Desculpa, sou de Áries
10 Duendes azuis?
Notas iniciais
Edu teve a brilhante ideia, que foi prontamente aprovada por Gui, de irmos para uma festa que estava bombando na região.
—Eu já ouvi falar sobre esse evento. –Sabrina, mesmo depois de ter acabado de voltar de viagem, era mais informada do que eu. –Alguns conhecidos foram presos lá.
—Parece divertido! –Edu estava pronto para uma nova aventura.
—Eu só quero um tempinho para aliviar o estresse. –Esclareci.
—Da última vez que fizemos isso, você acabou voltando para casa ainda mais estressado depois de se meter em uma briga feia. –Disse Eduardo, mas logo fez uma observação. –Mas, espere um pouco... Você fez isso em todas às vezes.
—Não precisa mencionar detalhes que ninguém quer ouvir.
—Vai chorar?
—Parem com isso, vocês dois. –Sabrina colocou ordem na casa quando me impediu de dar um tapa na nuca de Edu. –Tenho certeza que vai ser divertido. Precisamos aproveitar enquanto o ano não acaba.
Eu gostaria que mais pessoas participassem das festas, mas nem todos os meus amigos curtiam uma noitada. Beto e Isa, por exemplo, ficariam em casa assistindo seriados e lendo livros, respectivamente. Aline, como sempre, estaria montando planos para enriquecer no futuro e Julia... Bem, talvez fosse melhor não chama-la por enquanto. Felizmente, eu poderia contar com a presença de Gui (obviamente) e Luíza.
—Se ele se meter em alguma briga dessa vez, — Ameaçou Sabrina. –Vai voltar pra casa com uma coleira no pescoço.
Engoli em seco e Edu deu risada.
—Cara... Vocês são o casal do ano.
♈♈♈
A noite do fim de semana chegou, e com ela a tão esperada festa.
Vesti minha melhor roupa, ou seja, a que não estava amassada, suja ou fedida e fui buscar Bina em sua casa, para que pudéssemos encontrar Edu no local marcado.
Quando o encontramos na frente de sua casa, ele tentava mandar mensagens para Aline com o intuito de convencê-la a ir, mas apenas recebia vácuos ou respostas frias.
Pegamos um ônibus e nos sentamos no fundo, cantando músicas engraçadas e famosas. De vez em quando, era possível notar os olhares furiosos do motorista direcionados a nós, enquanto gargalhávamos freneticamente. Havia pouquíssimas pessoas no automóvel; sorte a nossa, pois poderíamos ter levado alguns cascudos caso estivesse lotado.
Após muita cantoria, risadas e ofensas mentais do motorista que tentava nos derrubar em todas as curvas e freios, finalmente chegamos. A festa estava localizada em uma enorme chácara cheia de gente, com direito a piscina e música alta. Lá, encontramos Gui e Luíza, que logo saíram para caçar bebidas com Edu e sumiram no meio da multidão.
Após alguns drinques, Sabrina e eu decidimos andar na borda da piscina, conversando enquanto seus dedos se entrelaçavam nos meus. Ela usava um elegante salto preto que lhe dava um toque a mais de poder, mas era possível notar o quanto incomodava seus pés.
—Quer saber? Não nasci pra isso. –Os efeitos do álcool surgiam em sua voz. Ela ficou descalça e chutou seu par de saltos para o lado.
Apreciando a ideia e, um tanto fora de minha sobriedade natural, peguei os sapatos e os arremessei em direção à piscina, onde algumas pessoas gritaram enquanto eu e Bina riamos.
Tudo estava bem, até que vi Jaqueline Fiorela, a sucuri-amarela me observando ao lado de Leo, que tirava algumas fotos dele mesmo aproveitando o cenário da piscina e provavelmente logo iria colocar uma roupa de banho para exibir seu corpo atlético irritante. Dani, que havia feito sete novos amigos em apenas cinco minutos, também estava lá.
Eu sei que geralmente exagero no quanto Jaque é uma pessoa horrível pelos probleminhas que tivemos no passado, mas dessa vez até eu admito que preciso falar a sério.
Ela parecia péssima. Não se importava muito com suas roupas, maquiagem –que estava gravemente borrada – ou qualquer outras coisa. Era possível notar que Leo tentava ajudar sua amiga o máximo que podia, entretanto, ela não ligava para mais ninguém. Virava garrafas de bebida na boca como uma condenada e parecia estar sob efeito de algumas substâncias um tanto suspeitas. Quando me viu, Jaqueline Fiorela, a baiacu-panela correu em minha direção, mas não foi uma cena muito bonita de se ver.
Como se estivesse possuída por alguma espécie de espírito vingativo e insano, ela dizia coisas do tipo “Agora você me paga”, “Eu vou me vingar nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida”, “Uau, esse Felipe fica mais bonito a cada dia que passa”. Ok, talvez eu tenha inventado essa última parte. Mas o resto foi real.
Voltando ao foco, Jaque ergueu os braços preparada para me empurrar, mas ela provavelmente não sabia que não estava conseguindo nem ficar de pé descentemente. Quando Jaqueline Fiorela, a Zé ruela chegou, foi necessário apenas um pequeno desvio para que ela caísse diretamente na piscina, gritando. As pessoas ao nosso redor interpretaram tudo como uma grande brincadeira e também pularam na água, gritando animadamente. Eu pagaria para assistir essa obra de arte novamente.
Deixando o escândalo de lado e Ignorando as peripécias de Jaqueline Fiorela, a cara de muçarela, ficamos de olho em Edu.
O bêbado alegre conversava e zoava com todo mundo, dando um verdadeiro espetáculo. Até que, certa hora, percebemos que ele havia se sentado e estava encostado a parede. Parecia bem mais calmo que o normal e decidi checar.
Ele estava com os olhos vermelhos e parecia desconectado desse mundo. Se eu não estivesse ocupado demais rindo horrores de sua situação ao lado de Bina, teria filmado e distribuído em forma de DVD para todos da nossa escola. Falava coisas sem sentido sobre um mar de cogumelos dançantes e algumas criaturinhas como gnomos e duendes azuis que ficavam brincando de se esconder ao nosso redor. Estava sorridente.
—Não acredito que ele está drogado. –Riu Sabrina. –Vou matar a pessoa que ofereceu isso. Nós meio que somos os responsáveis por ele hoje, se os pais dele perceberem estamos fodidos.
—Ele vai ficar bem. Não vai, Duduzão? –Chacoalhei seu queixo e ele continuou sorrindo e falando coisas engraçadas.
—Esse menino não tem jeito.
—Ele ficou pulando e dançando o tempo inteiro. Vem, vamos sair daqui antes que ele vomite.
Puxei a garota descalça de volta para a borda da piscina e uma música conhecida começou a tocar. De repente, fomos arrastados para o meio de um grupo de pessoas que cantava a pulava freneticamente. Posso garantir que aquele foi um dos momentos mais divertidos, onde todos haviam se esquecido de seus problemas e queriam apenas aproveitar o ritmo contagiante e a companhia dos outros. Bina também parecia muito feliz e não parava de sorrir, o que me fez apreciar cada segundo daquela noite.
E quando menos esperei, lá estava a multidão de loucos correndo em direção a piscina. Sem muito o que fazer, eu e Sabrina acabamos mergulhando na água junto com eles. Nunca desejei tanto também ter ficado descalço. Como já estávamos encharcados, decidimos aproveitar um pouco e até brincamos de jogar água um no outro, mas logo saímos. As roupas pesavam no corpo e meu tênis estava em estado de calamidade.
Uma das organizadoras da festa disse que poderíamos ir até um dos quartos da casa ao lado da chácara (que por sinal, era enorme!), onde havia toalhas extras. Sem pensar duas vezes, fomos até o local, onde tivemos uma pequena dificuldade em subir as escadas. Ok, tudo bem. Acho tivemos uma grande e considerável dificuldade em subir as escadas, mas isso é apenas um mero detalhe.
Eu queria dizer que fomos comportados e nos trocamos normalmente, sem nenhuma forma de interrupção ou distrações, contudo, ainda tenho meus princípios e não posso mentir descaradamente desse jeito.
Depois da dificuldade típica para subir os degraus, objetivo concluído: Chegamos até os quartos do segundo andar e, bem... Talvez eu deva pular essa parte ou tenho a leve impressão de que uma certa garota de cabelo vermelho irá me esganar até a morte caso tenha acesso a essas palavras algum dia.
Quebra de tempo, por favor.
♈♈♈
Alguns dias se passaram e eu, dessa vez realmente menos estressado, decidi ir buscar Sabrina em casa para irmos à escola juntos. Ela não estava muito bem ultimamente e imaginei que fosse por motivos familiares, como as brigas que seus pais tinham de vez em quando ou até mesmo por causa do trabalho. Se fosse por esse último, eu entenderia perfeitamente e a convenceria a procurar um emprego melhor e, de preferência, nada do ramo alimentício. Aquele restaurante não me trazia boas lembranças, mas ela insistia que eu estava sendo exagerado.
Beto e Isa enchiam nosso grupo online de mensagens, apedrejando, reclamando muito e, principalmente, zombando de Edu pelos seus atos daquela noite. Era mais do que óbvio que eu não iria ficar quieto sobre isso e fiz questão de me vingar por todas as vezes que ele tirou sarro da minha nobre pessoa.
Como Bina estava demorando mais que o normal, decidi entrar para busca-la ou até mesmo acordá-la se fosse necessário. Essa era, finalmente, a última semana de aula e ela não podia se dar ao luxo de faltar. Bati três vezes na porta de entrada, mas ninguém me recebeu. Seus pais já estavam trabalhando e conclui que talvez ela realmente estivesse dormindo.
—Bina? –Entrei em seu quarto silencioso, onde a encontrei sentada na beirada de sua cama, cabisbaixa e segurando algo em suas mãos que não consegui identificar por causa do ambiente escuro. –Você está bem? Precisamos ir para a escola.
—Lipe... –Ela falou em tom baixo, ainda olhando para o chão.
Eu sinceramente não estava entendendo a situação, até que ela tomou coragem e olhou diretamente para os meus olhos.
—Eu estou grávida.
Tudo o que posso dizer é que, ao invés do lugar se iluminar e encher de arco-íris e pôneis coloridos e saltitantes jogando confete, tudo escureceu. Desmaiei e caí no chão de seu quarto.
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