Desejos libertos
24 A revelação
Notas iniciais
Diário de Ciel Phantomhive
Eu não estou conseguindo dormir de jeito nenhum. Então resolvi escrever um pouco para ver se o sono vem.
Um monte de perguntas ficam martelando na minha cabeça e eu estou aqui, escrevendo escondido no meio da noite, espero que o Sebastian não descubra que eu não estou dormindo, não quero que ele fique bravo comigo.
Eu ainda estou tentando entender um monte de coisas. Tudo parece diferente…
Eu preciso de respostas. Preciso delas.
POV Sebastian.
Preparei o café da manhã do Jovem amo e subi para acordá-lo. Entrei de mansinho no quarto e ele parecia um montinho debaixo das cobertas, dormia de lado, abraçado com um travesseiro. Parecia feliz no seu sono.
Foi inevitável não lembrar das noites que dormíamos juntos. Por essas horas em um dia normal, muito provavelmente, eu o estaria acordando com beijos. Mas isso era passado.
Eu queria muito que ele recuperasse a memória, se lembrasse de nós dois...Eu estou morto de saudade do meu pequeno amante mas isso significava ele lembrar de tudo pelo que passou: todo o sofrimento e dor. Como um demônio, eu aprecio o ódio e o desejo de vingança que ele nutria — era um tempero maravilhoso na sua alma pura. Mas agora, que nós somos mais do que mestre e serviçal, pensar nele sofrendo — mesmo que sejam apenas lembranças — tudo de novo… não sei se quero isso. Talvez o Dimitri tivesse razão, eu não pareço mais tanto assim um dêmonio.
Voltei à realidade e abri as cortinas da janela deixando a claridade entrar pela vidraça.
_Jovem amo? Acorde — chamei suave.
Ele acordou, coçando os olhos e se espreguiçando como um gato.
_Bom dia — cumprimentei.
_Bom dia — respondeu com a vozinha sonolenta.
Ele se sentou na cama e deixou que eu o trocasse. Descemos para que tomasse o desjejum na sala de jantar.
Estava estranhamente quieto. Não falou nada. Talvez ainda estivesse com vergonha do episódio do doce na noite passada.
Puxei a cadeira para que ele se sentasse, depois ajustei a distância entre ele e a mesa. Coloquei o chá na xícara e a depositei na sua frente.
_Quer bolo ou torta salgada? — perguntei, tinha quase certeza que ele escolheria o bolo mas ele me surpreendeu.
_Nada.
Inclinei levemente a cabeça para o lado, achei que não tinha ouvido direito.
“O bocchan recusando comida, ainda mais doce?”
_Como?
_Não quero comer nada.
_Tsc. Tem que comer alguma coisa. A primeira refeição do dia é a mais importante — comentei.
Estava com uma expressão séria — fazia tempo que eu não o via sério assim, parecia um pouco o antigo — mas quando ergueu os olhos para mim, pude ver que estavam meio lacrimosos, como se estivesse tentando segurar o choro.
“O que aconteceu para ele estar quase chorando? Não podia ser ainda por ontem…” — pensei. Resolvi falar com um tom mais calmo.
_Olha, se for por causa de ontem. Tudo bem, eu já preparei outro creme.
_Não é nada disso!
_Então coma.
Ele cerrou os punhos.
_Não vou comer nada até você me dizer onde estão os meus pais.
_Jovem amo… — respirei fundo — Melhor deixar isso para depois. Depois do café da manhã talvez.
Eu via que ele fazia força para não chorar.
_Chega, Sebastian — sua voz saiu tremida e mais alta que o normal — Não tem depois, você só me enrola.
_Jovem amo… agora não é a melhor hora.
_É sim. Essa é uma ótima hora.
_Jovem amo…
Ele não deixou que eu terminasse.
_Sebastian?
_Sim.
_Você é o meu empregado? — perguntou e, embora eu percebesse que sua voz não estava normal, pude ver uma sombra do tom arrogante do antigo bocchan ali.
_É claro que sou — respondi abaixando os meus olhos.
Ele fechou os olhos por um momento.
_Então eu quero que me diga onde estão os meus pais. Não quero desculpas. Não minta para mim. Isso é uma ordem!
Ele disse…
Ele me deu uma ordem.
Eu não poderia escapar de respondê-lo.
_O senhor se lembrou de alguma coisa? — perguntei — “Será que ele está voltando?”
_É claro que não lembro de nada. É por isso que eu estou pedindo que me conte. Vou ter que mandar?
“Ah, então ele me ordenou por intuição”.
_Sim, milorde — levei minha mão do contrato ao meu peito, respirei fundo — Seus pais estão mortos.
Sim, eu sei que fui bruto. Talvez não devesse ter dito assim, de modo tão direto. Mas fiz, e depois que as palavras saem da boca não tem como segurá-las.
O Jovem amo entrou em choque, arregalou os olhos e abriu a boca, ficou pálido e eu pensei que fosse desmaiar.
_O quê????
Dei um passo à frente ficando ao seu lado.
_Morreram, Jovem amo. Faz um tempo — abrandei minha voz, humanos são muito sensíveis à morte de parentes e eu sei o quanto ele sofre pela morte dos pais.
_Quando? — ele ainda fazia força para não chorar.
_Três anos. Morreram na noite do seu aniversário de dez anos.
Ele me olhou em confusão, tentando entender.
_Mas é a última lembrança que eu tenho…
_ Acredito que você se lembre da manhã do dia mas não do resto.
Agora as lágrimas desciam pelo rosto pequeno e pálido. Ele passou o dorso da mão tentando secá-las.
_Como morreram?
Ergui um pouco as mãos, tentando acalmá-lo, pelo subir e descer do peito eu via que à qualquer hora ele iria irromper num choro convulsivo.
_Jovem amo… é melhor...deixar…. Para que você quer saber? Já foi. Não tem como mudar nada.
_Eu quero saber, Sebastian. Me responda.
Como eu ia dizer que os pais e todos na casa haviam sido mortos? Que a mansão foi queimada e que ele foi capturado, vendido e torturado por um mês inteiro? E que quase foi sacrificado, só escapando porque fez um contrato com um demônio? Era informação demais.
_Me diga, Sebastian — bateu o punho fechado na mesa.
_Assassinados.
Agora eu tinha certeza que ele desmaiaria. Mas não. Acho que estava chocado demais até para isso.
_Mas quem? Nós não tínhamos inimigos.
“Tinham sim, muito, você que não sabia porque era uma criança. Tinham e você ainda tem” — pensei.
_Não sei. Ninguém sabe.
Ele começou a soluçar, dobrou os braços sobre a mesa e escondeu a cabeça ali, deixando o choro tomar conta. Pousei suavemente a mão nas suas costas, não havia o que fazer, agora era deixar a represa secar.
Mas logo ele levantou o rosto, estava vermelho e o nariz começava a escorrer. Quis muito abraçá-lo.
_Me conte tudo o que aconteceu — seu rosto estava destruído pelo choro mas sua voz estava mais firme.
Balancei levemente a cabeça.
_Eu não sei direito o que aconteceu. Não trabalhava aqui ainda.
_Mas eu sei. E vou contar.
A voz nos surpreendeu, olhamos juntos para a porta da sala de jantar e vimos o Tanaka na sua forma adulta parado na porta. Parecia muito sério e triste.
_Tanaka — falei o nome do antigo mordomo — Creio que…
_Ele é um Phantomhive. E merece saber o que houve — falou olhando para mim, depois desviou os olhos que se fixaram no Jovem amo — Eu estava aqui naquela noite, Jovem amo, e fui o único empregado que sobreviveu ao que aconteceu.
_Me conte então, Tanaka.
O senhor fez uma pequena mesura e se aproximou da mesa, dei alguns passos para o lado, dando espaço.
O antigo mordomo limpou a garganta e quando começou a falar, sua voz saiu calma e cheia de pesar por ter que relembrar aqueles acontecimentos.
_Foi um ataque certeiro: rápido e fatal. Como era um dia de festa, havia grande movimentação de pessoas, gente entregando os ingredientes para o jantar, bebidas, flores, a decoração…
Lembrando agora, eles só podem ter se infiltrado entre os entregadores. Eram assassinos especializados, não estavam interessados em roubar, queriam eliminar os Phantomhives.
A casa estava toda arrumada e logo os convidados iriam começar a chegar. Eu estava na sala de jantar, terminando de arrumar o conjunto de louça nova sobre a mesa quando ouvi barulhos de tiros e gritos na cozinha, corri até lá e a cozinheira e a copeira estavam mortas, não vi os assassinos. Pensei num primeiro momento que fossem assaltantes.
Subi para avisar o senhor Vincent, mas quando cheguei ao quarto vi a senhora Rachel estendida no chão numa poça de sangue. Eu toquei o pulso para verificar os batimentos, infelizmente ela já estava morta – O rosto de Tanaka estava contraído em dor pelas lembranças — não havia mais ninguém no quarto e eu saí em busca do senhor Vincent, o encontrei num outro quarto, estava numa poltrona, chamei-o, alertando-o para o perigo mas ele não se moveu e quando eu me aproximei e virei a poltrona vi que tinha um ferimento de tiro no peito. Ainda estava vivo mas respirava com muita dificuldade, fiz menção de tirá-lo da poltrona — ele precisava ir ao hospital com urgência. Achei que estava desacordado mas quando segurei no seu braço para erguê-lo no colo ele abriu os olhos. Chamei-o pelo nome, ele parecia confuso é claro, estava perdendo muito sangue, perguntei quem havia feito aquilo mas ele negou com a cabeça, disse num sopro de voz que aquilo não tinha mais importância. Falei que ia levá-lo ao hospital, então vi um vulto sair das sombras, era um homem armado com uma lâmina. O senhor Vincent se alarmou.
Nesse momento Tanaka parou a narrativa. Eu mesmo não sabia de todos os pormenores daquela noite. Tanto eu quanto o Jovem amo ouvíamos atentos, eu olhando para o Tanaka e o Jovem amo olhando para as próprias mãos. Quando ele parou de falar, a vozinha do garoto se fez ouvir.
_E então Tanaka? O que aconteceu? Se meu pai estava vivo, porque ele não sobreviveu?
O idoso respirou fundo mais uma vez. Era notório que estava sofrendo.
_O homem se aproximou e eu me preparei para lutar com ele mas então ouvimos sua voz no corredor, Jovem amo. Pelo jeito que estava desesperado e gritava, com certeza já tinha visto a senhora Rachel. O homem também se alarmou, pelo jeito, achava que já tinha morto todos. Eu precisava fazer fazer alguma coisa, sua voz se aproximava rápido e dava para ouvir o som dos seus pezinhos no corredor. Tentei lutar com o homem, se eu o matasse, protegeria você e salvaria o seu pai. Então o senhor Vincent — a voz do homem estava embargada nessa hora — eu me lembro como se fosse hoje. Ele falou:
_Tanaka. Proteja o Ciel. Haja o que houver, proteja o Ciel.
Corri para a porta na intenção de impedir o homem de fugir e vi o senhor vindo correndo. Estava assustado e pedia por ajuda. Eu o alertei. Mandei-o fugir, fugir para qualquer lugar, não vir nessa direção. Por um momento eu tirei os olhos do homem e esse foi meu erro. Você estava paralisado pelo medo e eu olhava para o senhor, então fui apunhalado pelas costas, caí desacordado.
Quando acordei novamente, sentindo uma grande dor das costas, senti o cheiro de fumaça e o calor. Me levantei com muito esforço, também tinha perdido bastante sangue. Me arrastei até o senhor Vincent, ainda na esperança de salvá-lo, mas era tarde demais — ele já tinha partido.
Ouvi o soluço do Jovem amo que tinha começado a chorar novamente, tinha os olhos fechados com força e as mãos crispadas, estava muito vermelho. O Tanaka continuou a narrativa.
_Me arrastei pelo corredor, tentei verificar nos quartos mas tudo estava tomado pelo fogo, chamei várias vezes pelo Jovem amo, mas ninguém respondeu. Não tinha condições de continuar procurando, tudo estava queimando. Qualquer um que estivesse ali já teria morrido, eu mesmo, quase morri. Até hoje não sei bem como consegui sair da mansão mas quando eu finalmente consegui sair, minhas pernas não aguentaram mais e caí no gramado em frente.
A mansão parecia uma imensa fogueira, com as labaredas saindo pelas janelas cujos vidros já tinham estourado por causa do calor, grossos rolos de fumaça preta subiam em direção ao céu e o calor era imenso. Nem o inferno deve ser tão quente quanto a mansão ardendo daquele jeito.
Desmaiei novamente e acordei no hospital. Depois fiquei sabendo que a senhora Angelina havia me encontrado no jardim e havia me socorrido. Ela estava muito abalada. Estava se recuperando também de um acidente que havia morto o marido e causado o aborto do seu filho. Então é lógico que estava arrasada. Em uma semana ela havia perdido a família inteira.
Os corpos dos seus pais foram encontrados nos mesmos cômodos em que eu havia visto mas nada do seu. Ninguém sabia o que tinha acontecido com o senhor e eu tinha muitas esperanças de que tinha conseguido escapar.
O idoso encerrou a narrativa, algumas lágrimas escorriam pelo rosto enrugado.
_Perdão Jovem amo, por eu não ter conseguido fazer nada — pediu e então voltou à forma chibi, caindo em sono imediatamente.
O Jovem amo chorava copiosamente, sua roupa estava molhada pelas lágrimas e os olhos meio inchados. Fiquei ao seu lado e por fim, não consegui me segurar, ajoelhei ao seu lado e o abracei forte. Ele se largou nos meus braços e escondeu o rosto no meu pescoço. Eu sentia seu pequeno corpo tremer e convulsionar por causa do choro.
Depois de vários minutos, o pranto foi parando e ficando apenas os soluços.
_Sebastian — ouvi ele me chamar muito baixinho, ainda com o rosto no meu pescoço.
Apertei-o um pouco nos braços para mostrar que eu havia ouvido.
_Me leve de volta para o quarto — pediu, a voz estava rouca de tanto chorar.
Passei meu braço por baixo das suas pernas e o carreguei como uma princesa escadas acima até o quarto onde o depositei como se fosse algo precioso e delicado. E para mim era realmente, muito precioso e eu não queria perdê-lo, nem vê-lo daquele jeito.
Deitei-o no colchão e me sentei na beirada do colchão, afastei uma mecha do cabelo do rosto e desamarrei o tapa-olho que estava completamente ensopado, coloquei-o na mesinha de cabeceira.
_Quer um copo de água?
Ele fez que sim com a cabeça e eu o servi da jarra que eu tinha posto ali mais cedo quando o tinha despertado. Tive que ajudá-lo a beber, estava trêmulo demais.
_Está melhor? — perguntei preocupado.
_Sim — me respondeu com um fio de voz.
Fiz menção de me levantar da cama e me retirar do quarto mas o Jovem amo me segurou pelo pulso. Olhei para ele — seu rosto sempre tão lindo agora estava inchado e com manchas vermelhas.
_Fique comigo mais um pouco.
_Claro.
Fiquei segurando sua mão, ele brincava com meus dedos que óbvio, estavam cobertos pelas luvas.
Depois de um tempo — calculo que mais ou menos meia hora — falei.
_Tenho que ir começar a cuidar do almoço. Se deixar nas mãos do Bard, o senhor não vai conseguir comer nada.
_Acho que não consigo comer nada, nem que tenha sido feito pelo maior chef de cozinha.
_O senhor tem que comer alguma coisa. Senão vai ficar doente — argumentei e ele deu um sorriso sem esperança.
Sentou-se na cama e apoiou as costas nos travesseiros.
_O que aconteceu depois, Sebastian? Eu consegui fugir?
“De novo não.” — pensei desesperado.
_Deixa isso para depois, Jovem amo. É muito para um dia só. Pare.
Ele ainda segurava minha mão e a apertou com os dedinhos finos.
_Não, Sebastian. Eu já passei por tudo isso. É passado, mas é o meu passado. E eu quero saber. Se minha memória não voltar mais, eu tenho que saber, eu preciso.
_Mas vai voltar uma hora — falei.
_E se não voltar? — ele me olhava fixamente — Eu me sinto incompleto desse jeito. Por favor, me conte.
Olhei para o chão.
_Não. Não conseguiu fugir. Você foi capturado.
_Capturado?
_Sim. Foi vendido para uma seita e ia ser usado como sacrifício junto com outras crianças.
_Sacrifício de quem?
Balancei a cabeça. Eu não sabia.
_Não sei. Mas foi deixado por último porque era o mais bonito. Te torturaram por um mês inteiro. Pelo jeito que estava eram sessões pesadas de tortura. Queimaram uma marca nas suas costas com ferro quente.
Apontei o lado que estava a marca e ele se afastou e levantou a blusa tentando ver mas ela só é visível pelo espelho então ele apenas a tateou com a ponta dos dedos.
_Foram eles que fizeram isso no meu olho? — perguntou voltando a se encostar nos travesseiros.
_Não. Mas de certa forma é relacionado ao que você passou lá.
Seguiu-se um silêncio perturbador. Eu imaginava qual seria a próxima pergunta e ela se confirmou.
_Como eu consegui sair de lá?
_Eu o tirei.
O Jovem amo voltou a olhar para mim.
_Você me salvou.
Meneei a cabeça. “Salvar???” — a palavra era meio forte, heróis salvam, santos salvam, eu… eu não sei se essa é a palavra certa. Afinal eu tinha exigido algo em troca. Mas o bocchan se jogou nos meus braços novamente.
_Muito obrigado!!! — sussurrou no meu ouvido.
O abracei também. Mas logo ele se separou, ficando ainda próximo a mim. Sua cabeça estava bem baixa e eu não conseguia ver seu rosto.
_Sebastian? — me chamou — Minha família foi assassinada, eu fui capturado, preso, vendido, torturado e quase fui morto — enumerou — Eu… eu… — percebi o Jovem amo fechar o punho, fazendo força para falar — Eu … preciso saber quem fez isso. Eu preciso encontrar esses malditos .
Senti o cheiro delicioso do ódio que havia começado a ferver nas veias dele. Ele ergueu os olhos e eu vi como estavam escuros de raiva e determinação.
_Eu quero vingança, Sebastian. Vou descobrir e me vingar de cada um que fez isso comigo.
Ele voltou a segurar minhas mãos. E seu olho do contrato brilhou.
_Você vai me ajudar, não é?
Sorri para ele e acariciei o seu rosto.
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