Desfigurado.
3 Três
Acordei na manhã seguinte com uma mensagem de Edu dizendo que me amava. Eu nunca fui uma garota romântica, mas confesso que adorava quando ele me mandava mensagens do tipo. Ficava sorrindo feito idiota. Mas o sorriso sumiu assim que olhei as outras mensagens. Me deparei com uma de Luís.
Resolvi não ler. Não por enquanto. Isso me deixaria muito confusa e eu precisava pensar. Saí da cama e fui direto para o chuveiro, tamanho era o calor que fazia esse verão. Deixei com que a água fria tirasse todos os pensamentos confusos da minha cabeça — ou pelo menos, era o que eu queria – e meia hora depois, saí do banho.
– A água está acabando, sabe? Não deveria passar horas no chuveiro. – Exclamou Lúcia, minha irmã.
– Me deixa em paz. – Respondi mal criada.
Ela fez uma careta, mas não disse nada. Quase podia sentir as vibrações que meu celular emanava de lá do quarto, praticamente arrastando-me de volta a ele, porque eu queria ler a mensagem de Luís. Como eu queria! Meu inconsciente estava fritando de ansiedade. Decidi que, depois de tomar o café, tomaria coragem. Não devia ser nada de mais. Talvez um cumprimento, algo do tipo “foi bom te ver, vamos combinar de tomar um sorvete? Pode levar seu namorado” e eu responderia “claro, vamos ver” e então nunca mais nos falaríamos. Porque é assim que as coisas são, não é?
Pra não mentir, digamos que eu engoli o café. Respirei fundo assim que entrei em meu quarto e peguei o celular.
A mensagem de Luís dizia assim: “Foi bom te ver” e um link para uma música, New Tattoo – James Arthur.
Eu não a conhecia, mas conhecia o cantor. Apenas visualizei e não respondi. Mas fui diretamente até o computador, ouvir do que se tratava e ver se a tradução tinha algo a ver... com qualquer coisa. Talvez no fundo – apenas no fundo – eu esperasse que a música fosse uma mensagem codificada.
Era uma música linda. Não conseguia parar de ouvir. Na verdade, eu conseguia senti-lo através dela. “Eu uso você como uma nova tatuagem; o design, o desejo, que eu não quero remover; você é o tipo de coisa que eu poderia amar para sempre; eu uso você como uma nova tatuagem; e eu serei tão feliz de ficar preso com você; e não podemos estragar isso em nenhum momento.” Talvez fosse a música mais linda que já ouvi na vida.
Você é o tipo de coisa que eu poderia amar para sempre.
Isso não deveria fazer sentido, mas fazia. Na terceira ou quarta vez que ouvia a música, comecei a chorar. Mesmo. Feito criança.
Não acredito que Luís ainda mexesse tanto comigo. Sei que nossa história foi mal resolvida, mas foi coisa de adolescente. Éramos crianças imaturas. Eu não o amava, claro que não. Mas sentia uma necessidade imensa de fazê-lo feliz, de qualquer jeito, da maneira que pudesse. Como se ele precisasse de mim. Era o que eu sentia, enquanto estava com ele. Mas então ele terminou comigo sem uma palavra, beijando outra garota na minha frente. Isso destruiu tudo e só o que eu sentia por um bom tempo era raiva. Até eu conhecer Edu. Ali já não me importava mais. Não sentia raiva. Só imaginava como poderia ter sido.
Agora tudo estava de volta. Estar com o Luís me deixava angustiada, esperando algo ruim. Era o que eu sentia naquele momento, como se eu não conseguisse respirar. Como se suas mãos grandes enrolassem meu coração e o apertasse. Como se ele o possuísse.
Tentei organizar meus pensamentos. Precisava ouvir a voz de Edu, porque era isso que me acalmava sempre, que me fazia pensar e respirar normalmente. Mas quando liguei, apenas dava caixa postal. Era sexta-feira, ele devia estar trabalhando. As lágrimas voltaram com mais violência e fiquei assim por muito tempo. Nem ouvi quando chegou outra mensagem.
“Leu?”, dizia a mensagem. Quase podia imaginar Luís me perguntando isso.
“Uhum.”, respondi.
Ele visualizou e não disse nada. Eu também não. Até chegar um áudio, o qual me apressei a ouvir. Era ele, cantando. Em meio às lágrimas, comecei a rir.
Luís cantava muito mal. Quando estávamos juntos, ele me buscava de carro e ia para a estrada. Colocava uma música bem alta e então nós dois cantávamos. Ele adorava minha voz. Mas cantava junto para fazer graça. Era ele ainda, afinal. O mesmo Luís Henrique de sempre. Bobo, brincalhão e feliz. Ou melhor, era o que ele passava para as pessoas.
“Você não deveria cantar”, mandei para ele.
“Prometo que eu paro se você aceitar comer aquele hamburguer de 30cm comigo amanhã.”
“Luís...”
“Ma belle... se você não for, vou comer e mandar um áudio cantando e de boca cheia. Vai arriscar?”
Preciso dizer que ficamos conversando por horas. Eu praticamente não fiz nada a tarde toda, fiquei no quarto ouvindo James Arthur e conversando com Luís. Por umas horas, a angústia passou e eu sorria de verdade. Quando o assunto acabou, tudo voltou com força total.
O que eu estava fazendo? Brincando com ele? Com o Edu? Comigo? Não era justo. Mas também não era justo me privar de uma companhia que me fazia bem. Talvez eu precisasse daquilo. Ora, eu amava Edu. Jamais o deixaria por qualquer outra pessoa. Não é?
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