Notas iniciais
"O sorriso no rosto do mordomo diminuiu mas não sumiu por completo, ele caminhou em minha direção e eu não sei porquê mas fiquei apreensivo, chegou muito próximo, inclinou-se sobre meu rosto a ponto de eu sentir as pontas dos cabelos dele tocarem as maçãs do meu rosto, ele segurou meu queixo."

Acordei na manhã seguinte com um raio de de sol atingindo meus olhos por trás das pálpebras, levantei uma mão para me proteger da claridade que entrava pela janela, abri meus olhos um pouquinho e vi Sebastian afastando a cortina.

_ Bom dia, Bochan. Está melhor?

Não respondi nada, apenas sentei na cama. Minha cabeça doía. Sebastian continuou:

_Já quer o seu café da manhã? Temos croissant de chocolate e torta parisiense.

_ Croissant -respondi

Ele se aproximou da cama e para ajudar a me levantar, mas eu já estava bem então afastei a mão estendida de modo um pouco rude e me levantei.

Depois de vestido e ter feito a higiene matinal, me sentei à mesa, peguei um croissant da travessa e o mordi, estava tão recheado que o chocolate transbordou sujando minha boca e escorrendo pelos meus dedos, os lambi não querendo desperdiçar nada do doce. Sebastian estava em pé ao meu lado como sempre fazia, percebi que ele me observava com uma expressão indecifrável. Resolvi tocar no assunto da noite passada:

_ A polícia prendeu alguém de lá?

_ Ninguém.

_ Hunf — "de quê adiantou eu passar por tudo aquilo se ninguém foi preso?" pensei.

_ Ninguém sobreviveu — esclareceu Sebastian, suspendi a xícara de chá a meio caminho da boca.

_Nem os outros meninos?

_Não havia outros meninos — ele parou alguns segundos — apenas um, preso num dos quartos, mas estava muito ferido, agonizando já.

"Então eles não estavam mentindo parar me amedrontar, os meninos não duravam muito depois de usados naquelas sessões", teria sido o meu destino se eu não tivesse o Sebastian, se bem que, se eu não tivesse a proteção daquele demônio, eu já estaria morto há muito tempo.

Sebastian repentinamente se ajoelhou ao meu lado e abaixou a cabeça até encostar o queixo no peito.

_ Perdoe-me, Bochan. Tomei decisões por conta própria — ele ergueu os olhos e encontrou os meus olhando fixamente para ele — Eu acabei com o sofrimento dele — confessou.

"Então Sebastian matou sem minha ordem e alguém que estava me ameaçando, isso estava totalmente fora do contrato".

_ Sem problemas. Ele já estava morto mesmo. Ninguém é o mesmo depois de passar por aquilo — falei enquanto aproximava a xícara dos lábios e tomava um gole do chá.

"Um demônio que tinha compaixão" a ideia me fez sorrir.

Os olhos do mordomo brilharam rapidamente antes de voltarem à cor costumeira, ele se ergueu. Resolvi entrar no outro assunto que me atormentava.

_ E ontem, quando chegamos?

Ele ergueu um pouco as sobrancelhas.

_ O que tem? Você estava totalmente dopado. Te dei um banho e te pus na cama — falou calmamente.

_ Não aconteceu nada diferente? — insisti.

_ Nada.

"Foi um delírio então. Tudo não passou da minha imaginação superexcitada pela droga e por aquele pensamento com Sebastian, melhor assim" — pensei, um pouco decepcionado, acho que eu queria que tivesse sido verdade ...

Terminei meu desjejum em silêncio.

**********

A tranquilidade da rainha estava garantida por um tempo. Mais uma vez eu venci, não sozinho pois Sebastian estava comigo mas ele não conta, é apenas uma peça no meu tabuleiro. O mérito da vitória é do peão ou do jogador que o moveu corretamente?

Havia se passado uma semana desde aquela noite fatídica, todos os vestígios dos maus tratos haviam desaparecido do meu corpo. O clube tinha sumido do mapa, totalmente desmantelado com a morte dos seus integrantes.

Agora eu estava mais uma vez no meu escritório, sentado na enorme poltrona estofada, era a terceira vez que jogava xadrez comigo mesmo, estava cansado e entediado.

Sebastian entrou com o carrinho de chá.

_Bochan. Trouxe o seu chá da tarde.

Eu bufei baixinho.

_Tsc — até de chá eu estava cheio, talvez fosse ainda o efeito da adrenalina dos últimos acontecimentos.

Sebastian percebeu meu desânimo.

_Não quer? É Earl Grey e trouxe também torta Charlotte.

A verdade é que algo havia mudado dentro de mim: eu já não via o Sebastian do mesmo modo e isto estava acabando com meus nervos. Todos esses dias eu fiquei procurando algo de diferente nos seus toques, algo que me mostrasse alguma coisa além do normal, mas isso não aconteceu: tudo estava como antes. Todas essas malditas noites eu tive sonhos constrangedores com ele e acordava suado e ofegante no meio da noite para me descobrir sozinho na enorme cama.

O doce me tirou em parte da minha apatia. Ele me serviu um pedaço e eu comecei a saboreá-lo. Era muito bom sentir a maciez do creme envolvendo a minha língua e o efeito reconfortante da alta dose de açúcar circulando nas veias.

Devo ter fechado meus olhos em algum momento pois quando os abri novamente Sebastian me olhava divertido.

_O que foi? Por que está me olhando assim? — perguntei já meio bravo.

_Não é nada — me respondeu Sebastian ainda com a expressão divertida no rosto — vocês, humanos, são tão afeitos às sensações físicas. É interessante vê-los entregues à elas.

Corei, sentindo meu sangue correr todo para o rosto.

_O que você sabe sobre sentimentos, demônio? Acaso você sente?

O sorriso no rosto do mordomo diminuiu mas não sumiu por completo, ele caminhou em minha direção e eu não sei porquê mas fiquei apreensivo, chegou muito próximo, inclinou-se sobre meu rosto a ponto de eu sentir as pontas dos cabelos dele tocarem as maçãs do meu rosto, ele segurou meu queixo.

_ Mais do que você pode imaginar, Bochan.

Senti o hálito dele no meu rosto. Meus olhos se arregalaram.

"Ele vai me beijar. ELE VAI ME BEIJAR!" — a certeza atingiu meu cérebro como um raio. Eu poderia ter feito centenas de coisas, poderia tê-lo empurrado, xingado, mandado se afastar, poderia até mesmo ter gritado mas ao invés disso tudo eu apenas fechei meus olhos e aguardei o contato dos lábios de Sebastian.

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Aguardei.

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Aguardei.

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Aguardei o contato que não veio. Quando abri meus olhos novamente, Sebastian estava no meio do escritório, ainda sorria daquele jeito idiota. Fiquei com muita raiva.

_Maldito! — falei baixo, não sei se ele conseguiu me ouvir, nem me importava se tivesse ouvido.

_Aonde você vai? -perguntei.

_ Vou cuidar dos meus afazeres. Tenho que preparar o jantar. Hoje é folga do Bard. Se esqueceu?

_Jogue comigo. Estou farto de jogar sozinho.

_Não posso. Não é adequado um serviçal jogar com o seu senhor — ele parecia estar se divertindo.

_Não há mais ninguém aqui, Sebastian. E de qualquer modo, como você mesmo disse, eu sou o seu senhor, Ciel Phantomhive, e você deve me obedecer.

O sorriso sumiu do rosto do mordomo e eu pensei: "Rá, te peguei! Tirei esse sorriso idiota do seu rosto".

_Isso é uma ordem? — Perguntou, sério.

Eu me recostei na poltrona, cruzei as pernas, feliz por ter mudado o humor dele.

_Não — respondi, seco.

Ele virou-se ficando de frente à minha mesa de trabalho.

_Não me interesso por esses jogos humanos. Jogar sem um objetivo lucrativo é desperdício de tempo e energia.

Eu sorri, um sorriso meio torto. Será que descobri um vício de Sebastian?

_Você quer apostar dinheiro, demônio? Pensei que não se importasse com isso.

Ele riu, aquele risinho baixo, típico dele.

_E não me importo.

_O que quer apostar então?

Ele riu de novo. Que raiva!

_ Bochan, eu não jogo para perder. Não vou facilitar as coisas.

Pensei: "fisguei o peixe, agora é só cansá-lo para que fique manso".

_ Não pedi para que facilitasse. Quero que jogue a sério para que minha vitória seja mais saborosa — sorri triunfante.

Ele apoiou as duas mãos espalmadas sobre a mesa e se inclinou sobre ela, sorriu e pude ver as pontas dos seus caninos brancos despontando dos lábios.

_ Você não vai querer pagar o preço da minha aposta.

Maldito. Ele estava me ameaçando.

_VAI QUERER A MINHA ALMA? — gritei, não acreditava que ele ia querer apostar isso.

Sebastian se assustou um pouco com a mudança do tom da voz.

_Não, Bochan. Fique tranquilo quanto a isso. A sua alma eu já tenho, é só questão de aguardar o momento apropriado — deu a volta na mesa — temos um contrato, pegarei sua alma apenas quando tiver cumprido a minha parte.

Ele se ajoelhou perto de mim, levando a mão direita ao peito esquerdo.

_Meu preço nada tem haver com almas.

Eu jamais iria deixá-lo perceber o quanto fiquei aliviado por saber que ele não iria cobrar a sua parte agora.

_ Vamos apostar um pedido. Quem ganhar tem direito a um pedido. O outro não poderá recusar.

_ Certo — concordou Sebastian.

_Então sente-se e vamos começar. Prepare-se para a derrota.

Eu estava dando pulos internamente. Iria vencer esse jogo e então iria exigir algo bem ridículo para Sebastian fazer, algo que o envergonhasse ou que odiasse fazer.

_Pedras brancas ou pretas?

_Tanto faz. Escolha por mim.

Ele estava agora sentado à minha frente, do outro lado da mesa.

_Hunf.

Escolhi ficar com as brancas. Sebastian ficaria com as pretas. Peças negras para um mordomo negro.

Comecei me movendo primeiro, na vez dele o movimento deixou a peça na minha frente, praticamente pedindo para ser comida o que eu fiz. Isso aconteceu por três jogadas. Seria possível que Sebastian não soubesse jogar? Ou estava me deixando ganhar?

Nas próximas jogadas ele começou a levar a sério e derrubou quatro pecas minhas mas deixou de perceber uma brecha gigante, seria um erro crucial deixar o caminho livre daquele jeito e eu iria me aproveitar disso com toda certeza. Fiz uma jogada mestra, na próxima daria xeque-mate e venceria. Já estava até imaginando exatamente o que eu pediria quando Sebastian deu uma risadinha.

_ Xeque-mate.

Eu pulei da cadeira.

_ O quê?

Não podia acreditar mas era verdade, eu fiquei prestando atenção no que eu achei ser um erro dele quando na verdade foi um blefe para me despistar.

Empurrei o tabuleiro com raiva e algumas peças caíram.

_ Que seja — respondi irritado — o que você quer?

Sebastian riu mais uma vez, agora um pouco mais alto.

_ Você.

Eu arregalei meus olhos, um arrepio subiu pela minha coluna. Seria medo?

_Você disse que não devoraria minha alma. Mentiu? — me levantei furioso ante a possibilidade de Sebastian ter mentido para mim, me postei na sua frente. Ele achou que eu ia ter medo? Estava enganado.

Ele levantou-se, crescendo sobre mim, um muro monocromático, me dei conta mais uma vez em como ele era alto, ergui meus olhos ao mesmo tempo que Sebastian se curvou sobre mim, sua mão enluvada segurou minha nuca e eu não consegui controlar um arrepio, ele cravou seus olhos nos meus.

_Acha que é somente a sua alma que eu quero devorar?

Demorou alguns segundos até eu entender o real significado. Arregalei meus olhos e abri a boca tentando formar alguma frase. Meu rosto queimava, mas eu não consegui falar nada, Sebastian desceu as mãos até a minha cintura e me ergueu até eu sentar no tampo da mesa. Um tremor percorreu o meu corpo, ele me puxou para a borda da mesa e se colou a mim, se eu ainda tinha um cerébro nessa hora ele virou mingau e, quando ele baixou a cabeça e colou seus lábios nos meus, eu esqueci de como se respira.

Sebastian passou a ponta da língua no meu lábio inferior contornando-o, depois encaixou a boca na minha. Abri meus lábios, dando total liberdade para Sebastian explorar, o que ele fez com maestria. Seus braços enlaçavam minhas costas, as mãos espalmadas pressionando de modo provocante, gemi baixinho, consciente de que agora não era sonho nem delírio. Ele me apertou mais, pressionando o quadril no meu e eu ofeguei. Ele estaria tão excitado quanto eu?

Notas finais
Lemon, lemon,lemon no próximo capítulo. Kkkk