Desculpa, sou de Áries
1 A União faz açúcar
Notas iniciais
Boa leitura, pessoas ♥
Você não tem ideia do que é acordar com o berro da sua irmã mais nova em pleno sábado de manhã. Não com a minha, pelo menos.
—Mãe! Mãeee! –A cada grito, ela conseguia superar seus limites de irritação e chatice. –Ô Manhê! Quando o almoço vai ficar pronto?!
Agora eu pude entender perfeitamente o porquê de a Dona Amélia (também conhecida como “Mãe, tô com fome” e “Mãe, me dá dinheiro?”) ligar o som bem alto enquanto preparava as refeições. Ah, esse é mais um detalhe importante: O maldito rádio estava tocando, pela milionésima quinta vez, o hit do momento. Alguma música que todos fingem gostar e cantam até irritarem o máximo de pessoas possível. Sério, quem ouve isso em plena manhã de sábado?
Os sons entravam por um ouvido, escavavam meu cérebro, e saíam pelo outro, repetindo o processo centenas de vezes. Quase me sufoquei com o travesseiro na tentativa de parar, mas não funcionou. A irritação subia cada vez mais, até invadir completamente meus neurônios. Eu tentei ficar calmo; Eu juro que tentei. Mas, infelizmente, paciência não é a minha melhor qualidade.
Levantei e corri, com o sangue nos olhos, até o quarto da minha irmã. Estava preparado para gritar tudo o que estava guardado no peito.
—Fer-nan-da! Eu não acredito que você está gritando do seu quarto por pura preguiça de ir até a cozinha!
Abri a porta violentamente até que batesse na parede, sem me preocupar se a mesma iria quebrar ou não, fazendo a garota pular de susto. Precisei me apoiar para não perder o equilíbrio; Não deveria ter me levantado da cama tão rapidamente. Eu preferia, sem sombra de dúvidas, estar dormindo e sonhando com vários quilômetros de fita isolante sendo colados na boca daquela pestinha.
Peguei o objeto mais próximo (um ursinho de pelúcia cor de rosa com detalhes em roxo) e joguei na peste em forma humana que estava deitada em sua cama, checando as redes sociais pelo celular.
Em contra ataque, ela saiu correndo e gritando em direção a cozinha. Eu, como um rapaz maduro e responsável que havia oficialmente alcançado a idade adulta, tinha em mente que minhas ações deveriam prezar o bom entendimento entre irmãos e união da família com base no amor e harmonia. Decidi então, tomar a atitude que qualquer adulto e irmão exemplar tomaria diante de uma situação conflituosa como essa: Obviamente, não perdi tempo e saí correndo atrás dela com outro bichinho de pelúcia encardido: um coelho amarelo.
-Mãe! –Gritava ela. –O Lipe tá me assustando de novo! Ele não me deixa em paz.
—O que?! –Dona Amélia tentava gritar mais alto que a música. Não dava muita atenção à nossa briga, já que cantarolar a letra parecia mais importante.
—O Lipe! Felipe. Meu irmão!
—O que?! –Insistia ela. –Feijão?! Não, tá caro. Mas fiz uma salada que você vai adorar!
Todos sabem muito bem que Nanda-pestinha não come salada. Mas é motivador ver mamãe não desistir nunca de sua filha, mesmo ao descobrir que todo o dinheiro que ela ganha é gasto com chocolates e outras porcarias.
—Não importa, — Gritei, de uma vez por todas. –Desliga esse rádio!
—Estádio?
—O rádio! –Fernanda e eu gritamos juntos. Pelo menos, em momentos como esse, é possível acreditar que somos irmãos.
Dona Amélia ficou em silêncio por alguns segundos, tentando ler nossas mentes. Depois arriscou:
—Quem é mercenário?
Com a paciência esgotada, arranquei a tomada do treco velho e teria jogado aquela máquina inútil pra longe, se elas não impedissem.
—A droga do rádio. –Esclareci, por fim.
Enquanto voltava para meu quarto, largando o coelhinho no chão, as duas se entreolhavam, até que mamãe quebrou o silêncio:
—O almoço está pronto.
—Tanto faz, vou voltar a dormir. –Eu esperava que coçar os olhos ajudasse, pelo menos um pouco, a recuperar o sono interrompido. Os machucados pela briga em que me meti no dia anterior ainda incomodavam, mas isso já era rotina.
—Não vai não!
Quando tirei as mãos do rosto, a pestinha estava bem a minha frente. Poderia ter levado um susto.
—O que você quer, hein? Já vou avisando que seu urso fedido vai ficar no chão.
—Você não se lembra de que prometeu me levar no aniversário hoje?
—Aham; senta lá, Claudia. –Ironizei.
—Lipe, chega de brincadeiras! Estou falando sério.
—... Preciso mesmo?
—Lipe, — Disse caridosamente minha mãe. –Faça esse favor pra sua irmã. Você sabe que a festa fica perto de um bairro perigoso e eu não quero minha filha, com apenas doze anos, em um lugar como aquele.
Minha vontade era de negar com todas as forças, mas encarei os brilhantes e comoventes olhos da irmãzinha e decidi quebrar o galho. Só dessa vez. Não custava nada fazer um favor a mais ou a menos para ela, afinal, se tudo desse certo, eu não estaria em casa nos próximos anos.
—Ok, tudo bem... Mas não se acostume.
De repente, fui agarrado pela peste. Tarde demais, eu estava preso em um abraço mortal e não tinha como escapar. Um passo em falso e a morte seria imediata. Nunca podemos confiar em pré-adolescentes, principalmente quando moram sob o mesmo teto que você.
—Você é o melhor irmão do mundo! –Depois do comentário obvio, ela pegou o bichinho de pelúcia e foi para o quarto.
—É, tanto faz. –Segui para o meu.
Ah, com toda essa algazarra não tive tempo de me apresentar. Típico. Meu nome é Felipe da Silva, mas todos me chamam de Lipe. Caso isso importe, tenho cabelos castanhos e olhos verdes, que de vez em quando parecem azuis e por isso digo que eles são um pouco bipolares. Minha cor favorita é vermelho, geralmente uso roupas desse tom. Gosto de competições, esportes e me machuco tanto que não sei como minha pele aguenta. Tenho 18 anos e acabei repetindo de ano por ter entrado em mais brigas do que deveria, o que acabou atrapalhando meu desempenho escolar. Mudei de escola e agora estou terminando o ensino médio.
Moro com uma mãe que não desgruda de seu rádio, um pai que passa a maior parte do tempo fora de casa, em projetos sociais para “melhorar o mundo” e uma peste que encontramos no lixo e decidimos adotar como irmã. Há quem diga que somos parecidos! E não posso me esquecer dos membros mais importantes da família: Júlio Verne, o cãozinho mais legal da cidade e Edgar Allan Poe, o papagaio tagarela. Digamos que meus pais apreciem literatura (Alberto Caeiro, o peixe, faleceu no último mês).
Meu objetivo de vida é terminar o ensino médio e me alistar para o exército. Daqui algum tempo estarei contribuindo para o meu país, ao lado de vários outros soldados e... Droga, Edu e Isa encheram meu celular de mensagens, como de costume.
Do conforto da minha cama, pude ouvir novos gritos. Eles vinham de um quarto próximo e tinham o tom irritante de pré-adolescente.
—Mãe! Manhê! Ô mãe! O que tem de sobremesa?
Eu tentei ficar calmo. Eu juro que tentei.
Notas finais
O que acharam? Legalzinho? Ruim? Ou meio tipo pombo?
Sou leonina, mas não mordo. Me ajudem a melhorar, a opinião de vocês é muito importante ^^
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