Todos apenas falavam sobre aquela prova estúpida do Enem durante o resto daquele mês. Esse era o único assunto na nossa rodinha, o que já estava me irritando profundamente.

Era aula vaga e a sala havia se tornando um verdadeiro auditório para discussões, reclamações e xingamentos sobre o Exame Nacional Do Ensino Médio.

—Foi empolgante. — Contava Edu. – Bem louco. Todos pensaram que eu estava com uma garrafa de água no segundo dia, mas na verdade era só as minhas lágrimas.

—Seria cômico, se não fosse trágico. –Isa lixava suas unhas para que ficassem do mesmo tamanho. –Eu odiei a prova. Sinto que poderia ter feito melhor.

—Nem tudo foi tão mal assim. –Luíza, a garota de cabelo azul, participava da conversa. –A redação, por exemplo, foi incrível. Adoro dissertar sobre assuntos polêmicos.

—Em grande parte da prova eu fiquei com dúvida entre duas alternativas e assinalei a errada. –Gui estava ao lado de Luíza como se nada houvesse ocorrido entre eles. Ela também parecia não se importar.

—Não pareciam tão difíceis assim. — Dani brotou do nada. Sua capacidade de participar de todas as panelinhas da sala de aula era incrível. — Eu soube logo de cara a resposta de várias delas e usei bastante o método de eliminação, aquele em que a gente vê quais respostas tem menos chance de ser a certa e já descarta, deixando as mais prováveis por último. Estou feliz, tenho certeza de que me saí muito bem.

—Chutei a maioria. -Confessou Beto. –Precisei esperar um tempo para sair da sala com o caderno de questões e, enquanto isso decorei ele com vários desenhos.

—Pensando bem. –Outra característica bem marcante de Dani era sua mudança constante de opinião. Costumo dizer que, ao invés de bipolar, ela é tripolar. –Algumas questões estavam realmente complicadas. Quase todas, na verdade. Estou triste. Alguém sabe de um cursinho que tenha um preso acessível?

—Por falar em preço acessível, não acredito que gastei tanto com apostilas pra isso. –Aline reclamou. –Espero que a faculdade realmente dê dinheiro como dizem.

—Isso depende do curso que você escolheu. –Isa esclareceu.

—Ou você pode vender sua arte na praia. –Beto sorriu. –É sempre bom ter uma segunda opção.

Aline revirou os olhos. Menos que as pessoas estivessem dispostas a gastar seu dinheiro com retratos de boneco palito, aquela não seria uma boa ideia. Além disso, gastaria demais comprando folhas de papel.

—E você, Felipe? –Perguntou Dani, curiosa como sempre. –O que achou?

—Essa conversa tá uma porra.

Com a paciência esgotada, levantei-me e fui para qualquer outro canto da classe em que me deixassem em paz. Ao fundo, pude ouvir Edu falando que eu não era capaz de opinar sobre o assunto.

Perto de onde algumas pessoas discutiam a resposta de uma questão que eu nem ao menos havia lido, Jaqueline Fiorela, a gazela tagarela estava triste.

Não que eu goste de ver pessoas deprimidas (só de vez em quando), mas não deu para evitar. Precisei observar a situação por um tempo. Ela estava intensamente magoada por meu papel no teatro de Aline ter sido uma verdadeira obra de arte. Uma vingança má sucedida sempre foi a coisa que mais feriu os sentimentos de Jaque.

—Será que você pode me dar licença, por favor? –Leo estava com um grupinho de falsos amigos.

—Eu não estou fazendo nada demais. –Briguei. –Qual é o seu problema?

Ele levantou-se e veio até mim, impaciente. Leo me puxou para o lado e eu estava prestes a ataca-lo em resposta, mas notei que ele estava apenas mudando minha posição.

—Você está atrapalhando a luz. –Apontou para trás de mim, onde estava a janela. –Preciso dela para tirar minhas selfies. Na verdade, a claridade está ótima aqui. Venha, vamos tirar uma foto!

Apesar de sermos teoricamente inimigos, ele não fazia muita questão de guardar rancor. Bem, talvez apenas de Guilherme. Às vezes eu até sentia pena de Gui, pois Leandro poderia ser a pessoa mais amável e carinhosa desse planeta ou o seu pior inimigo, caso quisesse, mostrando quem realmente deve ficar no controle da situação.

Enquanto ele tirava mais fotos com o grupo que não tinha nada melhor para fazer, decidi sair da sala. Essa era a última aula da manhã, então estaríamos dispensados assim que o sinal batesse. Sem melhores opções, peguei minha mochila e caminhei pela escola para passar o tempo.

♈♈♈

Faltavam alguns minutos para que a “aula” acabasse e parecia que o tempo não passava de maneira alguma. Droga.

O finalzinho da manhã estava estupidamente chato e entediante, até que senti uma inesperada e dolorosa pancada na cabeça. Olhei para o chão e lá estava uma bola de futebol que acabara de me acertar, rolando calmamente no chão como se fosse inocente.

Antes que eu começasse a xingar, avistei uma pessoa vindo em minha direção. Ao invés de preocupada, parecia bem feliz. Era pessoal.

—Acho que estamos quites agora. –Disse a garota de cabelo vermelho que eu quase havia atropelado no momento da pressa e raiva no dia do Enem. Ela, sem sombra de dúvida, não fazia o tipo “bela, recatada e do lar”.

Ótimo, mais uma coisa para me lembrar dessa prova ridícula. Além disso, eu nem mesmo sabia que nós estudávamos na mesma escola até esse momento. O mundo realmente é tão pequeno quanto às chances de Aline entrar em um relacionamento sério (foi mal, Edu).

—Quites o caramba. –Retruquei. –Eu não acertei você naquele dia.

—Faltou pouco. –Disse ela apanhando a bola de futebol. Estava na aula de educação física.

—Você ainda vai me pagar por isso, não se esqueça.

—Eu anotaria, mas não tenho nenhum papel. –Ironizou.

—Talvez deva usar o seu papel de trouxa. –Revidei. –Da pra perceber só olhando pra sua cara.

—Meça suas palavras, parça! Quem você pensa que é pra falar desse jeito?

—Qual é, você me acertou na cabeça! Isso dói, caso não tenha percebido. E não precisa gritar! –Talvez tenha sido irônico, mas também gritei.

—Ninguém está gritando! –Gritou ainda mais.

—Não deveria estar na quadra?

—Não deveria estar na sala?

Confesso que precisei parar e conferir se não havia nenhum coordenador por perto. Caso me vissem fora da sala, eu arrumaria problemas.

—Você por acaso vai chamar a diretora? –Provoquei.

—Eu poderia, a diretoria é aqui do lado. –Apontou com a cabeça. –E o que você vai fazer?

Observando que ela segurava a bola de futebol embaixo do braço, não perdi a oportunidade. Bati no objeto, fazendo-o cair no chão. Antes que a ruiva pudesse pegá-lo de volta, corri como se estivesse jogando basquete.

—Tá de brincadeira, né? Me devolve!

—Pra você ir correndo falar pra diretora? Nem ferrando.

Como duas crianças, corremos pela escola inteira. Em alguns momentos, eu fingia que iria me rendar, mas apenas para driblá-la logo depois, é claro. Era muito divertido ver sua raiva crescendo a cada instante.

Depois de uma correria cheia de dribles, ficamos exaustos e fomos forçados a nos sentar no gramado, atrás de uma árvore, onde ela finalmente tomou a falsa bola de basquete das minhas mãos grosseiramente.

—Você é inacreditável. –Disse ela ofegante.

—Esse é meu nome do meio. –Eu não estava muito diferente.

—Olha a minha situação! –Suas roupas estavam encharcadas de suor, o que não tinha um cheiro muito agradável.

—Fica tranquila, estamos quase indo para casa.

—Diga por você. –A palavra “tranquila” parecia ter resultado no sentido oposto. –Eu trabalho. –Se levantou preparada para voltar para a quadra. –E você também deveria, depois do que aconteceu no Enem.

—Não me diga que você também ficou sabendo? –Falei em estado de choque.

—Escola pequena. As notícias se espalham rápido por aqui.

Se fiquei com raiva? Isso era óbvio. Contudo, ela me fizera pensar em algo: O ensino médio estava quase acabando. Minhas chances de entrar para a faculdade eram completamente nulas e as de entrar para o exército eram incertas. Eu não poderia ficar sem fazer nada para sempre e, com a enorme crise pela qual o país estava passando, eu não podia me dar ao luxo de esperar sentado. E foi nesse momento que eu me dei conta:

—Eu preciso de um emprego. –Falei comigo mesmo dramaticamente, ignorando o resto do mundo.

—Foi isso o que eu falei, sabichão. Bem, se você estiver mesmo interessado, eu trabalho em um restaurante perto daqui. Estamos precisando de novos funcionários, então, se você aparecer por lá pode ficar por alguns dias e se o chefe gostar do seu trabalho, o emprego é seu. Pense sobre isso.

O sinal bateu. A menina de cabelo vermelho foi embora, levando a bola de futebol problemática.

—Meu nome é Felipe, aliás. –Esclareci enquanto ela se afastava. –Só pra você não se lembrar de mim como “o menino que quase me atropelou no Enem”.

—Sabrina. –Disse. –Só pra você não se lembrar de mim como “a menina que deixou um galo na minha cabeça”.

Passei a mão pela testa e só então percebi que ela, de fato, não estava mentindo: havia um galo na minha cabeça. Merda.