Notas iniciais
Ele rapidamente a abraçou, a menina nada dizia, era como se estivesse fora de si. Mas logo sentiu algo perfurando seu coração, uma estaca.
– Eu sinto muito, Luna. – ele disse baixinho em seu ouvido, e o corpo da menina lentamente caiu ao chão –.
A menina se assustou primeiramente, e não entendeu o porquê... Mas então sentiu aquela maldita ardência, e já sabia que ele estava vindo. Seus olhos queimaram, e várias vozes gritavam dentro da sua cabeça, e então a única coisa que ela podia pensar, era Morte. Seu mestre tomou conta de seu corpo, e nem a sua voz ela conseguia usar. Aquela gargalhada saíu da sua boca pequena. Seus olhos estavam totalmente pretos e sangue saía deles, ele estava mesmo com raiva. Levantou e pode ver o olhar assustado do anjo.
– Ora, ora, ora, olha que está tentando matar a minha arma... Estevão, meu grande amigo!
– Não dê esse termo á nós dois Lúcifer, somos tudo... Menos amigos! – ele disse –
– Que eu me lembre... – ela começou a andar em circulos, em volta do arcanjo – Nós já fomos amigos, á muito tempo... Mas isso não importa, o que importa é que você estava tentando matar Luna! – ela tirou a estaca completamente enfiada em seu peito, o sangue jorrava, mas ela mal podia sentir – Você já matou uma serva minha! Há quase 1.000 anos atrás... Mas ela? Não! Ela você não vai matar seu anjo de merda! – ela cuspia as palavras, e aquela voz horripilante, chegava a dar arrepios – Sabe por que? Porque ela não pode ser morta, claro, apenas por mim! – ele gargalhou – Ela é muito mais forte, e sabe de onde a força dela vem?
Estevão grunhiu em resposta.
– Pelo jeito não sabe, ela é forte... Por que ainda tem um coração bom! – ela gargalhou – Ainda... Depois de tantos anos, essa garota – ela bateu com força no peito machucado – Ainda não se rendeu, acredita? Ela não sabe disso, mas é tão difícil controla-lá, ás vezes é quase impossível... Ah, mais nada é impossível para mim né? Logo ela será... Demoníaca por conta própria!
O anjo praticamente voou para cima da garota, grudando a mesma pelo pescoço, mas ela riu, e fez os dois levitarem.
– Ah, por favor, Estevão, você sabe muito bem que perde a força quando fica descontrolado assim... E aqui na Terra, fica pior ainda! Então me poupe, ou será fácil demais te matar! – a garota facilmente se soltou, e jogou o anjo de volta ao chão – Vamos Estevão, mostre-me suas asas... Quero ter o prazer de arranca-lás. – o corpo leve da menina desabou, caindo em cima do anjo –
– Não vai ser tão fácil assim Lúcifer... Já te venci uma vez... E não será diferente agora! – ele tentou tira-lá de cima, mas rapidamente a menina cravou os dentes do pescoço do anjo, o mesmo gritou –.
Logo sentiu algo perfurar-lhe o peito. Ela estava ferindo-lhe com a própria mão! Mas Estevão foi mais rápido, e a fez voar para longe. Novamente pegou a estaca no chão, e numa velocidade inacreditável, ele alcançou a menina antes que ela chegasse ao solo, voltou a cravar a estaca no mesmo lugar. A menina gritou, e voltou ao seu normal, seus olhos voltaram para aquele verde claro, e a dor invadiu seu corpo, as lágrimas caíram, e ela só conseguia gritar. Estevão se levantou e ficou paralisado com a cena. O que era aquele sentimento? Dó? Não, ele não podia sentir pena da menina, mas era inevitável... Afinal ela não tinha culpa de nada, não é mesmo?
Luna chorava e gritava descontrolada, quando o demônio dominava o seu corpo ela não sentia dor, mas quando tinha controle sobre seu corpo, sim... Ela sentia dor, frio, fome, tudo. E aquilo era tão insuportável... Ela não sabia o por quê dele ter feito isso, não se lembrava de nada. Ele não é um humano comum. – pensou em meio à dor. Levantou a cabeça e pode ver uma sombra clara sobre a chuva, aquilo era... Asas? Tentou ver melhor, mas a dor não permitiu, a claridade tomou conta, havia amanhecido, e ele já não podia domina-lá, essa era a hora. Ele devia mata-lá agora, sentiu alguém tocar-lhe, e seu corpo foi levantado.
– Me... Mate. – foi à única coisa que conseguiu dizer antes de perder a consciência -. A menina caiu em um sono profundo.
Será que estou morta? – pensou em meio a toda aquela escuridão – Seria tão bom, será que estou morta?
Eu queria dormir pela eternidade, e deixar as sombras me levarem, provavelmente para o inferno, mas quem sabe, os anjos venham me buscar, seria improvável, afinal, eu mato pessoas... Mas será que estou morta? Não estou mais sentindo dor, só um calor vindo do meu interior, talvez meu espirito esteja deixando meu corpo, me levando para a eternidade, para a escuridão... Será que estou morta? Queria encontra a paz, queria sorrir quem sabe. Mesmo no inferno, eu não sofreria tanto, como sofro aqui, não é? Acho que não tenho culpa de tudo isso, eu não queria ser assim, queria ser alguém normal... Alguém que pudesse morrer tranquilamente... Mas afinal, será que estou realmente morta?
°°°
– Luna? – dizia Estevão baixinho – Será que ela está morta?
Ele não podia ouvir seu coração, talvez tivesse mesmo matado ela... Pelo menos teria cumprido a sua missão... Mas não se sentia bem. Por que não estava se sentindo bem? Aquele era seu propósito desde o começo, matar a garota!
Mas por que estava sendo tão difícil para ele? Nunca teve sentimentos, nunca teve pena, carinho, alegria, tristeza, felicidade, remorso, nada! Sua mente era neutra, sem sentimentos... E acho que por isso ele sempre era escolhido para cumprir certas missões, ele era um dos arcanjos mais fortes, dos reinos do Céu, e nunca... Nunca, deixou de cumprir suas obrigações. Não era a primeira vez que teve que matar uma serva dele, há mil anos ele matou Ester, a mulher mais demoníaca que já tinha visto, um coração perturbado e uma mente perturbada, talvez tenha sido por isso, que foi tão fácil acabar com ela, por que ele não precisava domina-lá para que ela pudesse ter força, ela havia nascido com uma parte do demônio no corpo... Agora Luna não, ela luta contra ele, tenta se livrar dele, até pediu para que a matasse, e ele podia ter feito aquilo àquela hora, era o momento certo, devia ter cravado novamente a estaca que Salbes lhe deu, mas não conseguiu, não foi capaz de feri-lá quando era a menina que estava falando, e não ele... Por que isso?
Ela não respirava, e sua pele estava muito branca, e ele não podia ouvir seu coração, mas ela não estava morta... Ele podia sentir aquele calorzinho fraco, que sentiu quando tocou ela. Como se fosse uma ligação interna... Ele podia sentir!
Mate a garota Estevão! Mate a garota Estevão! MATE-A AGORA! — gritava seu interior, e então ele resolveu terminar o seu trabalho. Pegou a estaca que estava ao seu lado, e se virou para o corpo pequeno da menina, terminaria logo aquilo. Colocou a estaca no mesmo ferimento, agora era a hora certa.
Eu não estou morta! – ela pensou quando aquele calor aumentou, ouviu uma voz doce chamando por seu nome – Eu não estou morta! Eu não estou morta!
Com relutância sua consciência foi voltando, e a claridade estava invadindo sua mente, ela não queria acordar, queria morrer, queria continuar naquele silêncio mortal.
E então seus olhos se abriram numa explosão esverdeada, a claridade invadiu a menina, trazendo uma leve ardência, a mesma sentiu o ar em seus pulmões, e o sangue sendo bombeando pelo coração, sua visão estava embaçada, mas logo ela se deparou com olhos azuis... Aqueles olhos azuis, e seu coração desparou. Sentiu tudo rodar quando o sangue chegou ao seu cérebro. O garoto levou suas mãos para trás do corpo, e ela ouviu o barulho de alguma coisa sendo jogada longe, mas não deu muita importância, seus membros foram criando forças lentamente. O homem com rosto angelical se afastou, e abaixou a cabeça confusa, como se estivesse determinado a fazer algo, mas não era capaz. A menina sentou devagar. Tentou se levantar, ela tinha que ir embora.
– Não... Se mova. – ele disse baixinho, e ela chegou a sentir medo –.
Silêncio.
– Você... Vai me m-matar? – ela perguntou quebrando aquele silêncio momentâneo –.
Ele não respondeu.
– Por favor, me mate! – ele a olhou assustado – Me mate agora, enquanto ainda estou fraca! Acabe logo com isso, por favor! Por que... – ela já chorava, há quanto tempo não chorava, anos e anos – Por que se não será tarde, e eu... Vou machucar mais pessoas, por favor, me mata!
O anjo bufou, era tudo que ele queria fazer, levantou e foi até a estaca, podia mata-lá sem ela, apenas com suas mãos, mas não queria fazer isso, voltou até a menina devagar, ele parecia querer chorar, mas nunca tinha chorado, não sabia qual era a sensação. A garota abaixou a cabeça e sorriu por alguns segundos, finalmente ele iria acabar com tudo aquilo, seria morta afinal. Sentiu-o levantar sua cabeça pelos cabelos, mas ele puxou tão fraco, que parecia que estava fazendo carinho. Ela ainda estava com os olhos fechados, mas nada veio. Por que ele não tinha matado ela ainda? Logo ele perceberia, e quebraria o trato, ele com certeza tinha poder suficiente para invadi-lá a hora que quissese, nunca tinha feito, mas poderia fazer, e ela sabia disso... Mas provavelmente o garoto não.
– Anda, me mata! Ele pode voltar, anda! – ela disse ainda de olhos fechados, segurando as lágrimas – Por favor, vai logo! MATE-ME!
Mas ela parou de gritar, quando sentiu lábios quentes beijarem sua testa, aquele calor a invadiu, por que ele estava fazendo isso? Nunca ninguém tinha beijado ela com tanto carinho! O que estava acontecendo? Ela sentiu uma barreira protetora se formar em sua mente, como se estivesse protegida de tudo... Protegida dele. O que estava havendo? E então, as lágrimas caíram. Ele soltou seus cabelos, e sua cabeça pesou, ela abriu os olhos, e encarou o chão. Seu peito doía, mas sua mente estava livre... Pelo menos por enquanto.
– Você naõ vai me matar? – silêncio – Tem certeza disso? – ela levantou o olhar e finalmente teve coragem de olha-lo, e aqueles olhos voltaram á hipnotiza-lá –.
– Não tenho certeza de nada. – ele disse baixinho –
O anjo girava a estaca nas mãos.
– Se eu não fizer isso, alguém vai. – ele disse depois de um longo minuto –
– Então... Que assim seja! – ela disse com um tom de felicidade –
– Por que você quer tanto morrer, Luna? – ela sorriu quando ouviu seu nome –
– Por que... – ela refletiu por alguns segundos — Por que enfim, eu estaria livre...
– Liberdade... – ele disse para si mesmo -.
Os dois se calaram por vários minutos.
– Como é o seu nome? – ela disse baixo até de mais –
– Meu nome é Estevão, deusa!
– Deusa?
– Deusa da Lua! Esse é o significado do seu nome Luna! Você é a Deusa da Lua.
– A Lua... Eu a odeio! Ainda mais quando está cheia, eu sinto medo. – ela sorriu sombria, aquele sentimento estava voltando, terror –
– Você pode impedi-lo! E é por isso que não consigo te matar... Você ainda tem chance Luna!
Ela riu baixo.
– Não, ele é mais forte! Não me deixa falar, não me deixa pensar... Não me deixa viver, mas também não me deixa morrer! Eu só sei matar, só matar!
Ele olhou nos seus olhos, e viu aquela sombra maligna, mas logo sumiu, e o verde claro voltou.
– Pode sim, ele me disse! – ele sorriu – Você resiste á ele, e deve continuar lutando, não o deixe dominar você... É só não deixar!
– VOCÊ NÃO SABE O QUE DIZ! – ela gritou desesperada, mas voltou ao normal – Não sabe Estevão, ele tem forças que você não imagina... Ele podia me matar aqui e agora. Com um simples pensamento, e a minha vida estaria acabada, e sua também... Então me mata... Por que prefiro ser morta por você! – a menina sorriu com lágrimas em seus olhos. O silêncio reinou por longos minutos.
A menina olhou em seu pescoço e viu marcas de dentes, uma cicatriz recente, estremeceu.
– Mas afinal, o que é você Estevão?
Uma imagem invadiu sua mente, asas, claridade, céu. Uma voz doce cantarolava, e ela pode ouvir um som bonito, uma Harpa, barulho de passáros, do vento, de crianças. E então ele apareceu, Estevão estava a sua frente, somente com uma calça branca, e ele tinha... Asas, enormes e douradas, uma cor de ouro, que reluzia mais ainda com a luz do sol, ele era lindo, uma beleza dos céus... E ele era um anjo.
– Um anjo? – ela disse baixinho – Você é um a-anjo? Como fez isso? – ela voltou a chorar, aquilo era inacreditável –.
Ele sorriu rapidamente.
– Você... Você foi mandado pra me matar, não foi? – ele ficou sério – Eu sei que foi então cumpra sua missão Estevão! Mate-me agora! – ela deixou a cabeça cair de lado, e seus cabelos longos alcançaram o chão – Por favor...
– Para! Se não eu vou mesmo matar você. – ele disse rapidamente –
– E por ainda não fez Entevão? Por que ainda não me matou? – ela sussurrou e viu que ele cerrou a mandíbula –
– Eu não sei... Simplesmente não sei!
O silêncio reinou.
Ela começou a observar o lugar, parecia um... Estábulo, o lugar era mal iluminado, e tinha um cheiro estranho, ela podia ouvir o barulho de roedores e de pequenos animais rastejantes. Os passáros lá fora cantavam, e o vento soprava forte, o sol estava fraco, e provavelmente voltaria a chover.
Ela percebeu que estava com a blusa branca do anjo, e se abraçou. Sentiu aquele cheiro de bondade, e sorriu. O que estava havendo com ela? Ao mesmo tempo em que queria correr e fugir dele, queria estar perto, nem que fosse para ele mata-lá... Ele era a primeira pessoa pela qual ela sentia algum sentimento, ela só nao sabia qual era... Mas não tinha vontade de mata-lo, e isso era um fato.
O anjo levantou e se direcionou a porta
– Você vai embora?
– Por enquanto, mas se prepare Luna! Por que da próxima vez que nos encontrarmos... Eu vou matar você! – ele disse baixinho e deixou o lugar –
Luna deixou seu corpo cair, e repousou na pilha de feno. Logo caíu no sono, amanhã seria a última lua cheia do mês, e ela teria mais almas para recolher.
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