Desculpa, sou de Áries
11 De queixo erguido
Notas iniciais
Passei tão mal com a notícia inesperada de Sabrina, que parecia que era eu quem estava grávido, e não ela.
Embora tenha sido muito difícil assimilar tudo o que estava acontecendo, fiquei feliz. Pensei em como seria gratificante ter minha própria garotinha ou garotinho correndo pela casa, aprontando e sorrindo pelas coisas mais simples. Não consegui conter a emoção.
Descobri que um dos maiores sonhos de Bina era ser mãe. Desde pequena imaginava como seria seu futuro cuidando de um ou mais bebês, cuidando de suas bonecas como se fossem crianças de verdade. Por mais que a situação fosse difícil para nós dois, decidimos que seguiríamos adiante com a gravidez, tomando todo o cuidado necessário para que nosso filho crescesse saudável com a melhor família do mundo.
Bem, talvez não tenha sido tão fácil contar para nossos pais. Fizemos suspense durante um tempo, até não aguentarmos mais e foi quando resolvemos anunciar a verdade de uma vez por todas.
No começo, todos pensaram se tratar de uma brincadeira ou uma pegadinha de 1º de abril atrasada. Conforme fui explicando, era possível notar em minha expressão o quão sério eu estava e logo todos foram tentando assimilar as informações e o clima ficou pesado. Até Edgar Allan Poe ficou em silêncio, como se soubesse o que estava acontecendo. Eu não duvido que aquela criatura das trevas saiba das coisas que acontecem na casa.
Se eu ouvi xingamentos e lições de moral? Rapaz... Estou ouvindo até hoje. Mas o que importa é que no final recebi o apoio de todos, o que me deixou motivado e disposto a trabalhar ainda mais. Meus pais disseram que contribuiriam financeiramente nas despesas e que Sabrina poderia morar com a gente, se ela quisesse. Nanda me abraçou e ficou super feliz pela notícia de que iria ser titia, mas isso não me convenceu a retirar seu apelido de “peste”.
Com os pais de Bina a conversa foi um pouco diferente. Eles colocavam muita pressão pelo fato de que a garota iria carregar a criança por nove meses e as possíveis complicações que poderia ter nesse tempo, além do trabalho que o bebê iria dar após o nascimento e o “atraso” que ele causaria em sua vida. Entretanto, não fiquei com nem um pingo de medo de encará-los frente a frente e disse que sua filha não estava sozinha e nunca iria ficar. Após muita discussão, eles finalmente se acostumaram com a ideia de serem avós e sabiam como isso iria alegrar a vida da futura mamãe.
Nossos amigos foram à loucura. Todos fizeram um escândalo (seja por redes sociais ou ao vivo) e não paravam de cantar musicas infantis, instruídos por Edu, que não perdia uma só piada relacionada à família e me chamava de paizão. Dani não perdeu tempo e anunciou para a escola toda, que não sabia como reagir. Alguns professores, coordenadores e até alunos vieram nos parabenizar e dar conselhos.
Os próximos dias foram de pura idealização. Bina e eu ficávamos sonhando com as roupinhas que o bebê iria usar, seus sapatinhos, brinquedos, mamadeiras, fraldas e tudo o que ele tinha direito. Inclusive, visitamos várias lojas de roupas e acessórios.
Eu realmente estava animado. Que nome poderíamos dar à criança? Felipe Júnior era uma ótima opção, embora eu preferisse Chuck Norris, João Cleber ou Batman. Se fosse menina, minhas principais opções sempre foram Joelma, Hermione e Megan Fox. Decisão difícil... Pensei em fazer um sorteio.
♈♈♈
As aulas já haviam acabado e todos comemoraram com uma festa entre os alunos, onde alguns já se adiantaram e levaram presentes para o bebê. Sabrina estava muito feliz e comia feito um urso, quando não vomitava.
Estava tudo maravilhosamente bem (exceto pelas despesas com fraldas, noites sem dormir, cheiro constante de cocô e preocupação 24h por dia, que já estávamos nos preparando psicologicamente para encarar) até que eu me preocupei com Sabrina.
Ela não havia mandado nenhuma mensagem enquanto eu estava no trabalho e sequer aparecera online naquele dia. Tentei ligar diversas vezes, mas sem sucesso.
Quando saí do serviço, corri imediatamente para sua casa, onde seus pais me receberam com olhares tristes e consoladores.
Não entendi o que estava acontecendo, mas era inquestionável que nada de bom poderia se suceder dali. Passei rapidamente pela porta, onde o casal permaneceu, e corri a procura de Sabrina, que estava em seu banheiro, sentada e encolhida no chão. Abracei a garota e pedi para que me contasse o que estava acontecendo; Eu não aguentava mais esperar.
—O bebê. –Disse ela, quase sem voz. –Eu o perdi.
♈♈♈
Aborto espontâneo. Essas duas palavras resumiram o período mais merda e complicado de toda a minha vida.
Os pais de Sabrina explicaram que aquilo havia acontecido durante a madrugada e eles logo levaram-na ao médico, onde a garota realizou vários exames e ele alegou que as chances de Bina ter abortos naturais, mesmo quando ficasse mais velha, eram extremamente altas e ele não aconselhava uma nova tentativa de gravidez. Cara... Aquilo acabou com ela. Sabrina não queria saber de mais nada ou ninguém. Entretanto, ela não foi a única que sofreu pelos danos da notícia.
Eu já não perseguia Nanda com ursinhos de pelúcia encardidos. Não virava a casa de cabeça para baixo tentando dar banho em Júlio Verne. Não xingava Edgar Allan Poe por repetir as mesmas palavras o dia inteiro. E o pior de tudo: Não me alegrava ao ver Sabrina e seus cabelos vermelhos, sabendo que aquilo que a mais fazia feliz havia partido.
Recebi todo o apoio possível de meus amigos e família, mesmo não ligando muito para eles nessa época. Só depois consegui enxergar o quão importante foi tê-los perto de mim.
Meus pais tentavam me fazer entender que a dor iria embora com o tempo e aquela era apenas uma fase difícil. Diziam que eu deveria contornar a situação. Eles me lembraram de que o teste para exército estava se aproximando e eu deveria me preparar como nunca, pois essa era a minha oportunidade para o tão esperado sonho de me tornar um verdadeiro militar.
Enquanto eles falavam sobre esse assunto, eu nem mesmo conseguia me lembrar do que se tratava a palavra “sonho”. Toda essa coisa de família que surgira com Sabrina havia aparecido e sumido em uma velocidade tão rápida que era como se um tornado houvesse passado por mim, deixando apenas os escombros que não tinham estrutura alguma para se reerguerem sozinhos.
Era simplesmente impossível ver Sabrina daquele jeito e embora eu passasse a maior parte do tempo ao seu lado, em silêncio, eu sentia que estava sendo torturado. Não conseguia voltar para casa e acabava indo quase toda noite para festas como aquela da chácara, mas não para me divertir e sim, para esquecer e enfrentar tudo aquilo na base do álcool.
Em uma dessas festas, encontrei Jaqueline enquanto ainda estávamos praticamente sóbrios, o que era bem raro. Não tive ânimo para piadinhas desta vez e pude perceber que ela estava completamente arrasada, assim como eu. Por um momento, esqueci toda a nossa rivalidade e me sentei ao seu lado.
Embora nossas situações fossem completamente diferentes, eu entendi o quão grave era mexer com alguém que teve seu coração partido e seu sonho transformado no pior dos pesadelos e como o mundo poderia ser malvado.
—Você não deveria estar aqui. –Disse ela.
—Nem você. –Respondi.
Ficamos em silêncio. Pensei em tudo e todos que passaram por minha vida e parei para observar o local. Agora eu não enxergava aqueles que estavam se divertindo, mas sim, os outros. Aqueles que estavam lá apenas por um minuto fora de si.
Nesse momento, olhei para o meu eu interior. Logo após, observei Jaque. Aquilo estava acabando conosco. E eu sabia que não podia deixar algo assim acontecer.
Não. De maneira alguma eu, Felipe, iria me transformar em um maldito covarde que deixa se abater tão fácil assim. Afinal, eu sou de Áries e esse signo não abaixa a cabeça.
—Isso está errado. –Eu disse.
—Do que você está falando?
—Nós não somos assim. Não nascemos para viver desse jeito. Estamos agindo como perdedores.
—É o que eu sou. Espero que ninguém veja como estou agora.
—Exatamente. –Coloquei as mãos em seus ombros, encarando-a. – O que estamos fazendo? Isso é ridículo. Eu pensei que pudesse esquecer e deixar pra lá até tudo voltar ao normal, mas nunca volta. Esse não é quem eu sou e não é quem eu quero ser. Não quero passar o resto da minha vida desse jeito e eu te conheço muito bem para afirmar que você é uma das pessoas mais determinadas que conheço. Um término de namoro? Qual é, eu sei o quão forte você pode ser e confesso que não chego nem na metade disso.
Ela ouvia atentamente, até que vi sua expressão mudar. Ela estava brava, porém, muito triste ao mesmo tempo, pois sabia que eu estava certo.
—Eu quero parar. –Confessou. –Quero muito. Mas não consigo.
—Você já tentou procurar ajuda? –Perguntei. –Seus pais, amigos, conhecidos... Todos estão preocupados com você. –Falando isso, eu acabei percebendo que essa frase também tinha efeito sobre mim.
Eu sabia que Jaque era reservada e raramente conversava com sua família, o que a prejudicava inconscientemente. No fundo, ela já havia superado nosso término de namoro, mas não conseguiu deixar o vício em álcool para trás.
—Eles só vão ver como sou fraca.
—A Jaqueline Fiorela que eu conheço não é fraca. Ela é forte, possessiva e louca.
—Isso me soa familiar. –Sorriu de leve, o que fez eu me sentir imensamente bem, embora eu também tenha sentido a indireta.
—Sabe... Essa cidade precisa que os seus vilões voltem à ativa. Precisamos de alguém socando a cara de todo mundo e também de alguém fazendo inveja e botando medo nessas patricinhas exibidas.
Meu celular fez um barulho e chequei as novas mensagens do grupo. Nelas, estava escrito que eu deveria manter meu queixo erguido, seguir em frente e olhar para o lado. Não entendi muito bem as duas últimas, que haviam sido enviadas no mesmo contexto, mas sabia que eu era o único que poderia moldar o meu futuro, pois nenhum outro idiota iria fazer isso por mim. Me levantei.
—Você é inexplicável, Felipe. –Jaque ainda estava mal, mas nesse exato momento eu pude ver em seu olhar que, assim como eu, ela estava disposta a dar a volta por cima.
Por incrível que pareça, eu estava me sentindo bem. Nunca consegui convencer minha própria cabeça, mas consigo fazê-lo quando me espelho em outros. Talvez pela grande tendência a procurar por brigas e discussões, eu não goste de ver pessoas com grande potencial em uma situação tão má, afinal, é impossível brigar se a outra não estiver disposta. Jaqueline e eu nos odiamos e possuímos razoável desejo de assassinar um ao outro, o que não é possível desde que os dois estejam fortes o bastante para isso.
Eu sabia que já estava mais do que na hora de correr atrás dos meus sonhos, que no momento era apenas ver Sabrina feliz e viver ao seu lado e tive uma ideia um tanto inusitada.
—Já está na hora de se alistar para o exército. E, além disso, os vestibulares ainda não acabaram. –Apesar de inimigos, Jaqueline Fiorela ainda me conhecia muito bem e podia dar uma trégua de vez em quando. Ela sabia de todos os meus planos e me ajudou bastante na época de inscrição. –Você deveria se preparar para os exames e conseguir uma vaga ano que vem.
—Na verdade, — Corrigi. –Eu tenho algo mais importante para fazer.
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