Desculpa, sou de Áries
8 Virando gente grande
Notas iniciais
Depois de muito refletir (e talvez porque contei para minha mãe e ela não me deixaria mudar de ideia, já que ela estava hiper mega feliz por seu filho estar se tornando um verdadeiro adulto), decidi procurar pelo restaurante que Sabrina, a menina de cabelo vermelho, me falou.
Meu primeiro dia no trabalho seria brilhante. Eu estava usando um belo uniforme vermelho e preto e tinha meu próprio bloco de anotações e uma caneta que deixei atrás da orelha. Tudo o que eu precisava fazer era anotar o pedido das pessoas, leva-lo até elas e servir suas respectivas comidas e bebidas, recolhendo a louça assim que deixassem suas mesas. Também faria alguns serviços na cozinha, auxiliando, quando fosse necessário. Mamão com açúcar.
—Está vendo aquele homem de preto entrando? –Perguntou Sabrina segurando uma bandeja com saladas. –Assim que ele se sentar, vá recebê-lo. Ele pode ser seu primeiro freguês.
Fiquei animado e fui até sua mesa com um sorriso no rosto. Essa era minha primeira grande contribuição para o mercado de trabalho e tenho certeza que não demoraria muito até reconhecerem meu talento e, logo menos, poderia alcançar um bom lugar de liderança, como a gerência do estabelecimento.
—Boa tarde, senhor. –Falei. –Gostaria de fazer um pedido?
—Ainda estou pensando. –Sua careca lembrou-me de que meu pai estava quase nesse nível. Ele passou o dedo pela mesa, verificando se não estava empoeirada. Confesso que aquilo me irritou. –Certo, eu vou querer uma lagosta regada ao vinagre balsâmico vintage.
—Me desculpe, mas... Nós não servimos lagosta. –Falei com estranhamento. –Talvez queira dar uma olhada no cardápio. –Apontei com a caneta para o objeto, que estava em cima da mesa.
Em contragosto, pegou o cardápio enquanto lançava um olhar insatisfeito para mim e o abriu de maneira rude na frente de seu rosto.
—E ainda chamam isso de restaurante... –Falou entredentes, como se eu não estivesse ao seu lado. Qual era o problema desse cara? –Certo, então eu quero essa sopa e um suco de abacaxi com gelo extra.
—Anotado. –Pela primeira vez, utilizei as folhas de bloquinho de papel. –Seu pedido chegará em alguns minutos.
Enquanto me dirigia para a cozinha, pude jurar que ouvi um “não faz mais do que a sua obrigação”, mas tentei ignorar. Não podia perder a minha paciência logo de cara.
—Tem algo de errado com aquele homem. –Falei para Sabrina observando o senhor careca. –Já percebeu o modo como ele observa cada detalhe do restaurante? Como se estivesse procurando defeitos onde não tem.
—Lipe, não pegue ódio das pessoas só porque você não foi com a cara delas. –Repreendeu. –Ele provavelmente só está com fome. E por falar, nisso preste atenção! Esse pedido é seu.
Olhei para trás e a sopa e o suco já estavam prontos no balcão. Coloquei-os em uma bandeja e me dirigi para o careca. Talvez toda essa chatice fosse coisa da minha cabeça, pelo fato de que bem no fundo eu estava nervoso para o primeiro dia de trabalho.
—Finalmente! –Exclamou quando deixei a comida a sua frente. –Você tem ideia de quanto tempo esperei por isso? Eu poderia ter passado mal de fome.
—Mais alguma coisa, senhor?
—Não. Só me deixe comer em paz.
Respirei fundo a voltei para a cozinha, mas no meio do caminho fui interrompido pela mesma voz chata e reclamona.
—Garçom! Onde está a minha sobremesa?
—O senhor não fez o pedido. –Tentei falar calmamente, enquanto retirava a caneta de trás da orelha. –O que gostaria?
—Os doces não são cortesia da casa?
—Não... –Eu estava me contraindo tanto para não falar grosseiramente que me senti uma bomba nuclear prestes a explodir. Talvez meu sorriso disfarçado estivesse um pouco mais assustador do que parecia. –São vendidos separadamente. Há uma pagina inteira reservada para eles no cardápio.
—Isso é um absurdo! Onde estão os direitos do consumidor? Eu exijo um atendimento melhor e...
—Vai fazer o pedido ou não? –Interrompi.
—Sim. –Calou-se. –Uma torta de limão suíço.
—Perfeito. –Anotei, retirando-me o mais rápido possível de perto daquele indivíduo.
—Garçom! –Gritou.
Fechei os olhos, encolhendo os ombros e respirando fundo pela raiva. Me virei, com o mesmo sorrisinho medonho de antes.
—Sim?
—Tem uma mosca na minha sopa.
Tá de brincadeira, né? Essa era mais velha do que as roupas que eu costumo usar em casa. Se aquilo não fosse uma espécie de paranoia, eu não sabia mais o que poderia ser.
—Posso garantir que não tem nenhuma. –Examinei seu prato, que estava impecável. –Sabe, nossa cozinha é muito bem higienizada. Eu mesmo conferi.
—Que seja. –Disse emburrado. –Onde está meu doce?
—Sai em um minuto.
—Espero que seja realmente um minuto dessa vez. Da última, esperei meia hora!
—Senhor, faz apenas quinze minutos que o senhor está aqui.
—Isso não importa!
—Apenas aproveite a sopa. –Saí tão rápido que estava praticamente correndo.
Eu estava quase implorando para que Sabrina levasse a torta de limão, mas ela estava muito ocupada e provavelmente me espancaria se eu pedisse uma coisa como essa. Sem alternativa, fui até o capeta em forma de gente que resolveu sair do quinto dos infernos para comer sopa ele e servi sua torta.
—Essa comida estava péssima. Quer uma dica?
Eu estava prestes a falar “não”, mas ele foi mais rápido.
—Você pode trocar esse tempero por um pouco mais de sal, por exemplo. Espero que a sobremesa esteja melhor. Ah e eu quero uma xícara de café também.
Voltei para a cozinha, esgotado. Deixei o bloco de notas e a caneta no balcão e fui ao banheiro para lavar o rosto e, quem sabe assim, encontrar forças para continuar o trabalho sem roubar a faca da cozinha a atirá-la na cabeça de alguém. De preferência, de um certo alguém careca.
Quando voltei, a situação parecia ter saído de controle. O careca chamava freneticamente por mim e eu não duvido que logo iria bater na mesa também.
—Quero café! –Gritava. –Isso aqui tá uma porcaria. Quero café!
Tenho certeza absoluta que ele só estava fazendo cena. No entanto, peguei o cafezinho – que já estava frio pelo tempo que passei lavando meu rosto, xingando-o mentalmente e me controlando para não socar a pia – e fui até sua mesa.
—Você quer café?! –Perguntei retoricamente. — Então toma a merda do seu café!
Antes que ele pudesse fazer algo, sua careca já estava inundada pela bebida escura. Tinha sorte de estar vestindo roupas da mesma cor. A xícara caiu e fez um estrondo, espalhando-se pelo chão.
—Eu já me cansei disso! –Rasguei as folhas do bloquinho seminovo e pisei em cima, descontando toda a raiva. A bomba explodiu. –Se não está bom desse jeito, então procura um lugar melhor.
Boquiaberto, ele não disse nem mais uma palavra. Aproveitei para continuar:
—E se não estiver contente, pode tirar sua careca lustrada e velha desse recinto!
Ao meu redor, os clientes gargalhavam e se divertiam com a cena. Muitos deles filmavam e gritavam. Ouvi um marido comentando com sua esposa que o restaurante o surpreendeu, pois ele não esperava por um show ao vivo.
Sabrina assistia àquilo tudo horrorizada. Por enquanto, apenas chocada, mas eu já poderia me preparar para morrer enforcado por suas próprias mãos.
—O que está acontecendo aqui?! –O dono do local, que esteve na cozinha esse tempo todo, deu as caras.
—O forninho caiu. –Respondeu ela. Só muito tempo depois, descobri que, por algum motivo, ela utilizava essa expressão em momentos críticos de catástrofe.
—Felipe! –O chefe gritou. –Você perdeu a cabeça, moleque?! Bom, espero que saiba muito bem o que está fazendo, pois você está de-mi-ti-do.
Pudera eu, ser demitido antes mesmo de ser contratado? Aparentemente, sim. Cada sílaba foi como uma facada. Ele provavelmente fizera de propósito, igual quando sua mãe te bate várias vezes para ensinar uma lição quando você é criança e passa dos limites. E dessa vez, eu havia arregaçado completamente o que se conhece por “limite”.
♈♈♈
Mais tarde o lugar já estava com poucas pessoas quando eu, sem meu belo uniforme vermelho, limpava a sujeira de café e pedaços cortantes de xícara.
Sabrina, que quase me matou com berros, xingamentos horríveis e ameaças com uma faca de cozinha, agora estava calma e tentou me consolar. Embora não ajudasse muito, apreciei a intenção.
Primeiro e último dia com emprego. Guardei o material que estava usando para a limpeza na área de serviço e peguei minha mochila, observando bem o local para guardar de recordação em minha cabeça, pois nunca teria a cara-de-pau de voltar para lá.
Sabrina me acompanhou até a porta e me ofereceu um suco de laranja que ela mesma havia feito.
—Que delícia, cara. –Falei.
—É por conta da casa. –Esclareceu. -Queria ter feito um de maracujá, mas estamos sem.
Ela encostou-se à porta e focou observando alguns clientes irem embora enquanto eu terminava a bebida e logo depois devolvi o copo.
—Sobre o emprego... –Continuou. -Você vai encontrar algo melhor.
—Você acha?
—Na verdade, não. Mas senti que precisava falar algo do tipo numa hora como essa.
Apesar do momento dramático, sorri.
—Obrigado por ter tentado me ajudar. –Falei depois de pensar um pouco. –Eu não queria ter estragado tudo.
—Sem problemas. Depois que o medo de perder meu emprego por ter te indicado passou, me diverti muito rindo da situação. Você é hilário.
—Essa é a minha especialidade.
Com o silêncio de volta, ficamos apenas nos entreolhando. Estranhamente, eu não queria ir embora e ela também não parecia estar com vontade de voltar para o trabalho. Espere aí... Isso não quer dizer que estava rolando algo entre nós naquele momento, quer?
—Sabe... –Não entendi muito bem o motivo de ter tomado essa atitude, mas senti que foi a escolha certa. –Eu estava querendo sair para tomar sorvete em algum lugar legal esses dias. Gostaria de ir?
Ela sorriu e finalmente decidiu voltar para o serviço.
—Eu te mando uma mensagem.
♈♈♈
Voltando para casa, me deparei com um restaurante do outro lado da rua, o nosso concorrente. Lá, pude ver o desprezível homem careca trabalhando. Eu não queria acreditar, mas minha teoria fez todo o sentido: Esse tempo todo ele não era nada mais, nada menos, que um infiltrado! Provavelmente tentando diminuir a imagem do lugar e procurando falhas para fofocar. Olhei para baixo e sorri desacreditado e impaciente, cerrando os punhos.
Vocês já sentiram muita vontade de bater em alguém?
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