Desconhecido

5 Capítulo 5 - Recordações e sequestro


Notas iniciais
"É preciso ter uma mente muito fora do comum, para analisar o óbvio."
Albert North Whitehead

O Thony tinha chegado depois de muito tempo e a Nell disse que ia nos deixar sozinhos, então o Thony contou:

- Os policiais cercaram a casa com aquela fita de isolamento amarela e preta, disseram que era preciso para que ninguém invadisse e também disseram que vai querer verificar tudo inclusive nossas roupas para tentar reconhecer as digitais dos vândalos que fizeram aquilo.

- Mas Thony, porque invadiriam sem levar nada?

- Isso é um mistério, mas os policiais disseram que quem fez aquilo deveria estar procurando algo muito importante.

- O que seria tão importante ao ponto de precisarem destruir uma casa?

- Não sei, talvez dinheiro ou outra coisa valiosa...

- Mas porque só a nossa casa está destruída? Nenhuma da vizinhança parece destruída.

- Mas só a nossa casa que estava com a porta aberta...

- Sinto muito, eu estava atrasado para a escola por causa do pesadelo que eu tive e outras coisas mais...

A porta do quarto abriu e a Nell entrou avisando que a mãe dela tinha chegado e que queria falar com o meu irmão. Como já era tarde ele me mandou ir dormir e saiu para falar com a mãe da Nell. Assim que ele saiu agente encheu o colchão de ar, colocamos encostado na cama dela, ela deitou na dela e eu deitei no colchão, então apagamos as luzes, mas eu não consegui dormir e ela também não porque uma hora ela falou:

- Ainda está acordado?

- Sim...

- Me conta o que aconteceu com seus pais?

- Eu tinha 8 anos na época, tinha acabado de voltar da escola, encontrei o corpo de minha mãe em cima da mesa com a camisa rasgada, ela estava morta e com um símbolo estranho na barriga, mas a pior parte foi a faca encravada no seu coração, os policiais falaram que ela tinha se matado porque as digitais no cabo da faca eram dela...

Nesse ponto da história eu já tinha começado a chorar e era mais difícil contar a história, mas a Nell precisava saber. Ela se virou na cama e viu que eu estava chorando então falou:

- Não precisa contar...

- A noite eu fiquei esperando pela chegada de meu pai para contar a ele o que aconteceu. – Falei interrompendo ela. – Mas ele não chegou, achei que tinha se atrasado e fui dormir, quando acordei vi meu irmão chorando enquanto arrumava minhas malas, ele percebeu que eu tinha acordado e falou “O papai também morreu maninho”. Aquilo para mim foi o fim, o mundo para mim tinha acabado, nada mais me importava. Ele tinha resolvido que ficar ali naquela casa só iria trazer lembranças ruins, então nós nos mudamos e viemos morar aqui, prometemos um ao outro que não iríamos mais tocar no assunto e começamos uma vida nova, ele já tinha idade adulta e ficou com minha guarda.

- Oliver, sinto muito pelos seus pais.

Depois disso ela ficou calada e eu também, acho que ela conseguiu dormir, porque quando eu chamei ela, não ouvi nenhuma resposta. Mais ou menos às cinco horas da manhã eu consegui dormir, e por sinal não tive nenhum pesadelo.

xxXxx

Amanheceu o dia, ainda eram umas oito horas quando eu acordei, estava com olheiras por não conseguir dormir direito. A Nell não estava no quarto, devia estar lá embaixo tomando café ou se despedindo da mãe, não sabia que horas ela saía de casa para trabalhar. Desci as escadas, indo até o quarto de Thony, ele tinha acabado de acordar e também estava com olheiras, talvez ele não tivesse conseguido dormir como eu.

- Oi Thony, conseguiu dormir?

- Só lá pelas três ou quatro da manhã, o que não adiantou muito.

- Pelo menos você dormiu mais que eu, só consegui dormir umas cinco horas.

- Fazendo o que?

- Pensando naquele assunto.

- Idem.

- Você viu a Nell?

- Não, ela não está lá embaixo?

- Ainda não fui lá, vim te ver primeiro.

- Então vamos descer logo...

Agente saiu do quarto e descemos as escadas, a mãe dela não estava lá e nem ela. Talvez a mãe dela já tivesse ido trabalhar e ela devia estar no banheiro tomando banho, fui no armário, peguei a caixa de cereal e coloquei cereal em duas tigelas, fui na geladeira e peguei o leite derramando na tigela junto com o cereal. Terminei de comer e a Nell ainda não tinha aparecido. Fui em todos os banheiros da casa e todos estavam abertos, onde será que ela foi parar? Resolvi procurar alguma coisa no quarto, algo que dissesse o que tinha acontecido.

xxXxx

A primeira coisa que procurei foi um bilhete, tinha uma folha de papel em cima da cama dela, em cima do travesseiro, eu peguei e abri, nas primeiras linhas percebi logo que não foi ela que tinha escrito o bilhete, a letra da Nell era caprichada e aquilo ali era um garrancho:

“OLIVER, SE VOCÊ QUISER VER A SUA AMIGUINHA VIVA DE NOVO, ME DEVOLVA O LIVRO EM NO MÁXIMO 24 HORAS, QUANTO MAIS VOCÊ DEMORAR, MAIS ELA IRÁ SOFRER. ME ENTREGUE O LIVRO PESSOALMENTE NA FLORESTA NEGRA, ESTOU TE ESPERANDO COM A GAROTA NO CENTRO DA FLORESTA, MAS VENHA SOZINHO OU ELA IRÁ EXPERIMENTAR A LÂMINA DE MINHA FACA.”

Fiquei perplexo, ela não tinha saído, tinha sido raptada, e que livro era esse que ele estava pedindo? Como se tivesse sido chamado, eu vi o “caderno” em cima da prateleira, sem esperar por nada, peguei o livro e minha carteira e saí correndo, passei correndo pela sala sem avisar nada para o Thony senão ele viria atrás de mim, peguei o primeiro taxi que vi e pedi para ele me levar pro centro, era uma hora e trinta minutos de viagem do ponto em frente a minha casa até o centro.

A Floresta Negra era chamada assim porque mesmo de dia, nenhuma luz passava pela copa das árvores e quanto mais você entrava nela, mais a névoa ficava densa e menos você conseguia ver, o ponto perfeito para as aventuras no Halloween, eu conhecia aquela floresta com a palma das minhas mãos.

Uma vez eu tinha feito um “tour” com umas garotas pela floresta, na verdade era um plano meu e da Nell para assustar as líderes de torcida da escola, a única a ficar foi a Louise, ela era uma patricinha corajosa e no final ela simplesmente virou de costas e falou: “Vocês tem que melhorar muito para conseguirem me assustar.”

xxXxx

Chegou no centro e eu nem esperei o taxi parar para abrir a porta e sair correndo, era um caso de vida ou morte, literalmente, e eu deixei o dinheiro no banco de trás. Virei a primeira rua a direita e fui até o final da rua entrando na Floresta Negra e correndo cada vez mais até chegar num espaço aberto dentro da floresta, o espaço podia ser aberto, mas a luz do sol não chegava lá.

Estanquei no lugar assim que vi a sombra de uma garota através da neblina, me aproximei lentamente dela até poder ver que suas mãos estavam amarradas e ela estava amordaçada com os olhos vermelhos de tanto chorar. Outra sombra se moveu longe e se aproximou lentamente dela e falou:

- Entregue o livro agora...

Eu o reconheci no mesmo instante que ele se aproximou, puxou a Nell pelo cabelo e colocou a faca no pescoço dela, eu vi um pouco de medo nos olhos dele, mas a sua expressão era fria como gelo, eu nunca tinha visto ele assim, olhei para ele com raiva e gritei:

- O que você pensa que está fazendo Nicholas?