Desejos Insanos
2 Ônibus
Notas iniciais
O ônibus vinha em minha direção, estava longe ainda. Não era o meu, abaixei-me para amarrar o cadarço do tênis. Observei de relance a vida ao meu redor, o mundo girava lentamente, seguindo um curso diário e constante. A moça com seus dois filhos, gêmeos, atravessava a rua exatamente às 6h40min. Os ônibus passavam, cumprindo os horários previstos com pequenas margens de erro. As pessoas na parada de ônibus são as mesmas de todos os dias.
Dentre tais pessoas encontram-se um jovem, provavelmente universitário, pega um ônibus para o centro. Uma moça que pega ônibus comigo, desce na igreja no fim da avenida. A moça com os dois filhos também pega ônibus comigo, ela trabalha ao lado do meu colégio, e os filhos estudam lá, em séries inferiores. Um casal de universitários, uma jovem gordinha e um rapaz magro, os dois formam um casal visualmente agradável, por formarem um equilíbrio visual.
Através de cada face é possível ler os sentimentos de cada um. Não tão facilmente, mas é possível. Alguns representam o desgosto por acordar cedo e andar de ônibus estampados em suas faces, eu sou um deles, outros representam a alegria de fazer o que gostam. Há também os que são indiferentes à vida, apenas a assistem passar diante de seus próprios olhos enquanto esperam [inutilmente] que algo bom aconteça.
Ao som da música nos meus fones podia enxergar a morte rondando-nos, esperando um momento oportuno de felicidade pra nos arrancar o nosso único, e logicamente mais precioso, bem. A vida. E de que vale uma vida sem satisfação pessoal? Eis o que me pondero. Eu poderia morrer agora, pelo ônibus que estava vindo, e isso qualificava um dos meus desejos insanos. Podia ver e inclusive sentir meu desejo.
O ônibus continuava vindo, aumentou a velocidade desde a esquina anterior até a minha. O caminho era longo, então havia espaço suficiente pra velocidade aumentar bastante. Dentre os presentes no ponto não havia um que quisesse pegar tal veículo, então ele não teria o trabalho de parar.
Imaginei-me ali, a pista vazia, em um carro de corrida. Acelerei tão forte quanto as minhas angústias me consumindo. A vida passava diante dos meus olhos, a sede pela adrenalina me consumia, e a vontade era cada vez maior, a vontade de extrapolar os meus limites. Todas as vezes que ouvi não ser capaz, e agora, quem irá me desafiar?
A toda velocidade eu estava ali, passando à frente de todos.
Consumido pela liberdade voei sobre a pista, como um pássaro.
Voltei à minha realidade, ali estava o ônibus, um motorista talvez não tão livre quanto eu em meu devaneio, porém livre para conhecer novos limites.
Em pouquíssimos segundos tudo aconteceu, uma sequência desejada de fatos. Levantava-me do chão, após amarrar meu cadarço. Ainda agachado pude ver o ônibus cada vez mais perto. Seu pneu explodiu, e em minha direção ele veio a todo vapor. Todos correram.
Desvinculei-me da vida, tão dolorida e sofrida. Leve como um pássaro, eu voei. Toda escuridão me consumiu, senti a alma desprender-se do corpo, tudo que vi foi o vermelho da minha paixão se espalhar pelo ar, a paixão erroneamente aplicada em minha “vida”. Fui-me então, finalmente livre de tudo que um dia já senti.
Acordei do devaneio, de um desejo insano. Levantei-me após amarrar o cadarço e ali vi o ônibus, que uma vez matara minhas angústias em um desejo insano.
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