Desconhecido
6 Capítulo 6 - Revelação
Notas iniciais
Jules Renard
– O que você pensa que está fazendo Nicholas?
– Algo que eu já devia ter feito há algum tempo.
Agora que fui perceber que o gesso dele tinha desaparecido, sua perna estava engessada ontem mesmo e agora já está boa? Eu então me lembrei do caderno que tinha feito a Nell passar por aquilo, levantei o caderno acima da cabeça e falei num tom que ele pudesse ouvir:
– Solta ela que eu te dou...
– Até que você não é besta em Oliver.
Ele foi deslizando a faca pelo pescoço da Nell, mas sem cortá-la, sussurrou algo para ela que eu não entendi e ela afirmou com a cabeça. Com um movimento rápido ele passou a faca pelo pescoço dela e cortou a mordaça em um só golpe, deixando um pequeno corte na bochecha da Nell, mas ele ainda segurava o cabelo dela, ele levantou a faca de lado e fez sinal para eu passar o tal livro e eu falei:
– Primeiro ela, depois essa porcaria.
Ele riu como se achasse graça do que eu tinha falado e soltou-a. Ela começou a correr na minha direção e eu joguei o livro nos pés dele, ele pegou o livro e a Nell chegou perto de mim, ela segurou em meu ombro e falou:
– Vamos embora logo.
Mas eu tirei a mão dela de meu ombro e comecei a andar em direção ao Nick, eu iria fazer ele pagar caro por ter feito aquilo com a Nell por causa de um livro idiota. Ele estava com o rosto sério e frio, só que dessa vez ele não demonstrava medo escondido e sim uma ânsia contida. Tentei dar um murro no seu rosto, mas ele foi mais rápido e desviou, então ele segurou meu braço e falou:
– Para conseguir me acertar, vai ter que ser mais rápido que isso.
Ele soltou meu braço e me deu um murro no ombro que me fez cambalear com a velocidade, eu quase caí no chão, tentei lhe dar outro murro só que dessa vez na barriga e ele fez um corte nas costas da minha mão mais rápido do que eu pudesse reagir. Ele era uma pessoa diferente agora, não era mais aquele Nick atrapalhado que eu conhecia, era apenas o Nicholas Clark.
Dei um passo pra trás como se tivesse desistido de atacar ele, mas ele agora parecia disposto a não me deixar sair dali vivo. Quanto mais passos eu dava pra trás mais ele me acompanhava até que ele falou:
– Desista, agora que você está aqui eu não posso perder essa oportunidade!
– Como assim? – Respondi dando mais um passo pra trás.
– Tudo era um plano para eu conseguir te capturar, ela era apenas uma isca.
Nesse momento eu cometi dois erros que iriam mudar minha vida drasticamente a partir daquele dia, eu olhei para trás e vi a Nell tremendo de medo naquela escuridão, esse foi o primeiro erro. O rosto dela mudou rapidamente para uma cara de espanto enquanto ela soltava um grito e apontava para minha frente, olhei para ver o que era e pude ver apenas o Nicholas a centímetros de mim vindo com o punho em direção ao meu rosto.
O soco foi tão forte que me fez cair no chão tonto, eu pude ver a Penélope correr na minha direção e com muito esforço eu gritei para ela correr para longe e se proteger, meu segundo erro e o pior. Com meu grito o Nick percebeu que a Nell ainda estava ali e caminhou lentamente até ela com a faca na mão, mas quando ele ia fazer alguma coisa eu falei alto e claro:
– Você prometeu que não faria nada com ela se eu devolvesse o livro.
– É você tem razão, mas eu não prometi nada sobre você. – O rosto dele estava estranho, meio sádico. – E você vem comigo, mas para evitar que tente fazer alguma coisa...
Ele pegou a faca deslizando ela pela minha perna fez um corte na lateral das duas pernas, aquilo doía muito e eu senti como se algo estivesse se partindo na minha perna. Depois ele pegou um cipó das árvores ao redor e fez um nós nas minhas duas pernas juntas deixando um grande pedaço solto para que ele pudesse me puxar.
– Pronto com esses cortes você não conseguirá andar. – Ele falou enquanto pegava o cipó e começava a me arrastar para mais fundo naquela floresta.
A última visão que eu tive foi da Nell caindo no chão sem forças tentando me alcançar, mas não era ela, os olhos dela estavam diferentes como daquela vez que nós estávamos escondidos ouvindo a professora conversando com o diretor, ela deveria estar tendo outra “visão”. Então eu desmaiei.
xxXxx
Estava escuro, eu estava deitado em algo que parecia com uma cama, tudo podia ser apenas um sonho, mas algo me dizia que não. Tomei coragem o bastante para consegui abrir os olhos e me deparei com uma luz forte no meu rosto, ela vinha de uma luminária daquelas cadeiras do dentista, para falar a verdade, se eu não estivesse deitado poderia jurar que estava no dentista.
Ouvi vozes se aproximando e fingi que estava dormindo, quanto mais as vozes se aproximavam mais palavras eu conseguia escutar. Eram três vozes, duas masculinas e uma feminina, parecia que eles eram médicos porque se referiam a alguém como “paciente”, agora parecia que as vozes vinham do meu lado. Uma voz feminina doce e aguda falou:
– Parece que o paciente 001 acordou, porém o corpo dele recusou todos os métodos realizados pelos meus médicos.
– Acho que teremos que procurar alguém com mais poder para realizar a transfusão. – Essa voz masculina era grave e determinada, mas por algum motivo me parecia familiar.
– Então eu tive esse trabalho todo para nada.
Eu logo reconheci a voz do último a falar, aquele traidor ainda estava aqui, eu tinha que escapar muito rápido daquele lugar. Esperei o homem que eu achei a voz conhecida começar a falar para que ele tivesse distraído o bastante para pensar duas vezes antes de realizar alguma ordem, ele parecia ser o chefão daquela área.
Foi quando ele começou a falar que eu rolei para o lado da cama procurando cair de joelhos no chão e correr em direção a saída, mas tudo foi por água abaixo quando correntes me seguraram pelos braços e pernas me mantendo a centímetros do chão. Eu não tinha percebido que estava preso a cama por correntes e pela primeira vez eu abri os olhos sem que uma luz me cegasse.
A única coisa que eu enxerguei foi o chão de madeira, mas então aquelas três pessoas me puxaram de volta a cama e eu pude enxergar todo o quarto. Tinham várias camas espalhadas de forma ordenada por todo o quarto, as paredes eram de cor bege, o teto era branco com várias lâmpadas sobre cada cama e no centro do teto tinha um lustre muito brilhante com uma joia enorme de cor roxa pendurada de forma centralizada no lustre.
Mas o que mais me chamou a atenção naquele lugar foram as duas pessoas em pé ao lado do Nicholas, ou como eu preferia chamar ele a partir de agora, do traidor. A mulher tinha cabelos loiros com uma coloração verde nas pontas, ela usava um daqueles casacos de médico e me olhava com seus olhos verdes e um sorriso no rosto. Já o homem tinha cabelos totalmente negros, usava uma cartola igualmente negra e um paletó negro, porém parecia que ele não queria olhar pra mim.
Eles dois juntos parecia algo como o Yin Yang, mas o que mais me incomodava era que o Nicholas olhava pra mim sorrindo como se nada que houvesse acontecido da última vez que nos encontramos, eu tive que me controlar para não pular da cama e acertar um soco na cara dele.
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