Desejos Primitivos
9 Procura-me por perto
Notas iniciais

A Xamã aplicava a pomada nas queimaduras do pequeno corpo, tendo paciência quando a criança contorcia-se para fugir à pomada fria. As queimaduras de gelo eram profundas, mas por enquanto não precisavam de recorrer a amputações ou retirar pele. Tirando a mal nutrição e as queimaduras, o menino parecia saudável, só precisaria de umas boas refeições quentes e de dormir muito para recuperar-se.
O garoto choramingava como se fosse um filhote de animal. Certamente os Vleeds eram mais animais do que humanos, só seria natural que ele não soubesse se comunicar com palavras e sim com grunhidos. Contudo não deixava de ser igualmente aflitivo ver uma criança tão pequena sofrendo daquele jeito, era incabível e desumano o método que aquela raça adotara para eliminar os elos fracos da tribo.
— Diga-me, ele ficará bem? — Caja observou tudo o que a Xamã fazia. Não poder fazer nada quanto ao choro da criança, era agonizante.
Obviamente o menino detestava a pomada de ervas fria, só poderia imaginar o trauma com que a criança ficaria. Esforçar-se-ia para tentar mudar a vida dele para melhor, não fazia a mínima ideia de como iria fazer isso, por isso contaria com a ajuda de quem melhor sabia sobre a criação de filhos, o seu pai. Depois do choque que o seu pai levaria por saber que salvara um canibal, iria com toda a certeza ajuda-lo.
Convicto das suas certezas sobre o futuro, Caja concentrou-se na pequena vida que agora dependia dele. Segurou na mãozinha da criança, para tentar acalma-lo, as unhas um pouco compridas demais cravaram-se na sua palma, mas não deu importância.
— Creio que sim, o pior já passou. — A velha Xamã assegurou ao jovem, nada de mais grave fora infligido ao menino, mas teriam que esperar pelo pior caso a extensão dos danos fosse maior do que os olhos dela examinaram.
O garoto suspirou aliviado, temia que os seus esforços de mante-lo quente quando o encontrara teriam sido tarde demais. A aparência suja da criança ficou ainda pior com a mistura de ervas espalhada pelo corpo, parecia um filhote que rebolara-se pela lama. — Quando é que ele poderá tomar banho?
— Hm, agora não por causa da pomada, talvez mais tarde quando as ervas secarem na pele dele. — A Xamã examinou todo o corpo do menino, desde das orelhas até às pontas dos pés procurando por possíveis ferimentos.
Os curandeiros recusaram-se a prestar auxilio ao Vleed por receio. Ela entendia o receio deles, mas como missionária dos Espíritos precisava de ajudar qualquer ser vivo, afinal os Vleeds também eram fruto da criação deles. Além de ser somente uma criança indefesa que precisava ser cuidada e não desprezada.
Quando verificou que o menino não possuía mais nenhum ferimento grave, voltou a vestir-lhe a túnica minúscula, afagando-lhe a cabeça. A Xamã vasculhou na sua cesta procurando por um pequeno recipiente de argila, dentro continha a essência preta de Suspiro de Mutu. — Dá uma gota desta essência uma vez por dia ao menino, durante três dias deve chegar.
— Sim, obrigado. — Caja pegou no recipiente e colocou-o em cima da mesinha de madeira no centro da cabana. Em seguida encheu uma bacia com água para a Xamã poder retirar da pomada de ervas das mãos. — O interior dele não foi prejudicado, certo?
— Ao que parece não, o pequeno é mais forte do que parece, sendo um Vleed está apto para suportar o gelo e frio melhor que qualquer outra tribo. — A velha Xamã limpou as mãos no tecido que fora colocado ao lado da bacia, e virou-se para o jovem. A ternura que presenciou foi pouco natural, o garoto estava paparicando a criança despreocupadamente. — Chama-me se precisares de mim, meu jovem.
Caja levantou-se da cama de peles para acompanhar a Xamã até à saída, agradecendo. — Obrigado.
Regressou para junto do insatisfeito Vleed, ele não gostara nada do tratamento que acabara de receber, parecia extremamente aborrecido com Caja. Os olhos vermelhos do pequeno estavam fixos nele, perfurando-o com a acusação apetrechado com um beicinho, indicando que poderia começar a chorar a qualquer momento.
O garoto da Tribo da Floresta cutucou a bochecha do menino, sentindo-se um pouco culpado pelo olhar infeliz dele. — Foi tudo para o teu bem, para te manter saudável e forte. E precisamos de um nome para ti.
Cutucou um pouco mais, insistindo para que ele desfizesse o beicinho. Sem muito sucesso, o menino apenas continuava a encara-lo com acusação nos olhos vermelhos. Contudo a agitação fora demais para o pequeno Vleed, que acabara por render-se à sonolência instantânea. — Dorminhoco, não queremos que o grande e malvado Kain te veja dormindo na cama dele.
O garoto olhou em redor da cabana e reparou em um grande cesto feito de ráfia. Retirou as coisas inúteis de dentro e colocou umas quantas peles para torna-la confortável. Colocou o cesto ao lado da sua cama. Pegou no menino e colocou-o lá dentro, aconchegando-o nas peles macias.
Para ocupar o seu tempo de forma produtiva Caja dedicou-se a limpar a fundo a cabana, como forma de agradecimento a Kain. E porque precisava desesperadamente de uma boa limpeza, havia coisas que sequer tinham alguma função, parecia que o guerreiro gostava de colecionar lixo.
A primeira coisa que fez foi retirar todos os cobertores de peles da cama, para arejar na rua penduras em cima de uma liana atada em duas árvores.
Encontrou ossos velhos em alguns cantos da cabana, seriam de Kain ou de Xanxus… Juntou todo o variado lixo, desde restos de carcaças a pedaços de flechas partidas, levou tudo para trás da cabana, onde cavou um buraco e enterrou tudo. Limpou os cantos do teto, onde insetos fizeram a sua casa. Recolheu as peles e refez a cama, o mais confortável que pôde.
A cabana ficara com um interior bem melhor, só faltava algo para dar um perfume mais agradável, Caja saiu para procurar algumas flores.
ººº
Kain desapareceu da cabana assim que amanhecera, não queria ter que encarar Caja. Repugnava-o vê-lo dormindo com a criatura ao seu lado, não perdoara-o por opor-se a ele. Passara o dia na preguiça em alguns cantos, até o grupo de guerreiros da mesma idade que ele vir busca-lo para juntar-se a eles.
Eram as poucas pessoas da sua idade que ele tolerava. A tarde do grupo consistiu em medir as habilidades de arco e flecha, quem conseguia subir mais alto nas árvores e uma competição de quem conseguiria mijar mais longe sem usar as mãos como suporte. Basicamente a tarde foi passada entre desafios idiotas, feitos por rapazes cheios de energia para gastar. Sem contar com a testosterona regulando o sangue competitivos dos jovens.
Ao anoitecer fizeram uma fogueira, a conversa dos jovens consistia em contarem as suas habilidades sexuais. Kain não estava muito presente na conversa, apenas ria e comentava quando necessário. Não havia necessidade de compartilhar essas coisas, e porque a maioria sempre mentia para endeusar as suas habilidades na cama.
— Sortudo é o Kain, que tem uma linda flor seguindo-o para todo o lado. — Um disse entre risadas maliciosas. — Se todas as garotas tivessem pelo menos metade da beleza dele, estaríamos melhor servidos. A florzinha já terá sido desabrochada?
— Pena que ele é um garoto, é verdade que ele tem no meio das pernas o mesmo que nós temos? — Outro debochou e todos riram.
— Por mim não me faz diferença Caja ser homem, só precisa ter buraco mesmo. — Mais uma rodada de risadas idiotas.
Em outros tempos tudo aquilo faria Kain rir com os outros, mas nada daquilo pareceu-lhe divertido ou engraçado. Não gostou da maneira como falavam de Caja, estava pronto para mandar todos irem foder-se e quebrar um ou dois narizes, quando a pessoa que estava evitando durante todo o dia gritou o seu nome. — Kain! Kain!
ººº
A limpeza demorara boa parte do dia, ao entardecer acordou Mupi — nome que arranjara para o Vleed, algo a ver com Mutu e a flor dele — para ir tomar banho com ele. Ambos precisavam de um bom banho por diferentes razões,
Caja por estar todo suado e Mupi por estar com a pele toda ressecada com a pomada de ervas que a Xamã aplicara-lhe de manhã.
Afastou o cobertor de peles, e gentilmente cutucou Mupi para acorda-lo. Caja não sabia se seria normal que o menino dormisse por tanto tempo, era certo que ele estava recuperando de um trauma que quase custara-lhe a vida, mas se não fosse por Caja acorda-lo para comer ou beber, o menino não acordaria sozinho, era preocupante. Uma criança com idade dele não era suposto dormir tanto.
Sorriu ao ver que as suas cutucadas estavam surtindo efeito, Mupi espreguiçou-se e fazia sons de filhote mostrando o seu desagrado por ter sido obrigado a acordar. Caja fez cócegas na barriga para faze-lo despertar de vez, os grunhidos insatisfeitos deram a ele uma risada espontânea, a terrível cria que todos temiam não passava de um filhote como tantos outros.
O comportamento de Mupi poderia não ser completamente de uma criança humana, mas definitivamente não era de uma terrível besta canibal. Retirou a franja negra que estava tapando o rosto dele, os olhos vermelhos focados nele com curiosidade, Caja não resistiu em inclinar-se e dar-lhe um beijo afetuoso na testa. Obviamente o menino não estaria acostumado a demonstrações de carinho, por isso assustara-se um pouco com o ato.
''Espíritos adorados, de onde vem este afeto todo?’' Suspirou, ele lidava com crianças da sua tribo, como toda a gente, mas nada de especial. Brincava com elas quando pediam, tratava de uma ferida ou outra quando via alguma criança se ferindo no meio das brincadeiras, mas nada de distribuir carinho livremente.
Seria porque Mupi era uma criança renegada e diferente? Estaria ele se vendo no menino e por isso sabia o quanto um afeto faria bem a um coração tão ferido desde tenra idade? Apesar de que a vida de ambos sejam tão diferentes, mas remotamente parecidas?
Suspirando mais uma vez com os pensamentos desnecessários, pegou na criança ao colo e saiu da cabana, levando o sabão floral e um grande trapo de tecido para secar o menino, um bom banho quente era tudo o que os dois precisavam.
No lago dos banhos Caja não demorou nada a despir os dois e entrar na água, um arrepio de deleite percorreu a espinha dele ao sentir o impacto da água quente no seu corpo.
Mupi não compartilhava da mesma opinião, começou a chorar e tentar escalar o peito de Caja para sair do contato com a água, as pequenas garras afiadas arranhavam-no no peito. — Mupi acalma-te por favor, está tudo bem. — Caja não fez movimentos bruscos, nem andou para a parte funda do lago, permaneceu com a altura da água até à barriga.
Para acalmar o menino encostou o rosto dele no ombro, o contato com o seu pescoço parecia acalma-lo. Após acalmar-se Mupi encarou a água com menos medo, porém tentava a todo o custo retirar os seus pezinhos do contato com a água.
Com extremo cuidado lavou os cabelos do menino, tentando desfazer os nós com os seus dedos, era complicado dar-lhe banho com ele ao colo usando somente uma mão, mas Caja conseguiu essa proeza. Quando o menino ficou todo limpo levou-o até à beira do lago, colocou-o em cima dos trapos de tecido e secou-o, fez o mesmo consigo e vestiu a tanga. Vestiu uma combinação de túnica e calças a Mupi para passar a noite resguardado do frio. Faria mais roupinhas para ele quando conseguisse mais materiais.
No caminho de regresso para a cabana algo muito inesperado e embaraçoso aconteceu. O seu peito sofreu um ataque com uns dentinhos bem aguçados, mais propriamente o seu mamilo esquerdo. Mupi sugava-o com insistência, esperando que algo saísse. — Ei! Não vai sair nada daí! Não sou a tua mãe, Mupi! — Caja tentou afastar o garoto do seu peito sem mutilar-se, os dentinhos afiados estavam bem fixados naquela área muito sensível. — Mupi larga! Queres leite? Óbvio que sim, ainda és bem pequeno.
O garoto da Tribo da Floresta esquecera-se de onde se encontrava, algumas pessoas olharam-no com desconfiança e desdém. Aconchegou melhor Mupi nos seus braços, tapando-o com os trapos, protegendo-o contra os olhares de desprezo. Era horrível ver tanto ódio direcionado para um ser tão pequeno, o medo fazia as pessoas serem cegas e estúpidas.
A cabana continuava vazia, tal como a deixara, Kain não aparecera durante todo o dia, nem na hora das refeições. Caja ressentiu-se com a atitude do outro, mesmo que fosse compreensível...
Colocou os tecidos formando um resguardo na criança, que todos os bebés usavam para evitarem acidentes molhados durante a noite. Precisava arranjar uma tijela de leite para deliciar Mupi na hora de dormir. Pelo que soube havia um Repenomamus fêmea amamentando a sua ninhada, o mamífero de um metro dispensava algum leite para os humanos em troca de comida fácil.
Relutantemente deixou a criança no seu cesto, confiante que ele não sairia de lá e correu para o curral onde a Mamus — como era carinhosamente chamada — estava, por sorte havia alguém ordenhando o animal. O velho agricultor havia enchido dois jarros de barro, já que quanto maior a ninhada for mais leite a mãe dará.
— Boa noite será que eu poderia ter um pouco de leite da Mamus, por favor? — Caja pediu com educação, se havia coisa em excesso nele era a educação. Crescera assim, se o seu pai soubesse que alguma vez fora mal-educado com alguém mais velho, levaria uma surra.
O homem olhou para ele sem grande entusiasmo ou resposta, apenas pegou na jarra de barro, e Caja entendeu a sua tijela para ele encher. Agradeceu e apressou-se a ir para casa. — Mupi? — O menino não estava onde o deixara, o cesto estava vazio.
O garoto colocou a tijela na mesinha de madeira e começou a procurar em todos os cantos da cabana, nem um fio de cabelo preto encontrara. Correu para a rua, com a noite surgindo ficava muito difícil ver por entre tanta vegetação, um pânico incontrolável explodiu em Caja.
Todas as possibilidades do desaparecimento de Mupi não eram nada animadoras, imagens horripilantes imergiam na sua cabeça não deixando-o pensar com clareza. O menino não andava, mal conseguia suster o próprio peso, além de estar recuperando de ferimentos de gelo, a única opção era o sequestro.
As lágrimas escorriam sem ele dar importância. ''Kain, eu preciso encontrar ele!'' O garoto correu por toda a aldeia perguntando se alguém sabia sobre o paradeiro do guerreiro. Ninguém lhe dera uma resposta concreta, estava praticamente desistindo de procura-lo autonomamente e ir procurar o líder, contar o que acontecera. A ideia de encarar Theon perante o seu fracasso era aterradora, o líder tinha uma aura de quem tolerava pouco os fracassos. Perder Mupi somente reforçava o quanto ele era inapto para coisas importante.
O filho do líder da Tribo da Floresta encheu-se de coragem que não sentia e caminhou para a cabana de Theon, seria tarde demais se ele prolongasse a sua busca, Mupi contava com ele para encontra-lo. A pele dos seus braços arrepiou-se ao lembrar-se da maneira como Theon tratara os anciões, alguém como ele era facílimo para o líder mastigar os seus ossos, Caja não oferecia muita luta. Ao aproximar-se da cabana do líder, o garoto era uma bagunça de nervos, porém antes de chegar à entrada Saxon saiu da cabana com uma bacia de ossos que colocara à entrada, certamente para Xanxus.
Antes que ele pudesse dizer algo, o irmão mais novo de Kain foi mais rápido. — Kain não está aqui. Ele e os seus amigos idiotas estão no sítio das árvores gémeas.
O garoto dos cabelos brancos saiu disparado para onde Saxon lhe indicara, gritando um agradecimento enquanto corria. O filho mais novo do líder observou Caja desaparecer por entre a linha de árvores, tentando entender o que acontecera para ele estar naquela aflição.
Theon aproximou-se do seu filho. — Era a voz de Caja que eu ouvi?
— Sim. Eu acho que Kain fez alguma coisa que não devia, outra vez. — Saxon repreendeu o irmão. Ficava irritado por ver o seu irmão agindo como um idiota burro, quando na verdade ele era muito mais do que aparentava ser. A implicância que Kain demonstrava com Caja era infantil, até ele que só tinha treze outonos via isso.
O líder não prestou grande atenção à situação, devia ser só uma piçarra entre os dois. Se fosse algo mais grave ele já haveria ter sido informado.
Após descobrir o paradeiro do guerreiro, Caja correu todo o caminho até parar em frente à pessoa que ansiava ver. Pânico extravasava por todos os poros do corpo dele. — Kain! O Mupi desapareceu!
— Quem é Mupi? — O guerreiro ficou confuso. A forma angustiada do garoto-flor estava deixando-o nervoso.
— Eu só saí para ir buscar leite para ele! — O garoto não parava de gesticular freneticamente com as mãos, não prestando atenção ao que lhe era dito, até Kain segurar nos braços dele e fazê-lo acalmar.
Caja calou-se e focou-se no rosto do outro, esbugalhando os olhos. — O quê?
— Quem é Mupi? — Repetiu.
— É o nome que eu dei ao Vleed… — Sentiu os dedos do guerreiro apertando nos seus braços, o rosto distorcido de raiva. Nesse momento o garoto-flor temeu Kain pela primeira vez.
— Maldito sejas Caja! Eu avisei-te! A primeira que essa criatura fizesse, morreria! — Kain largou o garoto-flor e saiu disparado para a aldeia, implorando para os Espíritos que a criatura não tivesse feito nada, caso contrário estariam com muitos problemas.
Caja correu para acompanhar o moreno, mas ele estava furioso demais para parar aos seus chamamentos. — Kain! Para! E se alguém pegou o Mupi para fazer-lhe mal?
Isso fez o jovem guerreiro parar e olhar para o garoto-flor como se estivesse louco. — E por que é que alguém iria querer pegar nessa criatura amaldiçoada?
— Exatamente por ser essa criatura amaldiçoada! Para de ser estúpido Kain! Ele é só um bebé! Não vai fazer mal a ninguém! — O garoto dos cabelos brancos explodiu, podia jurar que Kain podia ser tão lento às vezes. Não deixou-se intimidar quando o guerreiro lançou-lhe um olhar venenoso por causa da ofensa.
— Vamos procurar essa criatura, se eu for o primeiro a encontra-la, vai morrer. — O sorriso de Kain foi vicioso. — Que tal? Sugiro que te esforces bastante. — Sem perder mais tempo Kain foi para a sua cabana, tentar capturar o odor do Vleed. Não era muito difícil distinguir o cheiro demasiado doce envolvido com sangue.
O trilho do odor mais fresco que captou levou-o até ao lago dos banhos, porém já era fraco, indicando que o Vleed estivera ali mais cedo. Verificou os arredores, árvores e vegetação sem sucesso, realmente o guerreiro não achou que a criatura pudesse ter saído pelo seu próprio pé. Regressou à cabana para tentar obter o odor da criatura em um caminho diferente, se alguém realmente tivesse sequestrado por essa altura já não deveria estar viva.
Caja percorreu o centro da aldeia pela terceira vez, estava tudo igual às duas primeiras vezes que passara por ali. Além de já ter anoitecido — o que dificultava bastante a procura —, não havia nada de suspeito que indicasse que Mupi estivesse dentro de alguma das cabanas.
Felizmente não ouvia sons de alguém sendo degolado ou espancando. Frustrado regressou para a cabana, não sabendo se sentir-se-ia aliviado ou receoso que Kain encontrasse Mupi, contudo o guerreiro não estava na cabana. O garoto enfiou as mãos nos cabelos tentando manter a calma. Era surreal o medo que sentia pelo desaparecimento do pequeno.
— Eu não encontrei a criatura. — Kain entrou na sua cabana observando o estado do garoto-flor. Não entendeu o porquê dele estar num estado que parecia que havia perdido algo precioso. Todos os rastos onde o odor era mais forte eram perto da cabana, isso queria dizer que não tinha sido sequestrado, o maldito devia estar enfiado em algum buraco.
Caja sentiu-se a pior pessoa de todas, desabou na sua cama enterrando o rosto nas palmas das mãos. — Eu não devia tê-lo deixado sozinho. — Murmurou, sentindo a culpa esmagando-lhe o peito.
Kain revirou os olhos, não queria acreditar na tristeza do garoto-flor, se ele chorasse seria o cúmulo do ridículo, fazia apenas uns dias que encontrara a criatura mas já estava agindo como se tivesse perdido alguém importante. Suspirou exasperado e aproximou-se de Caja, sentou-se ao lado dele dando tapinhas desajeitados em forma de conforto no ombro. — Pensa que vai ser melhor assim.
O garoto olhou para o outro com descrença. — Como é que podes dizer isso? Tu és um desprezível sem coração.
— Sou realista. — O jovem guerreiro não ficou ofendido com as palavras mordazes. Sabia que era a tristeza falando, não levou muito a sério, não tinha como levar a essa tristeza por causa da criatura a sério.
O rosto de Caja encontrava-se carregado de desolação, viu que estava controlando-se para não chorar, isso fez Kain ficar com pena. Colocou o seu braço em cima dos ombros dele, confortando-o. — Não me faças isto… — Sussurrou contra os cabelos brancos. Aguentava bem os ataques de raiva, mas choro e lágrimas? Nem por isso.
Antes de Caja poder responder, o grito do moreno furou-lhe o ouvido. Confuso olhou para o guerreiro, só então ouviu um pequeno rosnado. Olhou para trás e viu Mupi mordendo a mão de Kain, os dentes dele pareciam que iam arrancar um pedaço de tão enterrados que estavam na carne.
O moreno apenas estava piorando a situação, quanto mais segurava o Vleed pelos cabelos mais ele enterrava os dentes na sua carne. — Solta-me seu maldito!
— Mupi! Larga! — Caja tentou gentilmente mas com pulso firme retirar o menino do alcance do guerreiro, antes que ele perdesse a cabeça e socasse ou chutasse a criança.
Ao fim de tanto puxa-lo, o menino soltou o seu alvo, escalando o colo do garoto-flor imediatamente. — Onde estavas? Procurei-te por todo o lado! — Caja limpou o sangue dos lábios de Mupi, o que era assustadoramente muito só para uma mordida. Levantou-se, colocando uma distância de segurança caso Kain quisesse degolar a criança.
— Caja… — O moreno tentou estancar o sangue da sua mão com a outra mão, o olhar feral fixo no Vleed. — Esse maldito vai paga-las.
O garoto da Tribo da Floresta engoliu em seco. Não seria muito inteligente não fazer caso das ameaças de Kain. — Ele não mordeu nenhuma pessoa, só a ti… — Fez a piada nervosa para tentar amenizar as coisas.
— O quê? O que é que queres dizer com isso? — O guerreiro franziu a testa com o insulto. — Sabes que mais, não respondas. — Deu meia volta e saiu da cabana para ir tratar do ferimento, xingando o céu e a terra.
Caja não se importou muito com a saída do outro, estava mais concentrado em colocar a tijela com o leite nos lábios de Mupi, para se preocupar com o acesso de fúria de Kain no momento. Afinal a criança estivera escondida, em segurança na cabana, o sentimento de culpa desapareceu quando abraçara o pequeno corpo.
ººº
O filho do líder regressou à sua cabana já a noite ia alta, depois do seu pai saber o que acontecera com a sua mão não parara de rir, o que irritou bastante Kain. Nunca fora tão judiado por Theon como naquela noite. A criatura deixara uma marca bem profunda na sua mão, os dentes dos Vleeds eram uma arma letal, conseguindo cortar e rasgar a carne como um dinossauro carnívoro.
Como era esperado o garoto-flor já estava dormindo profundamente. Kain aproximou-se da cama dele e ajoelhou-se, ganhando um rosnado com a sua atitude. A pequena fera não tinha medo de impor-se e ameaçar alguém maior e forte que ele. O rosnado de filhote foi tão engraçado e até seria fofo se não tivesse vindo de um Vleed canibal. Só para colocar o pequeno animal no seu lugar, Kain rosnou de volta. O rosnado agressivo e profundo fez a criatura choramingar assustado e encolher-se mais contra o corpo de Caja.
O sorriso presunçoso colou-se nos lábios do guerreiro, nada como uma demonstração de outro animal dominante para colocar os filhotes no lugar deles.
Por mais que fosse divertido intimidar a criatura, e fazê-lo pagar pelos novos buracos na sua mão, acariciou o rosto de Caja antes de ir jogar-se na sua cama.
Kain achava que nada poderia ficar mais estranho.
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