Desculpa, sou de Áries

2 Embalos de sábado à tarde


É difícil conviver com pessoas quando se tem fama de “esquentadinho”.

Saí de casa procurando respirar um pouco de ar fresco, embora o dia estivesse bem ensolarado e quente. Senti um alívio por finalmente ter me livrado do estresse causado por minha irmãzinha logo de manhã.

Chequei as mensagens que estavam quase travando meu celular e não me surpreendi por não ser nada importante, como já era o esperado. Noite passada, Edu não parou de enviar fotos engraçadas e Isa tentava impedi-lo, brigando e xingando horrores a cada foto, o que não funcionava muito bem, já que ele continuou enviando-as durante toda a madrugada. Até ousou mandar alguns vídeos contando piadas, porém, decidiu desistir da ideia assim que sua mãe apareceu em um deles (que, por um acaso, foi o último) ameaçando-lhe com um chinelo, caso ele não ficasse quieto de uma vez por todas.

Combinamos de nos encontrar no parque, já que não tínhamos nada melhor para fazer. Como de costume, Isa, com sua pontualidade impecável, já estava lá quando cheguei.

—Você viu o que aquele idiota fez? –Perguntou indignada. –Minha galeria está cheia de imagens imbecis agora. Isso é sério? –Mostrou a foto em que Edu tentava lamber seu próprio cotovelo, um claro exemplo de como eram todas as outras.

—Olá para você também. –Ironizei. –Não seja tão chata, ele só estava querendo sair do tédio.

—Já podem parar de fingir que estão bravos comigo. –Edu surgiu próximo a nós. Tinha o hábito de sair correndo assim que visse um conhecido, para chegar mais rápido até a pessoa, de modo que muitas vezes não notamos que ele estava vindo. -Eu só fiz o imenso favor de deixar a galeria de vocês mais divertida.

—Diga por você. –Protestou a garota.

No meio da confusão típica entre os dois, permita-me apresenta-los. Isa e Edu são meus dois melhores amigos, além de Beto. Nos conhecemos há alguns anos e estudamos todos na mesma classe.

Com seus cabelos castanhos encaracolados, Edu é aquele tipo de amigo otimista e que sempre está por perto para descontrair e animar, além de se adaptar a qualquer situação e ser apaixonado por esportes, viagens e qualquer projeto que o deixe animado. Passa longe de toda palavra relacionada à “rotina”. É engraçado e tem um ótimo senso de humor, procurando criar um clima de alegria por onde passa, mesmo que precise irritar algumas pessoas de vez em quando para isso.

Por falar em irritar pessoas, sua principal vítima é Isa, que se irrita facilmente por qualquer motivo, principalmente devido á suas manias perfeccionistas e organizadas. Sempre mantem presa uma mecha de seus curtos cabelos ruivos e lisos com uma presilha prateada em formato de flor, sua preferida. Tem um grande senso crítico e tenta ser saudável e fitness (nota-se que eu não utilizei a palavra “tenta” à toa, já que nem sempre da certo). Ela da o melhor de si em tudo o que faz e é aquele tipo de aluna que os professores elogiam pelo capricho e dedicação.

Ah, o Beto está chegando! Sua demora sempre é compensada, pois ele traz um violão com o qual podemos nos entreter por tardes inteiras. Ele é o único que de fato sabe tocar, portanto, é o que mais passa tempo com o instrumento. Costumamos sentar-nos na grama e eu arrisco alguns acordes de vez em quando, mas nada muito espetacular. Isa costuma apreciar o som deitada, organizando folhas em uma espécie de tabela de cores, enquanto Edu inventa letras sem sentido para acompanhar a música.

Beto é o mais novo do grupo por apenas alguns meses. Ele usa óculos grandes e pretos, da mesma cor que seu cabelo ondulado que faz questão de pentear com uma franja para o lado direito. Costumamos dizer que ele irá se tornar um “emo” caso não corte logo. Ele é um cara sonhador e distraído, que não sabe o que quer da vida. É, de longe, uma das pessoas mais humildes que conheço (se houvesse alguma espécie de “Prêmio Nobel da Humildade”, eu o entregaria a ele). Se dá muito bem com arte e vive no mundo da lua.

—Gente... Alguém viu meus óculos? –Disse ele. Por causa de sua distração, essa era uma pergunta frequente. – Ninguém sai!

—Eles estão em cima da sua cabeça, Beto. –Falei.

—Ah. –Corou. –Obrigado.

Como praticamente crescemos juntos, eu conheço muito bem cada um deles, assim como acredito que eles me conheçam. Por exemplo: Sei que Isa gosta de espremer espinhas dos outros, Edu rói as unhas dos pés e Beto tem uma caixa de lenços de papel para secar as lágrimas enquanto assiste tragédias românticas comendo chocolate.

—Ficou sabendo? –Isa parecia ter uma novidade do meu interesse. –Jaqueline Fiorela em pessoa está de volta. Parece renovada e determinada a virar a escola de cabeça para baixo ao lado de seus capangas.

Revirei os olhos, sem paciência. Agora que meu humor finalmente estava voltando ao normal, tive que me lembrar da Miss Perfeição Suprema Do Colégio.

Ok, vou contar brevemente o que aconteceu. Senhorita Jaqueline Fiorela Suprema Sousa era da minha turma. Acredito que eu seja louco por isso, mas algo naquele jeitinho de quem manda na porra toda com um toque de falso carisma, charme e mistério me conquistou. Nós mantivemos um relacionamento durante alguns meses, em que, sinceramente, não sei como conseguimos não matar um ao outro. Muitas vezes tive uma vontade absurda de trancá-la em um quarto e pegar o voo mais próximo para a Austrália, apenas para não ouvir seus discursos de “O Porquê eu devo estar sob o controle da situação”. Em contrapartida, sinto que ela estava prestes a jogar um palito de fósforo aceso em mim, após um bom banho de gasolina. Em uma dessas discussões pacíficas, ela doou minha camiseta favorita para um mendigo e a ignorei por uma semana inteira. Para chamar minha atenção, ela fingiu que estava grávida e por pouco não tive um ataque do coração. Em contra ataque, deixei uma criança se divertir com seu kit de maquiagem favorito e para vingar-se, ela quebrou meu Ps3. Em dias tristes, ainda choro no local em que o enterrei em meu quintal, relembrando os velhos e bons tempos.

Apesar de bons momentos como esse, decidi que o melhor era não ficarmos juntos por motivos como: ciúme possessivo, críticas excessivas e pelo fato de a garota ser mais grudenta que chiclete em sola de sapato. Quando – finalmente – terminei com ela, as emoções de Jaque foram divididas em três fases: Depressão Total, Raiva Extrema e Depressão Total parte dois, onde ela ficou certo tempo sem ir à escola, recebendo o apoio de seus amigos e daqueles que apenas queriam saber o que estava acontecendo e divulgar para a cidade inteira. O que importa é que Jaqueline não tolera esse tipo de tratamento e, agora que já se recuperou, está disposta a dar início à Terceira Guerra Mundial. Vingativa do jeito que é, ela não deixa barato de jeito nenhum. E eu sabia disso.

Poderia ficar lembrando-me de cada detalhe, porém, o tempo passa incrivelmente rápido aos sábados.

—Droga, já preciso voltar para casa. –Levantei-me do gramado. –Prometi que levaria minha irmã para uma festa de aniversário.

—Uma festa de aniversário? –Perguntou Isa. –Também quero ir.

—Quero estourar o bexigão! Essa é a parte mais legal.

—Não acabe com a festa, Edu! –Exclamou o garoto de óculos. –Você nem foi convidado.

—Na verdade, — Corrigi. –Nem eu fui convidado.

—Não seja por isso! –Apressou-se Edu. –Onde fica?

—Na rua principal, perto daquela igreja velha.

—Espere aí, você não está pensando em ir mesmo, não é Edu? –Isa precisava tirar sua dúvida.

—Claro que não... Só estava testando se o Felipe Smith realmente sabia o endereço, oras.

Piadinhas a parte, despedi-me brevemente e voltei para casa, na expectativa de que Nanda já estivesse arrumada para que pudéssemos partir imediatamente. Mas é claro que, as coisas nunca saíam do jeito que eu queria.

Depois de esperar um longo tempo pela minha irmã (que havia trocado de roupa no mínimo três vezes), finalmente saímos de casa.