Desejos Insanos
3 O tiro
Notas iniciais
O ambiente era agradável, uma ampla grama verde. Aqui me encontro, novamente deslocado do lugar onde realmente deveria estar: lugar nenhum. Vivo uma completa dualidade entre estar e não estar, e no momento eu não estou.
Observei as pessoas, fúteis, incompletas, perdidas em sua própria ignorância. Talvez eu não seja muito melhor do que elas, mas pelo menos sou consciente do “nada” que sou.
Várias dessas pessoas estavam dispersas, algumas mostrando as coisas que compraram, outras comentando sobre as pessoas com as quais estiveram, porém nada de interessante. Apenas alojei-me em algum canto e observei, observei e observei mais ainda.
Seres humanos, certamente os animais mais engraçados do reino animal, os mais inteligentes e certos de si mesmos, os únicos que perdem seus tempos trabalhando com coisas que não gostam, para comprarem coisas que não querem, pra mostrar pra pessoas que odeiam. Tão inteligente que invejo. Os únicos que perdem seus tempos convivendo com pessoas que não precisam, e os únicos que perdem seu tempo destruindo o seu próprio berço, a natureza.
Todo trabalho, todo sangue derramado, tudo por apenas símbolos de poder. Meros pedaços de papel, no qual estão inseridos os mecanismos de poder. Quanto mais desses papeis você tem, mais poderoso é. Quanto menos você tem, menos você importa no geral. Vemos todo tipo de pessoas no poder, as que querem liderar, as que sabem o que estão fazendo, e as que só queriam provar algo às pessoas que odeiam mesmo.
Percebi que talvez todas essas pessoas não mereçam viver, talvez nem eu mereça, pelo menos sei o caminho que estou trilhando. É triste ser uma ovelha fora do caminho, sempre deslocada do bando, seguindo por conta própria e sendo julgada pelas outras, mas o que posso fazer se não nasci pra me contentar com uma vida imposta?
Dentre todas aquelas pessoas, na ampla grama verde, vivendo para nada, vivendo a vida imposta que eu recusei há um tempo, eu odeio algumas, boa parte, quase todas na verdade. Por que dá se tanto valor aos idiotas? O segredo para abrir todas as portas no caminho da vida é dar um sorriso bobo, contar uma piada idiota, fingir que gosta de todo mundo, fingir que é feliz, fingir que não sabe o segredo... De tudo.
Eu odeio todos eles, e os queria mortos mais do que tudo. Todas essas pessoas no meu caminho ofuscam meu brilho, atrapalham só atrapalham. Ocupam espaço físico sendo que intelectualmente todas as suas mentes vazias nunca mudaram ou mudarão nada.
Saquei a pistola da mochila, tantas vezes isso já fora planejado, e agora tão próximo de mim. Mirei em cada uma daquelas cabeças vazias, depois de muito treinamento, consegui matar vários com apenas um tiro. Eu via seus corpos simplesmente caindo, e isso não mexeu comigo. Passei por cada um, fiz minha trilha entre a morte e a destruição que sou capaz de fazer, sempre há um alvo, sempre há.
Lá estava ele, envolto em sua arrogância, o ser que mais odeio. Sua expressão tão cheia de nojo, seu rosto deformado pelo ódio em uma careta sombria, as mãos fechadas com força ao lado do corpo, podia ver o sangue pulsando em suas artérias, seus olhos pegando fogo, poderia queimar alguém só com o olhar.
Ali estava ele, ali estava eu. Tão inútil quanto os corpos ao chão, tão fútil quanto qualquer outro dos que ali estavam, tão preso a uma vida imposta quanto qualquer outro, tão sonhador quanto qualquer ser na terra, tão humano quanto qualquer um. Nem mais, nem menos, apenas humano.
Com um tiro, e apenas um, matei-o, matei-me.
Fale com o autor