Desejos libertos
46 O navio
Notas iniciais
POV Ciel
Dimitri entrou no local onde eu e Alois estávamos, imagino que fosse um porão de navio mesmo. Um tremor de terror percorreu meu corpo, me fazendo lembrar de tudo o que ele havia feito comigo meses antes, me encolhi contra a parede, numa reação instintiva. A mente agia rápido tentando montar uma estratégia de fuga. Mas ele sabia o que eu estava pensando e balançou a cabeça negativamente. Sorriu de um jeito maligno e caminhou para mim.
—Já faz um tempinho não é, Ciel? Sentiu minha falta? — perguntou naquela odiosa voz cheia de intenções.
Saí do alcance dele, dando um impulso para correr. Se fosse rápido o suficiente, iria sair daquele porão e correr não sei pra onde, mas tudo o que eu queria era me afastar o mais rápido possível do demônio. Talvez eu tivesse conseguido, se minha cabeça não girasse tanto, atrapalhando meu equilíbrio, mas o fato é que não dei sequer dois passos antes de ser agarrado pelos cabelos e jogado novamente contra a parede metálica, batendo a parte de trás da cabeça, fazendo um barulho alto. Ofeguei, dando um gemido sofrido de dor, milhões de pontinhos multi coloridos surgiram dançando na minha visão e eu chiei miseravelmente quando Dimitri apertou meu pescoço.
—Dessa vez você não vai me escapar. Não tem como aquele que você chama de Sebastian aparecer aqui e, de quebra, terei duas almas para saborear.- ele se aproximou mais de mim e eu senti o hálito dele bater no meu rosto, tinha o mesmo cheiro do tal sublime aroma que era como os convidados chamavam o poder do Dimitri. Fechei meus olhos e virei o rosto para o lado oposto do demônio, tentando ganhar o máximo possível de distância daquele ser, mas isso não era o suficiente, lutei para puxar o ar com os pulmões trancados. Sem êxito.
Ele se aproximou mais e parou a poucos centímetros do meu rosto.
— Já está nesse estado? Pelo jeito meu poder foi ainda mais eficiente em você, meu queridinho. Que delícia ver você agonizando por mim, Ciel — falou olhando para mim maliciosamente, apertando ainda mais minha garganta e arrancando um gemido de dor, agarrei a mão dele, tentando afrouxar inutilmente o aperto na minha traquéia.
—Tsc tsc tsc…. você já está morto. Nem precisarei ter muito trabalho com você — sentenciou, arrastando a unha longa e afiada pela lateral esquerda do meu rosto, cortando a pele desde a maçã do rosto até meu queixo, senti o ardor do corte e logo algo quente e úmido escorrer. Dimitri então lambeu meu sangue e vi o violeta dos seus olhos se acenderem ainda mais.
—Você é quem vai morrer, maldito. Sebastian virá e vai acabar novamente com você, e de uma vez por todas. — vomitei essas palavras com ódio e cuspi na cara dele.
Mal vi quando ele ergueu a mão em punho e desferiu o soco que me acertou o rosto. A dor foi tão forte que me fez ficar cego por alguns instante e o enjôo fez meu estômago se contrair, ouvi Alois gritando para que ele parasse mas veio novo soco, agora no estômago e mais outro no rosto e então, finalmente, escorreguei para a escuridão, desmaiando.
*******************************************************
Acordei não sei quanto tempo depois, tentei me mexer e não consegui. As dores se espalhavam pelo meu corpo e a asma estava ainda pior, minha consciência estava fraca pela falta de oxigenação no cérebro.
As correntes em volta do meu corpo me mantinham na mesma posição incômoda, prendendo minha circulação e fazendo meus membros adormecerem. Estava sentado numa cadeira dura de madeira, completamente imobilizado, as correntes frias e ásperas machucavam meus braços nus e meus tornozelos, locais onde o vestido não protegia.
Alois também estava preso numa cadeira à minha frente, estava tão ou mais machucado do que eu, sangue escorria do canto dos seus lábios e tinha um olho um pouco inchado e roxo. Olhava pra mim preocupado mas sua expressão se suavizou quando viu que eu havia acordado.
—Ele vai nos matar, não é? — perguntou baixo, o medo fazendo a voz dele falhar.
Acenei com a cabeça, sentindo absolutamente tudo doer.
—Provavelmente sim — respondi e Alois suspirou, ficando calado.
Estávamos em outro local, ainda dentro do navio mas devia ser alguma outra cabine ou algo do tipo. Havia uma pequena janela redonda, por onde eu conseguia ver parte do céu, tipicamente cinzento e chuvoso de Londres. Suspirei também, ou tentei pois a crise de asma não me permitia muito. Minha mente voou rápida para onde meu coração estava.
“Cadê você, Sebastian?” — pensei angustiado.
“Esse será meu fim?” — baixei a cabeça, apenas para sentir a corda no meu pescoço apertar, me impedindo de mover livremente até a cabeça. Pisquei meus olhos, dissipando um pouco os malditos pontinhos coloridos voadores.
Barulhos de passos nos fizeram ficar alertas. Alois deu um pequeno choramingo e tentou se encolher, olhando para mim amedrontado. Eu me mantive altivo, o tanto que a minha presente condição me permitia.
A porta foi aberta numa lentidão deliberada e um garotinho de cerca de cinco anos entrou. Era pequeno, magro, de cabelos castalho-avermelhados e pele branca, o rosto infantil com bochechas levemente coradas e grandes olhos castanhos e alegres olharam para nós, a mãozinha de dedos roliços apertavam a maçaneta da porta. Nunca tinha visto aquele garoto.
Ouvi um ôfego e um lamento.
—LUKA??!!! — Alois gritou, se retorcendo na cadeira, tentando se livrar das correntes.
—Como??? Você… você….como?? — perguntava, visivelmente abalado, começando a chorar copiosamente.
Luka correu para o Alois e pulou no colo dele, enrolando os braços no pescoço do loiro e o abraçando, aparentemente ignorando que o maior encontrava-se preso e machucado.
—Eu vim te ver, onii-chan. Estava com saudade — falou infantilmente.
—Eu também… eu … eu fiz tanta coisa errada… eu pensei que você tinha morrido. Como conseguiu estar aqui? — Alois soluçou, forçando os braços para tentar se livrar.
Franzi o cenho, o perfume estava mais forte agora e eu estreitei os olhos, olhando o garoto de costas para mim. Alois havia dito que ele achava que o menino estava morto…
Uma risada travessa saiu dos lábios do garoto e ele ergueu os olhos para o Alois.
—Mas eu morri, onii-chan. Estou morto e a culpa é toda sua.
Vi Alois empalidecer ainda mais, os lábios brancos tremendo em desespero e dor.
—Não… eu não tive culpa. Eu nunca quis que você morresse… — falou chorando, ainda tentando se libertar inutilmente.
—A culpa disso tudo é sua. Você quis a morte de todos da aldeia. Esqueceu que eu também era de lá? Você me matou, onii-chan. Eu morri por sua culpa — falou no mesmo tom impassível, ignorando completamente o desespero do irmão.
—Não...não… não é verdade… A gente ia sair de lá, iríamos ser felizes… — Alois gaguejou se engasgando com o choro.
—Você está feliz? Eu morri para que você fosse feliz… — sorriu, tirando algumas mechas do cabelo loiro do irmão do rosto, mas Alois já não conseguia mais falar, o corpo convulsionando no choro descontrolado.
—Não, não é? Você não está feliz… você não pode ser feliz, onii-chan. Você é patético, desprezível… ninguém pode te amar. Eu sou feliz por ter morrido e não ter que ficar ao seu lado — Luka saiu do colo do Alois, sorrindo angelicalmente mesmo que a boca estivesse dizendo palavras tão cruéis.
—Luka… — ele murmurou, a expressão de quem estava ferido de morte olhava o irmão com tanta dor que meu peito se apertou. Mas isso foi ignorado pelo menor.
—Por sua culpa eu morri. Por sua causa eu não vou crescer, nem viver, nem ver o sol novamente. Você não merece nada, Jim. Você é uma fraude! Tão falso quanto o nome que adotou! Eu o amaldiçôo a ser infeliz por toda a eternidade e o melhor que você deveria fazer, seria morrer e livrar o mundo da sua existência desprezível. Nunca ninguém vai te amar, porque você não merece.
Alois gritou desesperado ao ouvir essas palavras e Luka riu, riu bem alto, jogando a cabeça de cabelos meio ruivos para trás.
—Alois! Ele não é seu irmão! — falei alto, agora com a certeza de que não era apenas uma alucinação causada pelo poder do Dimitri.
—É o Dimitri! Não dê ouvidos ao que ele diz. Está se alimentando do seu sofrimento. — falei bravo, olhando com ódio para o garoto que eu sabia não ser o irmão do outro. Luka riu e saiu correndo da sala, batendo a porta com certa força.
Alois chorava copiosamente, provavelmente nem sequer tinha me ouvido, bufei frustrado, o ódio fervia dentro de mim, até mesmo sobrepujando o temor pela morte.
—Alois…- murmurei tentando chamar a atenção dele — Dimitri é um demônio, ele pode mudar de forma e assume a aparência que for mais conveniente para conseguir o que quiser… não era o seu irmão aquele. — falei por fim, nem toquei no assunto dele ter falado sobre o Alois ser falso e tê-lo chamado por outro nome. Alois olhou para mim, os olhos vermelhos e o rosto congestionado pelo choro.
—Parecia ele… eu… eu sou mesmo culpado pela morte dele. Sou horrível! — soluçou.
—Isso eu não posso dizer, não conheço ele nem você o suficiente mas se controle. Não chore nem se desespere porque isso vai dar mais poder ao Dimitri, você está fazendo o jogo dele assim.
Isso pareceu surtir algum efeito, Alois se controlou um pouco, fungando e parando de chorar.
—Odeio ele… — murmurou depois de alguns minutos — Queria que Dimitri morresse!
—Você não é o único. Mas não temos força suficiente. — falei fechando momentaneamente os olhos, tudo doía tanto…
Aos poucos tudo se acalmou, e eu fiquei imaginando qual seria o plano do Dimitri, porque não acabar logo com tudo de uma vez, não que eu quisesse morrer logo. Mas me lembrei que ele era um demônio sádico, o prazer não se resumia apenas a consumir a alma das vítimas, mas também em torturá-la física e psicologicamente.
Tossi, quase vomitando, em mais um acesso forte de asma. Tudo girava miseravelmente e eu sentia como se meu crânio fosse se partir em vários pedaços. Me concentrei em tentar reunir forças para respirar.
Mais uma vez meus esforços foram nulos, aos poucos minha respiração se tornou mais pesada e à minha frente, Alois gemia baixo, em agonia. Abri meus olhos e percebi que o ambiente havia se tornado ainda mais pesado, o ar estava sufocante e escuro como se uma camada de poluição ou névoa cerrada tivesse surgido do nada. Balancei a cabeça, tentando dissipar aquela sensação opressora que o poder do Dimitri me causava mas logo perdi totalmente a consciência.
*******************************************************
Acordei no susto, gritos ecoavam pela sala, fazendo os cabelos da minha nuca se arrepiarem e eu, à muito custo, abri meus olhos vendo então que era Alois que gritava aterrorizado.
Eu era mantido na mesma posição, preso à cadeira e embora minha asma tivesse atingido um nível acima do qualquer outra crise, eu me sentia desperto.
Alois estava preso, suspenso por correntes que o mantinham deitado a um pouco mais de um metro do chão. Ele chorava, totalmente imobilizado e nu, amarrado com os braços e pernas afastados, totalmente exposto. Uma mordaça o impedia de falar e grossas lágrimas escorriam dos seus olhos avermelhados.
Lancei um olhar compassivo, ambos sabíamos o que iria acontecer mas quando a porta se abriu e um velho, alto e entre gordo e robusto, de cabelos claros e na altura dos ombros entrou na sala, vestindo apenas um roupão, Alois enlouqueceu, passou a gritar e espernear com todas as forças chorando a ponto de sufocar.
O homem sorriu, um sorriso meio torpe, faltando alguns dentes na boca e avançou sobre o loiro.
—Senti tanta falta de você — falou passando de modo rude as mãos grandes pelas coxas dele, apertando a ponto de afundar os dedos na pele branca. Alois gemeu de dor e lançou um olhar de ódio para o homem. Tenho certeza que ele teria xingado o outro se a tira de couro com uma bolinha que parecia ser de borracha não estivesse afundada na sua boca.
Ele continuou tocando, apertando e arranhando o Alois, ignorando todos os gemidos de dor e as tentativas de se esquivar. Alois ainda chorava, se engasgando com a saliva. Eu não sabia quem era aquele homem, isso fazia parte do terror íntimo do Alois, mas pela reação horrível que ele teve ao vê-lo, estava claro que o loiro o odiava com todas as forças. Pouco importava se era o homem mesmo ou se era o Dimitri, o terror era o mesmo.
—Tão bonito… nem parece aquele fedelho mendigo que eu salvei. Você se lembra? Estava tão deplorável naquela época… e ainda tentando vender esse corpo…- comentou, arrastando as unhas afundadas no peito do Alois, tirando sangue que escorreu pela pele branca e pingou no chão.
—Mas eu tive dó, tive misericórdia de um mendigo sujo e o salvei. O resgatei e dei um sentido na sua vida, Jim. Mas… — desceu os dedos grossos até o membro amarrado numa intrincada trama de nós e cordões e o apertou dolorosamente, fazendo com que Alois gritasse mais, tentando fechar as pernas — Você também me matou. Assim como fez com o seu irmão. Assassino traidor! Roubou meu nome, se fingindo meu filho. Meu filho jamais seria esse lixo que você é! Egoísta! Eu lhe dei casa e uma vida e você apenas teria que abrir essas pernas para mim. — O homem, ou melhor, Dimitri continuava apertando a glande arroxeada, fazendo Alois se contorcer em dor. Ele ria feliz, se comprazendo com a dor do garoto enquanto abria o roupão expondo o corpo feio com o membro desproporcionalmente grande.
—Agora eu vou te foder até você morrer, queridinho. Vou arrancar todo o sangue do seu corpo e então irei largar você no lixo, que é o seu lugar. Irei tomar a alma imunda que o outro desprezou. — falou sorrindo, se encaixando entre as pernas do garoto e empurrando o quadril pra frente. Mesmo amordaçado, Alois gritou alto, jogando a cabeça pra trás, apertando os dedos das mãos e contraindo os dos pés — as únicas partes com certa mobilidade que tinha. Fechei meus olhos, abaixando a cabeça, não queria ouvir nem ver aquilo, não queria ser testemunha daquilo.
Podia ouvir o barulho do corpo do Dimitri batendo rápido e seco contra o quadril do Alois, seguido sempre de gemidos altos de dor. E eu ali, sendo uma testemunha passiva e impotente daquilo. Mais uma vez via alguém ser torturado e estuprado na minha frente, numa cena muito semelhante, exceto pelos requintes sádicos, com o que eu passei e vivi naquele mês logo após o assassinato dos meus pais. Não percebi quando comecei a chorar, talvez eu estivesse chorando desde o começo, mas as lágrimas começaram a molhar minhas pernas.
—Geme tão gostoso… — ouvi Dimitri falar, gemendo enquanto estuprava Alois, os barulhos angustiantes aumentando, trinquei meus dentes.
—Ei, Ciel, olhe para cá. Assista esse lindo espetáculo… é tão excitante e prazeroso. Ouça como ele geme — e aumentou ainda mais a força pois os gemidos de dor de Alois aumentaram de volume — Olhe ou você será o próximo!! — ameaçou e eu, me vi erguendo o rosto e olhando a cena de terror.
Alois olhava para mim, um olhar de dor e constrangimento, meio perdido, como se quisesse fazer a mente alçar vôo e se distanciar do que estava acontecendo. O corpo estava vermelho, a pele clara agora cheia de hematomas e cortes por onde escorria sangue.
Dimitri, ainda na aparência daquele homem, voltou a olhar Alois.
—Oh… não está gostando? Não aprecia essa minha aparência? — falou segurando o queixo do garoto e o virando brusco para ele
— Prefere outra? Alguém que talvez ame? — riu sarcástico e a névoa violeta o envolveu. Quando se dissipou, um homem alto de cabelos negros e olhos amarelos estava ali. Dimitri havia assumido a aparência do Claude.
—Assim é bem melhor não? Quer que eu diga que o amo? — falou maldoso, diminuindo drasticamente a força das estocadas. Alois estava atônito olhando o que parecia ser Claude. Dimitri então se inclinou, lambendo os lábios do Alois, esticados pela mordaça, e soprou seu poder sobre ele. Pude ver a névoa entrar pelo nariz do garoto conforme ele respirava, o restante sendo absorvido pela pele como uma esponja. E ao fim do processo, Alois estava calmo, ainda olhando fixamente o “Claude”. E quando ele começou a se mover, os gemidos provocados já não eram de dor e sim de prazer.
Poderia dizer que era apenas efeito do poder daquele demônio que brincava e manipulava as sensações para provocar um prazer falso e forçado. Mas o olhar que Alois dava para Claude mostrava que ele havia sido totalmente subjugado, era um olhar de amor e paixão.
—Eu te amo, vossa alteza — Dimitri falou num outro tom, imagino que estava fazendo a voz do mordomo e Alois gemeu mais, manhoso e choroso.
—Isso… se entregue a minha, vossa alteza… me deixe ter tudo de você… — destilou viperino e então Alois gemeu mais alto, contorcendo o corpo que embora fosse maior que o meu, ainda era franzino.
Uma espécie de névoa branca e perolada escapava do corpo dele indo diretamente para a boca do Dimitri que a respirava fundo, sorvendo aquilo como se fosse uma iguaria de sabor inigualável. Aquilo foi demais para mim. Gritei, gritei muito alto. De ódio puro, revolta e sede de vingança. Senti algo se quebrando na minha mente, e meus pulmões queimaram como fogo.
Misturado ao meu grito, um grande barulho de algo se quebrando se juntou, não só me assustando mas também ao Dimitri que olhou para trás, vendo a porta da sala ser arrombada e por ela, Sebastian e Claude entrarem.
Fale com o autor