Desejos Primitivos

11 Lendas de Fogueira - Os Quatro


Notas iniciais
Resolvi fazer essas lendas para contar um pouco dos Espíritos, em nada vai afetar o enredo, será mais para finalizar os cliclos. Apesar de achar que esses personagens têm potencial. Espero que gostem! Boa leitura!

O nascimento da vida teve diversas versões contadas, cada ancião contava para as suas crianças versões passadas sempre acrescentando fantasia ao seu conto. As lendas sobre os Espíritos davam uma larga margem para invenções mirabolante. As histórias eram muito apreciadas pelos membros das tribos quando se juntavam em redor da fogueira, e desfrutavam desse entretenimento pela noite a fora.

Desde da existência dos homens que apenas dois ou três Xamãs conseguiram conectar-se com os Espíritos. Apenas um deles contava a verdadeira lenda dos quatro elementos fundamentais para a criação da vida, esse Xamã ainda vive para contá-la. Muito antes da existência dos dinossauros e do aparecimento dos homens, apenas quatro seres divinos habitavam a Pangeia.

ººº

No inicio da criação desta terra, o sol mandou o seu filho para queimar toda a superfície e eliminar todos os componentes tóxicos que tornavam o solo estéril, abrindo caminho para a terra renascer. O vento espalhara e arrastara consigo todas as pequenas sementes contendo as formas de vida que ganhariam raízes na terra, por fim a água alimentaria o solo através da chuva, rios, lagos e riachos.

Nenhum elemento era superior ao outro, todos necessitavam do outro, sem algum deles teria sido impossível a criação de plantas, animais e homens.

As noites sucediam os dias na terra de ninguém. Sons vivos eram inexistentes, apenas o uivo do vento nas folhas muito ocasionalmente. Quatro elementos criados pela própria terra de ninguém apareceram, trazendo com eles as habilidades de onde nasceram.

Os Espíritos apenas sabiam os próprios nomes, nada mais, a existência deles fora criada em um sopro. Os quatro apenas sabiam os seus nomes e o quanto gostavam da liberdade que a terra de ninguém proporcionava.

Lwena, Espírito da terra nascera de um grão de semente seco, a linda garota de pele castanho bem escuro igual ao solo com volumosos cabelos cacheados que constantemente estavam cheios de folhas ou pedaços de paus, os seus olhos eram de um verde profundo como o coração de uma floresta ou a copa de uma árvore. A menina era esguia e magra sempre trajando vestimentas feitas com diversas folhas e texturas.

O caracter calmo e sereno faziam com que Lwena amasse a vida, desde o pequeno insecto até à maior árvore que existia. A garota tinha um amigo, com quem ela gostava de passar todo o seu tempo. Mutu, o Espírito do vento, os dois adoravam a companhia um do outro, de fato era a única companhia que possuíam já que eles não se davam muito bem com os outro dois elementos.

Terra e vento davam-se lindamente, Lwena queria ser amiga de Maza, mas o receio dela era sempre mais forte e impedia-a de dar o primeiro passo para o conhecer, apesar da sua terra precisar de água para sobreviver.

Secretamente Lwena observava Maza do topo das suas árvores, cada vez que o garoto saía das águas e andava por entre as florestas deixando um rasto húmido atrás de si, o desejo de ser amiga dele aumentava cada vez mais.

O Espírito da água nunca cobrara-lhe nada por alimentar a sua terra, ou sequer tentou ir atrás dela. A timidez da menina fazia-a esconder-se atrás dos troncos, cada vez que Maza se aproximava ela subia uma árvore e ficava observando-o no alto. Às vezes podia jurar que o garoto sabia que ela estava ali mas disfarçava e continuava a derramar a água do seu corpo para a terra.

Fazia muitos dias que Mutu não aparecia, nem uma brisa, Lwena fora procura-lo no seu desfiladeiro preferido, o caminho cravado na sua rocha era bem mais fácil de usar do que ter que escalar. No topo do desfiladeiro tudo estava silencioso, isso trouxe umas abundantes lágrimas aos olhos da menina, sentia muito a falta do seu amigo.

Cansada de procurar Mutu por todos os lugares, sem uma brisa fraca para servir de pista, sentou-se à beira de um lago, chorando. Lwena estava tão concentrada na sua tristeza que não se apercebeu do garoto que apareceu na superfíce da água.

— Por que é que estás chorando? — Maza perguntou, o seu corpo ganhando forma corpórea. Os seus olhos azuis nunca deixando a menina.

Lwena assustou-se com a interrupção ao seu choro. As lágrimas gordas inundando os grandes olhos verdes abriram-se exageradamente ao ver o garoto loiro. Era a primeira vez que ouvia a voz dele, era um pouco grave mas melodiosa ao mesmo tempo.

A menina ficou pasmada por ver de perto pela primeira vez o Espirito da Água. O tom branco da pele dele era muito bonito, o corpo esguio mas com os primeiro sinais de músculos marcados.

A roupa estranha que ele usava não passava de um monte de folhas verdes estranhas quase transparentes onduladas e colantes, conchas e pedras redondas decoravam as folhas longas e caídas até ao joelho. O peito dele estava completamente nu, os cabelos loiros caindo lisos até aos ombros, os olhos tão azuis como o céu e as águas.

A garota tentou parar de encarar o outro e respondeu entre soluços. — Mutu desapareceu…

— Eu acho que sei onde ele está. — Maza saiu da água e parou em frente à menina estendendo a sua mão para ela.

Lwena não pensou duas vezes para segurar a mão do garoto loiro. O sorriso dele era o mais lindo de todos, se não estivesse tão triste pelo desaparecimento de Mutu, estaria pulando de alegria por finalmente estar perto de Maza.

Porém fora interrompidos calorosamente por Lutshazi. O filho da fagulha do sol — Niski —, apareceu caindo do céu perto deles, o sorriso petulante nos seu lábios. Os cabelos vermelhos e laranjas flamejantes terminavam espetados no cabeça, os olhos amarelos expressando vivacidade, o corpo de menino em desenvolvimento deixava antever o quanto ele iria ser alto e forte. Assim como o cabelo as orelhas eram pontudas. A cor dourada da pele de Lutshazi apenas adicionava-se à mistura quente do Espírito do Fogo.

— Ei Maza. Quem é ela? — Lutshazi olhou para o seu melhor amigo e para a garota.

— Lwena. — Maza respondeu simplesmente, não sabia ao certo como soube o nome dela, mas o nome dela estava gravado no seu núcleo. Ele conhecia Lutshazi e Mutu, portanto só faltava Lwena.

Os quatro elementos foram criados para coexistirem juntos, só o idiota do Shazi para fazer essa pergunta.

Lutshazi revirou os olhos. — Eu não gosto dela. — Impulsivo o Espírito do Fogo acendeu uma fagulha na ponta do seu dedo e atirou-a para a garota feia.

Lwena sentiu muita dor quando o fogo foi atirado para o seu braço. Doía muito, sentiu a sua vida sendo ressecada pelo fogo. Imediatamente a mão fria de Maza extinguiu o fogo, vertendo água no braço dela.

— Shazi! — Maza olhou irado para o amigo. Não era da sua personalidade perder a calma e sensatez mas o Espírito da Água ficou com raiva pulsando quando viu Lwena sendo ferida. Shazi não tinha direito algum de feri-la.

Maza levantou a sua mão ordenando que uma grande quantidade de água se levantasse, e atirou-a em direção ao idiota vermelho.

Escusado será dizer que Lutshazi gritou de uma maneira pouco digna quando a onda caiu em cima dele. Maza sabia que fora maldade o que fizera, Shazi era muito fraco contra água, mas não pôde evitar, ele precisava provar as suas atitudes.

Bastava ele ficar por um tempo ao sol para se secar que tudo ficaria bem. O outro sabia muito bem o quanto a natureza era frágil ao fogo.

— Estás bem? — Maza massageou suavemente o braço da menina, preocupação fluiu no peito dele.

— Sim… — Lwena choramingou. Estava melhor graças ao garoto, mas tinha um grande medo do fogo.

Então o vento começou a soprar sobre as copas das árvores. Mutu aterrou suavemente no chão com o seu enorme cabelo esvoaçando atrás dele. Os olhos transparentes dele observaram o grupo confuso. O Espírito do Vento era o mais baixo de todos, por um pouco e menos desenvolvido fisicamente, mas esbelto, em compensação todos acham-no o elemento mais lindo.

O cabelos longos prateados arrastavam-se pelo chão sem nunca ficar sujo, a pele muito clara era uma perfeição, do lado do seu rosto onde supostamente deviam estar as orelhas, estavam duas elegantes asas de penas brancas. O rosto arredondado com altas bochechas e um nariz pequeno e arrebitado. As vestes dele sempre era extravagantes, tecidos longos e fluídos, a preferência de cor seria sempre o branco.

O temperamento de Mutu podia ser muito volátil dependente da situação. O peito de Mutu encheu-se de preocupação ao ver a sua amiga com uma expressão de dor. — O que é que aconteceu Wena? — O garoto aproximou-se da amiga e verificou com horror a recente queimadura cicatrizando. — Desculpa, eu acabei por dormir demais, mas é que a gruta que encontrei é muito linda. Acho que encontrei o meu segundo lugar preferido. — Mutu divagou sonhadoramente.

Lwena apenas assentiu silenciosamente, continuava com dor e chateada por ver que o seu melhor amigo estivera o tempo todo dormindo, enquanto ela chorava pelo desaparecimento dele.

Mutu suspirou, sentindo-se culpado.

— O menino faísca ali, já foi castigado. — Maza informou. E todos olharam para o Espírito do Fogo sem o seu brilho e calor normal, parecendo cansado.

O Espírito do Vento aproximou-se dele furioso, mas a intensidade da sua fúria desaparecia à medida que chegava mais perto de Lutshazi, ele não parecia nada bem ali sentado. Mutuo ajoelhou-se na frente do bravo fogo, segurando o rosto dele com a mão. — Dói muito? — A voz do garoto não subiu mais que um sussurro, o medo de machucá-lo por falar alto era sério.

— Um pouco… — Shazi respondeu fracamente, olhando o elemento mais lindo de todos. A sintonia entre o fogo e vento era indescritível, mesmo que ambos não falassem com frequência.

Mutu sentiu a necessidade de curar o Espírito do Fogo. Deixou os seus lábios tocarem na bochecha dele por breves momentos até sentir a temperatura de Lutshazi subir.

— Obrigado, Mu. — Lutshazi suspirou, as bochechas douradas tingidas de vermelho. Todo o seu corpo recuperara o calor, as cores vibrantes dos seus olhos e cabelo resplandeciam mais vivamente que antes, o vento alimentava-o.

— Não machuques a Lwena, por favor, por mim. — Mutu implorou. Assim que viu o ligeiro aceno de cabeça do outro, depositou um beijo mais arrojado no canto da boca dele. — Obrigado Luts.

O Espírito do Fogo demorou para encontrar o equilíbrio para se levantar. Ele cumpriria cegamente tudo o que Mutu pedia, exatamente como uma faísca levada por uma brisa…

ººº

Este é um dos acontecimentos verdadeiros que as lendas distorcem. Os quatro elementos nem sempre são amigáveis uns com os outros, divergindo entre eles e sem noção do que tudo o que fariam poderia afetar a existência da vida.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Ahah
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.