Desejo e Razão
2 2. Melodia
Fazer isso era como admitir uma fraqueza... Alguma coisa havia mexido com ela e não estava confiante que pudesse se controlar. Então isso seria necessário, caso não quisesse fazer nenhuma besteira e decepcionar seu irmão. Mesmo depois de tanto tempo fazendo sempre a mesma coisa, ainda estranhava. O que havia se tornado? Respirou lentamente para se acalmar e colocar a cabeça no lugar.
Havia perdido a noção de tempo. Deu uma rápida olhada no relógio em seu celular e se espantou. Droga! Chegaria atrasada na aula logo no segundo dia!
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Olhou mais uma vez para a classe vazia ao seu lado. Ela ainda não chegara. Quando conseguiu obter determinação, tinha que acontecer algo pra estragar tudo. Pela primeira vez na vida, ouvir as explicações de geometria do professor estava sendo uma tortura. Ele já aprendera a matéria em aulas suplementares que fez, mas agüentava ouvir de novo o mesmo papo. A determinação achada estava indo embora... Deitou sua cabeça sobre os braços, ignorando os sussurros em volta de si. Fofocas sobre a aluna nova ainda estavam firmes e fortes. Alguns falavam como ela é baixinha, e outros como a sua pele empalidecida e olhar sério os assustavam. Não entendia. Como poderiam achar assustadores aqueles grandes e profundos olhos violeta? Seus pensamentos foram interrompidos quando a porta foi aberta ferozmente. Todos olharam para a garota parada ao lado da entrada.
- Kuchiki, se você chegar atrasada nos seus primeiros dias vai acabar ficando com má reputação entre os professores!
Encarou-a. Então era ela? Que modo rude de entrar na sala. Nem a conhecia direito, talvez fosse melhor não tirar conclusões precipitadas de seus atos.
- Perdoe meu atraso. Tive que resolver alguns problemas pessoais. – disse Rukia friamente.
- A-ah... – recuou. Provavelmente foi intimidado pela voz da garota — Bom, já que é seu segundo dia aqui, não vamos nos preocupar. Agora vá para sua classe.
Rukia assentiu e foi para seu lugar. O ruivo se perguntava mentalmente se seria um bom começo ajudá-la a se localizar na aula, porém ela não parecia muito interessada na aula dada. Tinha decidido que iria falar com ela, mas esqueceu de decidir como fazer isso! E agora...?
- Ei, você não parece com muita vontade de prestar atenção. – sussurrou tediosa a morena, apoiando a cabeça em uma das mãos.
- Você também não parece nem um pouco centrada na aula. – retrucou, franzindo as sobrancelhas.
- I-Isso não é da sua conta! – respondeu nervosa. Após esta primeira troca de palavras, ambos tentavam evitar conversar, mas acabavam fazendo comentários sarcásticos entre si. Ao menos já era um começo. Às vezes eram interrompidos pelo professor, que perguntava algo para fazê-los passarem vergonha por responder errado. Mas incrivelmente eles só respondiam corretamente.
O tempo parecia ter passado mais rápido. O sinal soou para o intervalo e desta vez, a morena se levantou para sair. Ichigo não sabia para onde ela havia ido, mas ao menos ela não ficou parada como uma estátua novamente. Depois teriam educação física, então o ruivo não precisaria se preocupar com professores o azucrinando. O intervalo passou normalmente. No terraço silencioso com piadas sem graça do Keigo.
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Na aula de educação física, após a eventual bagunça nos vestiários para trocar de roupa, todos estavam espalhados pela quadra. Parecia impossível de se manter a ordem para o professor dar as ordens. Estavam formando duplas pela chamada para de treinamento vôlei. Ninguém realmente entendia o que fazia, só iam atrás do parceiro quando ouvia seu nome.
- Números seis da chamada, Kurosaki Ichigo e Kuchiki Rukia. Vão para o canto esquerdo da quadra com uma bola e comecem a treinar saques.
Os dois levantaram com má vontade, pois cada um estava sentado – atirado – no chão. Somente quando viram que estavam indo para o mesmo lugar perceberem que eram duplas. Foi um pequeno choque, mas logo começaram a fazer o treinamento proposto. Sacavam bem, diferentes dos outros, que às vezes conseguiam jogar a bola no parceiro ou pior, em si mesmo. Em alguns momentos, Ichigo se desconcentrava olhando para as pernas da morena expostas pelo curto uniforme e se xingava de pervertido em sussurros. Ele nunca havia olhado antes para as garotas desse jeito. Realmente tinha alguma coisa diferente na morena para chamar tanta atenção dele.
Foi quando aconteceu. Uma dupla desastrada que treinava perto deles perdeu o controle da bola e ela estava indo atingir a morena. Estranho a bola ir logo nela, e numa força tão grande. Parecia que até foi de propósito. Ichigo gritou tentando avisá-la, mas aconteceu muito rápido. Apesar de ter acontecido num piscar de olhos, o ruivo acompanhou o movimento como se acontecesse em câmera lenta. Ao perceber a bola indo a sua direção, Rukia virou-se em uma velocidade incrível e rebateu a bola com um tapa tão violento que o ruivo pode até sentir um leve tremor no chão quando aconteceu o impacto. Nenhum aluno parecia ter percebido isso, só estavam chocados pela tamanha força que alguém tão pequena tenha, ela não era tão delicada quanto aparentava. De certo modo, isso era muito suspeito para o rapaz..
Agora sabia de mais uma coisa: ela era forte. Muito forte. E rápida. Teria que cuidar para não arranjar briga com ela ou se daria mal.
- Desculpe, Kuchiki! É que a Ryo-chan jogou muito forte pra mim e...
- Não precisa se desculpar. Não aconteceu nada, mas a bola poderia ter pegado em você. Melhor que tenha mais cuidado. – disse a morena calmamente, ignorando o que acabara de acontecer. Ela nem ao menos olhou para quem se desculpava, mas concluiu que teria que controlar mais sua força. Realmente se a bola tivesse pegado na garota ela poderia estar na enfermaria agora.
Depois deste pequeno “quase-acidente”, nenhuma dupla chegava muito perto de Ichigo, pois sua fama de delinqüente era meio óbvia, e Rukia, que agora era considerada como um novo perigo na aula de educação física.
Antes de todos irem para os vestiários se trocarem, Rukia foi chamada pelo professor. Muitos olharam repreensivos, pensando que ela iria levar uma advertência por ter usado tal força na sua defesa. Os murmúrios começaram novamente, mas logo pararam. Foi a mesma bagunça de sempre nos vestiários. Meninos usando toalhas como armas nos colegas, alunos roubando roupas e os mais atrevidos, invadindo o banheiro das garotas.
Agora teriam geografia. Diferente das outras vezes, estavam prestando atenção. A matéria dada cairia na prova final, então essa era a melhor escolha, se não quisessem ser reprovados. Ichigo não podia negar que ficava ansioso esperando que Rukia voltasse como antes, abrindo a porta escandalosamente, para que pudesse papear ou provocá-la. Será que ela realmente havia levado advertência?
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O dia escolar já acabou há mais de 10 minutos e o ruivo ainda estava na sala a esperando. Ela teria que voltar alguma hora, afinal, sua pasta estava lá. Guardou os materiais dela e foi a sua procura. Quem sabe ela teria se perdido. Ao caminhar pelo corredor, ouviu uma música feita num piano. Estava distante, pois era muito baixa e difícil de escutar. Tentou usar o máximo dos seus sentidos auditivos para seguir a composição que parecia estar lhe chamando. Quanto mais se aproximava, mais admirado ficava pela melodia encantadora. Era tão doce e melancólica. Tranqüila e às vezes em um ritmo mais agitado. Algo realmente inexplicável. Finalmente localizou de onde a canção vinha. Entrou na sala de música, que continha vários instrumentos e um grande piano no centro, que era onde a melodia estava saindo. Ainda não conseguia identificar a pessoa que tocava, então chegou mais perto. Agora mais perto, conseguiu ver quem era, mesmo a pessoa estando sentada de costas no piano. Era Rukia. Realmente tinha ainda muito para descobrir sobre ela. Seus pequenos dedos dançavam graciosamente no instrumento, como se fosse um só. As mesmas mãos que mostraram poder ser tão violentas agora aparentavam delicadas mais uma vez. Fechou os olhos para a admirável melodia invadir seus ouvidos. Foi como se nada mais no mundo poderia o aborrecer. Sentiu-se sereno, completo.
- Obrigada por trazer minhas coisas. – silabou a morena, sem parar de tocar a composição.
- Há quanto tempo você sabia que eu estava aqui?! – surpreendeu-se. Ele não tinha sido barulhento o bastante para alguém perceber a existência dele.
- Desde que você pôs os pés na sala.
- Ah... — continuou a apreciar.
- Por que você fala comigo? – parou de tocar.
- Isso não é normal? Sabe, nós somos como “vizinhos” na sala... – coçou a nuca levemente, virando o rosto para o lado.
- Ah... Sim... Normalmente as pessoas se afastam de mim. Instinto, talvez. Acho que seja melhor assim. Devo ser assustadora para elas. – sorriu ironicamente, encarando os dedos nas teclas do piano.
- Eu te entendo. Muitos me julgam como um punk ou vândalo pelo meu cabelo ruivo sem saber quem realmente eu sou, — fitou Rukia, que agora olhava para o céu alaranjado pela janela – mas você não parece assustadora para mim.
- Acha mesmo? – ele fez um meneio com a cabeça, em afirmação – Você é diferente dos outros.
Ela sorriu. Pela primeira vez desde que ele a conheceu, ela sorriu verdadeiramente. Foi um sorriso tímido, como se fosse inexperiente nisso, mas seu coração se aqueceu quando o viu.
- O-o que o professor queria falar com você?
- Ele perguntou se eu queria entrar no time de vôlei da escola.
- E você aceitou, não é? Quer dizer, dá pra perceber que você tem talento...
- Não. Eu recusei. – levantou-se e pegou sua pasta com o ruivo.
As poucas pessoas que eram convidadas para entrar no time de algum esporte da escola aceitavam e ainda usavam isso como um motivo para se acharem superiores. Então porque ela recusara? Ichigo sabia que não podia perguntar a razão, não era da conta dele. E também não seria educado.
- Acho melhor irmos, Rukia. Nossas famílias vão ficar preocupadas.
- Claro, Ichigo. – concordou, comprimindo os lábios num pequeno sorriso.
A morena não queria mais se afastar por ter medo. Não importava o que pudesse acontecer se ela se aproximasse demais. Queria estar ao lado dele, descobrir mais sobre ele. Era a primeira vez que sentiu aquilo. Uma sensação estranha, sedutora. Como se o proibido a chamasse para o pecado.
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