Desejos libertos
47 A luta
Notas iniciais
Pov Sebastian
Chegamos ao porto na metade da tarde, o dia estava tipicamente londrino, com uma névoa densa que semi encobria o sol, deixando ele apenas como um pequeno disco amarelo alaranjado pálido. Corri os olhos pelo píer de madeira úmida e escura que cedia um pouco sob o nosso peso, procurei o navio com a descrição dada. Aquele não era o porto principal, era pequeno e pouco frequentado, de modo que apenas eu e Claude éramos os únicos sobre a plataforma. Avistei a embarcação ao longe, do jeito idêntico ao descrito pelo visconde: branco, dourado e violeta, com as velas recolhidas.
Fiz um barulho com a boca, algo entre decidido ou apenas consciente de que seria uma luta árdua. Dimitri já era bem forte quando o enfrentei há um tempo atrás, tanto que os shinigamis tiveram que intervir para lutarmos em conjunto. Agora então tudo seria ainda mais difícil, Dimitri havia sugado muita energia vital de todos nos vários bailes que havia dado, isso, somado às almas que ele havia de fato consumido, com certeza contribuiu para o poder dele crescer exponencialmente. Embora eu não gostasse nem um pouco da ideia, talvez tivesse sido prudente chamar os ceifadores novamente mas agora era tarde demais. O mais importante era o bocchan e eu sabia que estava vivo, sentia isso, e não era apenas por causa da marca do contrato. Tinha que tirá-lo dali o mais rápido possível.
Caminhei a passos largos pelo píer em direção ao navio que estava um pouco afastado dos outros cerca de uns cinquenta metros e do ancoradouro, uns trezentos. Claude vinha ao meu lado, de certo modo era até razoável que ele estivesse aqui, pelo menos seria dois contra um. Isso se ele não resolvesse trair o combinado. Nunca se pode confiar em um demônio e eu definitivamente não confiava no Claude. Não depois que vi o modo com que ele olhava o bocchan durante o baile.
Depois de uma rápida procura, achei um bote preso numa das pilastras por uma grossa corda meio esverdeada pela umidade e algas.
— Solte aquelas amarras — falei para o Claude, apontando com a cabeça as amarras adiante enquanto eu me abaixava para desamarrar as mais próximas à proa.
— Por que eu deveria fazer isso? — falou arrogante, sequer dando um olhar para as amarras indicadas. Dei uma encarada mortal.
— Porque seu mestre está lá — apontei o navio — e o bocchan também e porque não sou seu criado para fazer coisas para você então, se não quiser ir à nado até o navio, é melhor ajudar.
— Sabia que você precisava de ajuda — provocou e aquilo foi o meu limite, me levantei e avancei sobre ele. Dei um soco no peito de Claude e o segurei pelo colarinho.
— Você não tem serventia nenhuma para mim, mas está aqui e quer algo que está no mesmo lugar do que eu também quero. Trate de se mover e fazer algo. — o soltei bruscamente e ele ajeitou o colarinho amassado e a gravata.
— Hunf — resmungou obviamente irritado e se abaixou para desamarrar.
Quando conseguimos embarcar no navio, esperava encontrar vários guardas, já que era um navio real ou até mesmo o próprio Dimitri, mas isso não aconteceu. Caminhamos com cautela mas sem medo algum, óbvio que nenhum humano seria páreo sequer para um demônio, quem diria para dois, mas o convés estava vazio, havia apenas três pessoas dentro da cabine de comando, eu logo dominei dois, os deixando inconscientes e me abaixei para amarrá-los para que não dessem mais problemas, não havia necessidade de matá-los já que praticamente não haviam resistido. Pelo jeito, Claude não fez o mesmo julgamento, pois quando voltei minha atenção para ele, o corpo do guarda estava estirado numa poça de sangue. Balancei a cabeça o recriminando silenciosamente, ele deu de ombros fazendo aquela expressão odiosa de que pouco ligava e eu tive que me segurar para não socar ele. De novo.
Avançamos no convés e conseguimos vencer com muita facilidade os poucos guardas que estavam no navio, descemos para os andares inferiores onde ficavam os alojamentos e por último, o porão.
“Tudo muito fácil para falar a verdade. Humanos e a sua presunção de serem fortes e invencíveis. Ou talvez alguma cilada do Dimitri” — bufei para mim mesmo.
O primeiro andar subterrâneo estava na semi escuridão e as paredes já não eram mais brancas e douradas como eram todas as construções reais, estas eram vermelha escuras e pretas, dando um ar sombrio ao local. Não que isso me incomodasse, o que me irritava mesmo era o cheiro do Dimitri empesteando tudo com aquele fedor doce demais. Procuramos em todas as portas do corredor, testando as fechaduras e abrindo-as, exceto por uma, senti uma presença humana ali, fortemente impregnada pelo poder do Dimitri, estava viva e forte, o que me deixou em alerta sobre ser alguma vítima estratégica ou especialmente importante que ele estivesse guardando para depois. Apurei meus sentidos tentando decifrar, embora o cheiro fosse familiar, não parecia a essência do bocchan. Olhei mais uma vez para a porta vermelho escuro pronto para arrombar e ver quem estava lá.
— Não são eles, você não consegue sequer reconhecer o cheiro do seu humano? — Claude estava a poucos passos de mim e me olhava duramente.
— Eu sei que não mas pode ser alguma vítima do Dimitri — falei forçando a porta. Se eu desse um chute seria fácil estourar a tranca.
Ouvi Claude rir me irritando ainda mais.
— Vai me dizer que vai salvar uma alma que nada tem a ver com você? — falou num tom jocoso — Que tipo de demônio você é? Se é que ainda é um demônio…
Rosnei para ele e caminhei, passando direto pelo outro. No final das contas ele tinha certa razão: não eram nenhum dos dois ali no quarto, não havia porque gastar tempo nisso quando tínhamos urgência em achar nossos amos.
Nenhuma das outras portas estava trancada mas também não tinha nada digno de nota. Estavam decorados mas vazios, sem presença humana ou demoníaca.
Descemos para o segundo andar, onde ficavam alguns cômodos destinados à criadagem e marinheiros; no fim, ficava uma grande porta dupla. Foi então que ouvi um som abafado, pareciam gritos porém pareciam muito longe. Olhei para o Claude, ele também havia ouvido. E ao mesmo tempo, como num acordo mudo, corremos silenciosamente pelo corredor rumo ao fim dele.
Paramos em frente à enorme e pesada porta, os gritos que vinham de lá eram horríveis o suficiente para aguçar os nossos instintos. Sabia que não eram do bocchan, mas sentia a dor e a agonia que ele estava sentindo. Empurrei Claude para o lado e chutei as portas maciças, fazendo voar lascas para todos os lados, meus olhos dançaram rápidos e ágeis da figura que era uma cópia do Claude para o bocchan.
Claude entrou logo depois de mim, voando furioso sobre o Dimitri, não falou nada, apenas o atacou com força e eu ouvi o barulho de ossos quebrando quando o demônio violeta caiu no chão. Olhei para o bocchan num outro canto, estava amarrado por correntes numa cadeira.
Não era ele quem estava sendo torturado, o que me trouxe um certo alívio, mas estava machucado: um lado do rosto estava todo inchado e coberto de hematomas de um preto arroxeado, o olho direito quase todo fechado de tão inchado e os lábios cortados, inchados e roxos. Senti a raiva crescer em mim e percebi que ia perdendo a forma humana, assumindo aos poucos características da minha verdadeira forma.
Andei em passos resolutos até o bocchan, minha mão queimando pela marca do contrato que brilhava como nunca tinha acontecido antes. A única coisa que eu pensava era salvá-lo, tirá-lo dali para um lugar seguro mas assim que cheguei perto e puxei as correntes, pronto para estourá-las ele me encarou com os olhos brilhando em fúria, a marca do contrato na íris cintilando tão ou mais intensamente que a da sua gêmea no dorso da minha mão.
—Agora que você resolveu aparecer?! — falou muito irritado e chiando pela asma — Rápido! Eu estou bem. Vá salvar o Alois.
Foi então que me virei para o garoto acorrentado no meio da sala, totalmente exposto que olhava assustado para os dois Claudes que se socavam no chão. Ele nem sequer percebeu quando eu me aproximei e comecei a desamarrá-lo, o cheiro de sangue e do poder do Dimitri estava sufocante nele e eu tinha certeza que se demorássemos um pouco mais, ele teria consumido a alma do loiro.
Passei os braços pelas costas marcadas e por trás dos joelhos, erguendo o corpo todo ferido e só então Alois notou a minha presença, começou a gritar e me chutar, me empurrando e esmurrando. Claude imediatamente prestou atenção no seu mestre e ganhou um soco no maxilar, ouvi o estalo de osso se partindo e Dimitri avançou nele segurando-o pela franja e batendo com força a cabeça no chão.
—Claudeee!!! Claudeee!!! — Alois gritou, a voz fina e estridente reverberando nos meus ouvidos, já que eu o mantinha junto de mim, tentando se jogar dos meus braços mas eu o segurei firme e o levei para perto do bocchan.
Ele ainda tentou fugir várias vezes, totalmente atordoado, nem sequer pude soltá-lo no chão para poder libertar o bocchan e então senti um golpe nas costas me impulsionando para frente, senti o frio das correntes de metal em torno do meu pescoço: Dimitri provavelmente tinha conseguido nocautear Claude e devia ter pego as correntes que haviam servido para prender o Alois. Soltei o loiro que engatinhou até a cadeira do bocchan, segurando nas suas pernas. Percebi quando bocchan olhou para mim e para o Dimitri atrás de mim que apertava torcendo as correntes numa tentativa de me estrangular e quebrar o pescoço, arregalou os olhos diante da cena e eu enfiei os dedos por baixo dos elos da corrente, puxando um pouco e aliviando o aperto no meu pescoço, conseguindo assim apoio para o golpe seguinte. Dobrei meu corpo para frente e puxei a corrente, lançando o demônio sobre minhas costas direto para o chão.
—Resolveu mudar de forma de novo? Você é tão volúvel, me dá asco essa sua cara — falei aproveitando para pisar com força no pescoço do Dimitri. Infelizmente o maldito estava bem mais forte e segurou no meu tornozelo, torcendo a articulação, pulei para o lado e ele se ajoelhou, parando alguns segundos com a mão no pescoço, tentando puxar o ar. Imbecil…nós não precisamos respirar, mas pelo jeito ele estava tão acostumado a passar por um humano comum que precisava recuperar o fôlego. Infelizmente eu havia me deixado cair nesse mesmo erro também, ou a corrente não haveria me machucado tanto.
Aproveitei que ele ainda não havia se posto de pé e mais uma vez avancei, dei um chute no rosto palidamente doentio, jogando Dimitri pra trás. Claude se juntou a mim e começamos a chutar com força o corpo do outro, jogando ele contra as paredes. Cada vez mais Dimitri ficava mais fraco e zonzo com as pancadas, principalmente porque não dávamos trégua e era essa a intenção: deixá-lo fraco o suficiente para que pudéssemos matá-lo. Por outro lado, bocchan e Alois precisavam de socorro médico urgentemente.
—Vá tirá-los daqui, eu dou um jeito e seguro ele. — falou um Claude despenteado e sangrando, pegando Dimitri pelos cabelos, erguendo com uma mão e golpeando o nariz com o punho fechado. O sangue de um vermelho tão profundo que podia ser confundido com negro espirrou para todos os lados e Dimitri gemeu de dor. Claude não parou para ver se ele desmaiaria ou não, continuou socando, deixando cada vez o nariz mais torto e achatado.
Corri para o bocchan e arrebentei as correntes e cordas que o prendiam, podia sentir a dor dele, olhei para o seu rosto: estava azulado, os lábios mais escuros pela falta de oxigênio. Eu tinha que tirá-lo daqui o mais rápido possível. Peguei o corpo franzino no colo, segurando-o com um braço como se segura um bebê e com o outro carregava o Alois, fisicamente ele parecia pior que o bocchan e mal conseguia ficar de pé. Levei ambos para o convés. Iria tirá-los daqui no bote e levá-los pelo menos até o píer. Depois voltaria para dar cabo da missão dada pelo meu mestre.
Havia acabado de subir as escadas novamente para o convés e quando menos esperava, vi uma grande mancha escura voar por cima das nossas cabeças e se chocar violentamente contra o mastro principal do navio, o barulho que acompanhou o choque era alto e estranho o suficiente para arrepiar os cabelos de qualquer um e eu não soube precisar se aquilo foi o som de ossos se quebrando ou da madeira se partindo, provavelmente os dois. Claude escorregou para o chão e ficou encolhido quase com o corpo dobrado em torno do mastro
Aquilo não era nada bom, na verdade era péssimo. Me apressei em puxar o bote para cima para poder colocar bocchan e o Alois dentro antes que aquele maldito aparecesse. Puxei apressadamente o bote pelas cordas que deslizavam pelas roldanas metálicas, deixando ele no mesmo nível do guarda-corpo da embarcação e coloquei ambos dentro. Bocchan já não conseguia falar direito, apenas ofegava de um jeito ruim, chiando cada vez que tentava puxar o ar e o Alois parecia que iria desmaiar a qualquer momento.
— Acha mesmo que vou deixar você roubar o que é meu? — ouvi a voz do Dimitri sair pela porta que dava acesso aos andares inferiores do navio e logo ele surgiu por ela, sangrando e visivelmente atordoado porém ainda relativamente firme em pé, se apoiando nas paredes e deixando marcas de sangue por todo lado.
—Nenhum deles é seu, maldito. Desapareça! — mandei, empurrando-o para longe, tentando ganhar tempo para entrar no bote. Por cima do ombro do Dimitri, vi Claude voltar a dar sinais de vida.
—Eu vou te matar!!! — Claude ameaçou com a voz rouca e gutural. Dimitri se virou para onde vinha a voz e deu uma risada.
—Você realmente é um idiota. Por que não permanece morto?? — Dimitri respondeu, caminhando calmo em direção de um Claude que tentava se pôr de pé. Não deu tempo dele se levantar e um chute no meio do peito o jogou de volta pro chão.
—Claude…. — Alois lamentou angustiado se jogando de volta para o convés, levando o bocchan junto já que este o segurava pelos trapos que ainda cobriam parcamente seu corpo agora marcado e machucado.
—Mate logo o Dimitri, Sebastian — ouvi o bocchan ofegar num fio de voz e assenti com a cabeça partindo para cima do outro demônio.
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