Desconhecido
1 Capítulo 1 - Um sonho estranho
Notas iniciais
Caldéron de La Barca, 1600-1681, poeta e dramaturgo espanhol, A Vida é Sonho.
Sentei-me no chão, eu estava em um lugar desconhecido, ao meu redor tinha prédios, casas e praças, parecia um lugar de ricos esnobes que não tinham nada para fazer, tudo decorado em tons claros. Como se não bastasse era dia, um sol muito forte batia contra o meu rosto, onde estavam meus óculos de sol neste momento?
Me levantei devagar e comecei a vagar pelas ruas desertas, tudo bem que eu queria uma nova aventura, mas aparecer do nada em uma cidade deserta não era bem o que eu queria e nem podia querer, afinal de contas, uma aventura não é uma se os amigos não estiverem por perto.
Passei um tempo andando sem destino até que alguém atrás de mim chamou meu nome e eu me virei pensando que seria a minha salvação, o primeiro erro que cometi:
- Olá, Oliver!
- Quem é você? – Falei deixando transparecer minha alegria, o que não era meu objetivo.
- Onde está sua educação?
- Perdi em algum lugar quando vim parar nesse lugar aqui. – Minha alegria foi desaparecendo aos poucos, um pressentimento ruim passou por minha cabeça, mas agora já era tarde.
Porque ele estava usando aquele chapéu que me impedia de ver seu rosto? Porque apenas um lado de sua camisa possui manga longa que cobria seu braço e sua mão e a outra nem tinha manga? Porque ele não usava tênis? E principalmente, de onde, porque e como ele me conhecia? Foram perguntas que vieram a minha cabeça naquele momento, talvez porque a alegria foi embora para dar lugar ao medo.
- Acho que não é hora nem lugar para se fazer gracinhas. – Falou o estranho vindo na minha direção.
- Não sei que lugar é esse, nem que horas são. – Falei dando um passo, e apenas um, na sua direção. – E principalmente, não sei como voltar.
Seria melhor se eu não tivesse contado isso para ele. Ele parou a centímetros de mim e eu percebi que eu era maior do que ele, o que me deu mais coragem. Ele falou:
- Em breve você descobrirá.
Pisquei os olhos e ele havia desaparecido, olhei ao redor e nada. Comecei a andar novamente sem rumo pela cidade, mas parei em uma praça, ficar andando não iria dar em nada. Sentei num dos banquinhos de praça e olhei ao redor preocupado enquanto pensava em um modo de sair.
Na frente do banquinho em que eu estava sentado havia um laguinho cristalino sem nenhum peixe, nem plantas, ao seu redor tinham vários bancos, mas nenhuma árvore, nem pássaros, nem uma forma de vida, o que eu achei muito estranho. Então uma voz falou de todos os lados e de nenhum ao mesmo tempo:
- Oliver! Oliver! Você está bem? Oliver!
Era uma voz melódica e feminina, logo a reconheci, era a voz da Penélope, ou melhor, da Pê. Mas o que ela estava fazendo ali? Uma imagem meio transparente dela apareceu na minha frente, quando a toquei, a imagem desapareceu e a voz dela soou calma quando ela falou:
- Oliver!?
E no outro momento eu estava caindo, perdendo o controle no meu corpo, a última coisa que eu vi foram as águas cristalinas do lago se abrirem numa escuridão. Então tudo se apagou.
xxXxx
- Oi Oli, eu estava preocupada. – Falou a voz de Penélope.
Eu estava de olhos fechados deitado em algo macio e confortável, será que eu estava morto? Mas se eu morri, porque eu continuava ouvindo a voz da Pê como se ela estivesse tão perto? Será que ela está morta? Se sim, como ela morreu e por quê? Esses pensamentos me assustaram, mas resolvi abrir os olhos e foi o que eu fiz. Eu estava no meu quarto, deitado na minha cama e a Pê estava sentada ao meu lado. Levantei-me, sentei ao lado dela e lhe perguntei:
- O que foi Pê?
- Eu subi para lhe acordar e você estava suando frio. – Ela falou isso e eu passei a mão na minha testa percebendo que era verdade. – Eu estava tentando te acordar, mas você estava tremendo e não se mexia e eu fiquei preocupada.
- Foi apenas um pesadelo.
- Ainda bem. Quase me esqueci, seu irmão falou que iria sair para a faculdade mais cedo hoje e ele deixou seu café pronto em cima da mesa.
Levantei-me devagar da cama, fui ao meu guarda-roupa e peguei uma roupa limpa, camisa preta e calça jeans. Então me virei para a Pê e falei:
- Vai descendo que vou tomar meu banho...
- Tudo bem Oli!
Após falar isso ela desceu as escadas e eu fui direto para o banheiro tomar meu banho. Terminei e logo desci o pesadelo ainda martelava na minha cabeça, mas a fome foi mais forte.
Cheguei à cozinha e a Pê estava de costas para mim, de pernas cruzadas, tamborilando com as unhas na mesa e assoviando, toquei seu ombro e com o susto ela caiu no chão de joelhos.
- Se assustou com o que? – Perguntei rindo.
- Talvez de um monstro invadindo a casa do Oli Oli! – Respondeu sentando na cadeira de frente para mim.
- Já pedi para não me chamar de Oli Oli. – Me sentei na cadeira de frente a dela. – Parece nome de personagem de desenho infantil.
- Tudo bem “Oli”! – Ela falou rindo.
Terminei de tomar meu café e subi para o meu quarto, fui arrumar minha mochila da escola e encontrei um livro na cabeceira da minha cama, o livro tinha uma capa preta com detalhes dourados e dentro só tinha uma folha escrita, as outras estavam em brancas e só tinha os números das páginas que por sinal começava no número 173.
Antes que eu pudesse começar a ler, a Penélope entrou pela porta gritando que agente estava atrasado, olhei no meu relógio de pulso e vi que já eram 7 horas, o ônibus ia passar em 5 minutos.
Guardei o livro na mochila e desci correndo com a Pê atrás de mim, estava com tanta pressa que me esqueci de trancar a porta. Corremos feito dois desesperados pela rua a caminho do ponto de ônibus e quando chegamos lá, ele já estava saindo quando o motorista olhou pelo retrovisor e me viu com a Pê, as vezes era bom ser amigo de funcionários da escola, logo o motorista parou e nós entramos.
Como sempre, nós dois sentamos lado a lado, a Pê estava com cara de sono e sem conseguir agüentar, ela dormiu e escorregou sua cabeça para o meu ombro, fiquei vermelho de vergonha, aquilo nunca tinha acontecido, nós sempre íamos cantando felizes pelo caminho longo até a escola.
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