Descobrindo o Amor (em revisão)
17 Capítulo 17 - Dias atuais.
Notas iniciais
Desde que eu tinha saído do hospital eu não parava mais de ir visitar Dona Ana, eu nunca cansava de ouvi-la contar suas histórias, mas confesso que Débora não estava errada quando dizia que tinha algo que eu não a queria contar, eu queria vê-lo, sabia que ele tinha voltado e que tinha ido visitar sua avó, uma única vez eu quase cheguei quando ele estava lá, mas não cheguei cedo o bastante e ele já tinha ido embora, não posso culpá-lo por não querer me ver, não quando eu o expulsei da minha vida.
Eu não contei para ninguém que já tinha me lembrado de tudo, então era bem solitário ter que lidar com todos aqueles sentimentos sozinha, mas eu tinha feito minha escolha.
— Ei, que tal irmos ao shopping? — Débora estava em minha casa, estamos em meu quarto conversando, pisquei algumas vezes quando percebi que não tinha prestado muita atenção no que ela falava. — Em que mundo você está, hein?
— O quê?
— Faz um tempo que percebi que não tem prestado atenção ao que digo. — Me aproximei me sentando ao seu lado. — O que foi?
— Não é nada. — Ela estreitou os olhos em minha direção. — O que?!
— Você está escondendo algo, e não diga que é mentira porque eu te conheço Helena! — Se levantou depressa, parecia com raiva, a tempos eu não a via assim. Eu iria lhe responder, mas ela falava e falava não deixando que eu lhe respondesse. — ...Poxa Helena, desde o seu acidente você tem se fechado e não tem falado nada, e eu sei que está escondendo algo porque está sempre avoada e quando perguntamos se está tudo bem muda de assunto e vai visitar Dona Ana como que fugindo de algo e... aí. — Reclamou quando eu lhe joguei uma almofada, acertando em cheio seu rosto.
— Desculpa, é que você não parava de falar. — Suspirou se sentando novamente ao meu lado, colocou o braço ao redor de meu ombro.
— Sabe que pode falar comigo, não é? — Fiz que sim pendendo a cabeça em seu ombro.
— Sei, obrigada. — Pensei um pouco, acho que não seria má ideia conversar um pouco com alguém. — Débora... se alguém tivesse mentido pra você, e lhe feito pensar que não é ninguém na sua vida, o que iria pensar sobre essa pessoa?
— Bom, acho que iria ficar chateada de início.
— Só no início, e depois não? — Perguntei sem tirar a cabeça de seu ombro. Ela demorou um pouco pra responder, então achei que não iria falar nada, mas ela disse.
— Eu iria querer saber o motivo da mentira, mas eu acredito que se você mente é porque não há confiança o suficiente.
— Mesmo que a mentira seja pensando no seu bem?
— Acho que é meio egoísta, esconder algo de alguém e se é realmente pro meu bem, eu iria querer saber. — Concordei sem dizer mais nada. — Mais onde quer chegar, exatamente?
— E só que eu... — Não consegui terminar a frase, escutamos batidas na porta e depois de responder que podia entrar minha mãe entrou no quarto com um envelope na mão.
— Isso chegou pra você.
— Obrigada mãe. — Peguei o envelope de suas mãos, o avaliando com o cenho franzido, eu não tinha pedido nada, não fazia a mínima ideia do que seria.
— Não vai abrir? — As duas me olhavam com expectativas, fiz que sim rasgando o envelope, depois de aberto fiquei encarando o papel em minhas mãos.
— O que foi, o que é? — Débora se inclinou para ver o que tinha no papel, me encarando em seguida para ver minha reação imagino. Minha mãe também se aproximou e quando ninguém falou nada ela tirou o papel gentilmente de minhas mãos. Era uma foto, Marcos e eu no passeio dos pedalinhos, ele com um meio sorriso enquanto eu sorria agarrada ao seu braço.
— Espera, tem outro papel dentro no envelope. — Me aproximei dela.
— O que é? — Débora me olhou sorrindo, as duas disseram em uníssono.
— E uma carta. — Olhei para a carta na mão de minha mãe inserta se queria realmente ler lá, então quando Débora perguntou se eu queria que ela lesse, eu fiz que sim.
— Tudo bem então, vou ler...
“Eu queria poder lhe dizer tudo isso pessoalmente, mas não quis invadir seu espaço. Sei que talvez não se lembre, mas caso volte a lembrar quero ter certeza de que terá as respostas para algumas perguntas; no nosso último passeio você me perguntou o porquê de eu a ter levado, e a verdade é que aquele lugar é muito importante pra mim, eu não a levei só porque temos algo em comum, mas porque você é importante para mim Helena, eu deveria ter lhe dito quando me perguntou, sinto muito.
Desde pequeno eu sempre gostei de como minha câmera me levava a conhecer histórias, era curioso como a perspectiva das coisas eram sempre melhores através das lentes. Mais aí eu te vi, e pela primeira vez eu quis conhecer alguém, só pelas lentes não eram suficientes, eu precisava saber o que era aquilo que me atraia até você, e era você Helena, simplesmente você.
Eu tentei me afastar, de verdade eu tentei, mas minhas tentativas foram inúteis, é estranho dizer isso, mas eu sinto como se dentro de mim tudo estivesse preto e branco, e quando você chegou de alguma forma tudo começou a ficar colorido. Você revelou um lado meu que a muito tempo estava perdido. Por mais que doa saber que talvez você não lembre, não irei insistir, mas quero que saiba que minha promessa ainda está de pé.
Com amor, Marcos."
Peguei o papel de suas mãos e por um momento o encarei sem dizer nada.
— Helena, filha... — Levantei os olhos marejados em sua direção. — Por que não nos disse que lembrava de tudo?
— Eu não podia. — Débora me olhou com o cenho franzido.
— E por que não? Helena você claramente gosta muito do Marcos, não entendo por que o afastou dessa forma. — Me sentei ainda olhando a carta. Ela se aproximou parecendo se dar conta de algo. — Era dele, de quem você falava antes de sua mãe entrar. — Não era uma pergunta. — Ele mentiu pra você, é isso? — Me apressei em responder.
— Não, você não entende? Eu menti, menti que não lembrava dele, quando na verdade eu lembrava de tudo, o expulsei da minha vida porque não podia aceitar o fato de ser um empecilho na sua vida.
— E porque você seria um empecilho na vida dele filha, quem lhe disse isso?
— Eu ouvi mãe, no hospital, vocês diziam que ele não queria aceitar uma proposta de emprego para ficar comigo.
— Helena, minha filha, você entendeu errado. — As duas se entre olharam, me levantei.
— Como assim, o que quer dizer?!
— Nós estávamos falando sobre o pai do André, ele vinha te visitar todos os dias tentando se desculpar pelo que seu filho tinha causado. — Não acreditei no que eu estava ouvindo. — Era dele que falávamos, foi ele que recebeu uma proposta de emprego em outro estado.
— Mas vocês disseram que ele não queria ir para ficar com ela. — Disse ainda sem acreditar no que eu ouvia.
— Sim, sua esposa, ele só iria quando ela também pudesse ir com ele. — Débora concluiu, me sentei na cama sem saber o que dizer, foi tudo um engano e eu tinha estragado tudo.
— Eu não entendo, então por que ele foi embora?
— Isso eu não sei, só sei que você tem que ir esclarecer tudo. — Débora disse me puxando pelo braço.
— Você acha que...
— Helena, você tem nas mãos literalmente uma declaração, vai até ele e diz o que sente. — Concordei me levantando. — Sabe onde encontrá-lo? — Disse quando viu eu me arrumando, já colocando uma bolsa por sobre o ombro.
— Não, mas eu sei quem sabe.
— Então vamos.
Minha mãe nos levou até onde eu poderia encontrá-lo. Quando cheguei elas me esperaram no carro, enquanto eu entrava atropelando os pés.
— Helena! — Se levantou toda sorridente ao me ver, fui ao seu encontro lhe dando um abraço. — Há querida, você voltou. — Me olhou como se me avaliasse e então perguntou. — Está tudo bem?
— Bom na verdade, eu... sabe dona Ana todo esse tempo eu estava tão confusa e com tudo que me aconteceu incluindo o acidente e tudo depois dele, ouvir a história que têm me contado me ajudou a enxergar tudo de uma forma diferente, mas eu percebi que cometi um erro. — Me olhou por um tempo.
— Entendo. — A olhei um pouco surpresa.
— Verdade?
— Sim, sabe querida antes de você chegar eu estava indo ao jardim, gostaria de me acompanhar?
— Claro. — Lhe ofereci meu braço, caminhamos então até o jardim, nos sentamos em um banco.
— O dia está lindo hoje, não acha? — Olhei um pouco ao redor concordando. — Lembra da pergunta que lhe fiz quando chegou aqui, antes de eu começar a lhe contar a história?
— Sim, a senhora me perguntou por que isso me preocupava tanto. — Sorriu um pouco.
— Sabe por que escolhi exatamente aquela história para lhe contar? — Fiz que não, sem saber exatamente o rumo da conversa. — Vocês são bem parecidas, você e a moça bonita, digo.
— Somos?
— Sim. Eu particularmente tenho um apresso por aquela história. A mocinha tinha tudo para dizer não ao seu futuro, seria mais cômodo deixar tudo como estava. — A escutei atentamente. — Mas ela escolheu o futuro e não o passado.
— Não sei se entendi. — Ela sorriu de lado, e por um momento seu sorriso me pareceu familiar.
— Helena minha querida, sei que teve que lidar com a perda muito cedo, era muito jovem quando perdeu seu pai e sua mãe teve muito trabalho em sustentá-las. Perder alguém nunca é fácil, muito menos para uma criança. — Eu a olhava estática.
— E a senhora acha que agi daquela forma, por medo de perdê-lo?
— Não querida, por medo de si mesma.
— Não sei se a entendi.
— Acho que todos esses anos tem se acostumado a solidão e conhecer alguém que poderia lhe mostrar a luz dentro de si lhe assustou de início.
— Eu... — Ela tinha esse poder, de me fazer pensar e esquecer as palavras, sorrindo um pouco ela continuou.
— Bem, acho que veio aqui por um motivo, é sua vez de escolher o futuro e deixar o passado onde está. O que diria se seu futuro aparecesse aqui, na sua frente?
— Eu, não sei...
— Helena, sabe o significado do seu nome? — Perguntou com o olhar meio sorridente.
— Não. — Respondi com o cenho franzido, nunca tinha pensado naquilo. — A senhora sabe?
— Reluzente. Aquela que é cheia de luz. — Quando percebeu que eu não iria dizer nada, continuou. — Sabe o que isso significa? — Fiz que não. — Que a maior beleza é a que vem daqui. — Apontou pro meu peito. — Daqui de dentro, e essa querida, você tem de sobra. — Sorri. — Sei que acha que não merece alguém especial e que não quer se machucar, mas a verdade é que na vida teremos que tomar escolhas que talvez nós machuquemos, mas não acha que seria pior se continuamos onde estamos? — Ela olhou por cima do meu ombro, segurando em meu ombro me fazendo a encarar. — Como realmente se sente?
— A pessoa quem eu magoei, quem eu gosto é seu neto. — Ela não me pareceu surpresa. — Mas a senhora já sabia. — É claro que ela já sabia, ingenuidade da minha parte achar que não. — Certo, eu o expulsei da minha vida, com uma mentira, achei que estava interferindo em seu futuro e o mandei ir embora.
— Muito corajoso da sua parte, desistir do que poderiam ser pensando no futuro dele.
— Mas esse é o ponto, eu estava sendo egoísta. Agora percebo que eu não queria me magoar, por isso o afastei.
— Por que acha isso?
— Porque, eu nunca me senti assim com ninguém. Nunca me permitia ir longe demais, mas com o Marcos era diferente, eu... era eu mesma sabe, sem máscaras, falávamos de coisas que eu não falava com ninguém, ele era gentil e...
— E... o que?
— Não sei, eu vim aqui decidida a encontrá-lo, a dizer tudo que eu sinto. Que eu o quero na minha vida, que me apaixonei por ele e que eu também não quero desistir da gente.
— E o que a impede? — Estava muito imersa para não perceber quando ela sorriu olhando por sobre meu ombro. — Nunca é tarde para dizer sim ao seu futuro. — A observei se levantar e se afastar me deixando sozinha, era o que eu achava.
— Então quer dizer que se lembra de mim? — Dei um pulo ao vê-lo parado com as mãos no bolso, sorrindo de lado como sempre fazia
Fale com o autor