Luís foi um namoradinho de colegial, digamos assim. Mas ele era um idiota. Um babaca, se preferir. Mesmo estando comigo, ele saía com outras. Dizia gostar de mim. Eu o apresentara ao mundo das poesias e dos escritores depressivos. Fiz ele gostar de Bukowski. E de blues. E ele me fez gostar de whisky e de mim mesma. Ele é artista. Literalmente. Fazia quadros que me deixavam sem fôlego. Uma vez me levou até seu quarto para me mostrar. Eram lindos.

Ele não concordava tanto comigo. Gostava de pensar que tudo o que fazia era nada. Pois aí nada o decepcionava. Nada era importante. Morava com uma tia solteirona desde que os pais morreram num acidente de carro e depois disso ele nunca mais foi o mesmo. Lembro que tínhamos uns amigos em comum, que o chamavam de Calabresa. Não sei o porquê e nunca perguntei, mas eu preferia chama-lo de Luís. Ele dizia gostar do nome. E disse que somente uma pessoa o chamava assim: sua mãe. Agora eu, é claro.

Enfim, tudo acabou meio inacabado. Cada um pro seu lado. Cada um com sua mágoa. E, de repente, ali estava ele. Entrando na lanchonete. Engraçado como é o destino, porque eu estava lendo. E com um fone no ouvido. Estava completamente absorta, mas alguma coisa me fez levantar a cabeça. Uma coisa que eu sabia que mudaria minha vida. Ou melhor, meu inconsciente sabia.

– Mabel, ma belle!¹ – Ele sorriu ao seu aproximar.

Ele sempre me cumprimentava assim. Seu cabelo estava mais curto do que eu me lembrava e, suas tatuagens, bem maiores. Sorri de volta.

– Luís. Quanto tempo. – Tentei ser cordial.

Não gostava de admitir, mas ele mexia comigo. Sempre. Toda nova atualização dele em qualquer rede social, me fazia procurar por coisas sobre ele de maneira doentia. Mas então eu me lembrava de Eduardo e de como tudo era maravilhoso na minha vida. Então, isso passava. Porém essa proximidade (ele se sentou em minha mesa) me deixava maluca.

Um tanto esperançosa, talvez.

– Muito tempo. Olha só, você tem uma aliança. – Ele apontou para meu dedo anelar direito. Eu mesma olhei para meu dedo.

– Pois é. – Sorri. O sorriso dele era triste. – Como vai a vida?

– Vai bem. Vou pra sua faculdade ano que vem. – A mesma expressão de cachorro que quer brincar voltou a seu rosto. – Cursar artes.

– Isso é ótimo! – Exclamei. – Isso quer dizer que ainda pinta?

Pergunta idiota.

– Sempre.

Ficamos em silêncio uns instantes. Minhas constantes reclamações durante nosso curto namoro eram sempre as mesmas:

– Por que você nunca me desenhou? – Perguntava, enquanto passava a mão por seus desenhos.

– Porque eu não saberia te retratar da maneira correta.

O que era pura mentira. Os quadros que ele tinha da mãe dele eram perfeitos. Quase reais. Eu ficaria lisonjeada com um boneco de palito que fosse. Mas a resposta era sempre a mesma.

Por fim, desisti de ser sua musa inspiradora. Primeiro, porque não era nenhuma musa. Segundo, porque sabia que eu não o inspirava.

– E a sua vida? – Perguntou-me, levando embora meus devaneios.

– Está ótima. Assim que me formar, vou me casar.

Parece idiotice, mas precisava afirmar isso para mim mesma. Você ama o Edu, dizia meu subconsciente, Luís é só um conhecido.

De repente, ele se levantou.

– Boa sorte, ma belle. Eu realmente quero que seja feliz. – Então pegou seu pedido no balcão e saiu.

Fiquei sozinha, frustrada. Oras, por que ele mexia tanto comigo? Só havia uma explicação. Saudades do Edu.

Determinada, peguei meu telefone e disquei seu número.

– Amor! Ia mesmo te ligar. – Ele disse, sem ao menos um cumprimento.

– Ia? – Perguntei, feliz. Tínhamos uma ligação imensa. Isso era amor. Não o que senti por Luís.

– Não vou poder ir aí esse fim de semana. – Sua voz soava triste, porém sem chances de discussão. Aliás, Eduardo morava na cidade vizinha a minha, onde fazíamos faculdade.

– Por que não? – Senti o desespero tomar conta.

– Reforma aqui em casa. Meu pai vai precisar de mim. Sei que tem alergia dessas coisas, então é melhor você não vir também. Tudo bem? Não está brava comigo?

– Não, amor. Nunca.

– Por que me ligou?

– Porque estou com saudades. Mas só de ouvir sua voz, já estou bem. – Tentei soar animada, como se sua ausência não me fizesse sofrer.

A verdade é que aquilo foi um balde de água fria. Só que eu não queria parecer uma garotinha mimada. Ele tinha assuntos a tratar, ora essa. Eu sobreviveria mais uma semana.

– Prometo te recompensar, Bel. Bom, preciso desligar. Te amo, tá?

– Tá. – Respondi. – Também te amo.

E desligou. Recolhi minhas coisas, meu milk shake, e saí para a rua quente, tentando não pensar nesse encontro casual com o Luís e em como a saudade de Edu ia aumentar nessa semana.

¹ Ma belle, do francês, "minha linda" ou "minha amada".

Notas finais
Bom gente, vou tentar aumentar os capítulos seguintes. Afinal, aí que as coisas vão começar a ficar boas, digamos assim. Espero que estejam gostando. *-*