Desejos Primitivos
10 Teu presente
Notas iniciais

Caja acordou cedo, ao amanhecer estaria indo para a sua aldeia. A madrugada ainda vingava lá fora, a antecipação de regressar a casa fizera-o dormir pouco. Permaneceu deitado escutando os sons nocturnos, a respiração pesada de Kain e os pequenos choramingos de Mupi, resultado de estar sonhando com algo. Entediado por estar deitado sem conseguir voltar a dormir, levantou-se sem saber muito bem o que deveria fazer àquela hora.
Um banho a meio da noite não era muito boa ideia, desastrado ainda cairia e afogaria-se na escuridão, deabumlar pela aldeia também levantaria suspeitas, por isso ficou só na entrada da cabana. Contudo não ficou sozinho por muito tempo, subitamente foi capturado por uns braços. Obviamente Caja assustou-se, não contendo um grito esganiçado.
— Presas não deveriam ficar vagando durante a noite. — A voz de Kain rouca pelo sono perturbou a quietude da noite. Como guerreiro o seu sono era leve, ao minimo som sorrateiro ele instantaneamente acordava.
— Eu sequer fiz barulho, só um animal é que conseguiria ouvir o silêncio. — Caja permaneceu rígido nos braços do outro. Não era muito normal ele tocar-lhe, somente na noite do rítual, desde então não houvera muito contato físico.
Kain não respondeu, só abaixou o rosto e mordeu a nuca do garoto-flor. Não estava pensando muito no que estava fazendo, apenas deixou guiar-se pelo instinto.
— Kain! — O grito do garoto desta vez foi mais alto que o anterior. A mordida não foi forte o suficiente para rasgar a pele, mas com a pressão certa para ser desconfortável. — O que é que estás fazendo, seu idiota?
O guerreiro deixou o pedaço de pele da nuca que estava mordendo para responder. — Dormindo.
Sem poder processar muito bem a resposta idiota do outro, Caja foi virado para a frente para encara-lo. — Espíritos! Tu és completamente louco.
O sorriso malicioso do moreno ficou mais perturbador sob a luz da lua, antecipando que algo mais estava para vir.
Kain segurou no queixo do garoto com a mão e levantou o rosto um pouco para ficarem ao mesmo nível. Sem cerimônia o guerreiro estampou os seus lábios nos lábios de Caja, exigindo entrada para a sua língua na boca dele.
O garoto debateu-se por instantes, rendendo-se à língua e tenasidade de Kain. Para complementar o momento, os braços do jovem guerreiro rodearam a cintura de Caja dando uma sensação de controlo. Os movimentos de Kain eram rudes e dominadores, lábios e língua sugavam e lambiam com precissão. A mão que segurava o queixo do garoto deslizou para a lateral do rosto dele, acariciando a pele com o polegar.
Caja não controlou os pequenos gemidos que eram abafados pelo beijo. Beijar o guerreiro rude era exatamente ao contrário da personalidade dele, sentir o gosto de Kain era agradável e viciante. Quem poderia dizer que o bruto insensivel que parecia odia-lo poderia dar-lhe beijos ternos e significativos? Os Espíritos deviam ter dado uma grande risada quando decidiram cruzar os destinos deles.
O braço enrolado na sua cintura excercia uma especie de força — não física —, mas impedia-o de querer fugir e sair do contato físico com o guerreiro. Os seus dedos formigavam para tocarem, sentirem Kain. Satisfazendo a sua vontade, as mãos de Caja subiram para o peito dele, os dedos acariciaram e pressionaram-se suavemente nos músculos duros e definidos trilhando cada contorno.
A exploração do garoto fez efeito, o gemido do guerreiro fez o beijo cessar. Não que ele fosse muito sensível ao toque, mas as caricias de Caja fizeram disparar os seus sentidos, especialmente a zona mais baixa do seu corpo. Kain nunca ficara excitado por somente ter o seu peito acariciado e por um beijo, por isso a sua reação fora um pouco rude, afastou Caja dos seus lábios.
Porém não fora propriamente rápido, o garoto da Tribo da Floresta apercebeu-se de que algo que estava cutucando-o na sua barriga. Caja teve a certeza que nunca corara tanto na sua vida, sentiu o seu rosto queimando com tanta intensidade que achou que poderia explodir em chamas a qualquer momento.
Nunca passara por um momento tão constragedor como aquele, era a primeira vez que sentia um pênis duro cutucando-o. Felizmente o seu embaraço foi salvo pelo próprio Kain que agiu como e não tivesse acontecido nada.
— Acho que deveriamos ir dormir, o sol ainda está longe de nascer. — Obviamente Kain não tinha problemas em deixar os outros saberem que ele estava com uma ereção, porém essa era especialmente dirigida a Caja.
O garoto-flor era agradável ao olhar e sabia que muitas vezes encontrava-se a encara-lo mais do que o necessário, mas tendo uma ereção por somente um beijo e umas caricias dele era muito estranho e perturbador.
Isso quereria dizer que o corpo de Kain estava querendo entrar no corpo de Caja?
Caja apenas acenou com a cabeça aproveitando a deixa para sair de perto do outro, só que a sua intenção de fuga foi cortada pelo guerreiro quando segurou no seu pulso. — Vamos dormir juntos.
— O quê? Estás louco? Quem quer dormir contigo? — Caja balbocionava. A ideia era simplesmente absurda, o garoto abaixou o seu olhar para ver que o outro estava no seu momento glorioso de nudez. Oh claro que Kain dormia nu, e vê-lo com uma ereção despontando na sua direção fora o cúmulo. — Eu não sou uma garota!
O guerreiro franziu a testa confuso, não entendendo bem o que a flor queria dizer. — Não é a primeira vez dormiriamos juntos. É a tua última noite aqui… É uma despedida. — O tom de voz dele perdeu a rudez com as últimas palavras. Kain afroxou os seus dedos em redor do pulso de Caja.
Kain sentiu a relutância dele esvair-se através do contato com o corpo dele. O rosto do garoto-flor demonstrou a sombra de uma tristeza, efeito do que dissera.
O guerreiro aproveitou e encaminhou os dois para a cama. Ignorando completamente o seu membro duro, obviamente não iria fazer nada a Caja, não chegaria a tal ponto. Podia saber mais ou menos os procedimentos de sexo com homens, por ouvir vez ou outra outros rapazes da tribo confessando sobre isso.
Compartilhar histórias sexuais não era uma coisa que Kain pregava aos ventos, as suas aventuras sexuais não deveria ser do conhecimento público, mas quando estava disposto contava todos os detalhes sujos, por isso perdera umas quantas garotas assim. O que levara a sua mãe a intervir porque várias garotas queixaram-se a ela, sem outra escolha Nala precisou dar-lhe umas lições sobre respeito, não deveria humilhar as garotas.
As surras da sua mãe não doíam tanto como as do seu pai. Agora, Kain já não fazia isso, amadurecera um pouco mais, e que sexo deveria ser gostoso e apreciado, não falado.
Quando Caja apercebeu-se do que acabara de aceitar fazer, já era tarde demais. O outro já estava encochando-o, o garoto não soube o que deveria sentir, mas certamente estava sentindo algo duro nas suas costas.
Não acreditou que Kain fosse tão cego ou sem cérebro para não saber o que estava fazendo, era simplesmente rídiculo. Não havia a minima possibilidade de ele conseguir dormir assim, era completamente louco. — Kain, o t-teu… — O garoto dos cabelos brancos encontrava-se mortificado.
— O meu quê? — O guerreiro sabia exatamente o que a flor estava se referindo mas preferiu fingir que não sabia. O embaraço de Caja por não conseguir dizer a palavra pênis era fofo. Provocando mais um pouco apertou mais o seu braço na cintura delgada, e colou-se mais nas costas dele, mentalmente rindo-se da rigidez do corpo de Caja.
Kain sabia que estava brincando com o fogo, mas a sua vontade de constranger a flor era maior. As vontades do seu pau normalmente ganhavam, e pelo jeito ele econtrava-se muito contente em pressionado contra as costas de Caja.
Dormir assim só se estivesse morto, a estupidez de Kain somente se mostrou um pouco mais com essa atitude, o guerreiro repreendeu-se mentalmente. Porém recusava-se a largar o outro, afinal era a última noite.
Esse pensamento teve um efeito benéfico para reduzir a sua potência, no dia seguinte os caminhos de ambos seriam separados. Kain desistiu de roçar-se no garoto-flor e enfiou o seu rosto no cabelo dele, inspirando o aroma que aprendera a gostar.
Caja permaneceu inerte, medindo as suas respirações para não levantar suspeitas sobre a sua condição. A sua estupidez era descomunal, porque raio ele havia cedido ao pedido de Kain? Qual era a lógica dos dois dormirem juntos? Por que estava se sujeitando em ter que sentir a ereção do outro nas suas costas?
A noite iria ser muito longa e desconfortável.
ººº
Quando Caja acordou encontrou-se sozinho na cama de peles, dormira melhor do que pensara. Na verdade o que o acordara fora o choro e agitação de Mupi, indicando que já estava acordado e estava com fome, o garoto da Tribo da Floresta levantou-se rapidamente para atender às necessidades da criança.
Assim que a criança foi colocada nos braços do garoto parou o seu choro desesperado, o pequeno peito dele subia e descia com os soluços, Caja quase pôde ouvir o coraçãozinho dele batendo loucamente.
O menino devia ter acordado por causa de um pesadelo, o garoto dos cabelos brancos não achou normal o acordar terrorizado do pequeno. Murmurou algumas palavras e sons de aconchego para tentar aliviar o stress da criança, antes de puder fazer-lhe a higiene e alimenta-lo.
O dia de regresso à sua tribo chegara, precisava arrumar algumas coisas e despedir-se da família de Kain. Não iria levar grande coisa, afinal tudo o que possuía pertencia à tribo, não faria sentido levar as coisas. O amanhecer começava a despertar, a aldeia começava a acordar para mais um dia, que graças aos Espíritos seria próspero para os homens.
Caja não soube como se sentir em relação à noite anterior, era confuso não saber interpretar o comportamento do guerreiro. O estômago de Caja às vezes ficava estranho na presença de Kain, não soube ao certo quando isso começara, mas de repente apercebeu-se da maneira estranha como encarava o guerreiro.
ººº
O filho do líder desapareceu da sua cabana assim que acordou do seu sono de curta duração. Com todo o cuidado retirara o seu braço da cintura de Caja, invejando de como ele conseguia dormir com facilidade.O desconforto nas suas partes baixas não desaparecera completamente, precisava de cuidar urgentemente da sua situação.
Espreguiçou-se até sentir a deliciosa sensação dos seus ossos estalando, andou até onde o baú de madeira que guardava a sua roupa, pegou numa tanga de couro preto. Sem se importar com a desarrumação que fizera com a sua roupa procurando o que queria. Antes de sair da cabana Kain verificou o Vleed, revirou os olhos vendo a criatura dormindo pacificamente.
No lago dos banhos, o guerreiro mergulhou na água, atirando-se para a parte mais funda. Nadar e gastar a sua energia era uma opção menos humilhante do que masturbar-se, fazia muito tempo desde que ele precisara usar a própria mão para satisfazer-se.
Quando sentiu os seus músculos doendo pelo esforço Kain rendeu-se e saiu do lago, atirando-se nas folhas caídas das árvores tentando recuperar o fôlego, o seu problema duro ficara resolvido, não pelo desgaste fisico mas pelos pensamentos em que dali a pouco tempo estaria levando Caja para tribo dele.
ººº
Theon liderava o caminho para a Tribo da Floresta. Como recompensa veria Rhea. Apesar do silêncio carregado entre os jovens, era um dia para grandes emoções. O líder havia prometido que exclaresseria como conhecia o pai de Caja, mas o momento propício não acontecera.
Theon não era uma pessoa de mentir, ele contaria tudo sobre a sua relação com Rhea, mas tinha a certeza que o líder da Tribo da Floresta não apreciaria que o seu filho soubesse do seu passado.
A viagem levaria algumas horas, conseguiriam fazê-la durante um dia, mesmo com uma ou duas paragens para descansarem. Comida e água era tudo o que precisariam para fazerem a travessia. O melhor caminho era aquele que cruzava a floresta, trilhos estreitos onde os grandes carnivoros não conseguissem andar, mas isso não quereria dizer que estavam livres dos perigos.
Os rugidos dos Triceratopes lutando furiosamente surgiram por entre as árvores, apanhando os humanos desprevenidos. Dois machos chocavam as suas cabeças com tal força que o som do impacto ressoava na floresta, os chifres perfurando qualquer local onde tocavam.
O líder ordenou aos dois jovens em voz calma e baixa. — Subam a árvore.
Caja ajeitou Mupi no seu peito, a bolsa de tecido que usara para carrega-lo fora substituido por couro, mais resistente. Pegou uma liana e plantou bem os seus pés no tronco da árvore, começando a trepar até ao ramo mais forte que conseguisse suster o peso dele.
Kain estava logo atrás dele, colocando um braço na sua cintura, sustendo-o contra o corpo dele. — O que é que ele estão fazendo? — Caja olhou para os dois animais debadento-se ferozmente.
— O que é que tu achas que eles estão fazendo? A mim parece que eles estão dançando. — Kain bufou, com a sua costumeira ironia. — Machos lutam por fêmeas, comida ou liderança da manada.
O garoto revirou os olhos com a resposta que obteve, era irritante a maneira como o outro tratava-o, como se fosse alguém com inteligência inferior. Caja ignorou a sua irritação quando Mupi chamou a sua atenção com os sons que ele identificou como serem expressão de medo e tensão.
O menino obviamente havia sentindo a tensão exalando dos mais velhos, Caja tentou embala-lo um pouco, porém isso era um pouco complicado dado que estava equilibrando-se em cima de um ramo de árvore enquanto uma feroz luta estava decorrendo em baixo.
Por sorte os dinossauros não estavam colidindo com a árvore deles. — Shh, Mupi está tudo bem. — O garoto sussurrou tentando acalmar o pequeno.
A risada de escárnio de Kain fez o garoto dos cabelos branco virar o rosto para encara-lo.
— É sério que o nome do bastardo é Mupi? — O nome do Vleed parecia nome de animal domesticado, sem força alguma. Se fosse ele a nomear a criatura seria com algum nome de guerreiro.
— Qual é o problema? — Caja contra atacou. — Não te incomodes com o nome dele, não vamos estar muito mais tempo juntos. — O garoto-flor pôde jurar que vira um brilhozinho de tristeza nos olhos verdes do outro, como se o que dissera o tivesse machucado. O que era obviamente impossível, afinal era de Kain que ele estava falando.
O guerreiro optou por ficar calado, em parte por não ter resposta e porque as palavras corrosivas surtiram um efeito dentro do peito dele. Ele estava bem ciente que o tempo dos dois juntos terminara. Kain apertou mais o seu braço em redor da cintura do garoto-flor.
— Rapazes! — Theon chamou a atenção dos jovens, uma pequena lembrança por vê-los a discutir apareceu na sua mente.
O líder acomodou-se melhor no seu ramo, rezando para que os dois animais terminassem de lutar. Os dois Triceratops pareciam longe de terminarem de lutarem, mesmo ensanguentados e cansados os animais não desistiam de tentar dominar um ao outro.
Os dois jovens permaneceram em silêncio após Theon interromper.
ººº
Rhea ouvia com descrença o que os supostos sábios anciões estavam dizendo. O espaço para a agricultura dentro da aldeia estava diminuindo e precisavam de alargar as culturas para plantarem uns legumes que cresceriam durante o inverno.
A sugestão dos velhos era simplesmente cortarem umas árvores para abrirem espaço. O líder cansado de ouvir tanto disparate e blasfêmia decidiu expressar o seu desagrado. — Acham que mutilando o corpo de Lwena é a opção mais agradável para todos nós? Ninguém vai arrancar uma folha sequer da nossa floresta.
— Líder então explique-se como vai ser possível cultivarmos? — Um ancião inquiriu.
— Não está pensando com clareza líder Rhea! Precisamos de arranjar mais espaço no solo para os legumes de inverno! — O ancião interpôs com certa insolência.
A costumeira reação a qualquer coisa que irritasse Rhea foi instantânea, o líder revirou os olhos. Uma das coisas que não gostava nos velhos anciões era que simplesmente por serem mais velhos tinham a mania que sabiam de tudo, e que ele ainda tinha muito que aprender para adquirir a sabedoria deles.
Velhas carcaças eram difíceis de roer, porém Rhea sabia que precisava ter uma certa paciência e tolerância.
— Vamos usar o espaço que temos no céu, isso é tudo o que precisam saber. — O líder não ofereceu mais explicações. Iria ordenar aos seus melhores construtores para executarem o seu plano, tábuas de madeira e lianas bem fortes eram tudo o que precisavam.
Cortariam umas quantas árvores sim, mas o propósito era mais nobre do que simplesmente mata-las para arranjar espaço.
Sinceramente Rhea não estava com cabeça para se concentrar em decisões, o seu filho chegaria hoje.
Se Theon seria honrado o suficiente para cumprir a sua palavra, trazer Caja para casa naquele dia. Rhea reuniu-se com os construtores para explicar-lhes o que pretendia, porque demorava algum tempo para polir as madeiras da forma como deviam ser, por isso quanto mais cedo começassem mais rápido terminariam, pois o inverno estava chegando.
Após ordenar os seus guerreiros que começassem a procurar as árvores com os troncos ideias Rhea retirou-se para a sua cabana, pronto para fazer a refeição do meio dia para si, Targus e Gawain. Pegou num pequeno cesto e saiu para a zona de agricultura a fim de colher alguns vegetais.
A preparação da comida foi rápida, a parte que requeria algum cuidado fora quando precisou limpar os peixes que Targus trouxera naquela manhã. Rhea detestava o cheiro ficava nas suas mãos, mesmo depois de lavar várias vezes e colocar óleos de flores perfumados.
Targus ficou parado na entrada da cabana observando o seu amante por uns momentos. A concentração exagerada que ele estava dando à confecção da comida dava a entender que Rhea estava mergulhado nos seus pensamentos. Ele sabia o quanto Rhea conseguia ficar doente quando começava a pensar demasiado nos problemas.
O guerreiro sabia o quanto o seu amante era uma pessoa sensível e facilmente se auto destruía com os assuntos pessoais. Infelizmente o líder jamais confessara qualquer velho segredo que o atormentasse.
Targus lembrava-se do garoto vivo e sagaz que ele fora, contudo a chegada às dezoito primaveras mudara tudo, tornando-o numa pessoa amarga e desiludida com tudo ao redor dele. Quando Caja nascera dera a Rhea uma nova luz, a esposa dele não vivera o suficiente para conhecer o filho de ambos, mas o líder criara o filho com todo o amor que não recebera dos próprios pais.
O guerreiro sorriu ao relembrar-se de como Rhea não deixara ninguém pegar no seu bebé, ao mínimo choro ele estava pronto para arrancar as entranhas de alguém com os dentes.
— Vais continuar aí parado, Targus? A idade começou a afetar-te as pernas? — Rhea olhou para o seu amante com um sorriso petulante.
A risada de Targus foi inspontanea, não se apercebera que viajara ao passado enquanto olhava para Rhea. O guerreiro aproximou-se e abraçou o seu amante, não se importando com ele estar preparando a comida. — Vejo que o bom humor te iluminou, meu doce.
O líder colocou a tijela com a sopa quente em cima da mesa, para virar-se para o seu amante com o maior sorriso que já colocara nos lábios nos últimos tempos. Colocou os braços em redor do pescoço de Targus e mordiscou os lábios os lábios dele. — Caja regressa hoje.
O brilho no olhar de Rhea não passou despercebido ao guerreiro. Targus puxou o rosto do homem que amava para um beijo apaixonado, que Rhea recebeu ansiosamente a sua invasão. Quando o seu amante estava feliz, os beijos dele eram bastante mais doces, transparecendo a essência do estado de espirito de Rhea.
Targus preferia manter essas observações para si mesmo, o seu líder não gostava quando falava sobre a sensibilidade dele, porque isso insinuava fraqueza. Rhea esforçava-se para mostrar ser o líder que a tribo precisava, porque havia dois tipos de líderes: quem nascera para liderar e aqueles que precisavam transformar-se em líderes. Rhea tornara-se no melhor líder que a tribo já tivera em gerações.
Targus não mencionara o assunto de Caja estar em outra tribo, mas isso incomodava-o profundamente, sorriu. — Que bom.
Rhea saiu do abraço do amante para terminar o almoço, precisava levar a porção do Xamã.
ººº
O nariz de Gawain encheu-se com o delicioso aroma da comida quente que Rhea colocava na mesa. A aura dele estava radiante e leve, o regresso de Caja iluminava o interior de Rhea, e ele gostava assim. Porém a grande sensibilidade do líder era o seu grande ponto fraco, ressentia-se gravemente com coisas que o magoassem.
— Quando o Líder da Tribo do Lago chegar eu quero conhece-lo. — O Xamã disse ocasionalmente enquanto começava a comer.
Rhea não impressionou-se, obviamente deixara de perguntar-se como o velho Xamã sabia de coisas que estavam bem longe do seu nariz. Não fazia ideia se seria Theon que traria Caja. — Claro que sim. — O líder decidiu que seria melhor compactuar e aceitar qualquer coisa que o velho dissesse do que contraria-lo.
Era loucura que Rhea esgotasse a sua mente pensando como é que o Xamã saberia sobre Theon, se nunca ele havia dado muitos detalhes ou nomes ou qualquer coisa que identificasse. Havia coisa que seria melhor deixa-las acontecerem do jeito que era suposto acontecer.
— Rhea estou falando a sério, quero muito conhece-lo. — Gawain usara o seu tom mais sóbrio. Queria realmente conhecer a pessoa que aprisionava o coração de Rhea, perpetuando amor e ódio dentro dele, incapacitando-o de libertar-se.
— E eu disse que sim! — Rhea não conteve a sua irritação, era fiel à sua palavra, mandaria chamar o Xamã para conhecer Theon. — Coma a sua refeição e deixe de ser fofoqueiro por uma vez na vida.
O Xamã colocou mais um pouco de peixe na sua boca, mastigando lentamente. — Só quero conhecer o líder da tribo, é muito raro membros de outras tribos visitarem-nos. — O rosto marcado pelas rugas tranformou-se em criança travessa como se tivesse sido repreendido pela mãe. Oh as manhas de apelar para o coração mole do seu filho do coração.
— Eu sei, desculpe ser bruto e sem paciência. — Rhea suspirou, não havia razão para o seu mau humor. — Mandarei alguém busca-lo para conhecer o líder da tribo. — O líder inclinou-se para o Xamã e beijou-o na testa, mostrando respeito e afeto.
— Um bom pai perdoa os defeitos dos filhos. — O rosto do Xamã iluminou-se.
Rhea sorriu. — Nisso eu concordo, eu tenho o melhor. — Depositou outro beijo na testa enrugada. — Preciso ir, ainda existem algumas coisas para serem feitas. Até logo, pai.
O peito do velho Xamã encheu-se de orgulho, ser chamado de pai por Rhea era como o riso dos Espíritos, a maior dádiva da sua vida mesmo não compartilhando sangue e carne.
Rhea regressara à sua cabana, onde Targus esperava por ele para partilharem a refeição. A conversa do casal rondava trivialidade, o guerreiro não ousou falar nada sobre assuntos mais sérios enquanto desfrutavam dos alimentos. O guerreiro estava adorando a leveza de espirito do seu amante, o sorriso encantador iluminava o rosto dele. Targus sorria igualmente, aquele era o efeito que o filho tinha sobre Rhea.
— Quando é que o Yvell regressa da aldeia do norte? — Rhea retirava as tijelas de barro usadas na refeição colocando-as numa bacia com água para as lavar.
Targus massageou o seu pescoço com as duas mãos, os seus ossos estavam tensos e cansados pelo esforço de carregar os troncos de madeira para reforçar a muralha da aldeia. Com a mudança das estações haveria sempre trabalhos de reforço, agricultura entre outros. — Yvell chegará daqui a dois dias, o tempo da grande caçada está chegando.
— Verdade. Quais os guerreiros que irás levar desta vez? — Rhea terminou de lavar as louças sujas, limpou as mãos num trapo limpo.
— Três recém-chegados à idade. — Targus levaria três jovens com dezasseis invernos feitos, querendo dizer que já eram adultos.
A grande caça era feita por dez guerreiros, a Tribo da Floresta não arriscavam-se muito para territórios muito distantes para conseguirem as presas, não poderiam ficar muitos dias fora da aldeia, pois ficaria desprotegida já que os melhores guerreiros iriam sempre para a caçada.
A população da aldeia estava estagnada havia duas estações. Os nascimentos haviam diminuido com a mortalidade dos bebés, não havia explicação humana para os bebés não resistirem aos primeiros meses de vida. O receio de perder um filho fizera os casais ficarem relutantes a procriarem.
Contando com o habitante mais novo e o mais velho a aldeia do líder tinha oitenta pessoas, pouco menos povoada do que a aldeia do norte com cem habitantes. Nem todos os habitantes da tribo eram guerreiros ou caçadores, a maioria era agricultores e anciões, por isso o número de guerreiros disponiveis era bem baixo.
Rhea assentiu, o número não era satisfatório mas teriam que adaptar-se à situação, desde que houvesse um pouco de comida a tribo conseguiria superar as adversidades impostas pelos Espíritos. Seria arriscado e perigoso para os jovens inexperientes participarem nessas viagens em busca de alimento para abastecer a aldeia durante o inverno.
O instinto paternal egoísta e inconsciente do líder agradecia por Caja não arriscar a sua vida como os outros, o medo irracional fazia Rhea afastar o seu filho das obrigações mais perigosas. Enquanto pudesse aguentaria a liderança o mais possível para livrar o seu filho das amarras, e limitações de ter uma tribo a seu cargo.
— Eu quero que esses garotos sejam treinados até ao minimo detalhe, desde da maneira como devem respirar até à maneira como devem cravar uma lança na carne do dinossauro. — Rhea penetrou o seu olhar no amante. Teria que evitar a morte dos jovens para evitar que a tribo pedisse a vida de Caja.
Targus não pôde deixar de sentir-se ofendido, ele treinava muito bem os seus guerreiros, não precisava que Rhea acrescentasse o que dissera. — Obviamente é isso que faço. — O guerreiro dissera com um tom um pouco mais rude.
O líder arqueou uma sobrancelha com o tom de voz do amante, depois sorriu aproximando-se dele, sentou-se no seu colo. — Eu não quis insinuar que não és capaz de transformar os garotos em verdadeiros guerreiros, desculpa. Só quero que eles aprendam tudo o que possa salvar as próprias vidas. Cada vida desta tribo é preciosa, além que eu confio em ti, meu guerreiro.
Rhea coaxou Targus, não era bom ferir o ego de um guerreiro. Apesar que ele adorava a ideia de Targus ficar violento e bruto, mas homens dominantes nunca gostavam de ter as suas capacidades questionadas.
Targus penetrou o seu olhar cinza nos olhos azuis-céu, vendo a sinceridade. Adorava a forma de Rhea fazer com que ele não ficasse chateado, impossível resistir à forma sedutora de como os lábios dele movimentavam-se. O guerreiro apertou as nádegas do seu amante, os dedos enterrando-se dolorosamente na carne, fazendo Rhea gemer. — Vendo a tua honestidade, eu desculpo.
O sorriso provocador do líder devia ser considerado um pecado e proibido de tão perverso. Rhea remexeu-se no colo do amante pressionando o traseiro na ereção dura, inclinou-se sobre os lábios dele devorando-os com ardência. O líder e o seu guerreiro permaneceram na cabana por algum tempo, o necessário para mostrar o quanto o guerreiro era capaz, e muito bem dotado nas suas obrigações.
ººº
A luta feroz dos Triceratops terminou tão abruptamente como começara, os animais pararam de tentar esmagar a cabeça um do outro com as suas poderosas placas de osso, e chifres que adornavam as suas cabeças. As bestas adoravam exibir a sua dominância e medir forças sobre os outros da sua manada.
O resto do caminho fora feito sem grandes percalços.
— Caja entrega o Mupi para o Kain. — Theon disse casualmente deixando os dois rapazes confusos.
— Para quê? — Caja olhou para o líder com suspeita. Não que acreditasse que o homem dissesse algo assim com intenções pouco claras.
— Imagino que o peso da criança sendo transportada durante horas faça as tuas costas e braços doerem. — O líder explicou, bebendo um pouco de água do seu cantil. A necessitada paragem para descansar e reabastecer os estômagos foi feita na margem do Lago dos Espíritos Atormentados.
Kain engoliu o pedaço de carne calmamente, não havia pronunciado uma palavra quando o seu pai dissera para Caja passar-lhe o Vleed.
— Eu estou bem! — Caja afirmou com veemência.
O jovem guerreiro levantou-se para pegar no canibal, quando as suas mãos estavam nele, Mupi começou a chorar e mostrando os dentes. Kain não moveu as mãos, olhou para o seu pai por cima do ombro. — Satisfeito líder?
Caja tentou acalmar o menino acariciando o cabelo preto e as costas, enquanto Mupi enfiava o rosto no seu pescoço.
ººº
Os três viajantes pararam em frente à fortaleza, deixando os guerreiros sentinelas saberem da sua presença. Caja, mesmo sendo o filho do líder da tribo estava nervoso, pelo canto do olho observou Theon e Kain serenos, os dois eram a imagem do sangue-frio.
Assim que os guerreiros aperceberam-se da presença de Caja apressaram-se para abrirem a fortaleza. Os pesados troncos da entrada rugiram enquanto eram puxados para cima pelos guerreiros.
— Seja bem-vindo Zaire! — Os guerreiros da fortaleza baixaram as cabeças em sinal de respeito pelo filho do líder.
Caja respondeu com um aceno de cabeça silencioso. O garoto liderou o caminho para o centro da aldeia, como era esperado as pessoas começaram a aglomerar-se em redor dos recém-chegados. Sendo recebidos pelo braço direito do líder da Tribo da Floresta.
Caja admirava Targus, e gostava do filho dele, Yvell. Apesar de Yvell ser alguns anos mais velho que ele fora o único a quem poderia considerar como amigo. Tal pai tal filho, ambos eram guerreiros respeitados que faziam a tribo prosperar em termos de carne, como excelentes caçadores providenciavam sempre caça para a tribo.
O filho do líder secretamente invejava Yvell por ter conseguido herdar as qualidades do seu pai, já ele não herdara muita coisa de Rhea, o seu pai era muito astuto e inteligente, conseguindo encontrar soluções para todo o tipo de problemas que pareciam sem solução.
— Caja! — Targus envolveu o garoto num abraço apertado.
Caja apreciou o abraço, devolvendo o afeto na mesma medida. — Estou em casa.
Os sentidos de Theon perante o homem abraçando Caja hostilizaram-se. O outro homem tinha o odor de inimigo. Theon e Kain permaneceram em silêncio até Caja separar-se de Targus e virar-se para fazer as apresentações. Porém a intenção do garoto foi cortada com a chegada do seu pai. A multidão curiosa abriu caminho para o seu líder passar.
— Caja! — Rhea correu para o seu filho, ignorando qualquer outra pessoa. Os olhos de líder estancaram no volume da bolsa de transporte que o seu filho carregava, a sua intenção de abraçar Caja desaparecera. A criança que Caja transportava estava dormindo, percebeu pela falta de movimentos. — O que é isso?
— Poderíamos falar mais tarde, pai? — A alegria de ver o seu pai sucumbira um pouco ao vê-lo encarar Mupi. Nada iria ser fácil, porém ainda queria que Rhea o abraçasse.
Vendo a expressão ansiosa do seu filho pressentiu que mais problemas iriam aparecer, e isso definitivamente Rhea não precisava. Ignorando a situação pelo tempo necessário Rhea abraçou fortemente o seu filho, suspirando. — Bem-vindo a casa, vani.
Caja retribuiu o forte abraço, o apelido carinhoso que fazia anos que não ouvira dos lábios do seu pai fê-lo um pouco relembrar-se os tempos de criança, quando Rhea ainda lhe dava colo. Pai e filho permaneceram concentrados um no outro por todo o tempo necessário, ignorando as pessoas que os rodeavam.
Rhea respirou fundo antes de encarar o homem que trouxera o seu filho. Obviamente a presença dele não lhe passara despercebida, os arrepios que sentira que somente sentia quando estava na presença de Theon alastravam-se pela sua pele. — Muito obrigado por trazeres Caja de volta, Theon.
— Eu cumpro a minha palavra, Rhea. — Os olhos de Theon não deixaram o rosto de Rhea. A sua calma era uma fachada, o seu interior encontrava-se tumultuoso. A ansiedade de voltar a ver o homem que dominava o seu coração era como um veneno, contudo a habilidade de Theon conseguir controlar as suas emoções e expressões escondendo-as, era avassaladora.
Os seus dedos coçavam para entrelaçar-se nos longos cabelos brancos, a única vez que vira Rhea no lago o corpo dele trajava vestes que cobriam todo o corpo dele, porém com a simples tanga a sua aparência continuava soberba, inclusive os olhos azuis que olhavam-no com frieza não diminuíam a sua beleza.
Ignorando prontamente as palavras de Theon, virou-se para Targus, sorrindo para o seu amante. — Targus por favor informa o Xamã que os nossos convidados chegaram. — O sarcasmo escorrendo pela boca do líder da Tribo da Floresta, assim como Theon que cumpria a sua palavra, exceto uma vez.
Kain arqueou as suas sobrancelhas, não soubera o que o espantara mais. Toda a situação era irreal, vários fatos saltaram à vista como uma faísca de uma fogueira. O homem — Rhea — era a imagem mais velha de Caja, contudo as semelhanças pareciam apenas serem físicas, pois o homem não mostrava receio de usar a sua língua afiada.
Theon e Rhea conheciam-se, o que era muito raro, as tribos nunca se misturavam. Não era hábito a confraternização entre tribos. A situação do Vleed era a que mais o divertia, Kain dava tudo pra puder ver Caja a enfrentar as consequências de manter um canibal vivo. O guerreiro queria ver o garoto-flor em problemas.
Targus assentiu ao pedido do líder, olhando o outro homem com desdém, retirou-se.
— O nosso Xamã por alguma razão quer conhecer-vos. — Rhea informou aos dois visitantes com desinteresse. Os olhos dele pausaram brevemente no jovem que acompanhava Theon, as semelhanças eram bastante assustadoras. O filho de Theon era a imagem dele quando o conhecera, nem as cicatrizes cruzando o rosto do jovem diminuíam as semelhanças.
Rhea não esperou pela resposta, virou as costas e caminhou com Caja ao seu lado, com o seu braço em redor dos ombros do garoto de forma protetora. Não deixando de olhar com suspeita para o embrulho que Caja transportava nos braços. Na cabana do líder Theon, Kain e Caja sentaram-se em redor da mesa baixa no centro enquanto Rhea preparava relutantemente uma infusão de ervas doces e algo para os convidados comerem.
O Xamã entrara na cabana quando Rhea terminara de colocar os copos de barro na mesa. Targus guiou o Xamã para o lugar vago que era destinado para ele. O guerreiro olhou para os estranhos não deixando o seu desagrado ficar camuflado, sem uma palavra Targus saiu da cabana.
— Eu não sabia que a minha presença iria causar esse silêncio. — O Xamã sentiu a tensão enchendo o espaço. As energias espirituais tracejavam caminhos errados, carregadas de ressentimento, culpa, confusão, perda e qualquer coisa que manchasse a alma humana. Por outro lado, amor e esperança balanceavam.
Tantos sentimentos e emoções aglomerados num espaço tão pequeno poderiam ser prejudicial para um Xamã, um elo entre os homens e Espíritos, era um ser mais sensível. Por isso que os Xamãs preferiam a solitária companhia das suas cabanas, serem quase eremitas ajudava a controlar os efeitos nocivos de viverem com muitas pessoas.
— Claro que não. — Caja colocou a sua mão em cima da mão do Xamã, o segundo homem que o criara. — Eu senti muito a sua falta.
— Meu doce Caja, a aldeia ficou uma concha vazia durante a tua ausência. — O Xamã sorriu para o seu neto de coração. — E vejo que trouxeste algo muito precioso.
Rhea fez um som de descontentamento, olhando diretamente para Theon. — Eu não esperava que o meu filho regressasse com um filho. Obviamente surpreendi-me, é de se esperar qualquer coisa vindo de ti.
Theon não se deixou intimidar com o olhar venenoso do seu amado, sorriu. — Asseguro que Caja sabe o que está fazendo.
— Rhea ser avô vai fazer-te bem, a tua amargura já ajuda bastante, as rugas virão com o tempo. — A provocação de Gawain fez as risadas encherem a cabana. Theon sorria simpaticamente para Rhea, Caja tentava abafar o riso com a mão e Kain gargalhava.
O líder semicerrou os olhos para o velho Xamã. O seu rosto levemente vermelho para humilhação, Rhea aguentava bem as provocações do velho contudo na presença de Theon era mortificante. — Eu não te vou perdoar, velho.
O sorriso do Xamã aumentou um pouco mais. — Sem mais rancor Rhea.
O barulho dos adultos acordara Mupi. O menino remexeu-se inquieto nos braços de Caja, choramigando e esperneando assustado. Caja retirou a criança da bolsa de transporte, imediatamente tentou acalma-la sussurrando palavras e sons de conforto. Instantaneamente Mupi aconchegou-se perto do lugar que dava-lhe conforto, o pescoço de Caja.
Atónito e surpreso para além de palavras Rhea observou um lado do seu filho que nunca vira. A gentileza e afeição para com o pequeno, Caja movia-se em redor do pequeno com habilidade natural.
Kain mostrou o seu desprezo pela criatura enquanto os seus olhos fixavam-se na cena. — Ainda não sei como é que um Vleed consegue-se comportar como uma criança.
Rhea acordara do seu transe para mascarar horror no seu rosto. — Vleed? Um canibal?
— Por favor pai, Mupi não é um animal feroz. — O ritmo cardíaco de Caja disparou. Medo do seu pai querer matar o menino aflorou na sua pele. Aquela era a sua casa, se Rhea recusasse a ver a razão ele não saberia o que iria fazer.
Theon ficou tenso. — Rhea cal—
— Eu não vou ouvir nada que seja vindo de ti. Nada vindo dessa boca suja vai prestar! — Rhea cortara a palavra a Theon. A raiva que suprimira durante anos fervilhava. Theon simplesmente precisava fazer as coisas piorarem permitindo um canibal perto de Caja.
— Ei! Não fale com o meu pai dessa maneira! — A diversão de Kain em ver Caja em problemas desaparecera pela maneira odiosa com que aquele homem dirigia-se ao seu pai.
Os olhos glaciares de Rhea recaíram sobre o espelho de Theon, sorrindo maliciosamente. — As crianças devem ficar em silêncio enquanto os adultos conversam, vani.
A pouca resistência a provocações que Kain possuía esfumara-se, detestava que fosse tratado como um filhote. Preparou-se para ensinar uma lição sobre como filhotes poderiam entender os assuntos dos adultos, com os punhos. Não importando-se que Rhea fosse pai de Caja. — Oh, o filhote vai deixar uma marca no seu lindo rosto!
Contudo a sua intenção fora barrada pelo firme aperto de Theon no seu braço, e a sua voz autoritária. — Kain! Não! É exatamente esse o comportamento de um filhote!
Caja olhava com pânico, de um momento para o outro agressividade sobrepôs-se à passividade. Aflito o garoto virou o seu rosto para o Xamã, que placidamente bebia a sua infusão.
— Vamos acalmamo-nos, por favor. Rhea não há razão para temer uma criança, mesmo com a fama da sua tribo. Vleeds são criações dos Espíritos também. — O tom do Xamã foi censurador. — Meu jovem filho de Maza, o teu temperamento vai levar o melhor de ti se não for domado.
— O meu temperamento vai levar-me onde eu quiser, velho! — Kain deixou o respeito pelos anciãos de lado. Não concedia que algum estranho lhe aconselhasse de alguma maneira.
Ignorando os avisos do seu pai saiu da cabana sem se importar que ele era o estranho ali.
Theon levantou-se para seguir o seu filho, porém foi impedido de sair da cabana pelo Xamã.
— Filho de Maza acalma o tumulto do teu coração. Caja irá tentar conversar com o teu filho, enquanto tu e o meu adorado líder poderão falar em privado. — O xamã levantou-se gesticulando para Caja fazer o mesmo.
Rhea e Theon permaneceram em silêncio enquanto os dois saíram da cabana. O líder da Tribo da Floresta levantou-se incomodado com o olhar do homem que estava ali na sua frente, precisava de colocar uma distância. Rhea andou até à pequena janela da cabana, cruzou os braços sobre o peito tentando aplacar os tremores de nervosismo que corriam pelo seu corpo.
Ele não sabia o que havia para conversar com Theon, desejou que pelo menos por uma vez o Xamã não tentasse interferir. Rhea evitava de ir para o seu refúgio no lago a fim de evitar encontrar-se com o seu amor do passado.
Theon observou com angústia o esforço que o seu amado fazia para manter-se longe dele a todo o custo. As suas certezas começaram a não fazer sentido, seria melhor aceitar que ele mudara completamente, talvez as consequências da separação fizera um estrago impossível de reparar. Por isso Rhea transpirava ressentimento e ódio cada vez que olhava para ele.
Não podia esperar outra coisa, era idiotice pensar que Rhea voltaria apaixonado para os seus braços após tanto tempo. A noite do encontro dos dois dera-lhe o alento necessário para iludir-se. Vê-lo tantos anos depois fora como um remédio para o seu coração meio morto, os seus olhos ainda custavam a crer que o garoto rebelde e enfezado tornara-se o epitome da beleza.
Theon não soube quanto tempo ficou olhando para as costas de Rhea. O líder respirou fundo, precisava saber se realmente era desnecessário ter alguma esperança. Seria agora ou nunca. Recomeçar novamente ou terminar para sempre.
Theon parou a poucos passos do outro. — Rhea. — Viu como os ombros dele ficaram tensos. Colocou uma mão no ombro dele, fazendo-o virar-se para ele.
O rosto encontrava-se desprovido de expressão, assim como os olhos azuis estavam vazios, o tom azul esfriara-se emitindo uma sensação gelada. Rhea não moveu-se quando Theon acariciou-lhe a bochecha.
O líder tentou engolir o nó em que a sua garganta tornara-se. Ver a inércia do seu amado, a frieza nos olhos dele era assustador, preferia infinitas vezes que Rhea mostrasse a sua raiva do que mostrar indiferença.
— É impossível para nós recomeçarmos onde páramos? — Theon perguntou num sussurro.
O sorriso fraco de Rhea fez o estômago de Theon retrair-se.
— Eu esperava que entendesses os meus sinais, Theon. Eu não vou desenterrar o passado para termos uma sombra do que aconteceu para o presente. Não te quero na minha vida, não restou quaisquer sentimentos de amor por ti. — Rhea falou calmamente, deixando a sinceridade transparecer na sua voz. Theon precisava entender. — Segui com a minha vida, encontrei alguém que foi um conforto para mim, não faz sentido ficar preso no passado.
As palavras de Rhea foram como uma lâmina no coração de Theon. De qualquer forma ele esperava isso, mas não queria dizer que doesse menos. Conseguiu subir os cantos dos lábios numa tentativa de sorriso. A humidade quente nos seus olhos apareceu instantaneamente, Theon engoliu duas vezes antes de conseguir falar.
— Eu entendo, o que me moveu a persistir foi uma ilusão. — Theon balbuciou olhando intensamente nos olhos do seu amado. — Será que eu posso… — Inclinou o rosto um pouco mais ficando a uma respiração de distância dos lábios de Rhea.
Rhea permitiu que os lábios do homem tocassem nos seus. Os lábios ternos dele fizeram-no abrir os seus, deixando a língua de Theon invadir a sua boca. A sensação avassaladora percorreu cada pedaço do seu corpo, a sua língua entrelaçava-se com a de Theon, retribuindo a intensidade. Pelo menos daria a Theon um beijo de despedida para puderem selar o passado, finalmente. O gemido de Theon foi incompreensível, uma mistura de deleite e agonia.
O beijo terminou quando Theon forçou-se a separar-se de Rhea. A humidade das lágrimas tornara-se insuportável, o que menos precisava naquele momento era a humilhação do seu amado vê-lo chorando. Esboçou um sorriso triste, acariciou o rosto de Rhea pela última vez e virou-lhe as costas para ir-se embora. Deixando o seu coração para trás pela segunda vez na vida, só que dessa vez seria para sempre.
ººº
Caja permaneceu em silêncio ao lado de Kain, os dois encontravam-se sentados num tronco caído à entrada da orla de árvores da aldeia. O jovem guerreiro estava bastante irritado. O garoto não soube muito bem o que falar, olhava furtivamente para o guerreiro que permanecia com a mesma carranca, e os dedos entrelaçados com força suficiente para partir um pescoço, as juntas estavam ameaçadoramente brancas. O respirar fundo assustou Caja, mais ainda quando Kain virara o seu rosto para encara-lo.
— Finalmente em casa florzinha. — Kain começou.
Kain levantou-se bruscamente e puxou Caja para um abraço inesperado, desajeitado e estranho. O garoto permaneceu sem reação, imagens dos dois se beijando galopavam na sua mente, todas as vezes que Kain colocava os seus braços nele terminava em beijo. Um arrepio percorreu a espinha dele pela antecipação.
Tão depressa o abraço começou como terminara. Kain largou o garoto-flor com rudeza. — Então adeus Caja. Cuida-te.
O garoto recuperou do seu quase choque, quando o seu cérebro começou a funcionar minimamente conseguiu recompor-se. — Obrigado pela tua…amizade Kain. — Foi o melhor que conseguiu pensar. No houvera beijo.
Kain riu, porém o riso não chegou aos seus olhos. Caja esperava que o outro retribuísse com alguma resposta sarcástica, mas não, ele simplesmente ficara calado. Momentos depois dos dois entreolharem-se longamente o guerreiro virou-lhe as costas, dirigindo-se para a aldeia. O garoto seguiu-o em silêncio.
Theon esperava-os com o seu sorriso característico, porém Caja percebeu que a expressão não era verdadeira. O líder envolveu-o num abraço. — Fico feliz por ter-te conhecido Caja. Espero que os Espíritos te guiem para um caminho próspero.
— Muito obrigado por tudo o que fez por mim. Sem Kain eu não teria conseguido sobreviver. Muito obrigado por ter oferecido a sua tribo para me acolher. — A emoção de Caja estava tomando conta das suas palavras.
— Apenas mostramos a bondade e a compaixão que nos foram ensinados pelos Espíritos, Caja. — Theon falou suavemente, desfazendo o abraço. Esperava tudo de bom para o garoto, e que ele florescesse para fazer grandes feitos.
Despedidas feitas Theon olhou para o seu filho, o rosto dele pendendo para encarar o chão o fez tocar no ombro de Kain em simpatia. Os dois precisavam sair dali o mais depressa possível.
Caja viu pai e filho partirem para saírem da aldeia, não viu o seu pai, Mupi estava com o Xamã, a agonizante sensação de solidão arranhou o seu interior. Havia tantas coisas confusas que aconteceram que não conseguiu encaixar, não as entendia.
ººº
O caminho de regresso para a Tribo do Lago foi feita em silêncio. Pai e filho não se contiveram em fazer a viagem com toda a rapidez que as suas pernas permitiam. Não precisaram parar, fizeram todo o caminho quase com fúria, como se o propósito fosse drenar todas as energias deles.
A noite cobria o céu quando Kain entrou na sua cabana, a fogueira estava acesa, provavelmente fora trabalho da sua mãe ou irmã. Contudo nem o reconfortante e aconchegante calor da cabana aplacaram o frio que ele sentia. Caminhou para a sua cama com a intensão de jogar-se nela e dormir até que o seu espirito saísse do corpo, porém algo em cima da mesa chamara a sua atenção.
Kain pegou no colar com contas negras e pedras verdes. Reconheceu as pedras que Caja admirara no interior do desfiladeiro de Mutu.
Colocou o colar, apertando a pedra maior do centro com a mão.
Fale com o autor