Notas iniciais
Oiee pessoas Obrigada para quem leu e comentou o último capítulo postado. Fiquei bem feliz, já que a fanfic estava parada há um tempão. Hoje eu tô bem desanimada mas né? Vida que segue. Espero que gostem do novo capítulo Nos vemos nas notas finais

POV Ciel

A luta que se seguiu foi extremamente violenta, pedaços das madeiras do convés e do guarda-corpos foram arrancadas e usadas como armas, isso quando os três deixavam as armas improvisadas de lado e utilizavam as mãos nuas, socando e rasgando roupas, pele e carne. Sebastian já não parecia tanto humano: os dentes estavam mais como presas pontiagudas e algo no rosto me causava arrepios nada bons, conseguia ver por relances, as unhas longas e afiadas como garras cortando ágeis o ar e o que mais estivesse pelo caminho. Entendia agora porque o Sebastian, podendo ter acesso a qualquer tipo de arma, todos esses anos optou por utilizar apenas facas de mesa, não era apenas porque se utilizava do disfarce de mordomo, ele realmente era letal com aquelas prolongações dos dedos.

Claude não estava também na sua melhor forma humana, algo nele remetia a insetos ou algo do tipo, aranhas talvez. Não era possível precisar exatamente as mudanças em cada um, pois a velocidade e violência da luta era muito acima de qualquer humano e, claro, minha consciência não estava das melhores. Através da névoa densa e escura que eu não saberia dizer se era do tempo fechado, alucinação ou se vinha dos demônios, era possível ver que os chutes potentes, cotoveladas, joelhadas, tudo era mirado nos pontos que seriam vitais em humanos. Neles, somente serviam para desnorteá-los e afastá-los.

Eu estava encolhido em um canto, tentando não ficar no caminho deles, mesmo assim por vezes respingava sangue de algum dos três demônios ou dos três ao mesmo tempo em mim, não tinha como saber. Lascas de madeira e pregos grossos às vezes voavam também pela potência dos golpes e tudo que eu podia fazer era me encolher mais e me proteger com os braços sobre a cabeça. Alois estava ao meu lado, agarrado em mim, um protegendo o outro. Ele ainda cheirava a sangue e ao Dimitri mas eu também não estava diferente, e sentia por vezes minha respiração falhar, precisava desesperadamente do medicamento para a asma, do contrário eu sentia que poderia desmaiar a qualquer momento, e talvez não voltasse.

Dimitri, num movimento tão rápido que nem sequer pude realmente acompanhar, se virou e voou em cima do Sebastian, o derrubou, começando uma sequência de socos no rosto e peito. Gritei mas minha voz falhou e saiu como um chiado rouco e fino. Tudo que eu queria era que aquele maldito morresse de uma vez por todas.

“Como infernos ele voltou?” — pensei com tanto ódio que era como se ele tivesse ouvido meus pensamentos, pois nessa hora Dimitri se virou para mim. Ele também estava muito ferido, seu rosto estava inchado e sangrando, o nariz estava torto e roxo, claramente quebrado, mas ele sorriu para mim e aquilo me fez arrepiar de terror e nojo.

Pelo menos isso serviu para o Sebastian se recuperar minimamente, jogou o Dimitri para o lado e voltaram a lutar.

—Eles não vão conseguir… — Alois murmurou ao meu lado, agarrado em mim.

Eu tinha muito medo de que ele tivesse razão, Dimitri sempre havia sido um demônio forte, eu me lembrava da vez em que ele se passou pelo Sebastian, precisou da ajuda dos shinigamis para conseguirem matá-lo e mesmo assim, não havia sido nem um pouco fácil. Agora, que ele havia absorvido os sentimentos e sensações de centenas de pessoas durantes as orgias e até mesmo consumido algumas almas, me parecia que era quase impossível vencê-lo.

E embora eu tivesse a mesma dúvida dele, eu falei o contrário:

_Claro que vão. O Sebastian é invencível. — falei sério e tomei uma decisão, puxei o ar várias vezes, num esforço enorme para conseguir encher o pulmão e manter a voz firme.

_SEBASTIAN! PARE DE BRINCAR E MATE O DIMITRI, É UMA ORDEM!!!- falei autoritário e vi imediatamente o Sebastian passar a dar socos mais potentes.

_Sim, milorde — falou um pouco ofegante, em seguida deu um soco no queixo do Dimitri, ouvi o som do osso se partindo e o demônio caiu.

—Você também Claude. Acabe com ele agora! — Alois falou, usando o mesmo tom sério que eu.

Imediatamente, o demônio obedeceu à ordem e a luta redobrou de velocidade e violência.

Por um momento tive a esperança de que tudo finalmente acabaria bem, o corpo do Dimitri somava danos demais para continuar existindo e se ele tivesse o coração lacerado ou danificado iria morrer de uma vez por todas, ou pelo menos por um tempo.

Mas foi então que tudo teve uma reviravolta.

— Parem imediatamente com isso! — a voz feminina e autoritária foi tão surpreendente que fez com que a luta parasse imediatamente. Todos olharam ao mesmo tempo para o mesmo ponto de onde vinha a voz.

Na proa do navio, a rainha Vitória estava de pé, apoiada numa bengala finamente adornada, a parte do cabo tendo a forma da cabeça de um galgo em prata. Havia poucos dias que eu a tinha visto porém ela parecia diferente, mais envelhecida que o normal. Algo havia acontecido.

— Majestade… — Dimitri se desvencilhou do Sebastian que olhou para mim, meu olhar foi rapidamente do Sebastian para o Dimitri e para a rainha que sorria amável.

“Como alguém pode sorrir diante dessa situação?” — pensei incomodado e puxei o ar com força tentando buscar fôlego.

— Majestade… — murmurei ofegante — Ele foi o causador de tudo isso… os bailes...as mortes… — expus a verdade tentando me levantar mas ela ergueu a mão, num sinal claro para eu parar.

— Chega disso, conde — falou ríspida — Esse jogo já está indo longe demais. É hora de pôr um ponto final.

—Um ponto final? — perguntei por instantes confuso, mas logo completei. — Era o que estávamos fazendo, majestade. Sebastian e…- ela não me deixou terminar.

—Não é no Dimitri que será dado o ponto final, conde. É em você! — o olhar que ela me lançou era congelante e eu me senti exatamente assim, congelado no lugar onde estava, sem entender o que estava acontecendo. Minha mente trabalhava à toda para tentar juntar as peças do porque da rainha estar protegendo aquele que ela me mandou exterminar. E pior: por que ela me queria morto??

Não havia motivos para isso, eu sempre fui fiel ao posto herdado de cão de guarda da rainha, sempre havia correspondido à todas as expectativas dela e solucionado os piores casos com a eficiência e discrição esperadas por um Phantomhive. Me sentia perdido e completamente abismado com tudo o que estava acontecendo. Talvez fosse porque ela havia descoberto sobre o contrato?

“Será que ela sabia que o Dimitri era um demônio? E nesse caso, será que sabia da natureza do Sebastian e do Claude?” — pensei.

— Majestade?? — balbuciei debilmente.

A monarca caminhou mais alguns passos e parou a meio caminho de mim e dos demônios.

— Não está entendendo nada, não é, meu jovem? — ela sorriu, mas eu não vi nada de bom ou caloroso ali. Ela tomou fôlego e bateu fracamente a bengala no chão de madeira.

—Eu vou te explicar exatamente porque você deve e vai morrer hoje — falou ainda sorrindo, à alguns passos dali, Dimitri se desvencilhava das mãos do Sebastian e Claude.

—Os Phantomhive são uma raça daninha difícil de ser exterminada — falou descendo os poucos degraus que separavam o local da proa onde ficava o leme da embarcação e caminhava em nossa direção, desviando dos destroços e me deixando estupefato.

—Por muitos anos, a coroa inglesa utilizou pessoas inteligentes e bem influentes para trabalhar para seu próprio interesse. Não é sempre que temos uma safra de homens e mulheres que atendam à esses requisitos e ainda sejam discretas o suficiente para agir nas sombras. Quando conheci o seu pai, sabia que estava diante de uma dessas pessoas. Vincent era um homem inteligente e cheio de contatos em todos os estratos da sociedade Embora fosse do meu conhecimento todas as sujeiras e coisas escusas em que ele estava metido, me era conveniente tê-lo perto de mim — continuou no mesmo tom duro e impessoal, franzi o cenho tentando entender porque ela estava ali, como tinha vindo parar ali e o que queria, mas ela continuou na mesma cadência.

— Eu, como monarca e até mesmo você, suponho, deve ter lido O príncipe, Maquiavel embora antigo, foi muito inteligente e continua atual. Sabe o que ele diz, não? — Ela me encarou como se eu fosse uma criança de cinco anos que estivesse tendo uma aula qualquer, era óbvio que eu já havia lido Maquiavel e sabia exatamente o ensinamento da obra citada “Mantenha seus amigos próximos e seus inimigos mais próximos ainda” — pensei .

— Mantenha seus amigos próximos e seus inimigos mais próximos ainda — ela repetiu meu pensamento e continuou:

— No início não sabia exatamente — falou e depois se corrigiu, afinal não é bom uma monarca admitir que não sabia de tudo — Eu não havia classificado seu pai como inimigo ou amigo, tinha apenas a certeza de que deveria mantê-lo por perto. Aos poucos, conforme sua influência aumentava eu tive certeza do que ele era e então o mantive em estreitas relações com a Coroa. Ele me foi fiel por muitos anos e demorou um pouco para eu abrir meus olhos e ver que ele estava metido com coisas além do que seria prudente. Não foram poucos os avisos que dei, e acredite, Vincent era inteligente o suficiente para entender cada mensagem nas entrelinhas, cada aviso dado. Mas ao invés de abaixar a cabeça e recuar como um bom cão ele rosnou para mim. O que se deve fazer, conde, se um cão rosna para o dono? — olhou para mim e eu tentei falar porém a voz morreu na garganta e não era apenas por conta da asma. Falar da minha família era um ponto doloroso, uma ferida que nunca cicatrizou e continuaria sangrando até o último dia da minha vida.

Ela deu uma pequena risada baixa que eu achei de deboche, porque justamente era isso.

—Eu realmente achei que me livrando de todos os Phantomhive seria o suficiente para me livrar do problema. Um fazendeiro nunca conta apenas com uma galinha e o Vincent era apenas mais uma no meu galinheiro. Confesso que foi difícil achar um grupo que aceitasse a oferta e olha que o dinheiro oferecido era o bastante para fazer quaisquer olhos cobiçosos brilharem. Mas Vincent Phantomhive era muito conhecido, tanto entre os nobres quanto entre os bandidos. Ninguém queria realmente se meter com ele, não por amor, mas porque o prestígio que havia adquirido entre os homens de bem e a fama entre os homens do submundo o haviam tornado uma pessoa quase intocável. Todos desconfiavam seriamente que ele estava envolvido com coisas além desse mundo mortal e você sabe exatamente de quem eu estou falando — ela meneou a cabeça como se lembrasse de algo entre engraçado e deprimente, meu coração doía em ouvir aquilo e eu vi pelo canto do olho que Sebastian havia finalmente se afastado do Dimitri, vindo para o meu lado. Claude ainda se mantinha caído no chão, sentado com as costas apoiadas na amurada do navio, o lábio inchado e partido com um grosso filete de sangue escorrendo pelo queixo. Dimitri estava de pé mantendo um sorriso ferino e vitorioso no rosto disforme.

— Minha sorte foi que eu sou uma pessoa teimosa e depois de uma busca mais minuciosa consegui as pessoas certas. Eu ainda me lembro daquela noite, haveria uma festa na mansão Phantomhive e era a chance perfeita para eles agirem… — a rainha andava com calma, olhando para cada um dos presentes, todos paralisados olhando a idosa caminhar com a ajuda da bengala de cabo de prata, fazendo o seu discurso odioso. Minha cabeça girava com tudo o que ela falava. Então… então…. era ela quem havia feito aquilo?

— Era o seu aniversário não era, conde? — ela fixou os olhos em mim e eu a encarei com raiva. Algo dentro de mim estava em ebulição, meu coração parecia explodir e minha cabeça estava em looping por tudo o que estava acontecendo. Óbvio que eu estava com muita raiva e certa parte de mim não queria acreditar no que ela estava dizendo. Mas aquilo era uma confissão, não de alguém arrependido mas de alguém que se sentia superior e tinha a certeza de que nenhuma testemunha sobreviveria para criar problemas.

Ela balançou a cabeça, negando algum pensamento que permaneceu secreto. Parou na minha frente e me encarou.

—Pena que alguém tinha que escapar.

Ergui meu rosto, sustentando o seu olhar, eu não abaixo a cabeça para ninguém e ela não seria a primeira, não quando estava revelando o pior momento da minha vida.

— Se é assim, por que devolveu meu título? Por que me ofereceu o posto antes ocupado pelo meu pai?

— Ora... não é claro isso? Porque se eu não devolvesse, chamaria mais a atenção para algo que eu preferia que estivesse bem enterrado — ela piscou os olhos azuis claros — Tive que devolver seu título, isso depois de fazê-lo esperar mais do que o normal e no final das contas estava bem curiosa para saber como alguém como você: fraco, mimado e amedrontado, havia escapado ileso. Então quando apareceu na capital, reivindicando seu título e seus bens, não tive alternativa a não ser te dar o que era devido e de quebra mantê-lo perto de mim. Ora, conde, esqueceu o que eu acabei de dizer? Eu aprendi muito bem as lições dadas e se mantinha seu pai por perto, por que não fazer o mesmo com o filho dele, ainda mais por ter escapado e surgido do nada acompanhado de um homem misterioso se dizendo mordomo mas que nunca teve registro nenhum antes daquele ano? — A rainha sorriu e meneou a cabeça, orgulhosa de si mesma, mas eu não estava satisfeito, agora eu saberia toda a verdade, até a última gota.

— Se é assim por que me mandar investigar o Dimitri? Qual a participação dele nisso? — me levantei, a raiva me dava uma força que eu sequer me imaginava detentor.

Dessa vez quem respondeu não foi monarca mas sim o monstro disforme.

— Tem toda essa aparência de muito inteligente e perspicaz, Ciel — Dimitri falou, usando de uma intimidade odiosa comigo e eu mostrei como o odiava com o olhar frio e cortante que lhe lancei mas ele apenas riu divertido como se tudo ali não passasse de uma apresentação de circo — Eu disse que eu voltaria, disse também que você seria meu. Não menti quanto a isso. Porém seu demônio usou de meios baixos para tentar me eliminar — dessa vez ele voltou os olhos para o Sebastian que havia se postado ao meu lado, Alois aos poucos ia para perto do Claude, se apoiando na amurada e caminhando devagar. Sendo ignorado pelos presentes e alheio à conversa.

— Você é uma vergonha para todos da nossa espécie. Vocês dois na verdade — Dimitri olhou de relance para o Claude que parecia estar se recuperando e voltou a fixar a atenção no Sebastian — Você é ainda pior, acha que um demônio pode amar? Você não pode. Você é incapaz disso e mesmo que tenha traído sua espécie da pior forma possível, se aliando a Shinigamis — fez uma expressão de nojo — Eu voltei para te mostrar que vocês não têm chance comigo. Me aliei com a representante maior do seu país, com a rainha da potência mundial e lhe dei o que ela mais queria, em troca — ele sorriu com os cacos de dentes ensanguentados à mostra — Eu teria todas as almas que eu pudesse consumir até que estivesse forte o suficiente para ter aquela que eu mais desejo.

Dimitri olhou diretamente para mim e eu inconscientemente segurei no braço do Sebastian.

— Sim, você mesmo meu pequeno e delicioso Ciel. Sua alma será roubada e eu me deliciarei com ela logo depois que exterminar esse seu demônio. E de quebra, irei ter aquela — apontou com um meneio de cabeça, para o Alois que se encolheu ante a menção — Como sobremesa.

_ Você é deplorável — Sebastian se adiantou — Nunca terá nenhuma delas, nem hoje nem nunca. Irei matar você outra vez e dessa vez para sempre!

Dimitri riu a plenos pulmões tossindo sangue negro e fétido que escorreu pelo queixo.

— Você sabe que isso é uma mentira. Não podemos ser mortos….

— Não ousem causar mais mal a ele — a rainha se adiantou e ficou na frente do Dimitri. Só então percebi que ela tinha uma espada presa à cintura, a qual tirou ainda na bainha e entregou ao outro.

— Fiz minha parte no acordo. Faça a sua agora. Me dê o meu amado John.

Dimitri se abaixou, apoiando um joelho no chão e estendeu a mão ferida, com o mindinho nitidamente quebrado, pendendo mole na mão, para a monarca. Os olhos dela brilhavam como se o que estivesse na frente dela não fosse um demônio todo desfigurado e completamente ferido, mas algo belo e perfeito. Ela estendeu a mão de dedos enrugados onde podia se ver os vários anéis de ouro e pedras preciosas, estranhamente ela não estava usando luvas.

Dimitri segurou a mão da rainha, beijando a palma, deixando um pouco daquela gosma que era o seu sangue manchar a mão pálida da mulher e escorrer entre os dedos.

—Sua vontade é a minha, Vitória querida. — falou malicioso e se ergueu.

Olhei aterrorizado enquanto via Dimitri enlaçar a cintura rotunda da rainha e se inclinar, selando os lábios partidos nos dela, num beijo que eu não poderia classificar em nada menos que nojento. A névoa violeta tomou conta envolvendo os dois e se impregnando nela.

Minha expressão devia ser semelhante aos outros ali presentes, pois todos olhavam Dimitri beijando a rainha com a mesma expressão de surpresa e asco, todos paralisados.

Então o demônio violeta se afastou centímetros e a rainha entreabriu os olhos, sorrindo radiante a despeito do rosto todo sujo e grudento do sangue dele. Ergueu a mão, acariciando o rosto do Dimitri.

—John… meu querido… há quanto tempo…- murmurou chorosa e apaixonada. Então eu entendi tudo. Dimitri estava causando algum tipo de alucinação, com toda certeza a rainha via ali o marido morto há tantos anos.

Dimitri sorriu, uma cena horrível de se ver mas na alucinação dela deveria ser o marido sorrindo pois ela o olhava radiante.

—Eu voltei, meu amor. Agora para sempre. Porém… — fez uma pausa dramática e continuou — Você sabe, eles têm que morrer, para que eu possa ficar — chantageou fazendo um biquinho no que foram lábios algum dia.

A rainha balançou a cabeça soltando os ombros do Dimitri.

—Faça o que tem que fazer. Mas volte para mim, meu amor.

Dimitri estava extremamente feliz, podia ver pela expressão animada no rosto destruído, pegou a espada que a rainha havia dado a ele e a desembainhou. Me contraí no lugar, todos os sentidos gritando em alarme do perigo iminente. Dimitri olhou para Claude e dele para Sebastian.

— Sua vez chegou. Se despeça do seu demônio, Ciel. Pois vou acabar com ele na sua frente e depois aquele lixo ali. Então irei brincar com os brinquedinhos dos perdedores — falou convencido e partiu em minha direção.

—Sebastian… — murmurei com medo.

—Se afaste, bocchan. — Sebastian falou sério e me empurrou com pouca força. Caí em cima de um rolo enorme de cordas, o que amorteceu o impacto. Me virei no mesmo instante para ver o que aconteceria, meu coração estava apertado.

Dimitri correu os últimos passos segurando a espada em riste, os olhos inflamados de ódio, praticamente espumando sangue negro no sorriso caquético e diabólico que sustentava no rosto. Sebastian se mantinha parado, esperando o ataque, a expressão muito séria, toda a atenção concentrada no ser que vinha em sua direção, seu olhar vermelho fixo no outro, segurava um pedaço de madeira, cerca de uns cinquenta centímetros, afiado na extremidade pelas lascas partidas.

Na minha percepção tudo aconteceu em câmera lenta porém deve ter levado apenas alguns segundos. Pelas costas do Dimitri, vi Claude se erguer pegando um outro pedaço de madeira erguendo sobre a cabeça pronto para atacar e fincar a estaca nas costas dele. Sorri um pouco, certo de que seria um golpe certeiro, na minha cabeça tudo estaria certo: Claude daria o primeiro golpe transpassando o coração e então o Sebastian daria o golpe final. Estaríamos a salvo e voltaríamos para casa. Mas eu estava redondamente enganado.

Segundos antes da ponta afiada se enterrar nas costas do demônio, Dimitri se virou, arregalou os olhos em surpresa e por instinto empurrou Claude com a mão livre, fazendo-o se afastar alguns passos.

—Miserável!! — exclamou furioso e atacou Claude com a espada.

Um grito estridente ecoou pelo navio e morreu segundos depois.

Olhei aterrorizado a espada atravessando as costas do Alois, mantendo-o preso no corpo do Claude, ambos atravessados pela longa lâmina. Não consegui emitir som algum, mas minhas mãos agarraram com força a grossa corda úmida, como se aquilo pudesse me manter nesse mundo pois eu sentia que iria desmaiar a qualquer momento.

A surpresa do que havia acabado de acontecer havia pego todos, exceto Sebastian. Dimitri que havia largado a lâmina ao invés de puxá-la através do Claude e Alois, deu alguns passos atrás, olhando ambos naquele estado e foi então que Sebastian atacou. Não sei exatamente em que momento Sebastian havia pego o remo do bote e avançou rápido demais para qualquer defesa, ergueu o remo por sobre o ombro como se fosse um taco de críquete e golpeou a lateral da cabeça do Dimitri com tanta força que ouvi a madeira e mais coisas se partindo. A cabeça voou pelos céus caindo no meio do oceano e o corpo do Dimitri caiu de joelhos antes de tombar de vez para frente, mesmo assim Sebastian golpeou as costas dele com o que havia restado do remo, transpassando-o na altura do coração.

Foi então que nossa atenção foi chamada para os dois outros.

— Vossa majestade?! Por que fez isso?? — Claude perguntou, visivelmente sem entender porque seu mestre havia feito aquilo. O sangue do Alois começou a escorrer pelas costas nuas, manchando tudo conforme descia pelas nádegas e coxas.

— Ele ia te matar, eu não podia deixar isso acontecer — a voz do Alois tremia um pouco e ele tossiu um pouco de sangue porém não parou de falar.

— Mas eu cheguei tarde, se eu tivesse sido um pouco mais rápido teria te empurrado e então você estaria salvo… — falou com dificuldade.

—Você teria me amado se eu tivesse conseguido te salvar, Claude. Teria? — perguntou esperançoso. Alois apertava quase sem força o que restou do smoking do Claude, via-se que era um grande esforço para ele se manter vivo mas olhava com tanta intensidade e amor para o outro que partia meu coração.

—Me diz, Claude… você teria… me amado… se eu… tivesse te salvado? — murmurou insistindo, mais sangue escorria, a hemorragia interna fazendo o sangue verter copioso tanto do ferimento mortal como da boca.

Claude se mantinha estático, quase que se podia ver o esforço que a mente fazia tentando entender a motivação para aquele ato. Então ele sorriu de leve, os dentes manchados pelo sangue que vertia dele também. Ambos feridos de morte. Tocou a bochecha e os cabelos loiros e Alois se aninhou naquele pequeno gesto de carinho.

—Eu teria, vossa majestade. Eu teria sim… — falou e eu não soube dizer se tinha dito isso de verdade ou era apenas uma mentira.

Mas para o Alois aquilo foi como água para quem está morrendo de sede no deserto.

—Eu queria ter sido capaz. Assim você me amaria — confessou triste e a cabeça vacilou, quase fechando os olhos. Mas ele voltou a fixar os olhos no Claude.

—Eu queria ter sido amado por você… — falou num fio de voz — Ter ouvido você me chamar pelo meu nome…

— Eu te amo, Jim… — os dedos longos do Claude acariciaram os lábios ensanguentados e Alois sorriu, verdadeiramente feliz. Seus olhos brilharam no último sopro de vida e ele deitou a cabeça no peito do Claude, fechando os olhos pela última vez.

Eu queria ter ido até ele, tirado Alois dali porém estava paralisado: pelo terror, pela doença, pela exaustão. Corri os olhos pelo convés destruído: Claude caído, semi deitado com as costas apoiadas num barril, Alois sobre seu peito, ambos conectados pela espada, rodeados pelo sangue de ambos, o corpo decapitado do Dimitri a poucos metros dos dois, o sangue negro manchando a madeira. Mais à frente a rainha Vitória estava caída. Talvez estivesse morta também, pensei comigo mesmo e como se fosse por telepatia, Sebastian se aproximou da monarca, se abaixou e levou dois dedos à jugular. Olhei para ele apreensivo mas ele me encarou e se afastou.

_ Está apenas desmaiada. Provavelmente o choque gerado pelo corte abrupto da ligação entre ela e o Dimitri foi forte demais. A mente não suportou e ela perdeu os sentidos — Explicou enquanto vinha na minha direção e se ajoelhava na minha frente.

Sebastian passou os dedos pela minha testa, afastando a minha franja úmida de suor do meu rosto.

—Vamos embora daqui — falou e eu estendi os braços para ele.

— Jim Machen, também conhecido como Alois Trancy, nascido em cinco de novembro de mil oitocentos e setenta e quatro, morto em dezessete de outubro de mil oitocentos e oitenta e nove. Causa da morte: hemorragia interna por ferimento dilacerante de arma branca.

Sebastian estava quase me erguendo no colo quando ouvimos a voz masculina clara e séria se quebrar o silêncio. Erguemos a cabeça em direção da voz familiar e vi Will em pé como um poste sobre a verga do mastro principal, ditava em voz alta o que provavelmente estava escrevendo na folha.

Will fechou o livro e ajeitou os óculos quadrados antes de se lançar no ar, caindo elegantemente no convés, bem próximos de nós.

—Agora é a sua vez, demônio — falou sacando sua death scythe, estalando ela conforme abria e fechava a garra.

—Ah… mas não vai mesmo — meu tom de voz era cansado e irritado.

Sebastian bufou sem paciência nenhuma e já ia me devolver para o chão quando Undertaker surgiu.

“Mas que diabos está acontecendo aqui?” — pensei já no meu limite, de paciência e saúde.

—Melhor deixar, conde. Veja o que aconteceu com o seu amigo hihihi — Undertaker estava sentado na amurada do navio, a parte que não tinha sido destruída, balançando os pés como se estivesse se divertindo, as mãos pendiam entre as pernas, encobertas pelas longas e negras mangas do costumeiro manto que usava.

Fechei a expressão.

—Isso não vai acontecer — respondi baixo e ofegante, cambaleei e Sebastian se apressou em me pegar no colo, deixei minha cabeça repousar no ombro dele.

—Mas deveria — insistiu — Embora eu ache que sua alma já não tem mais salvação.

—Minha alma já não tem mais salvação há muito tempo, Undertaker. Só você ainda não viu. Vamos, Sebastian, me tire daqui antes que eles resolvam me levar.

Sebastian deu uma meia volta, dando as costas para os shinigamis.

—Ninguém morre antes da hora, meu jovem. — Undertaker pulou da amurada, vindo na nossa direção. — E mesmo que tenha tomado essa decisão hoje, nada é definitivo e algum dia sua alma pode ser resgatada — falou estranhamente sério.

—Veja só… — continuou e deu um passo para o lado. Will estava perto dos corpos do Claude e Alois, anotando mais coisas no livro, conseguia ver como ele escrevia rápido e aparentemente com raiva.

— Odeio demônios. Até na morte essas desgraças me dão trabalho! — exclamou com raiva — Pronto! Vou embora antes que tenha que fazer mais hora extra — completou fechando o livro.

Franzi o cenho, Will estava recolhendo a alma do Claude? Como?

—Mas… demônios não têm alma … — comentei sentindo Sebastian se contrair minimamente.

Undertaker riu, satisfeito pela minha expressão confusa.

— Não tem, não é? Isso é o que todos pensam, pois quando alguém se torna demônio, sua alma se perde em sua quase totalidade. Aprenda, pequeno conde. Não é todo dia que você vê o que aconteceu aqui — ele estendeu o indicador, a longa unha quase tocando meu rosto, Sebastian se afastou, me levando junto.

—Então… Claude não era um demônio então? — murmurei.

—Era. Mas você não sabe o poder do amor? — riu mais, fazendo um grande arco com os braços, quase gargalhando, nitidamente tirando sarro do sentimento citado

— Um sacrifício de amor verdadeiro, faz milagres. Nesse caso — estendeu a mão aberta em direção aos dois corpos, tomando um ar professoral — O poder do sentimento que o Alois tinha pelo Claude e seu sacrifício foram fortes o suficiente para quebrar digamos...a maldição — Undertaker fez aspas com os dedos no ar — E então uma nova chance foi dada ao Claude. Agora ele não é mais um demônio e daqui a alguns anos provavelmente irá se encontrar com o Alois.

— Isso é tão... absurdo…- comentei ofegante, apertei a roupa do Sebastian, na ânsia por respirar e ele se adiantou para o bote.

Pensar que poderia haver outra vida, e que seríamos obrigados a passar por tudo novamente me pareceu muita crueldade desse tal Deus. Era algo realmente injusto nos impor isso. Mas esse Deus provavelmente não existia, era algo somente criado para dar uma esperança sem provas nem nada de concreto para as pessoas fracas. E como haviam seres fracos e crédulos nesse mundo.

Fiquei pensando que se fosse verdade , quantas vidas eu teria vivido? Será que em alguma delas eu teria tido minha família comigo por muito tempo? Será que eu teria encontrado o Sebastian?

Undertaker estava esse tempo todo sorrindo por trás daquela franja longa e prateada dele.

— Tão absurdo quanto acreditar que três demônios travaram uma batalha até a morte num navio da coroa inglesa.

_ Há muitas coisas absurdas acontecendo nesse mundo, pequeno conde. E incrivelmente muitas delas ocorrem ao seu redor. Pense no que eu disse e em breve nos veremos… — falou misterioso e virou as costas.

Queria ter falado mais com ele, interrogado o que ele queria dizer com “em breve nos veremos” mas tive um acesso violento de tosse e Sebastian que esteve estranhamente calado durante toda a conversa com os shinigamis, se apressou em me pôr no bote salva-vidas. Pulou para dentro em seguida e percebi quando ele lançou um olhar duro e frio para o shinigami mais velho antes de começar a puxar a corda, fazendo-a girar na roldana e o barquinho começar a descer até pousar na água.

Me enrosquei em um canto do bote e olhei para o Sebastian vendo ele mover os remos na água, quase não fazia barulho quando as extremidades mergulhavam, mas eu podia ouvir as marolas arrebentando contra o casco da embarcação, fazendo esta balançar suavemente.

A febre me queimava por dentro e a tosse aumentava ainda. Vi quando Sebastian me encarou preocupado. Ele estava ferido, o rosto bonito cortado no supercílio, escorrendo sangue pela maçã do rosto e bochecha.

_Aguente firme, bocchan… — falou preocupado, acelerando as remadas.

_Resolveu falar? — perguntei tentando dar um sorriso para tranquilizá-lo mas já não tinha tantas forças então deve ter saído apenas um esgar de lábios — Por que esteve tão calado?

_Estou preocupado apenas. Aconteceram muitas coisas hoje e o principal sempre foi te tirar dali o mais rápido possível. Veja agora, já estamos no final da tarde e ainda não aportamos — falou olhando para o horizonte.

Foi nessa hora que eu percebi que havia algo mais. Tentei me sentar.

_O que foi? Você está estranho — a fraqueza me impediu de sentar e eu voltei a deixar meu corpo pender para o assoalho do bote, encostei a cabeça no banco que nada mais era do que uma tábua presa em ambos os lados do mesmo.

_Só quero te levar para casa o mais rápido possível.

_Eu estou bem agora — menti e como se fosse um castigo, tive um acesso de tosse terrível, meu corpo convulsionou e eu olhei para o Sebastian, desesperado por ar.

Ele se adiantou, largando os remos erguidos para não perdê-los e me segurou nos braços. Quando a tosse cessou e eu puxei o ar, ele não veio, segurei com força a camisa do Sebastian e ofeguei.

A última coisa que eu me lembro foi de ver o medo nos olhos do demônio, logo depois minha vista escureceu e eu desmaiei.

Notas finais
E então? O que acharam? Capítulo tenso e triste né? Eu sofri muito escrevendo ele, mas era necessário. Beijos beijos