Notas iniciais
Boa Leitura, Gengibre! Sem ciúmes. :D ~

Apesar de saber que aquele episódio inocente e acidental me custaria alguns sermões de Margaret, eu dormi o máximo que pude, e quando acordei me forcei a dormir de novo e cada vez mais. Quando eu acordei o céu estava preto e repleto de estrelas. Eu havia dormido o dia inteiro e estava me sentindo descansada e disposta, embora podre, suada e enfadada.

Tomei um banho demorado, lavei os cabelos, me vesti o mais confortável possível e voltei para a minha amada e segura biblioteca. O ambiente estava intocado, completamente escuro e pacífico, exatamente do jeito que eu havia deixado.

Voltei para a escrivaninha de Vô Tom e peguei o caderno. Eu ainda não sabia o que ele era. Um livro de poesias ou um diário... Para mim ele podia ser qualquer coisa.

Eu não escrevi nada sobre o episódio do dia anterior, ao invés disso escrevi tudo o que aconteceu no meu sonho. Durante aquela estranha ressaca eu sonhara coisas esplêndidas e fantasiosas, eu havia sonhado com uma ilha onde as pessoas não crescem nunca, onde o tempo não passa. Talvez fosse o lugar onde eu gostaria de estar.

Escrevi até o dia amanhecer, que foi quando eu decidi comer algo que me alimentasse antes que meus pais voltassem para casa, ou ao menos antes que acordassem.

– Pequena Tom? – Chamou Charles ao meu lado, em um momento onde eu comecei a vagar mentalmente. Ele costumava me chamar assim antes de ser ameaçado por meus pais por estar sendo amigo quando deveria ser empregado.

– Ah, oi Charles. – Eu o cumprimentei com um sorriso amarelo enquanto tentava cortar um pedaço de queijo coalho para fritar.

– Posso? – Perguntou se oferecendo para cortar e fritar. Eu permiti, pois estava cm a cabeça nas nuvens e as ações no piloto automático. Naquela manhã Charles serviu meu café-da-manhã e beijou o alto da minha cabeça antes de sair da cozinha e deixar tudo perfeitamente organizado em cima de uma bandeja.

Levei para a biblioteca e a pousei em cima da escrivaninha. Durante aquela manhã de domingo eu não escrevi poesia e nem histórias ou sonhos, eu fiz um planejamento. A partir daquela semana eu comecei a me distrair.

A primavera estava logo ali, e eu não estava aproveitando nada. Então me organizei para fazer exercícios físicos, ler e escrever numa ordem saudável e agradável. Passei a fazer hipismo e tênis como esportes e esgrima como arte marcial. Comecei a ler um novo livro, o meu primeiro desde que Pan se fora, que era relativamente grosso. Escrevia sobre cavalos alados e guerreiros fantásticos.

Foi só quando eu me acostumei com aquela rotina que eu pude me olhar no espelho e me despedir de Peter. Ele não tinha obrigação de voltar nunca mais, e eu estava psicologicamente preparada para uma vida sem Pan, uma vida diferente da que eu tinha antes dele, e definitivamente diferente da que criei com ele.

– Alô? – Atendi o telefone. Era uma tarde de terça-feira, eu havia acabado de tomar banho para ir ao treino de hipismo.

– Mary, é o Louis. – Ele falou parecendo sorridente do outro lado.

– Ah, oi Louis. – Eu cumprimentei secando o cabelo. – Tudo bem? – Perguntei educadamente.

– Sim, sim, tudo. – Falou apressado. – Mary, liguei para saber se você quer me acompanhar numa festa nesta sexta-feira, a tarde. – Ele convidou. Por alguma razão Louis acabara de me decepcionar profundamente.

– Ahm... – Eu hesitei um ponto sem jeito. – Louis eu não sou muito de festas... Você sabe que...

– Calma, calma... – Ele falou rindo do outro lado, ao me interromper. – É uma festa em homenagem a Johanne Flint, promovida por seus leitores para poder fazer perguntas, críticas, elogios e coisas do tipo. Nada de banalidades, Srta Thatcher. – Ele garantiu me fazendo rir um pouco.

– Ah, eu não sei, Louis... – Eu falei, apesar de ter gostado da ideia. – Tenho estado meio ocupada, meio cansada... – Comentei.

– Tem saído da biblioteca ultimamente? – Perguntou rindo um pouco. Apesar da idade e do tempo que passara como um tutor, Louis esteve sendo meu amigo neste primeiro mês de primavera.

– Na verdade sim... E sexta feira a tarde eu tenho um compromisso que considero interessante demais, até para a J. Flinter. – Eu disse sorrindo um pouco.

– Assim eu fico curioso. – Ele disse brincando.

Nos despedimos depois de um pouco de conversa fiada e eu logo prendi o cabelo com o boné branco de aba preta deixando as fivelas soltas. Eu usava uma calça preta apertada que misturava-se com uma bota de salto pequeno e confortável. A camisa branca de mangas compridas ficava ensacada e o meu crachá devidamente encaixado em meu peito.

Me olhei no espelho satisfeita e desci as escadas chamando por Charles que me levaria, pessoalmente para minha terceira aula de hipismo, que eu já amava muito. Meu cavalo era um ruão macho grande saudável chamado Gancho.

Eu já tinha lido muito sobre cavalos, eram meus animais preferidos, mas eu nunca tinha montado em algum antes de meu surto de disposição. Gancho era rebelde e charmoso, sempre se amostrando para visitantes e exigindo minha total atenção. Eu gostava daquele cavalo, e a minha instrutora, a Lisa, era bastante exigente – tanto de mim quanto de Gancho.

A hora do descanso era a minha preferida. Eu conseguia ficar com Gancho livremente, alisando-o, alimentando-o... Ele gostava de mim, eu sabia que sim. Tinha comprado Gancho há dois anos num leilão de cavalos, porque me apaixonara por sua pelagem rosada. Não é sempre que se encontra um ruão num leilão.

Encostei a cabeça na dele e fechei os olhos, sentindo a brisa do campo onde estávamos e ouvindo a sua respiração quente e pesada.

– Gancho, você me é como um copo de leite com morango, querido. – Eu falei rindo de mim mesma, e ele relinchou baixo, esfregando a cabeça no meu rosto.

E os dias se passaram daquele jeito, até que eu o conheci, Ethan.

Uma das coisas que passei a fazer foi visitar um hospital ali perto, com vítimas de traumas psicológicos e acidentes menos graves. As crianças e os idosos adoravam receber visitar, e os adolescentes ou jovens da minha idade não gostavam, ficavam acanhados.

O Hospital Maria Gertrude era um lugar pacífico e pequeno, aconchegante. Não era um daqueles hospitais enormes que apareciam nos jornais. Lá, num tour pelas salas do pacientes “visitáveis”, eu conheci Ethan.

Ele havia passado por um acidente numa viajem às montanhas onde sua família foi morta numa avalanche. O único sobrevivente estava ali, diante de mim, ainda pálido como gelo. Ethan era albino e magro, parecia ter em torno de 16 anos, embora tivesse 20. Ainda estava desacordado, o acidente fora à uma semana e ele ainda estava desacordado.

Eu me interessei pelo caso específico, e o enfermeiro parecia feliz em me deixar informada sobre tudo que eu perguntava, afinal, um hospital pequeno como aquele não recebia muitas visitas.

– Ele está com o corpo queimado pela neve, e a sua pele frágil graças à condição albina não nos permite usar muitos remédio, apenas ervas medicinais. – Disse Felipe, o enfermeiro simpático.

– Há algo que possamos fazer? – Perguntei hesitante e o vi negar com a cabeça.

– Ele está em coma natural, que o corpo gera para que não sinta as dores de sua condição, e as psicológicas do acidente trágico... – Explicou-me.

– Eu posso entrar no quarto? – Eu quis saber depois de um tempo. Felipe abriu a porta para mim muito gentilmente e me deixou lá com o adormecido Ethan. Ele respirava ritmicamente como se estivesse apenas dormindo.

– Oi... – Eu falei, me sentindo uma completa idiota por falar com alguém em coma. Sentei ao lado da cama e fiquei encarando o rosto dele. – Meu nome é Mary, eu sei que você não me conhece. Eu só... Não sei, eu só tive vontade de vir aqui e... ficar perto de você, falar alguma coisa. – Eu comecei a falar, mas nada me parecia certo, era como se eu não fosse sincera o suficiente.

– Olha... Você está num hospital aqui em Londres. – Comecei a explicar. – Eu tenho visitado este tipo de lugar porque... eu não sei... Minha família não precisa de mim, eu queria ser útil para alguém. – Desabafei segurando a barra da minha camisa e encarando meus dedos. – Eu preciso te contar uma coisa...

Hesitei muito para aquilo, mas segurei na mão esquerda de Ethan com cuidado para não soltar o soro, e a alisei apreensivamente para consolá-lo.

– Sua família faleceu no mesmo acidente que te deixou aqui, Ethan. – Sussurrei sentindo algumas lágrimas caírem dos meus olhos. – Sinto muito, espero que você fique bem logo. – Falei chorando, sem entender a razão daquele choro silencioso.

Passei quase um a hora ali, segurando a sua mão pelo tempo que eu achava que alguém choraria com uma notícia daquelas. Ele precisava saber daquilo, e precisava ser amparado. Fazer isso antes que ele acordasse era a minha forma de me preparar para aquilo, ou de prepara-lo.

Me levantei e saí do quarto enxugando o rosto.

Quando cheguei em casa, Ethan estava dominando todos os meus pensamentos. Ele era albino, tinha uma série de limitações físicas que o impediam de diversas coisas. Ele agora era sozinho, sem pai, mãe, irmãos... Eu sentia tanto por ele que chorei mais naquela noite.

Todos os dias eu ia visita-lo, contava aquela notícia terrível e chorava segurando a sua mão magra, fraca e branca. Eu via as veias verdes roxas por seus braços e rosto.

Uma semana depois da minha primeira visita eu decidi passar mais tempo lá. Eu repeti a notícia, disse que sentia muito.

– Sei que não me conhece, mas eu estarei aqui quando você acordar. – Sussurrei quando as minhas lágrimas começavam a secar. – E eu te explicarei tudo de novo, e ficarei aqui se você quiser. – Eu disse com um sorriso fraco e triste.

Quando meu desabafo acabou eu apenas segurava a sua mão e olhava para o seu rosto calmo e imparcial. Os olhos absolutamente parados sob as pálpebras.

Então ele os abriu. Olhou para mim com a expressão fraca e quase esboçou um sorriso triste. Tinha os olhos mais azuis que eu jamais vira e mais claros que o céu em seus dias ensolarados. Eu acho que fiquei boquiaberta, e sei que arregalei os olhos.

– Oi. – Ele falou. Tinha a voz doce e fraca, grave e clara. Eu perdi tempo demais processando informações.

– O que disse? – Perguntei, certificando-me de que ele tinha mesmo falado algo.

– Oi. – Repetiu, dando de ombros. Ele olhou para as minhas mãos por um instante, em seguida olhou para mim. Eu soltei com rapidez, envergonhada.

– Oi... – Respondi incerta do que fazia. – Eu vou chamar... Vou chamar algum médico... – Eu disse, mas a mão fraca dele segurou a minha e eu o encarei, meio assustada.

– Não... – Ele falou fechando os olhos. – Não quero ficar só. – Formulou a frase com tanto pesar que eu precisei segurar-me para não chorar mais uma vez.

– Tudo bem, eu fico... – Eu segurei a sua mão mais uma vez e lhe sorri tristemente. – Não está só. – Afirmei sorrindo para o rapaz de olhos fechados.

– Você é a Mary? – Ele perguntou, me fazendo arregalar os olhos.

– Você ouviu? – Eu perguntei impressionada e ele sorriu em resposta.

– Todo santo dia... Sempre a mesma coisa. – Ele falou com uma voz mais alegre, porém ainda muito fraca. – Obrigado, Mary. – Disse me sorrindo.

– E-eu... Não sei o que dizer... – Fui sincera, e ele pareceu satisfeito.

– Você é bonita Mary. – Ele falou me pegando despreparada. – Desculpe. – Pediu, rindo um pouco, mas fraco. – Não sei o dia de amanhã, preciso falar tudo quando eu penso. — Explicou-se e eu sorri compreensiva.

– Você também é bonito, Ethan. – Eu falei fazendo-o sorrir um pouco, mas logo fechar os olhos e relaxar no travesseiro, ainda segurando a minha mão.

– Estou cansado... – Sussurrou. – Mas estou te ouvindo Mary. – Disse com um meio sorriso. – Gosto de ouvir.

Eu comecei a falar. Evitei dize o meu nome por medo de ser tratada de uma maneira diferente, mas contei-lhe sobre Peter e sobre o meu irmão. Ele perguntou se eu escrevia, e eu muito hesitante falei-lhe a verdade. Ethan queria ouvir algum texto meu, mas eu retardaria quilo o máximo que eu pudesse.

Quando anoiteceu eu me despedi de Ethan com um beijo em sua testa pálida e fria.

Notas finais
Não me matem. >