Desejos Insanos
1 Multidão
Notas iniciais
Abri os olhos, havia uma espada firme em minha mão, só de olhá-la eu sentia quão afiada estava. Encaixava-se perfeitamente na minha mão, não era nem leve nem pesada, apenas o suficiente. O fone nos ouvidos, a melodia era tranquila, mas expressava minha angústia. Angustiado até os dentes estava eu, sem sequer uma explicação.
Aquilo era claro, mais do que óbvio. Levantei a espada, e cortei as cabeças de todos que cruzaram meu caminho. Entre a multidão de pessoas abri minha trilha dentre corpos mortos. Apenas carne, lixo humano, insignificantes. Tão desprezíveis, tanto quanto eu mesmo.
Segui sem caminho, as lágrimas escorriam dos meus olhos, a angústia apenas aumentava, junto à culpa. Vi todos os que amei passarem diante dos meus olhos, cada um dos beijos que ficaram marcados no tempo, cada uma das rejeições, cada um daqueles que um dia me fez chorar.
Não eram eles ali, mas pra mim era como se fossem, e cortava seus braços, cabeças, ou apenas perfurava-os. O importante era causar a dor que senti, mesmo que uma lâmina não fosse capaz de transmitir a morte que me habita desde aqueles solitários que passei.
Em minha roupa, e também no rosto e braços, havia sangue, e o pior, de desconhecidos. Onde estou? Não sei. O que estou fazendo? Não sei. Apenas estou, se é que estou.
A dor talvez seja isso, seja como cortar as cabeças de cada pessoa no teu caminho até que você se sinta um monstro.
Talvez agora eu seja um monstro, inapto a sentir. Sequer sinto falta de sentir, nada é mais repugnante do que meus próprios sentimentos. Continuei seguindo a trilha vermelha até o meu destino.
Lá estava ela, a minha amada, a dona da minha alma, da minha dor, e do meu escasso amor. Vestida em um longo vestido vermelho me aguardava, olhava-me com seus olhos cheios de vida, e o rosto angelical. Lembrava-me do dia em que a conheci, e uma única vez na vida fui liberto do monstro, que agora me dominou.
Livre então, de todo mal ou bem, eu enfiei a espada em um último corpo, o de minha amada. Em seu coração cravei uma espada, já que ali meu amor não habitou. Olhei bem em seus olhos, vi a vida deixá-los, e então de mim ela também foi embora.
Abri os olhos e sai de meu devaneio como de um mergulho nas profundezas escuras do meu coração, abri os olhos e vi toda a multidão, uma vez morta nos meus desejos insanos.
Fale com o autor