Descendente
4 Capitulo 3
Não havia amanhecido ainda quando o celular de Faith a despertou, tocando muito alto. Sonolenta, tateou pelo criado-mudo em busca do barulho, depois, entre abiu os olhos, só o bastante para ver quem estava ligando. Era um número desconhecido.
—Alô?
Ninguém respondeu, ao invés disso um barulho seguido de um horrível chiado, que acabou despertando Faith.
—Não, minha filha não! Por favor! Ela é só um bebê. —Era a voz de uma mulher que gritava aterradoramente. Era como se pudesse sentir sua dor, apesar de só escutá-la.
Faith desligou o celular imediatamente, e respirou fundo, tentando acalmar o coração que pulava dentro do peito.
Saiu de debaixo das cobertas e foi ao banheiro lavar o rosto. Agora, estava totalmente desperta. Olhou novamente para o número que havia ligado pra ela, e pensou em retornar a ligação, mas estava apavorada.
Se aquilo era uma brincadeira ela não perdoaria.
Passaram-se minutos, talvez, quando o sol subiu brilhante no céu. Vestiu-se rapidamente, escreveu um bilhete a Lola e saiu silenciosamente para a gélida manhã; Não sabia muito bem o que fazer, mas precisava espairecer a mente.
Sua vida parecia ter se tornado uma verdadeira brincadeira de mal gosto. Não conseguia encaixar as coisas no lugar, principalmente relacionado aquele garoto. E agora, isso.
Quem seria aquela mulher? E o que tinha haver com ela?
Estava cansada de ter perguntas que não conseguia responder.
Não percebeu onde estava, até pisar em falso em um terreno arenoso. Olhou em volta. Costumava ir ali quando criança, e ficar brincando por horas, até estar sem fôlego.
Sentou-se em um dos balanços e fechou os olhos, como se pudesse por um momento, não ser mais Faith. Não ser ninguém, como um pássaro voando pela primeira vez, sentindo a brisa esvoaçar suas asas, e levar tudo de ruim para bem longe.
Quando voltou a abrir os olhos, ficou indignada com o que via.
Do outro lado da rua, um homem com as roupas e pele em chamas olhava diretamente pra ela. Seus olhos estavam sedentos, e as mãos, fechadas, como se ele estivesse lutando contra algo. Mesmo com sua pele toda vermelha em carne viva, ele não desviava os olhos da garota. Lentamente, começou a se aproximar, depois, avançou depressa.
Dessa vez, Faith mandou sinal para suas pernas correrem, o mais rápido que pudessem, e foi isso que aconteceu. Seus sapatos afundavam na areia, o que deixava mais difícil a fuga, mas nem isso a impediu.
De repente, sentiu um peso sobre seu corpo, e caiu no chão, batendo a cabeça com força no concreto. Estava no meio da rua, presa por algo do qual não conseguia ter visão do que seria, mas podia imaginar.
Sentiu uma dor laceante cortar seu pescoço, como garras rasgando sua pele, ardendo como a pior queimadura. Tentou gritar, mas tudo que saiu de sua boca fora um som inaudível. Podia sentir a coisa sugando sua vida, e não havia nada que pudesse fazer.
Quando parou já estava delirando, perdendo os sentidos. O concreto a sua volta estava manchado de vermelho vivo, fazendo perceber que se tratava de seu próprio sangue. O que quer que a mantinha presa, havia sumido.
Foi difícil se manter de pé, mas conseguiu levantar e caminhar lentamente. Seu estômago estava embrulhado, sua visão turva e seu pescoço latejava de tanta dor, mas nem por isso pensou por um segundo em chorar.
Só quando não aguentou mais, foi que permitiu que suas pernas fraquejassem e soltasse todo o peso de seu corpo. Enquanto tentava dizer para si mesmo que tudo ia ficar bem, ria em pensamento da sua própria mentira. Estava claro que nada ia ficar bem.
**
Jamais havia tido tantos pesadelos em um sonho só. Pior ainda, era acordar em um lugar desconhecido. Estava deitada em uma parte de baixo de um beliche, e a sua volta, havia muitas outras. Tentou levantar a cabeça, mas seu corpo doía como se tivesse sido atropelada por um caminhão. Foi aí que se lembrou do que havia acontecido.
Sentiu a adrenalina voltar ao seu corpo, e com um pulo, levantou-se da cama. Olhou ao redor, e notou que aquilo parecia muito com uma cabana.
As paredes eram de madeira, com vários arcos pendurados. Fora os beliches, havia alguns suportes de soros espalhados pelo enorme quarto.
—Ei, você não deveria estar de pé. Perdeu muito sangue e sofreu uma contusão. —Uma garota loura adentrara o quarto, e vinha na direção de Faith.
—Onde estou?
—Eles vão vir explicar. —Ela mordeu o canto do lábio, e Faith podia notar que ela deveria fazer isso quando nervosa, o que não ajudou muito no seu julgamento.
—Quem são eles?
Um homem baixo entrou no quarto, e a loura fez uma breve reverencia. Ele se aproximou lentamente, como se fosse uma visita amigável e calorosa. Faith por outro lado, estava nervosa, olhando ao redor, procurando algo com que pudesse se defender.
—Pode nos deixar, Claire. —A voz do homem era grave e audaciosa, fazendo com que a garota sentisse um arrepio pelo corpo.
Claire assentiu e fez novamente uma reverência.
—Olá. Meu nome é Harrison e sou o diretor do campus. Você se encontra em nossa enfermaria, onde cuidamos dos seus ferimentos. Tentaria responder todas as suas perguntas, mas primeiro gostaria de saber seu nome.
Enquanto ouvia cada palavra, Faith percebeu que o tom de voz que ele estava usando, era tao calmo e leve, que enganaria qualquer um. Ele era um homem velho, baixo e gorducho. Usava um paletó branco com gravata colorida, o que deixava sua aparência um pouco cômica. Não tinha sequer um fio de cabelo na cabeça, não ajudando, fazendo Faith lembrar dos mafiosos dos anos 80.
—Faith Miller.
—Que nome maravilhoso!
—Você disse que estou em um campus, mas qual? Não lembro de haver faculdades em Danville.
—Oh, não! —E soltou uma gargalhada alta. —Não esse tipo de campus, Faith Miller. Diria que é mais um acampamento para um tipo especial de pessoas.
—E como eu vim parar aqui?
—Bem, um de nossos campistas encontrou-a desmaiada, e a trouxe. Temos um dos melhores curandeiros, e para o seu tipo de machucado, um hospital não seria uma boa ideia.
Como um flash lembrou-se de tudo que havia acontecido antes de desmaiar; o homem em chamas em carne viva, a dor no pescoço; Tudo voltou com um baque. Sentiu seu estômago embrulhar novamente, o chão caindo lentamente.
—Quer saber o que te atacou, Faith Miller? —O velhote olhava pra ela, com um estranho brilho no olhar, como se estivesse gostando daquele pequeno espetáculo.
Faith concordou com a cabeça;
—Você já ouviu falar em Vampiros?
Faith tornou a assentir.
—Bem, eles seriam uma versão mais aterrorizante. São chamados de Upir, são criaturas noturnas e não podem sair ao sol; você viu o que acontece a eles. Eles não precisam somente de sangue pra sobreviver, mas o preferem. Depois de experimentar pela primeira vez, dificilmente consegue parar. Não são mordidos, mas nascem assim. E todos, sem exceção, são atraídos por sangue de fada.
“O sangue de uma fada pode fazer coisas inexplicáveis com criaturas noturnas. Pode até mesmo forçá-lo a sair em pleno dia, enfrentar a ira do sol, só para poder sentir um mínimo desse sangue descer-lhe pela garganta, enquanto todo seu corpo explode como uma bomba relógio.”
Quando ele terminou de falar, a garota estava paralisada de boca aberta. Não sabia o que pensar. Primeiro estava atordoada por pensar sequer em acreditar que coisas assim realmente existia. E segundo, pode notar o ponto principal da história. Ele estava insinuando que ela teria sangue de Fada. Sem perceber, começou a rir.
—Você só pode estar brincando.
Harrison nesse momento, estava realmente sério. Seus olhos deixavam em foco Faith, sem exceção. Queria ver sua reação, e cada movimento de seu corpo, e ela percebia isso.
—Eu queria estar.
A seguir, se tornou um silêncio total. Faith permanecia indignada, mas absorta demais para falar alguma coisa. Harrison, continuava a olhá-la averiguando sua reação.
—A três horas atrás, se alguém me dissesse que existe um Fae fora do radar eu diria que é loucura. Nenhum jamais deixou de ser localizado. Acompanhamos suas vidas, mantemos informantes por perto, e o trazemos para cá quando a hora chega. Mas você apareceu por um simples engano, e isso me mostrou o quão errado estou.
—Você deve estar enganado. —Balbuciou a garota.
—É muito cedo pra você sentir, Faith Miller, mas há uma luz em você que para pessoas como eu, jamais enganará. Você transborda essa energia, e minha teoria seja que o motivo é de você não ter consciência dela.
—Eu não consigo acreditar. É tanta coisa… Minha mãe…ela vai surtar…
Harrison olhou curiosamente para Faith, mas o que for que estivesse pensando, não comentou. Ao invés disso, se aproximou e colocou a mão em seu ombro.
—Faço esse discurso várias vezes no ano, sabe, mas nunca é fácil de olhar; engraçado? As vezes, mas fácil não. Você não é a primeira e não vai ser a última, e se precisar de algo, há centenas de campistas que irão te ajudar a entender. Mas você não deve contar isso para ninguém. Somos uma espécie em extinção, diríamos assim. E também, é para o seu próprio bem.
Depois, ele saiu deixando-a sozinha. Estava tremendo, mas não era de frio. Sua ansiedade havia atingido o limite. Não sabia se saia dali correndo, ou esperava conseguir explicar tudo aquilo a si mesma.
Nenhuma das alternativas pareciam as melhores.
Vinte minutos depois, enquanto ainda pensava no que fazer, Claire apareceu trazendo uma bandeja com bolachas e suco. Faith não havia percebido o quanto estava faminta, sem ter comido nada antes de sair de casa. Não tinha noção de que horas seria, e isso a fez lembrar que tinha prova de Inglês.
Duas mastigadas foram o suficiente para engolir toda a comida e o suco, o que fizeram os olhos de Claire arregalarem.
—Harrison teve a “conversa” com você? —Disse Claire, fazendo o sinal de aspas em conversa.
—Sim. Imagino que você também a teve. Foi tão estranho pra você, quanto foi pra mim?
—No meu caso não. Meus pais me contaram quando eu tinha 3 anos, então eu sempre soube, mas vir pra cá não foi fácil. —Notando a confusão no rosto de Faith, Claire começou a explicar. —Aos onze anos os Fae devem se apresentar no Campus para receber treinamento, para podermos nos defender no mundo lá fora. Há muitas criaturas que são loucas por nosso sangue, além do mais, somos criatura da luz. Só matamos quando é preciso, apenas em nossa defesa.
—Então vocês aprendem a lutar e coisas assim?
—Isso. Todo o nosso espaço é protegido por magia, então, não corremos perigo aqui dentro, podemos praticar o tempo que for necessário até completarmos vinte e um anos. É o tempo em que devemos ir para o mundo, e tentar sobreviver.
Faith começou repassar o tanto de informação que estava recebendo. Neste meio tempo, começou a lembrar da conversa que tivera com aquele garoto louro, e de como ele havia falado com ela, como se soubesse que ela não era uma mortal.
Então, decidiu que era hora de compartilhar com alguém. Claire ouvia atentamente enquanto Faith lhe contava toda a história, sem esbravejar nenhuma reação.
—Eu não consigo pensar em nada que soasse assim. Os Upirs são cautelosos, mas não tanto ao ficar perto de sangue de fadas sem ter nenhuma reação. Mas posso ver com Harrison…
—Não! Não diga nada a ninguém. Tenho certeza que é só mais um alucinado fazendo alguma brincadeira de mal gosto.
Claire não pareceu acreditar muito naquela desculpa, mas deu de ombros. Depois Faith decidiu que queria ir pra casa, tomar um longo banho e dormir pelo resto do dia, então Claire a acompanhou para lhe mostrar a saída.
Assim que saiu da cabana, se sentiu maravilhada com tudo ao redor. Era uma enorme mata, onde haviam adaptado com coisas penduras; arcos e flechas, equipamentos de musculação… Ao longe, podia-se se ver algumas casas e uma um pouco maior que se sobressaia. Todas pareciam ser feitas de madeira, que deixava todo o ambiente com um olhar mais rústico.
Ela acompanhou Claire até a entrada de uma caverna, onde havia um arco enorme dizendo “Seja Bem-vindo”
—É um portal. Acho que você vai sair precisamente atrás da sua escola. O portal já existia muito antes dela existir, mas facilita alguns de nós a ir para a escola. —Claire sorriu. Faith pode notar que ela tinha um sorriso muito bonito, e que não costumava mostrá-lo sempre. —Bem, boa sorte. E sempre que quiser voltar, pense neste lugar. Você saberá o que fazer em seguida.
Faith então atravessou o arco. Podia sentir seu corpo inteiro se desintegrando, como se estivesse virando fumaça. Era uma confusão de cores e simetria, que precisou fechar os olhos para que não ficasse ainda mais tonta. Só quando sentiu os joelhos bater no concreto, foi que tornou a abri-los.
Estava viva e inteira, tinha quase certeza.
**
Já estava anoitecendo, percebeu, o que indicava que estivera ausente por um dia inteiro. Não conseguia acreditar que havia presenciado tantas coisas em apenas um dia. Havia sido atacada por um Upir, depois lhe disseram que tinha sangue de fada e que existia um Campus para pessoas assim, e fora tudo isso, estava toda suada, suja de sangue e terra e cheia de arranhões.
Não sabia se chamava de sorte ou azar. A maioria das pessoas queriam viver uma aventura, sair de suas vidas monótonas, mas Faith nunca quisera isso pra si mesma. Gostava de sua vida do jeito que era, e não queria que nada mudasse. Porém, as coisas haviam mudado drasticamente, muito mais do que jamais sonhara.
Não sabia como reagir a tudo isso.
Estava apenas algumas quadras de sua casa, quando um carro preto passou a toda velocidade e brecou instantaneamente. Ray saiu do carro um pouco cambaleante.
—O que aconteceu com você? —Sua voz estava embargada, e ele cheirava a álcool. Faith havia bebido duas vezes com ele, e nunca o vira chegar a tal ponto.
—Eu caí. E o que aconteceu com você?
Mas ele não respondeu. Seus olhos desfocaram para o roxo que estava no pescoço de Faith, onde a marca das presas ainda estavam visíveis. Seu rosto se contorceu em uma careta, e de repente, ele socou o muro. Ela estava assustada com a sua reação, e ainda mais, por perceber que ele reconhecia aquelas marcas.
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