Desejos libertos
39 O palácio
Notas iniciais
A manhã seguinte amanheceu seca e eu, por um lado, respirei aliviado: Grey iria embora — ele era uma visita inquietante, sempre olhando para mim como se soubesse de algum segredo e estivesse pronto a revelá-lo, ou bisbilhotando os cômodos, fora que havia assediado o Finny e isso contribuiu para que o clima da casa ficasse ainda mais pesado. Por outro lado, eu estava apreensivo: não sabia ainda qual seria a missão que a rainha me daria.
Assim como no dia anterior, Sebastian saiu ainda mais cedo do quarto afim de preparar o desjejum e quando eu desci, horas mais tarde, encontrei os dois mordomos à mesa, tomando seu café da manhã. Depois da cena tórrida que eu e Sebastian presenciamos ontem; hoje era até difícil olhar para Grey e Phipps e manter a expressão neutra. Mas eu fiz muito esforço para isso e acredito que eles não perceberam nada.
Eles podem não ter percebido mas eu percebi muito bem as marcas vermelhas e roxas no pescoço do menor, mesmo ele tendo colocado um lenço na tentativa de encobri-las, Phipps também não tinha saído incólume da guerra de sexo: tinha um longo arranhão na bochecha esquerda que ia desde o canto externo do olho até o canto da boca. Pelo jeito a briga foi boa, mas eu sabia quem acabou sendo dominado. Mesmo se eu não tivesse visto os dois, o modo como Grey se movia devagar e as expressões de dor cada vez que se mexia da cadeira, acabavam afirmando isso.
Decidi que o melhor seria esquecer a cena da noite passada, ou do contrário, eu começaria a ficar vermelho de vergonha. Até porque aquela cena rendeu muitas brincadeiras gostosas do Sebastian comigo na cama.
O resto da manhã transcorreu tranquilo e depois do almoço decidimos que a estrada reunia condições para a viagem.
Preparamos tudo e deixamos a mansão nas mãos do Tanaka.
_Ainda não fico muito tranquilo em deixar tudo nas mãos deles — comentei enquanto Sebastian colocava as nossas malas no bagageiro da carruagem.
_Não há outra solução, bocchan. Eu deixei todos muito bem instruídos.
Dei de ombros, aquilo não era garantia de nada; afinal, quando foi que os empregados conseguiam realizar as ordens dadas pelo mordomo? Mas, realmente, não havia o que fazer.
Sebastian abriu a porta da carruagem marrom tabaco e me estendeu a mão para que eu subisse. Apoiei-me nela e entrei na cabine, Sebastian a fechou e sentou-se no banco externo. Era ele quem iria conduzir os cavalos na viagem.
A outra carruagem, a dos double-Charles iria logo atrás.
Como eu morava nos arredores de Londres, a viagem não seria demorada, normalmente levaria cerca de uma hora mas, mesmo com a melhora do tempo, a estrada ainda estava lamacenta e tínhamos que ir bem devagar, para não correr o risco de quebrar alguma roda ou mesmo para que os cavalos não se machucassem, escorregando naquela lama traiçoeira. Então, o que seria uma viagem de uma hora levou praticamente duas.
Eu olhava a paisagem pela janela de vidro da cabine — aquela imensidão de campos verdes, as árvores na beira da estrada, tudo ainda molhado e úmido, pingando as últimas gotas da chuva do dia anterior. Tudo tinha cheiro de terra molhada e eu ali, sozinho naquela cabine, sacolejando ante as imperfeições da estrada… comecei a ficar melancólico e novamente minha mente foi tomada pela incerteza do meu futuro com Sebastian.
“Eu não estou sendo ingênuo? Achando que haveria um futuro quando na verdade eu estava me relacionando com um demônio com quem tinha um contrato? À quem devia a alma?”
Comecei a me questionar se aquilo tudo seria amor. Certo que ele já havia me dito várias vezes que me amava, eu também já havia me declarado para ele mas… e depois? Eu queria muito encontrar quem matou os meus pais, queria muito descobrir quem me sequestrou e quase me matou. Foi esse meu sentimento de vingança e ódio que me manteve vivo, se não fosse por isso, jamais teria invocado o Sebastian, mesmo que inconscientemente. E se não fosse por ele, eu jamais teria saído vivo daquele salão.
Uma coisa levava à outra, que levava à outra num círculo sem fim. Sem fim não. O fim seria apenas um: eu me vingaria de todos que me fizeram mal e então minha alma seria do Sebastian.
E o amor? E o nosso amor?
Seria devorado por ele também?
E tudo estaria acabado?
Passei a mão no meu cabelo e acabei puxando os fios — nervoso pelo rumo dos meus pensamentos, deixando a mãos escorregar pelo meu rosto e pescoço, indo parar desolada no meu colo.
Eu estava parecendo uma menina apaixonada e insegura. Simplesmente odiava isso.
Esses pensamentos começaram a inflar dentro do meu peito e foram crescendo, me sufocando, me deixando tonto e sem ar, até que senti minhas mãos molhadas e imediatamente olhei para o teto da carruagem, achei por um momento que tinha recomeçado a chover e talvez o teto tivesse uma goteira mas ele estava seco, então percebi que o que tinha molhado as minhas mãos pousadas no meu colo eram as lágrimas que escorriam pelo meu rosto.
Sequei minhas bochechas e as luvas ficaram molhadas e sujas, mas era melhor isso do que o Sebastian perceber que eu estava chorando como uma menininha apaixonada.
Quando finalmente chegamos ao palácio, meus olhos já estavam secos porém, mesmo assim, quando Sebastian abriu a porta e me estendeu a mão para que eu descesse, eu imediatamente soube que ele percebeu algo de errado, pelo modo que olhou para mim, pelo tanto que seus olhos se demoraram nos meus, o leve franzir de sobrancelhas. Desviei meus olhos dos dele, segurei seus dedos e pulei para o pátio de pedras.
_Aconteceu alguma coisa, Jovem amo? — me perguntou solícito e distante.
“Jovem amo…” — é assim que ele me chama quando está na frente das pessoas, quando tem que fingir que é somente meu mordomo. Os “bocchan” sussurrados calorosamente nos meus ouvidos são deixados para quando estamos sozinhos. Não que haja alguma diferença no significados das palavras — elas significam a mesma coisa — a diferença está em como elas são empregadas.
_Não aconteceu nada, Sebastian. Pegue a bagagem e vamos — falei, espanando com a mão a poeira imaginária do meu casaco verde musgo.
Ainda vi seu olhar indagador sobre mim mais alguns segundos, então com uma leve mesura ele obedeceu a minha ordem.
Eu odiava vir à Londres — cheia demais- de pessoas e de lembranças, do caso do Jack — o Estripador, de Madame Red e outras tantas…
Olhei a fachada do palácio — imponente e secular — e senti saudade da minha casa. Sebastian pousou a mão no meu ombro, me dando conforto e eu automaticamente, inclinei o rosto em direção à ela, esfregando a bochecha no dorso da mão enluvada. Imediatamente, Sebastian a retirou e eu me assustei pela rapidez do movimento e então eu me toquei — um patrão jamais faria isso com um empregado.
“Aparências. Tenho que manter as aparências” — ajeitei o meu casaco e entrei no palácio. Grey e Phipps iam na frente, guiando o meu caminho.
Fui levado até um quarto onde poderia me trocar da roupa de viagem, tomar um banho e comer alguma coisa até que a rainha pudesse me receber.
Sebastian colocou a minha mala sobre a cama e a abriu, tirou um traje formal de dentro e o pendurou no cabide para que desamassasse enquanto eu ia ao banheiro lavar o rosto. O dia estava frio e úmido, portanto eu não tinha nem suado, deixaria o banho para depois.
Fui trocado e penteado. Sebastian se mantinha distante e impessoal. Eu sabia que eu tinha que ser do mesmo modo. Que tínhamos que fingir.
Aquilo estava me matando.
Ouvimos batidas na porta e Phipps entrou.
_A rainha vai recebê-lo agora.
_Obrigado — agradeci e ele tornou a fechar a porta.
Sebastian terminou de ajeitar a renda da minha gola e eu o puxei para mim. Nossos olhos se encontraram.
_Você é meu — eu falei.
Não era uma pergunta, era uma afirmação. Uma afirmação para mim mesmo.
“Meu mordomo.”
“Meu demônio”.
“Meu namorado”.
“Meu amante”.
“Minha vida e
Minha morte”.
Sebastian sorriu. Seu sorriso largo e provocante.
_Sempre, bocchan. Sou seu para sempre.
Nossos lábios se juntaram num beijo rápido e intenso.
“O quanto pode durar o para sempre de um humano e um demônio?”
*
Caminhei confiante até o gabinete da rainha. Dois soldados guardavam a porta e se afastaram para me deixar entrar. Eu entraria sozinho, Sebastian me esperaria do lado de fora.
_Majestade! — falei calmamente, fazendo uma longa reverência. Estava no meu traje de gala e uma parte da capa média escorregou para o lado, cobrindo parte do meu ombro.
A rainha sentava-se numa poltrona ricamente estofada em brocado rosa antigo e dourado, tomava uma xícara de chá, uma bandeja com biscoitos amanteigados, arrumados numa mini pirâmide, estava disposta na mesa ao lado.
_Conde — falou depois de um gole da xícara — Aproxime-se.
Dei alguns passos, me aproximando um pouco. Era o máximo que eu poderia chegar da monarca. Já era um privilégio grande demais eu ser recebido no seu gabinete pessoal, vê-la sem toda aquela pompa de representante de Estado. Não que ela não fosse pomposa, reis e rainhas sempre o são.
Não usava a coroa nem aqueles vestidos de gala, apenas um sóbrio vestido preto sem enfeite algum — ainda guardava luto pelo marido morto.
Ao contrário do que seria esperado, ela estava sozinha no gabinete, nem seus mordomos — que sempre lhe acompanhavam — estavam com ela.
Aguardei solícito que ela começasse a falar.
_Se recuperou bem da perda de memória, meu menininho? — perguntou bondosa.
Um pequeno sorriso se formou nos meus lábios, mesmo eu odiando ser chamado assim..
_Sim, plenamente, majestade.
_Que boa notícia! — tomou outro gole.
_Aceita uma xícara?
_Muito obrigado — neguei.
_Acredito que você esteja ansioso por saber por que eu o chamei à Londres quando podia apenas enviar uma carta à você, não é?
_Estaria mentindo se dissesse que não estou curioso.
_Bem — ela terminou o chá e depositou a delicada xícara de porcelana de primeira qualidade no pires sobre a mesa — Vamos direto ao assunto: há alguns meses surgiram rumores de que estão sendo realizadas certas festas por alguns nobres e, bem, elas saem um pouco fora do comum.
Franzi o cenho. Festas eram coisas comuns na capital, era sinal de status os nobres realizarem bailes.
_Como assim, fora do comum?
_Não sabemos exatamente quem realiza essas festas mas pelo que soubemos, elas começam como bailes nobres e terminam como orgias sem controle algum.
A rainha corou um pouco mas manteve a pose e logo sua expressão se neutralizou.
_Desculpe lhe dizer, majestade, mas orgias não são coisas incomuns na corte.
Ela fez um muxoxo de desgosto. A rainha sempre foi uma pessoa muito correta e severa, era óbvio que ela não aprovava essas práticas.
_Sim, eu sei. Infelizmente. Isso é horrível — comentou.
A própria rainha se serviu de mais chá e o tomou em silêncio.
“Definitivamente eu preferia as cartas” — pensei, aguardando que ela continuasse. E diante do silêncio da monarca, acabei falando.
_Majestade. Eu não entendo exatamente no que eu posso ajudar. Os bailes não são ilícitos e bem… as orgias não são assuntos do submundo, então…
_Estão ocorrendo mortes, conde.
_Mortes?
_Sim. Elas se seguem aos bailes, na verdade nunca conseguimos descobrir realmente quem é que dá os bailes. Distribuí espiões em todos os que ficamos sabendo, eles ficam até o fim da festa e nada acontece. Depois ficamos sabendo das mortes e então descobrimos que a pessoa havia ido em algum baile que nós não tínhamos ficado sabendo.
“Bailes secretos” — pensei.
Claro, se alguém queria realizar uma orgia coletiva teria que fazer furtivamente. Apenas com convidados selecionados.
_E as mortes? Como são?
A rainha pôs a mão espalmada sobre o peito.
_Muito estranhas. Não quero nem comentar. Tome — ela me estendeu uma pasta gorda — aqui estão os documentos que conseguimos reunir. São as cópias dos atestados de óbito e as investigações feitas.
Peguei a pasta.
_E quais são as ordens?
_Descubra quem está dando esses bailes, o que realmente acontece lá e quem ou o quê está matando essas pessoas. Resolva como você sabe que deve fazer.
A ordem era clara. Neutralize a ameaça.
Mais uma vez me curvei em mim mesmo numa mesura respeitosa.
_Fique tranquila, majestade. Farei tudo o que for necessário para garantir a sua tranquilidade.
A senhora sorriu, bondosa.
Me virei para sair porém a rainha me chamou novamente.
_Conde — eu olhei para ela — Já arranjou uma noiva?
Um estremecimento desceu pela minha coluna.
_Noiva? Não, ainda não.
_Tem que se apressar, meu menininho. Logo, você estará na idade de casar.
Engoli em seco. Foi vã a minha ilusão de que a rainha deixaria o assunto do término do meu noivado morrer.
_Ainda não penso nisso. Tenho outras preocupações como por exemplo, cuidar do seu bem estar, lidando com o submundo. — falei e ela sorriu mais uma vez, tomando mais um gole do chá — Com licença.
Mais uma mesura. Mais uma tentativa de sair.
_E o seu mordomo? — a voz dela chamou-me de volta.
_O que tem ele, majestade?
_Não acha que vocês têm estado muito juntos?
Gelei.
_Ele é o meu empregado. Normal que me acompanhe.
_Um empregado muito preocupado, não é?
Fiquei em silêncio e ela me encarou por vários minutos. Seus olhos já não eram mais tão bondosos assim.
_Fiquei sabendo que ele ficou praticamente desesperado quando você perdeu a memória — comentou como quem não quer nada, mas isso não me enganava: a rainha queria dizer alguma coisa, e ela ia dizer.
_Como? — perguntei me fazendo de desentendido.
A melhor saída seria ver até onde ela sabia — porque ela sabia de alguma coisa — e então ver qual a melhor desculpa para dar.
_O médico que tratou de você comentou com alguém, que havia achado comovedor o jeito como o seu mordomo havia ficado transtornado com a sua doença.
_Ele é um fiel serviçal.
_Cuidado, meu menininho, as pessoas podem começar a comentar coisas de vocês.
_Não se preocupe. Não há nada para falarem da gente.
_Sim, claro.
_Então, com licença. Irei para casa estudar o caso e já começarei a agir.
Fiz mais uma mesura. Estava ansioso por sair dali mas a rainha não deixou.
_Nada disso. Vai ficar hospedado aqui, assim poderá me manter à par dos avanços na investigação.
“Ela quer me manter sob vigilância para saber se o que ouviu é verdade mesmo” — pensei.
_Claro, agradeço sua hospitalidade — falei sério.
Dessa vez eu saí e quando cheguei à porta ainda ouvi ela falando a última coisa.
_Tome cuidado, Ciel. Aqui em Londres não é como na sua mansão. Aqui todos os lugares têm olhos e ouvidos atentos. E muitas pessoas estão sedentas por uma história pervertida. Não chame atenção para você e seu mordomo e mantenha-se nas sombras.
Olhei por cima do ombro.
_Perfeitamente, majestade. Eu pertenço às sombras.
Saí do gabinete real com as pernas tremendo. A adrenalina corria à solta nas minhas veias, e o sangue retumbava nos meus ouvidos.
Sebastian me aguardava em pé, afastado alguns passos da porta do gabinete, olhava pela janela para o enorme e bem cuidado jardim externo. Me aproximei e olhei também: algumas borboletas azuis e brancas voavam à esmo, pousando aqui e ali em algumas das flores brancas.
Meu mordomo se virou para mim naquela posição ereta e atenta.
Fiz um sinal com a cabeça e ele caminhou ao meu lado. Já estávamos juntos tempo suficiente para ele saber que eu não falaria nada até estarmos num local privado.
Caminhamos pelo palácio até o quarto destinado à mim. Sebastian abriu a porta para que eu entrasse e depois entrou e a fechou, virando a chave.
Me sentei na cama, soltando o ar dos meus pulmões de uma vez.
_E então, bocchan? Qual a missão dessa vez?
Olhei para Sebastian.
_Ela sabe.
Sebastian inclinou levemente a cabeça para o lado.
_O quê?
_Ela sabe de nós.
Meu corpo todo tremia.
Agora tudo podia acontecer: desde todos na corte falarem coisas de mim e acabar com a minha imagem e o orgulho dos Phantomhive até ela me obrigar a casar com alguma nobre.
A expressão do Sebastian era tão séria quanto a minha.
_Tem certeza?
_Ela deixou claro nas entrelinhas.
Sebastian olhou nos meus olhos, depois os desviou para o chão.
_E o que você vai fazer, bocchan?
_Não sei. Só sei que não podemos ficar aqui.
_Vamos para a sua casa, então?
Sebastian aguardava minha decisão, embora a minha vontade fosse ir embora naquele instante, isso não seria possível, não com o convite da rainha que na verdade era meio que um intimação.
_Não podemos. A rainha falou para que nos hospedássemos aqui hoje.
Olhei para Sebastian. Ambos sabíamos o que isso significava: o início de um período de afastamento. Resolvi quebrar aquele clima de amantes que não podem ficar juntos, isso não ia levar à nada.
_Melhor a gente verificar esses documentos. São referentes ao caso — mostrei a pasta.
Sebastian sentou-se ao meu lado na cama.
_Você ainda não me disse qual o caso — falou displicente pegando algumas folhas de papel de dentro da pasta que eu havia aberto.
_Parece que alguém muito pervertido está dando festas que terminam em orgias — falei também passando os olhos nas folhas, escolhendo por qual iria começar a ler, não parecia haver muita ordem ali.
_Hum. Parece divertido, qual o problema?
Ergui meus olhos para Sebastian e encontrei seu olhar provocante pousado em mim. Os olhos castanho avermelhados brilharam vermelhos por alguns segundos, antes de voltarem à cor castanha.
_Pessoas estão morrendo, ao que parece tem a ver com o que acontece no baile.
_Alguém não sabe brincar, pelo jeito.
Voltei a olhar para Sebastian. Ele sorria, folheou as páginas da investigação, depois as largou sobre a cama.
_Não brinque com isso, Sebastian. Alguém está matando essas pessoas.
_Sinto muito — falou.
_Veja — entreguei uma folha com o laudo da autópsia de uma mulher — Não há ferimentos. Do que ela morreu?
Sebastian pegou a folha da minha mão e a leu.
_Hummm, pupilas dilatadas, demora no rigor mortis, é estranho.
_Muito — concordei distraído, lendo um outro laudo — Este também.
No final da leitura de todos os documentos, não chegamos à conclusão nenhuma. Foram cinco mortes ao todo, as pessoas morriam depois de dois ou três dias de delírio e alterações de comportamento, alguns acompanhados de febre. Não descreveram quais alterações comportamentais as pessoas sofriam, as autópsias também não revelavam nada significativo. Olhei a assinatura de quem cuidou dos corpos e arqueei as sobrancelhas.
_Olha quem fez as autópsias — mostrei para o mordomo.
_Só podia.
_Então…
_Vamos ter que ir falar com ele — Sebastian me interrompeu, completando a minha frase.
_Infelizmente.
Falar com ele não era como um passeio no parque. Undertaker tinha um humor instável e ácido, tinha costumes estranhos e aquela mania de cobrar por informações.
Se ainda cobrasse dinheiro mas não, eram sempre coisas vergonhosas.
Além disso, ele sempre sabia mais do que realmente falava. O que me dava a sensação de que sempre estava passando a perna em mim! Juntei os documentos e guardei na pasta
_Não tem jeito. Vamos nos encontrar com o Undertaker.
Pulei da cama mas antes que meus pés tocassem o chão, Sebastian me segurou e me puxou para cama novamente. Num giro eu estava deitado no colchão com ele por cima.
Não podíamos ficar assim. As palavras da rainha ecoaram na minha mente e o medo de ser pego acelerou meu coração.
_Me larga, Sebastian. Não podemos — me debati, empurrando-o pelos ombros.
_Você sabe o quanto fica irresistível quando está sério e concentrado num caso, bocchan? — ele sorriu e beijou o meu rosto, indo em direção à minha boca.
_Sebastian... não podemos. Alguém pode nos ver — ainda argumentei, tentando ignorar os lábios do meu namorado correndo na minha pele.
_Eu tranquei a porta.
_Mesmo assim.
Ele desceu para o meu pescoço e meu membro reagiu, pulsando. Mas não podíamos continuar, se eu não saísse daquele abraço, com certeza iríamos fazer sexo, e isso era correr muito risco, por diversos motivos: era de dia e todos estavam acordados, eu nunca conseguia ser silencioso, estávamos no palácio da rainha e a mesma havia dito que haveriam olhos e ouvidos atentos ao que eu fazia.
Seria praticamente como gritar para todo o reino que eu, o conde Ciel Phantomhive, estava me relacionando com o meu serviçal, que inclusive era um homem.
Me debati, me contorcendo e batendo nos ombros e peito do Sebastian.
_Chega, Sebastian! Já disse que não podemos.
Finalmente ele pareceu que entendeu o que eu estava dizendo. Se afastou alguns centímetros e olhou nos meus olhos.
“Olhos tão vermelhos…” — pensei e meu coração se acelerou.
Mas então Sebastian sorriu e segurou os meus braços acima da minha cabeça, prendendo contra o colchão. Eu estava rendido, imobilizado, com o Sebastian em cima de mim.
_Então me diga que não quer — ele afundou o nariz perto do meu ouvido e aspirou profundamente, me arrepiei.
_Hmmmgg , não é isso… Sebastian… é … é perigoso. Se a rainha…
_Você não quer? Juro que não vamos até o fim.
_Não????!! — minha pergunta foi mais de indignação do que qualquer outra coisa.
“De quê adianta acender o fogo se não vai apagar?” — pensei.
Sebastian ergueu o rosto e me olhou, divertido.
_Ah… bocchan…
Então Sebastian me beijou e eu esquentei imediatamente, queria abraçá-lo mas meus braços ainda eram mantidos presos, mexi meu quadril, inquieto e Sebastian gemeu baixinho, continuei me movendo, pressionando meu quadril contra a ereção evidente dele. Até que Sebastian me soltou e desceu as mãos até a minha cintura e apertou. Enrolei meus braços no pescoço dele, trazendo-o mais para mim.
Não sei se o melhor foi não fazer nada ou não. Ficamos nos beijando o tempo todo, nos tocando abraçados, nos roçando tão intensamente que acabamos chegando no nosso limite mesmo vestidos. Os lábios do Sebastian abafaram todos os meus gemidos que eu não consegui controlar. Meu corpo estava calmo depois do orgasmo mas eu não estava satisfeito, queria mais, muito mais e não podia ter. Não ali no palácio.
E no fim, estávamos completamente despenteados e amarrotados.
Sebastian saiu de cima de mim e sorriu. Eu tentei acalmar a minha respiração.
_Você disse que não íamos até o fim — o acusei.
_Não fomos. Não fizemos amor — ele ainda beijou mais uma vez os meus lábios.
_Só deu mais vontade! — exclamei.
_Não seja por isso, podemos resolver esse problema — Sebastian tentou me abraçar e eu fugi, rolando na cama e saindo pelo outro lado.
_Nem pense nisso — tentei ajeitar a minha roupa, numa atitude orgulhosa besta. Eu teria que trocá-la — minha roupa íntima estava molhada pelo meu sêmen.
_Anda, Sebastian — falei — Nós ainda temos que encontrar Undertaker e eu tenho que trocar de roupa.
Sebastian se levantou, ainda sorrindo, ele sabia que estava me provocando, e sabia que se viesse para cima de mim eu não seria capaz de resistir. Mas acho que ele se deu por satisfeito, porque foi até o armário e pegou uma muda de roupa mais simples para mim.
**
A funerária estava vazia e parecia que um prédio abandonado mas era só fachada. eu sabia que Undertaker estava lá dentro fazendo alguma coisa esquisita como por exemplo, dormindo dentro de um jarro de sal ou escondido em um dos seus caixões.
Tentei a porta, estava destrancada e eu a empurrei entrando no ambiente parcamente iluminado. Estava do mesmo jeito que da última vez em que estive lá, quando Sebastian havia sumido.
_Undertaker? — chamei.
Sebastian estava logo atrás de mim e analisava o ambiente.
O silêncio reinava.
Procurei por todo o salão principal que estava tomado pelos caixões e alguns tecidos que desciam do teto — não tinham função nenhuma ali, e eu acho que eram apenas decoração de mau gosto.
_Undertaker? — chamei mais alto.
_Ora, se não é o conde? — a voz do homem me assustou porque veio muito de perto.
Olhei para o lado e lá estava Undertaker, o ombro encostado no batente da porta que levava ao salão dos fundos. Sorria abertamente e eu podia ver o verde vivo que brilhava nos seus olhos semi escondidos pela franja prata.
_Preciso de informações — falei sério, ajeitando minha cartola que, com o pulo que dei no susto, tinha entortado.
_Sobre o que seria? — Undertaker deu alguns passos e eu me afastei para o lado para que ele passasse, mas ele parou antes de chegar em mim.
_Cinco morte que ocorreram ultimamente, histórico de terem participado de certo tipo de baile…
_Ahhhhhh hi hi hi hi — ele riu, aquela risada me dava calafrios.
_Você sabe de alguma coisa?
_Eu sempre sei de muita coisa, conde.
_Então diga — mandei.
Undertaker se aproximou mais. Ficou de frente à mim e eu dei alguns passos para trás, tentando me afastar mas ele se aproximou ainda mais e eu me senti encurralado. Olhei rapidamente para Sebastian e ele se mantinha estático mas pela expressão eu via que não estrava gostando da aproximação do outro.
_Conde… você sabe que eu não dou informações de graça. Vai pagar por elas?
Realmente, eu não gostava nada disso.
_Tenho escolha?
_Não.
_Então vamos logo.
Undertaker se aproximou ainda mais, se desse mais dois passos iria me prensar contra a parede.
_Meu preço aumentou — anunciou.
_O que mais você quer, Undertaker? Já não basta o que cobra?
_O valor depende da informação e para essa eu quero que tanto você, pequeno conde Phantomhive quanto o seu fiel e demoníaco mordomo paguem.
_Esqueça isso — anunciei bravo.
_Então nada de informações — o outro virou as costas e cruzou os braços.
_Bocchan…- Sebastian chamou e eu vi que ele estava tão contrariado quanto eu. Mas não havia saída.
“Maldição… um dia esse shinigami iria me pagar por isso!”
_Tudo bem. Vamos logo com isso.
Undertaker sorriu, verdadeiramente feliz.
_Ansioso, conde.
_Nem em sonho. Quero terminar logo com isso para cuidar do caso.
_Sei — Undertaker sorriu de lado e prendeu a franja no topo da cabeça — Não quero perder nenhum detalhe.
Foi até um caixão e sentou-se sobre ele.
Andei até o meio do salão e Sebastian se aproximou. Eu olhei para ele e achei ter visto um sorrisinho nos seus lábios
_Podem começar — Undertaker anunciou e eu engoli em seco.
“Ah… ele ainda vai me pagar por isso.”
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