Despedindo-se de Peter Pan

9 IX - O Retorno de Peter Pan


Notas iniciais
Boa Leitura.

Eu não conseguia mais escrever. Desde que decidira tirar Pan de uma vez por todas da minha mente, só consigo escrever tristezas e saudades sobre o meu avô. Não conseguia escrever sobre Ethan, nem sobre Louiz. Mas quando eu estava próxima do sono eu conseguia algumas rimas toscas sobre cabelos ruivos e olhos negros... Eu era um fisco em esquecer pessoas.

E foi num estado de quase-sono que eu comecei a ouvir um canção doce, baixa e melodiosa. Era como uma flauta, mas em todos os concertos que eu já havia ido jamais ouvira algum instrumento que soasse daquela forma. Eu só sabia que era um instrumento de sopro.

[musica: https://www.youtube.com/watch?v=S5N2VPGWGZ4]

Eu não sabia se estava com muito sono, ouvindo coisas que não existiam, ou se eu estava sonhando. Só sabia que eu não queria que acabasse, nunca mais. Eu adormeci por cima da mesa, ouvindo aquele som maravilhoso, e quando acordei tudo estava iluminado pelo sol lá fora. Por alguma razão, minha biblioteca estava mais linda do que nunca, e eu queria ficar ali para sempre. Era sábado de manhã, e eu havia combinado de ir ver Ethan depois do almoço, mas imaginei se seria rude demais não ir.

– Mary? – Ouvi uma voz chamar atrás de mim. Eu ainda estava sentada na cadeira diante da escrivaninha, apenas tinha acordado. Aquela voz me fez arrepiar, e eu já sabia quem era. – Terminou o livro? – Perguntou e eu abri um sorriso espontâneo.

– Tive medo de começar. – Eu falei me levantando e virando para Peter Pan. Ele vestia uma camisa de botões branca por baixo de um casaco folgado e verde escuro, com uma calça jeans e tênis. Tinha cheiro de damasco, o que me parecia estranhamente acolhedor.

– Bem... Como foi esse mês? – Ele perguntou com uma hesitação evidente na voz.

– Atarefado. – Respondi sendo sincera. – Pan, pensei que não voltaria mais. – Eu falei encostando na escrivaninha atrás de mim e encarando-o.

– Eu temi a mesma coisa. – Disse com os olhos quase apertados, tristes, mas com um brilho travesso que ainda me despertava uma pontada de curiosidade.

– E por que voltou? – Eu perguntei com medo da resposta.

– Porque não quero mais aquilo. – Respondeu depois de longos segundos de hesitação. Alguma coisa me puxava para o corpo alto de Pan, alguma coisa me dizia para não deixar ele ir embora nunca mais. Mas outra coisa me dizia que ele era inseguro, que estar com ele poderia ser perigoso. – Eu quero te conhecer, Mary. Fora daqui. – Disse me pegando de surpresa.

Peter deu alguns passos na minha direção, sempre me encarando com sutilidade.

– Eu não quero ficar aqui dentro da sua casa, não quero atrapalhar a sua rotina. Eu quero fazer parte dela. – Começou a falar. – Eu não quero depender de você, eu quero dividir com você. Então, eu vim aqui pedir seu número. – Ele disse tirando um celular do bolso e começando a mexer nele. Eu não consegui segurar um sorriso bobo, encarar seu rosto enquanto ele encarava a telinha brilhante.

– Peter... – Eu chamei.

– Qual é o seu número, Mary? – Pediu insistente como sempre.

– Você chega aqui depois de um mês sem dar sinal de vida para pedir o meu número? – Perguntei tentando parecer chateada. Ele arregalou os olhos finalmente prestando atenção em mim e parando de se mover, ficou completamente estático.

Pensei que ele ia pedir desculpas, mas Peter Pan avançou em minha direção e me abraçou com força, o rosto mergulhado em minha nuca e a respiração pesada e entrecortada em meu pescoço. Eu retribuí o abraço quase instantaneamente, com mais força do que gostaria de admitir.

– Me desculpe. – Sussurrou com a voz rouca, bem ali no meu pescoço. Seu rosto liso encostava ao lado da minha jugular, e eu imaginava se ele podia sentir meus batimentos frenéticos.

Eu não tinha como responder.

– Eu vivi num mundo que me rejeitou, não sabia que poderia existir uma pessoa... bem, assim. – Falou hesitante. Por Deus, como eu podia ter tentado esquecê-lo? Nunca me perdoaria por aquilo.

– E eu não vivi, Peter. – Sussurrei, sentindo que precisava falar aquilo. – Eu não vivi até conhecer, bem, uma pessoa assim. – Falei soltando-me de seu abraço e sorrindo para aquele rosto emoldurado pelos fios ruivos.

– Mary... – Ele falou como se fosse me perguntar algo muito importante.

– Sim? – Eu disse, mostrando que ouvia.

– Por favor... Me dá seu número? – Pediu mais uma vez, me fazendo abrir um sorriso inevitável. Eu peguei o celular de sua mão e salvei o meu número ali.

– Pan? – Chamei e o vi levantar a cabeça para tirar os olhos do visor e olhar para mim. – Quer sair comigo? – Perguntei. Ele pareceu surpreso, mas alegre. Eu não queria ser a donzela em perigo dos contos de fada, ou aquelas garotas que esperam o cara chamar. Eu queria ser a mocinha dos filmes de piratas, aquelas que se atrevem.

De repente Peter ficou estranho e franziu o cenho.

– Não, Mary! – Falou me deixando confusa. – Não era para ser assim, era pra eu te ligar! – Disse me fazendo rir.

– Sai daqui, Pan. Me encontre na frente do museu em meia hora. – Falei vendo seus olhos brilharem. Ele começou a descer as escadas em disparada, e eu desci atrás dele. Quando chegamos na varanda Peter voltou-se para mim.

– Mary? – Chamou. Assim que me voltei para ele, Peter segurou o meu rosto com as duas mãos e apertou os lábios contra os meus com delicadeza.

Fiquei sem reação por longos segundos, e quando me dei conta Peter já tinha ido embora e eu estava ali, com os dedos na frende dos lábios tocando onde, há alguns segundos, estavam os lábios de Peter Pan.

Me arrumei o melhor que pude e saí de casa recusando as ofertas do motorista de me levar. Eu queria ir sozinha e voltar sozinha, era o meu primeiro encontro e eu achava que poderia ser algo mais que isso. Tive um estranho pressentimento e uma sensação de estar esquecendo alguma coisa, mas ignorei e fui.

Quando eu cheguei na frente do museu, Peter estava sentado nos degraus da grande construção. Para a minha surpresa havia trocado de roupa, o que me fez sorrir. Usava uma calça jeans com um tênis comum e preto, com uma camisa de botões cinza. Havia deixado os dois primeiros botões abertos, o que parecia incrivelmente atraente nele, e o cabelo estava molhado e bagunçado.

Me aproximei de Peter e ele finalmente notou a minha presença. Os olhos negros dele pareciam brilhar, o que deixava o conjunto perfeito. Se levantou, mostrando-se alguns bons centímetros mais alto que eu. Tinha o cheiro inconfundível de damasco, extremamente agradável e refrescante. Era a áurea de Pan, refrescante e casual. O mundo parecia mais leve quando eu estava com ele.

Notas finais
*-*