Desculpa, sou de Áries

4 Louca dos signos


Notas iniciais
Esse capítulo não foi patrocinado por João Bidu, mas poderia

A madrugada de domingo estava tranquila. Em meu sonho, eu finalmente consegui entrar para o exército e estava ganhando meia dúzia de medalhas de honra na frente de uma grande plateia que não economizava nos aplausos. Tudo estava lindo e maravilhoso, até que fui interrompido pelo barulho mais irritantemente alto que já ouvi em toda a minha vida. Acredite se quiser, mas era ainda pior do que a voz de Fernanda pela manhã. Seria um ataque dos inimigos? Vingança? Era preciso agir.

O sonho começou a se desfazer e acordei com um pulo, assustado. Meu corpo estava de pé, mas eu ainda não conseguia assimilar o que estava acontecendo e muito menos onde eu estava. Mesmo que meus olhos conseguissem se manter abertos, não iria adiantar muita coisa, já que o local estava escuro.

Agarrei automaticamente o taco de baseball que fica ao lado da minha cama e estraçalhei a primeira coisa que estava a minha frente, sem saber exatamente do que se tratava, até que o barulho infernal finalmente parou.

De repente, tive a sensação de que iria ficar cego. Meu pai acabara de acender a luz do quarto e correu desesperadamente até mim, empunhando uma frigideira preparada para matar. Ele ainda vestia pijama e os poucos cabelos que lhe restavam não haviam sido penteados.

—Que susto, menino! –Falou, colocando a mão em seu peito enquanto tentava controlar a respiração acelerada. Depois, arrumou os óculos. –Nunca mais faça isso. Pensei que algum ladrão havia invadido seu quarto.

Júlio Verne, o cãozinho maneiro, surgiu correndo como o vento e lambeu meus pés descalços.

Só então consegui acordar pra valer e distinguir sonho de realidade. Meu despertador estava despedaçado no chão, com todas as suas molas e engrenagens para fora. Imaginei que se tratasse de uma cena muito pesada para robôs.

-Não se atrase para a escola, hein? –Disse Seu Valdeci, vulgo papai, saindo do quarto e bocejando enquanto coçava sua cabeça.

Fiquei parado por algum tempo, perguntando-me se realmente havia feito aquilo. Enfim, isso já não importa. Peguei meu celular e me dei conta de que era segunda-feira de manhã. Hora de ir para a escola.

Após fazer meu exercício matinal (com direito a flexões e abdominais), me trocar e tomar uma boa xícara de café, eu já estava preparado para sair de casa com meu skate quando fui impedido:

—Lipe! –Minha mãe apareceu na porta de casa. –Onde pensa que vai desse jeito?

Ela veio até mim e grudou uma bandagem adesiva em meu nariz, que ainda estava machucado pela briga de sábado.

—Agora sim, pronto para mais um grande dia de aula. –Disse ela. –Divirta-se na escola, amorzinho.

♈♈♈

Chegando à escola, vi Logo de cara Isa arrumando seu cabelo. Como sempre, ela queria que ele ficasse simetricamente ajeitado. Ao seu lado, Edu contava piadas para Beto, que estava no mundo da lua.

—Beto...? Beto! Eu estou falando com você!

—O que? Desculpe, eu não estava ouvindo.

Quando o falso humorista que precisava ser muito paciente com o amigo distraído finalmente me viu, encheu o peito para emitir um glorioso “Bom dia”.

—Só se for pra você. –Respondi, bocejando. O susto, os exercícios e o café me acordaram, porém, o efeito já estava passando.

—Lipe, que bom que você não se atrasou hoje! –Isa estava ansiosa. –Eu não aguentava esperar mais. Preciso mostrar algo que encontrei para vocês.

—Tipo um tesouro? –Edu animou-se.

Com essa deixa, Beto imaginou um enorme baú repleto de ouro e diamantes.

—Entenda como quiser.

A ruiva abriu sua mochila e conferiu o horário no relógio de pulso. Ainda tínhamos alguns minutos antes das aulas começarem. Ela retirou um livro roxo cheio de detalhes em dourado, com ilustrações engraçadas que não me interessaram. Ela parecia animada.

—Apresento a vocês: O Zodíaco

—Zodíaco? –Edu perguntou por todos nós.

—Não me diga que você acredita nessa coisa estúpida de signos.

—Até que parece legal. –Beto folheou as páginas.

—Eu estava lendo este livro e as semelhanças e coincidências conosco são incríveis. Isso explica muito sobre o nosso comportamento. Dê uma olhada no seu, Beto.

—Vejamos... Achei! –Arrumou seus óculos e limpou a garganta para ler em voz alta. –Este signo é conhecido por sua sensibilidade, bondade e misticismo, além de ser um sonhador imensurável.

—Viu? –Disse Isa. –Essas palavras acabaram de descrever sua personalidade.

—Até que está bem parecido! Esse livro sabe mesmo o que diz.

—Minha vez! –Edu estava ansioso e pegou o livro para si. –Olhem, aqui diz que este signo possui espírito livre e independente. É alegre e sempre leva o bom humor consigo para onde quer que vá. –Devolveu o livro para Isa. –Ora, ora. Parece que temos um Sherlock Holmes aqui.

—O meu diz que é um signo muito ligado à organização e trabalho, com certas manias perfeccionistas...

—Agora sim eu acredito nesse tal de zodíaco. –Falei, irônico.

—Engraçadinho. Qual é o seu signo mesmo? Vamos ver o que ele diz.

—Eu já falei que não acredito nesse tipo de coisa.

—Fale logo! Está quase na hora de bater o sinal. –Isa não chegaria atrasada nem se lhe oferecessem dinheiro para isso.

Suspirei.

—Ok. Meu signo é Áries.

—Este signo chama atenção por sua audácia e petulância. É emocional e irrita-se com facilidade.

—Isso não fez o menor sentido. Eu não sou desse jeito.

—Tem certeza? –Perguntou ela. –Se a gente prestar atenção...

—Não sou.

—Pensa bem, cara. –Edu parecia concordar com essa coisa sem noção. –Olhando pra você desse jeito...

—Eu já disse que não sou! –Gritei, caminhando para a sala de aula.

Os três se entreolharam e ficaram em silêncio. Bom pra eles.

Quando pensei que a manhã não poderia ficar pior, deparei-me com algo enquanto procurava meu lugar para assistir às aulas — no fundão, é claro. Lá estava ela, o animal venenoso em forma humana: Jaqueline Fiorela, cara de panela. Até o mais corajoso sentiria um calafrio na espinha se recebesse seu penetrante olhar ameaçador, como ela passou a fazer frequentemente comigo.

Ela estava entre Leandro e Daniele, seus dois grandes capangas amigos dos quais não desgrudava nem por um minuto (até suas mesas estavam juntas). Tenho pena deles por isso.

Dani era loira, bem magra, usava aparelho ortodôntico que lhe deixava com um sorriso metálico legal e costumava usar toucas mesmo no calor. Um detalhe importante é que ela não parava de falar. Nunca. Até mesmo em provas semestrais. Sempre estava acompanhando as novidades nas redes sociais sobre tudo e todos e fofocando com suas amigas. Quando uma notícia ou algum “babado” aparecia, ela era a primeira a saber. Conhecia todo mundo da escola (e provavelmente de toda a cidade também) e criava vínculos de amizade facilmente.

E por falar em popularidade, lá estava Leandro. Leo era o tipo de pessoa que posta centenas de fotos por semana na internet. Tinha um enorme afro hair de dar inveja a qualquer um e insistia em penteá-lo o dia inteiro. Andava sempre muito bem vestido e usava roupas da moda e de marca. Sempre que alguém falava em tirar uma foto, ele atravessava rios e montanhas para aparecer também. Capitão do time de futebol, presidente do grêmio estudantil e bom aluno, sua popularidade era inegável. Além disso, ele e Guilherme já tiveram algo juntos, porém, Leo era caseiro e tinha a necessidade de receber 100% da atenção para si, o que era impossível, visto que Gui sempre teve uma mente um tanto liberal.

Apesar dessa rivalidade entre nossos grupos, Dani e Leo pareciam ser legais, caso não andassem sob a influência de Jaqueline Fiorela, a vaca amarela.

Não foi nada fácil ficar no mesmo local que essa garota neurótica por três aulas seguidas. Pouco antes do intervalo, estávamos assistindo à aula de artes — sério, quem precisa dessa matéria? — quando o professor decidiu passar um recado. Ele parecia entusiasmado e logo pôs-se a falar com a turma:

—Com muita alegria, informo a vocês que o projeto de que falei há muito tempo finalmente ganhou uma data! Isso não é incrível?

Era tão incrível que a sala, que sempre parecia estar em estado de pânico e/ou autodestruição, permaneceu em silêncio. Poderiam estar felizes apenas por dentro ou simplesmente entediados por mais um projeto que seria ignorado. Pessoalmente, eu apostaria todas as minhas fichas na última opção.

—Animem-se, vai ser supimpa. –Sem sucesso, ele tentava utilizar gírias para criar uma proximidade com os alunos, mas, cá entre nós, só piorava a situação. Talvez ele devesse se lembrar que ninguém mais fala assim hoje em dia. –Combinei com a diretoria e nós podemos apresentar um teatro para a escola inteira!

—Uau. –Falei com animação irônica. Estava mais entediado do que nunca.

—O roteiro foi escrito pela Aline, a colega de vocês. Está de arrasar!

O professor dividiu os papéis e, por alguma razão desconhecida, fui indicado para interpretar o vilão. Não compreendo os motivos para isso até hoje.

Aline imprimiu folhas com as falas individuais de cada um e disse que deveríamos estudar muito em casa, pois teríamos apenas um único ensaio antes da apresentação oficial. Ela pediu para que a representante de sala — que no caso era a megera Jaque em pessoa — entregasse as folhas para seus respectivos donos. Quando recebi a minha (a única amassada), senti seu olhar ameaçador novamente. Sério, eu não recomendaria essa sensação nem para o meu pior inimigo.

Ok, ok. Vou deixar o ódio de lado por um tempo (só por um tempo, hein?) e falar um pouco a sério sobre Jaqueline: Seus cabelos eram pretos, sempre muito bem arrumados com chapinha, hidratante, spray e todas essas frescuras. Pagava de “pirigótica” e seu rosto estava sempre coberto pelo que pareciam ser várias camadas de maquiagem. Seus batons nunca eram claros, e dessa vez usava um roxo tão escuro quanto sua alma vingativa.

O sinal bateu. Meu estômago já estava roncando de fome e tudo o que eu queria era que a fila para o lanche não estivesse tão gigantesca, embora eu soubesse que esse era só mais um sonho utópico de estudantes.

Quando me preparei para sair, pensei ter dado de cara com o espírito maligno do submundo mais obscuro existente, mas era apenas Jaqueline Fiorela, a bate-chinela.

—Você não cansa de ser chata?

—Fale o quanto quiser, Felipe. –Sorriu de maneira falsa. –Sua hora vai chegar. Tenho certeza que você se divertiu muito me vendo sofrer depois do término do nosso namoro, mas fique sabendo que o jogo virou.

-Já acabou, Jéssica?

Não. Com certeza não havia acabado. Pude concluir isso apenas observando a raiva ganhando forma em seu rostinho coberto de maquiagem. Ela se aproximou e disse em um tom mais baixo; ameaçador. Claramente alguém que não entendeu a referência.

—Pode brincar o quanto quiser, eu ainda vou rir muito da sua humilhação. –Se afastou novamente, caminhando para fora. –Quando você menos esperar.

Fiquei tentando imaginar o que aquilo queria dizer. Sabe-se lá o que se passava pela cabeça daquela menina.

—Lipe. –Aline me chamou. –Não se esqueça de pagar sua taxa de inscrição. Eu sei que você nunca mantém compromisso com essas coisas. Aliás, você gostaria de comprar um ingresso para o teatro?

—Me poupe, Aline. –Revirei os olhos. -Atores não precisam pagar ingresso.

—Não custava tentar. –Conformou-se.

Se tinha uma coisa que Aline amava em sua vida, essa coisa era o dinheiro. Era obvio que se empenhou em criar, roteirizar e dirigir o teatro visando os lucros finais. Além do mais, se conseguisse um bom resultado nessa apresentação, iria atrair público para os próximos eventos da escola e, consequentemente, mais pessoas pagando ingressos. Ou seja, de modo resumido: Dinheiro, dinheiro, dinheiro. Deixando de lado os interesses capitais, ela era uma garota legal. Seus cabelos eram castanhos, lisos, curtos e repicados. Sempre passava lápis em seus olhos e era uma verdadeira fã do cinema.

—Lili! Como está a minha chatinha favorita? –Edu surgiu irritantemente animado no meio da conversa, com uma planta em suas mãos. –Veja, peguei isso para você.

—Não me chame de Lili. –Saiu da sala.

—É uma flor! –Ele a seguiu, insistente. –Acabei de colhê-la.

—Meio difícil não notar, ela ainda está com as raízes. –Desinteressada na conversa, pegou o dinheiro que já havia adquirido das taxas de inscrição e começou a conta-lo.

Ele percebeu o pequeno e ridículo erro e arrancou a raiz imediatamente, entregando-lhe a flor como se fosse nova, até que ela finalmente aceitou.

—É pra você se lembrar de mim, gatinha.

—Ok.

Quando Edu finalmente saiu de seu pé, ela jogou a planta na primeira lata de lixo que encontrou. Estava mil vezes mais focada e feliz com sua grana.

—Viu? Ela não resiste ao meu charme. –Dirigiu-se a mim. Era impossível levar esse cara a sério. –Só está se fazendo de difícil.

—Estou esperando ansioso pelo dia em que ela vai te dar um soco na cara. E bem merecido.

—Aposto minha guitarra elétrica que isso nunca irá acontecer.

—Você não tem uma guitarra elétrica. –Observei.

—Não seja estraga prazeres! –Olhou por cima do meu ombro. -E por falar nisso, veja quem está se aproximando.

Quando me virei, lá estava ela, me encarando. Óculos vermelhos, cabelo castanho-claro, assim como seus olhos e um enorme sorriso. Eu odiava a proximidade que ela insistia em manter entre nós.

—Bom dia, meu bebê! –Julia parecia gostar muito de utilizar uma voz fofa e meiga propositalmente, como se eu fosse seu bichinho de estimação. –Senti sua falta! Você sentiu a minha?

—Bem, na verdade...

—O que foi? –Me interrompeu, dramática. – Aposto que não sentiu. Já era de se esperar... E ainda nem viu o que eu passei horas fazendo. Olhe! Revelei algumas das suas melhores fotos e recortei em formato de coração. Não é mega fofo? Fiz questão de escolher seus melhores ângulos. Deu um trabalhão, mas é uma fofura olhar o jeito como você acaba saindo bravinho em quase todas elas.

—Espere aí. –Olhei as imagens, confuso. –Eu não me lembro de ter tirado essas fotos.

—Claro que não, bobinho. Eu tirei. Enquanto você não estava olhando, é claro. Algumas aqui na escola e outras enquanto você estava indo para casa. Sabia que eu precisei caminhar muito para consegui-las?

—Você andou me seguindo?

—Quis fazer uma coisa especial. E por falar nisso, o que acha de um encontro mais tarde? Conheço um lugar maravilhoso onde, em certos dias, tem apresentação de uma banda especializada em músicas românticas.

—Ãhn... –Não consegui prestar muita atenção no que ela dizia, já que estava ocupado demais tentando acreditar que ela realmente havia tirado aquelas fotos bizarras. Apenas entendi as palavras “apresentação” e “banda”. -... É.

—Então nós vamos, certo? Hoje, às 19h. E lembre-se de ir muito bem vestido. Caso não queria comprar chocolates, apenas um buquê de rosas vermelhas já está bom o bastante.

—É... Não, espera aí! –Sacudi a cabeça. – Você está louca?! Pare de me manipular desse jeito.

Julia ficou chateada. Algo de errado não estava certo com aquela garota. Algo muito errado. Se bem que todos já estavam acostumados com este comportamento.

—Já percebeu o quão fofo você fica quando está irritado? –Tentou manter sua expressão de tristeza, mas não conseguiu e voltou a ser fofa. — Enfim, preciso ir agora. Se estiver muito ocupado hoje, não se preocupe, não faltam oportunidades. Tchauzinho, Lipe!

Após ela tomar as fotos da minha mão, senti como se um furacão houvesse acabado de ir embora.

—Cara, ela tá tão na sua. –Brincou Edu.

—Cala a boca. Não me obrigue a lembrar da época em que você era o crush dela.

—Já falei, ninguém resiste ao meu charme. –Pude sentir seu falso ar de superioridade. –Além disso, eu prefiro o termo “Senpai”. E não brigue comigo desse jeito!

—Ah, me desculpa. –Para mim, brigar era algo tão natural e imperceptível que eu nem percebia. Pensei um pouco no que Isa havia nos mostrado e acabei entrando na brincadeira. –Eu sou de Áries.