Desculpa, sou de Áries

3 Manual de como estragar uma festa


Era noite e o local da festa já estava cheio de gente quando eu e Nanda chegamos. Era uma casa simples, mas bem espaçosa. Fiquei no portão, esperando que ela se enturmasse com alguém.

O aniversariante, um garoto baixinho que estudava na mesma sala que ela, foi ao seu encontro.

—Eaí, beleza? –Cumprimentou. -A casa é sua!

Nanda o abraçou, desejando-lhe felicidades por ter completado mais um ano de vida e toda essa baboseira que as pessoas falam no dia do aniversário. Contudo, não foi difícil perceber que ela estava mais interessada na mesa de salgadinhos do que no garoto.

Tudo parecia estar bem, na base do possível, então decidi ir embora e voltaria apenas mais tarde para busca-la. Estava claro que eu tinha coisas muito mais importantes para fazer, como por exemplo, procurar discussões desnecessárias na internet para comentar, irritar meus pais e também dar continuidade ao meu plano mestre: Ensinar o Júlio Verne a bagunçar o guarda roupa de Nanda quando ela estivesse fora.

Enquanto eu voltava para a rua, algo me chamou a atenção: Algumas pessoas traziam caixas de bebida alcóolica para a festa. Só então percebi que entre as pessoas da idade da minha irmã, havia também um pessoal bem mais velho; com aparentemente vinte e poucos anos. Até aí tudo bem, mas me senti desconfortável quando percebi que alguns deles estavam com cigarros bem suspeitos e agiam de um jeito estranho. Nanda não iria ficar por ali nem mais um minuto.

Voltei imediatamente, mas logo no portão fui barrado por um desses caras. Ele era enorme e mal encarado.

—Onde pensa que vai?

—Estou indo buscar a minha irmã. Agora sai da frente e me deixa passar.

Dei um passo, mas o esquisitão me impediu, ficando na minha frente.

—Epa, espera aí. Pelo que eu saiba você não foi convidado. Isso aqui é uma festa particular.

—Preciso de um crachá também? Ou devo pegar uma senha? Qual é, eu só quero encontrar minha irmã e dar o fora daqui.

—Cai fora. –Suas mãos me empurraram. Aquele cara realmente não sabia a gravidade da situação em que estava se metendo. –Se eu ver você novamente por aqui, teremos sérios problemas.

Afastei-me com o impacto, cerrando os punhos pela raiva. Observei enquanto ele, sorridente, recebia alguns convidados da festa. Nota-se que nenhum deles usava crachá.

—Seu filho da...

—Ei, Lipe. –Fui interrompido por Edu e seu típico bom humor... Espere. Edu?! O que ele estava fazendo ali?

—Edu?! O que você está fazendo aqui?

—Ué, achei que você tinha falado sobre uma festa. E aqui estou eu! Veja, trouxe algumas latinhas de energético. Espero que tenha pessoas legais e...

—A festa acabou. –Minha vez de interromper. –Não quero Fernanda nesse encontro de drogados.

—Alguém falou em festa? –Outro rapaz surgiu na conversa, sorrindo. Tinha cabelos negros e cacheados, com algumas mechas roxas (sempre pintava de cores diferentes) e um sorriso simpático. Como sempre, trazia um drink em suas mãos.

—Gui! –Alegrou-se Edu. –Pensei que você iria demorar.

—Eu não estava muito longe daqui. Infelizmente, as melhores festas da noite ainda não começaram. Aliás, obrigado por me chamar.

—Uma festa sem você, não é uma festa.

Edu estava certo. Guilherme era a pessoa mais simpática e gente boa que você poderia conhecer em toda a sua vida. Mas enganava-se quem se deixava levar por sua carinha meiga. Toda e qualquer festa que surgisse, lá estava ele, seja nas baladas mais quentes da cidade ou no Show do Bingo; sempre acompanhado de uma pessoa diferente. Nesta noite, ele não havia encontrado ninguém (por enquanto).

—Não podemos entrar. –Posso afirmar com certeza que estava encarando sombriamente os convidados nesse momento. Por sorte, meus amigos já estavam acostumados com meu lado assassino. Continuei com uma voz debochada. –É uma festa particular.

—O que? –Gui ficou chateado, como uma criança que perdeu seu brinquedo favorito. Era quase fofo, se a situação não fosse crítica. –Mas a bebida vai esquentar desse jeito.

—Não sei quanto a vocês, — Disse Edu. –Mas eu não vou perder meu precioso tempinho parado aqui a noite inteira.

—Nenhum de nós vai. –Concluí. –Vamos invadir aquela casa.

♈♈♈

Enquanto Gui usava seu incrível e simpático dom social de puxar assunto – misturado com um pouco dos efeitos do álcool – para distrair o segurança de quinta categoria, Edu fez pezinho para que eu pudesse pular o muro.

Fui diretamente para os cômodos da casa onde a música estava alta e a festa ganhava forma. Pelo “gás do momento”, acabei me esquecendo de ajudar Edu, mas ele iria dar um jeito. Já havíamos praticado muito matando aulas na escola e poderíamos facilmente fazer um mestrado baseado nisso.

O local era um pouco menor do que eu imaginava ou talvez houvesse muitas pessoas. Não sei dizer ao certo. Porém, o que importa é que havia muitas pessoas mais velhas. Se mamãe ficasse sabendo, eu não iria conseguir sentar por uma semana e provavelmente usaria um chapéu de orelhas de burro com a palavra “irresponsável” decorada com purpurina. Não que isso já tenha acontecido... Mas, enfim. Voltando para a história.

Avistei Nanda de longe, ao lado da mesa de aperitivos. Comia um delicioso salgadinho e estava com vários docinhos na mão, apenas esperando o momento certo para ataca-los. Também estava de olho no refrigerante e, logo menos, maravilhou-se ao encontrar as balas de coco. Havia algumas coisas inusitadas também, como estrogonofe e bife acebolado. Provavelmente algumas tias também foram convidadas.

Ótimo. Agora era só convencê-la a sair, mesmo que eu precisasse formar uma trilha de doces para atraí-la até a nossa casa.

Estava tudo bem, até que o aniversariante surgiu de algum lugar –das trevas, provavelmente– e decidiu que deveria implicar com Edu, que conseguiu escalar o muro sem problemas.

—Quem é você? Não quero estranhos na minha festa.

—Qual é o problema? Você deveria estar agradecido por ter mais pessoas comemorando seu aniversário. –Assoprou uma língua de sogra que havia encontrado por aí, irritando o mais novo. Mas logo voltou sua direção para a mesa de guloseimas. Seus olhos brilharam. –Não me diga que aquilo é um pavê? Mas espere aí, é pavê...

—Não. Não faça isso Eduardo... Por favor, não. –Implorei, sussurrando. Sabia que ele não ouviria, de qualquer jeito. Mas o que iria acontecer a seguir era inevitável.

—... Ou pacumê?

—... Ele fez.

Era impossível domar seus talentos naturais para piadas, sejam elas realmente divertidas e engraçadas ou nem tanto assim.

—Você entendeu? Hein?! –Riu como se fosse um verdadeiro humorista. –Pacumê. “Pra comer”. Pavê...

—Eu entendi. –O outro estava mais sério impossível, não esboçou nem mesmo um sorrisinho amarelo. –Alguém tire esse cara daqui, pelo amor de Deus!

Foi nesse momento que o segurança Made in China deu o ar de sua graça, ignorando completamente Gui.

—Ei, você vai mesmo me deixar falando sozinho? –Era de dar pena.

Só então me lembrei do meu objetivo inicial. Quando olhei para a mesa, Nanda havia sumido, assim como vários docinhos. Por sorte, eu sabia exatamente onde encontra-la: Na cozinha, onde colocaram o bolo.

Eu estava quase chegando, quando fui impedido pela voz irritante de um pré-adolescente mimado:

—Mais um sujeito que não foi convidado? Isso por acaso virou a casa da Mãe Joana?

Olhei ao redor e pensei em responder algo, pelo fato de eu ser o menor problema naquele local que infringia pelo menos sete leis, pelo pouco que eu havia observado. Mas preferi relevar.

—Sai daqui agora, não percebeu que está atrapalhando?

—Olha como fala, menino. Além disso, eu já estava de saída.

—Morre, diabo! Eu falo como eu bem quiser.

—Escuta aqui...

—Fique quieto! Já falei pra sair. Ou será que você é tão estúpido que preciso desenhar?

Respirei fundo. Muito fundo. Tão fundo quanto a marca do tapa que desejei formar em seu repugnante rostinho ou talvez tão fundo quanto a cova que gostaria de cavar para ele. Contudo, era impossível controlar. Involuntariamente, agarrei a primeira coisa que estava ao meu lado (um bolo de aniversário) e o joguei no rosto do respectivo aniversariante. Será que ele já havia feito pedido?

O barraco estava formado. Muitas pessoas gritaram e fizeram uma rodinha para enxergar melhor o que estava acontecendo e acompanhar o show. Nanda assistia à cena de longe, comendo mini coxinhas.

Quando o segurança de meia tigela fez meu rosto sangrar com um soco, não me controlei. Simplesmente não economizei nos ataques, enquanto recebia o apoio da plateia, com gritos de “briga” repetidamente. Aquilo de fato me motivou. Entretanto, agora vejo que não foi uma ideia tão boa quanto pareceu.

Em meio à adrenalina do momento, empurrei o idiota contra a caixa de som, o que acabou aumentando o volume da música de uma maneira que poderia facilmente ser ouvida do Japão. Eu poderia jurar que, naquele exato momento, algum asiático do outro lado do mundo estava me xingando enquanto comia seu arroz e assistia anime.

Sem me importar, continuei com a atração principal da noite, até que alguém bateu na porta. Todos pararam no preciso momento e o som foi desligado. Fiquei ouvindo ruídos pelo resto da noite.

A polícia dispensou todos da festa, que agora realmente havia acabado. Aproveitou também para interrogar alguns suspeitos que não sabiam ao certo onde estavam e falavam coisas sem sentido.

Ao lado dos oficiais, um padre e algumas freiras reclamavam incansavelmente. O som alto provavelmente atrapalhou suas orações e eles foram os responsáveis por chamar as autoridades.

—Isso é um sacrilégio! –Gritava o padre. –Esses jovens só podem estar possuídos pelas drogas. Onde já se viu um comportamento como esse? Inadmissível!

Ele não iria parar tão cedo.

Antes que chegasse a minha vez de ser interrogado, corri com Fernanda e meus amigos para bem longe de lá, fingindo que nada demais havia acontecido. E não fomos os únicos a fazer isso.

—Cara, que noite! –Exclamou Edu.

—Espero que tenha se divertido comendo salgadinhos, Fernanda. –Eu apalpava meu rosto com cuidado, que estava completamente ferido. De novo.

—Com toda certeza! –Sorriu. –Você precisava ter provado aquele pavê.

—E por falar em pavê, –Edu não podia se conter. — Será que é pavê ou...

—Cala a boca, Edu! –No mesmo momento, percebi que era melhor não ter gritado. Meu rosto ainda estava muito sensível e sangrando. Tive vontade de socar uma parece por isso.

Quando deixei minha irmã em casa, voltei para falar com Gui e Edu.

—Qual bebida você prefere? –Perguntou Edu.

—Não consigo escolher. –Indecisão era o nome do meio de Guilherme.

—Quem se importa? Vamos misturar as duas!

Agora que eu já estava mais calmo, imaginei no que aquela mistura iria resultar e até fiquei com vontade de rir, mas meu rosto ainda doía.

—É, acho que já está na hora de ir. –Falei verificando se minha cara estava tão inchada quanto parecia. –Essa coisa dói mais do que parece.

—Hora de ir? –Perguntou Edu. –Do que você está falando?

—Deixa disso. –O espírito festivo de Gui falava por ele. –A noite só está começando.