Desculpa, sou de Áries
9 Vem pra rua!
Notas iniciais
Vários dias se passaram desde o incidente com o restaurante e nesse meio tempo muita coisa aconteceu.
Eu e Sabrina realmente fomos para a sorveteria, onde descobri que estavam contratando e finalmente arrumei um emprego. Claro que primeiro eu me certifiquei de que não havia nenhuma empresa concorrente por perto.
E por falar na menina estressada, perdi a conta de quantas vezes brigamos um com o outro, contudo, sempre voltávamos a nos falar depois – sem pedir desculpas, é claro. Tínhamos uma relação de tapas e beijos, literalmente, devido ao fato de que acatamos a ideia de começar um relacionamento sério. Era estranho como vivíamos atirando facas um no outro o tempo inteiro, mas no final tudo ficava bem. Nossas semelhanças me assustavam um pouco, mas era até legal conviver com uma pessoa tão parecida, que entendia suas crises de raiva e até ajudava nos barracos sem olhar torto; Era algo que eu não sei se seria capaz de descrever aqui. Ela era a pessoa mais incrível desse planeta.
Já podem imaginar o que aconteceu quando Julia descobriu, certo? Ela estava contente em me ver, como sempre, quando eu lhe dei a notícia de que estava namorando. A menina fez tanto drama que eu me senti dentro de uma novela mexicana. Ela ainda tentou me convencer de que eu havia feito uma escolha errada e coisas do tipo, mas eu convivi com ela durante muito tempo para não me deixar enganar com suas manipulações. Por fim, ela jogou em mim as colagens que havia feito com minhas fotos e adesivos de florezinhas e corações, dizendo que nunca iria superar uma coisa dessas e como eu havia arruinado sua vida. Tudo o que consegui pensar foi “tchau, querida”.
Enfim, minha vida decidiu finalmente se tranquilizar. Até demais, na verdade.
Era domingo e estava quente e chato, como esses dias que antecedem a segunda-feira geralmente são. Meu trabalho era após a aula, então eu poderia tirar os fins de semana de folga. Pensei em ligar para Bina (Edu ficou enchendo o saco por eu ter inventado esse apelido carinhoso e confesso que ela também não gostou, mas a convenci quando falei que era isso ou “chuchuzinho”) para matar a saudade, mas ela estava ocupada demais viajando com a família. Diferente dos meus, os pais dela organizavam vários eventos divertidos durante o ano. Dessa vez, eles foram para a praia.
Jogado no sofá, eu estava em um tédio profundo. Olhava para as mensagens em meu celular, mas não aparecia nada de novo. Cliquei na conversa de Sabrina, mas ela não ficava online há um bom tempo. Provavelmente estava se divertindo como nunca, tomando refrescos em copos enfeitados e apreciando uma paisagem paradisíaca.
—Será que desligaram o Wifi da horta? –Perguntei para Júlio Verne, minha única companhia. –Não estou vendo meu chuchuzinho online.
O cachorro, que estava deitado no tapete, me olhou como dissesse “você já foi melhor que isso” e voltou a dormir.
—Você não tem senso de humor. — Retruquei.
De repente, meu pai apareceu na sala com toda a animação e entusiasmo que eu não tinha. Ele usava tênis de corrida, calça preta aparentemente confortável e uma camiseta com as cores da bandeira do Brasil. Ele também tinha marcas de tinta das mesmas cores no rosto e carregava vários cartazes e um megafone. Parecia determinado.
—Vamos filho, levante-se. Hoje nós vamos lutar pelo nosso país!
—Pai, o que você está fazendo?
—Não ficou sabendo da manifestação? –Seu Valdeci tinha um ar sonhador e confiante. -Hoje milhares de brasileiros vão sair de suas casas pelo combate a corrupção e em busca de melhores condições de vida.
—Ata. –Falei, sem emoção. –Boa sorte para vocês.
—Para nós. –Corrigiu. –Estou contando com a sua presença! Precisamos de jovens para representar o futuro do país.
—Eu não sei se é uma boa ideia...
—Chato. –Disse cantarolando com o megafone e depois voltou ao normal. -Tem algo melhor para fazer?
Olhei para meu celular com uma enorme quantia (zero) de notificações e depois para Júlio Verne, que agora dormia de barriga para cima e sonhava, mexendo as patinhas e a boca.
Quer saber? Papai estava certo.
♈♈♈
A multidão não parava de gritar. Além dos berros, também era possível ouvir o som de apitos, músicas, cantos, panelas batendo e, ás vezes, latidos de Júlio Verne. Ele gostava de participar desse tipo de coisa, então papai concordou em levá-lo.
E por falar em pai, lá estava ele com seu megafone discursando para dezenas de pessoas. Elas, assim como ele, também estavam motivadas e aplaudiam freneticamente. Pareciam bem dispostos a dar tudo de si naquele dia.
Certa hora avistei Luíza no meio da multidão (foi fácil encontra-la, seu cabelo azul se destacava no meio de tudo e era impossível não reconhece-la), porém, não consegui cumprimenta-la pela grande movimentação de pessoas.
A caminhada começou e lá estava eu, no meio de uma multidão escandalosa. Meu pai havia dito que o propósito da manifestação era o combate à corrupção, contudo, não era bem isso o que os cartazes diziam. Cada um deles trazia uma mensagem totalmente diferente do objetivo original. Por exemplo: Muitos deles tinham frases contra o machismo, homofobia, racismo, desemprego, salário baixo e o aumento do preço do Xerox e da coxinha. Achei esse último um pouco estranho, mas parecia justo. Todos eram sobre boas causas e mereciam a devida atenção, no entanto, os diversos assuntos se misturavam no meio de tanta gente, o que acabava gerando uma bagunça impossível de ser controlada.
Quando chegamos à metade do caminho, notei que algumas pessoas estavam afastadas das demais. Tratava-se de um grupo de garotos talvez um pouco mais velhos do que eu, que usavam mascaras e/ou tecidos cobrindo o rosto. Se têm coisas que eu reconheço fácil, são encrenqueiros. Afinal, eu também sou um e dizem que só um louco reconhece o outro. O que importa é que aqueles caras não estavam ali por um bom motivo e eu sabia disso.
Minha intuição estava completamente certa – óbvio. Antes que eu pudesse tomar alguma atitude, um deles jogou um tijolo na vidraça de uma loja, destruindo-a completamente. Logo após, os outros começaram a chutar qualquer tipo de lata de lixo, vidro, porta e janela que encontravam, entre outras coisas, deixando todos que estavam por perto em estado de pânico. Vândalos.
—Ei! –Gritei. Eu não poderia em hipótese alguma deixa-los destruir a cidade daquela maneira. –O que vocês pensam que estão fazendo?
—Não se mete. –Falou o que usava máscara de um presidente internacional. –Nós só estamos tentando chamar a atenção para ver se os caras que estão no poder percebem que nós existimos.
—E você quer fazer isso destruindo a cidade? Como você é burro, cara! –Eu estava indignado. –Se queremos os nossos direitos básicos, então devemos ir atrás!
—É! –Gritou uma pessoa da multidão.
—Não precisamos destruir tudo e todos dessa maneira. O poder de mudança está em nossas mãos e nós viemos aqui justamente para mostrá-lo.
—É! –Gritou uma multidão inteira.
Eu não havia percebido o quão motivador isso soara. E nem que as pessoas estavam concordando comigo e me classificando como uma espécie de líder do movimento rebelde.
—Você tem o seu jeito, mané. –Falou o falso presidente . –Nós temos o nosso.
Dito isso, senti uma fumaça ser jogada em meu rosto, daquelas que eles costumavam usar para certa espécie de bomba caseira improvisada. Senti tontura no começo, mas logo voltei ao normal e posso jurar que fiquei vermelho de raiva.
—Onde aquele filho de uma anta aleijada e catarrenta foi parar?
Enquanto procurava, a bomba caseira foi jogada pela rua, assustando dezenas de pessoas que correram. Os desinformados, que estavam um pouco mais longe, pensaram que se tratava de um movimento planejado e andaram rapidamente para acompanhar. Enquanto todos estavam animados em meio ao som de inúmeros apitos e vozes gritando, eu apenas ficava mais furioso por ter perdido os arruaceiros de vista e acabei sendo arrastado pela multidão. Meu único foco estava direcionando em encontrar o cara mascarado que havia começado aquilo tudo.
No meio da muvuca, várias pessoas propagavam a palavra do grupo que representavam, distribuindo panfletos e acessórios sem nem ao menos perguntar se os outros também defendiam a determinada causa. Quando me dei conta, já estava vestindo forçadamente uma camisa com as cores da bandeira LGBT, pichada com um enorme símbolo do anarquismo e o do comunismo pintado de vermelho no meu rosto enquanto a versão funk do hino nacional tocava em algum lugar. Tudo aconteceu tão rápido que nem tive tempo para pensar, mas não me importei, estava ocupado demais procurando os responsáveis pela bagunça.
Mais tarde, fiquei sabendo que apareci na TV com o título de “jovem líder anarquista” e Nanda, que estava se deliciando com brigadeiro de panela, desmaiou quando me viu nos noticiários. Conhecendo bem a Dona Amélia, era bem provável que minha mãe houvesse deixado seu rádio de estimação cair quando viu seu lindo e adorado filho no meio de tanta confusão. E também xingaria papai por uma semana e meia.
Uma moça tirou uma selfie comigo tão rápido quanto eu pude piscar e depois sumiu. Passei a mão no rosto pelo suor e acabei desmanchando o ícone comunista. Somente depois percebi que ficou parecendo uma mancha de sangue. Sem saber de onde veio, assim como os outros adereços, percebi que eu estava segurando uma enorme bandeira do Brasil, com os dizeres “Desordem e Regresso”.
Quando olhei para cima, na ponte, lá estava o maldito mascarado pichando alguma frase motivadora que não me importei em ler. O encarei por alguns instantes, rangendo os dentes e não contive um enorme grito de raiva:
—Eu vou acabar com você, maldito!
—Sim! –Concordou uma pessoa no meio da algazarra. –Nós vamos acabar com esses malditos corruptos!
—O que há de errado com essas pessoas?! –Perguntei com a paciência completamente esgotada, me referindo àqueles que sempre distorciam o que eu falava. Mas ninguém deu ouvidos.
♈♈♈
Continuei procurando pelos vândalos até a caminhada acabar, mas eles eram espertos e acabaram fugindo.
Frustrado, sentei no meio-fio da calçada enquanto todos voltavam para suas respectivas casas e as ruas estavam quase vazias. Lá, Júlio Verne veio ao meu encontro abanando o rabo e lambeu minha mão. Pelo menos ele estava feliz, sempre ganhava muito carinho e comida quando passeava pela rua.
—Filho! –Pensei que não iria encontrar meu pai no meio de toda aquela confusão, mas ele sempre dava um jeito de me achar. –Não sabia que você era pró-ditadura militar.
—Nem seu. — Reparei que em meu ombro, onde papai estava olhando, tinha um adesivo com esses mesmo dizeres. Descolei o papel de minha camiseta colorida e o amassei, jogando fora.
—Foi um dia e tanto, hein? –Ele puxou minha mão, fazendo-me levantar e batendo de leve em minhas costas. –Está cansado?
—Na verdade, estou irritado.
—Você só precisa aliviar todo esse stress. Tome um banho morno e durma cedo, tenho certeza que vai melhorar.
—É, talvez eu deva fazer isso.
Concordei com o banho e a soneca, porém, eu sabia exatamente do que eu precisava essa semana. E começava com F de Festa.
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