! – Chamou a voz de Mary.

– Estou indo, Mary! – Ele respondeu e foi embora, saindo pela porta mais uma vez. Eu continuei escondido ali por um longo tempo antes de voltar para a toca.

Durante a semana seguinte eu procurei Mary mais uma vez, mas ela mal estava na casa o que era muito estranho. Demorei um bom tempo para descobrir o que ela fazia em certos dias, hipismo. Passei a observá-la nos treinos com um cavalo ruivo, quase cor-de-rosa. Ela estava linda.

Depois de ver que Mary havia “seguido em frente”, eu quis ir embora. Eu tive raiva, mas não dela, e sim de mim. Por ter ido embora e deixado um tesouro como ela para trás. Eu não fui embora. Numa sexta-feira a noite eu entrei na biblioteca e subi para perto da escrivaninha. Finalmente eu tinha feito algo decente, achava que poderia ajudar.

Mary só chegou na biblioteca depois de três horas da manhã. Havia acabado de tomar banho e cheirava à maçã-verde. Quando ela começou a subir as escadas eu me escondi entre as estantes atrás da mesinha. Sentou diante da escrivaninha e pegou um livro na gaveta. Eu pude enxergar que era feito à caneta, e ela abriu numa página em branco e começou a pensar, batendo a caneta no papel.

Era a minha deixa.

Notas finais
Eu tive que fazê-lo voltar rápido porque preciso seguir com a história, desculpa meninas que queriam mais dos meninos perdidos... Bem, e o que vocês acham que o Peter aprontou? :D