Desejo e Razão
3 3. Acontecimento
Hoje seria melhor. Era sábado, então não teria que agüentar a escola. Não ensinavam nada que seja novidade para ela. Andou até o armário no canto do quarto e escolheu um vestido marrom curto com um cinto na cintura e para os pés, uma meia preta que vinha até o meio das coxas e uma bota preta. Desceu até o hall vazio. Seu irmão já havia saído novamente. Não queria passar o dia inteiro fazendo dever, seria bom sair de casa um pouco para conhecer a cidade. O único caminho que fez desde que chegou em Karakura foi de casa para escola, da escola para casa. Vestiu um casaco com o celular no bolso e foi para fora. Estava nublado, parecia que iria chover no fim da tarde. Um passeio inocente até o almoço não traria problemas.
Começou a andar em direção ao centro. As ruas estavam com uma quantidade razoável de gente. Estava em uma cidade pequena, não esperava muita gente mesmo. Observava cada loja para encontrar algo interessante. Até que viu uma placa escrito “ChappyLand”. Não resistiu e entrou para ver os produtos. Sentiu um arrependimento enorme por ter esquecido de trazer dinheiro. Ao menos teria algo para se distrair por um bom tempo.
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Após de rodear pela livraria, folhear algumas revistas e pedir ajuda, achou alguma coisa que o interessasse. Tirou algumas moedas do bolso e pagou a revista que escolhera. A atendente o encarou por um segundo. Talvez tivesse pensado que ele seria um ladrão. Suspirou. Depois de tantos anos agüentando isso, já se acostumou. Agora teria que ir ao mercado, Yuzu queria fazer uma nova receita para o almoço e não tinha todos os ingredientes necessários em casa.
O lugar não era longe, mas andava tão devagar pela preguiça e tédio que acabou levando o dobro do tempo para chegar. Chegando lá, quase teve um ataque. Os caixas estavam lotados. Quantas pessoas teriam esquecido de fazer o almoço?! Olhou para a parede que havia um cartaz pendurado escrito “Promoção – 60% de desconto” e entendeu. Colocou uma das mãos no rosto e com a outra segurou mais firme a sacola com a revista. Pegou o que Yuzu pedira e foi para a enorme fila do caixa. A revista veio a calhar agora, teria o que fazer enquanto esperava. Acabou não demorando muito, ao ele estava distraído demais para perceber que o tempo passava. Pagou e saiu o mais rápido possível do lugar lotado. Respirou profundamente o ar livre de fora. Estava tão abafado antes.
Voltaria para casa agora. Sua irmã com certeza daria uma bronca nele por ter demorado tanto. Tentou apressar o passo para chegar mais cedo, o céu estava começando a se fechar. Passou por algumas ruas movimentadas e há alguns metros a sua frente, enxergou alguém conhecido. Pelo tamanho, só podia ser Rukia. Pensou em ir até ela e a cumprimentar, mas ela poderia o acusar de estar a seguindo. A morena parecia não estar muita atenção nas ruas. Estava olhando para algum tipo de propaganda de alguma loja. Se continuasse assim, poderia acabar trombando com alguém. Ficou de olho nela. Não que o ruivo estivesse a seguindo, ela estava indo para o mesmo caminho dele.
Ouviu um ruído agudo que ficava mais alto a cada momento. Olhou para Rukia, ainda distraída atravessando a fachada. Olhou para a origem do barulho. Um carro prateado desgovernado com aparência velha que deslizava tentando frear. Iria atingir ela. Não teve nem tempo de racionalizar o que estava acontecendo. Mas sabia de uma coisa: não poderia deixar o carro a atingir.
- RUKIA!!
Correu até ela e tentou tira-la dali. O veículo estava a centímetros dos dois agora. Rukia olhou para o rapaz apavorado que se atirou à sua frente e para o automóvel. Se ele recebesse o impacto seria ficaria em condições graves. Ou poderia até morrer. Não achava que alguém poderia ser digno para morrer por ela. Com tal rapidez que ninguém pode perceber, se jogou como se estivesse abraçando o ruivo, afim de impedir que o choque fosse nele. O veículo conseguiu parar, mas não antes de atingi-los. Foram jogados alguns centímetros para frente. Ichigo sentiu sua bochecha raspando no chão e o carro batendo no seu braço, que antes fora levantado para tentar proteger eles. Rukia ainda estava firme entre o automóvel e o rapaz, visivelmente inteira. O único dano parecia ter sido nas suas roupas.
Uma multidão de rostos assustados olhava para eles. O motorista saiu sobressaltado perguntando se estavam bem.
- Está tudo bem. Você parou antes de nos atingir. – disse a morena com uma voz suave para acalmar o homem. Voltou seu olhar para Ichigo. Ela ignorava os diversos berros e as seguidas desculpas do motorista – Você está bem?
- Acho que sim... – ela não aparentava estar desesperada, mas pelo tom de sua voz conseguiu perceber que estava muito preocupada com ele. Levantou e a ajudou a fazer o mesmo. Novamente o choque entre a mão gelada da morena e a quente dele – E você? Acho melhor você ir até a clínica do meu pai comigo.
- Estou bem, não precisa se preocupar comigo.
- Por favor...
Encarou os olhos cor de mel do rapaz. Suplicavam para ela ir. Estava muito preocupado com ela.
- Ta bom...
Seguiu-o. Andavam lado a lado, deixando a multidão para trás. O ruivo segurava o ferimento no seu braço, para não sangrar mais. Olhou de canto para Rukia. Ela era a que mais havia sido atingida no acidente e estava inteira. Como...? Deixaria isso para mais tarde. Apesar de não estar machucada, ela agarrava o corpo com os braços intensamente, assim como no primeiro dia de aula dela. Seus olhos estavam estranhos. Parecia que estava se controlando para não fazer algo...
Quando chegaram à clínica que era unida a casa dele, Isshin veio correndo para ajudou seu filho a sentar em uma maca e começou a cuidar do ferimento no braço. Ichigo soltava alguns gemidos de às vezes. Rukia preferiu esperando fora da clínica.
- Em que confusão se meteu agora?! – disse Isshin, fazendo um curativo no ferimento.
- Ah... É que a Rukia ia ser atropelada e eu tentei a salvar. O carro não chegou a atingi-la. – bem, sabia que somente a primeira parte era verdade. — Rukia, huh? Namorada nova?
- N-NÃO! É uma nova aluna transferida recentemente para a escola.
- Sei, sei. Pronto, — terminou de limpar o machucado na bochecha do ruivo – tome mais cuidados com esses seus atos heróicos da próxima vez. Sorte sua que não aconteceu nada grave. – por que Rukia havia o protegido.
Ichigo respondeu com uma careta e desceu da maca, indo de encontro a ela. Estava no mesmo lugar e posição que a deixou. A única diferença é que parecia mais relaxada. Antes que pudesse falar algo, suas irmãs vieram correndo o abraçar. Ouviram ele e seu pai conversando e ficaram extremamente preocupadas. Ele retribuiu o abraço e disse que estava bem, deixando-as aliviadas.
- Hum... Rukia-chan? – disse a loirinha, se aproximando timidamente a ela – Gostaria de ficar para o almoço? – sorriu.
- Obrigada, mas não estou com fome. Tenho que voltar para casa. – respondeu com uma voz doce.
Rukia caminhou até a saída, mas quando olhou para fora, parou. Estava chovendo fortemente. Nem havia percebido com toda essa confusão. Não se importava em se molhar, mas sentiu uma mão segurando seu braço.
- Se você sair nessa chuva vai pegar um resfriado. Eu te levo pra casa.
Ela nada respondeu, mas aceitou a companhia dele. Ichigo abriu o guarda-chuva que era grande o bastante para proteger os dois da chuva e seguiu os passos dela. Um silêncio constrangedor se formou. Apenas podiam ouvir as gotas de chuva batendo violentamente no chão e nos telhados da vizinhança.
- Rukia, eu vi que você foi se colocou na minha frente e foi atingida pelo carro, – começou — mas você está inteira. Não foi causado nem ao menos um arranhão em sua pele. Não disse nada antes porque sei que não me responderia com tanta gente em volta. Então me diga, como...?
Esperou pela resposta e ela não vinha. A morena continuou silenciosa, encarando o nada, como se não tivesse ouvido nada que ele dissera. Mas ela ouvira tudo.
- Você deveria se afastar de mim. – disse a morena.
- Não. – fechou os punhos, consequentemente apertando o guarda-chuva.
- Por quê?
- Você atrai muito problema. Prefiro ficar perto para poder te afastar deles.
- Não estou pedindo isso para o meu bem. É para o seu. – Ichigo olhou para ela pelo choque das palavras. Ela estava falando sério. – Chegamos.
- Nossa, que lugar enorme! – disse, olhando pasmado para a mansão que a garota morava.
- É... Nii-sama optou por um lugar espaçoso, apesar de apenas nós morarmos aqui.
- Uma mansão para só duas pessoas?! – exclamou com certo exagero. Eles deviam ter muito dinheiro.
- Bom, — colocou-se na frente da entrada – até logo.
- Até.
Andou até a calçada molhada e chamou a morena, que estava fechando a porta.
- E Rukia, — ela o encarou pelo canto que ainda estava aberto – parece que tem algo que não quer me contar. Mas eu confio em você.
Ela sorriu e deu uma última olhada no rapaz, que a abalava tanto, antes de fechar completamente a porta.
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