Descendente

5 Capítulo 4


O calor que se alastrava pelo seu corpo, não parecia ser causado pelas feridas ou por tudo que havia acontecido. Olhou para Ray sem saber o que falar, ou se devia ou não, perguntar sobre isso. Não estava em condições de mais surpresas para aquele dia.

Mas foi pega de surpresa quando ele a puxou e envolveu-a em um abraço. Estavam tão perto agora, que podia sentir seu cheiro adocicado, que percebeu, estava familiarizada com ele.

Ray acariciava seus cabelos em um toque tão íntimo que deixava Faith constrangida. Mesmo quando se beijaram não se sentira tão aberta assim. Naquele momento, sentia as mãos suarem e todo seu corpo ser envidado um calor não amistoso.

—Estou bem, Ray.

Ele a soltou do abraço, mas continuou segurando-a pelos cotovelos. Seus olhos focaram direto nos de Faith, mostrando-lhe que ele realmente se importava com ela. Então, ele deu um passo atrás e ainda aturdido deixou-a sozinha.

Acordou na manhã seguinte com batidas pesadas na porta. O difícil era levantar da cama. Seu corpo inteiro doía e sua cabeça latejava. Mesmo assim, se arrastou e abriu uma fresta, o bastante para ver quem era.

Marie parecia impaciente do outro lado da porta. Estava toda arrumada de uma maneira que Faith jamais vira. Nenhuma peça de roupa preta.

Seus cabelos estavam soltos, com longas madeixes pretas. O rosto sem maquiagem forte a deixava anos mais nova, o que também, lhe deixava muito mais bonita. Suas sardas e seus olhos castanhos claros combinavam muito bem com sua pele branca. Também usava uma blusa rosa e uma saia jeans. Ela estava linda e natural, isso era incrível, mas também muito assustador. Conhecia a amiga há dez anos, e ela nunca (nunca) usara saia.

—Marie?

—Deixe eu entrar.

Faith abriu a porta e a garota entrou apressada, se jogando na cama.

—O que aconteceu com você? Te liguei o dia inteiro e só ia pra caixa postal. Você perdeu minha entrada triunfal ontem.

—Qual o motivo dessa transformação toda?

—Ray.

Faith deixou escapar um suspiro o que não deixou Marie contente. Ela revirou os olhos e começou a falar novamente, ignorando a outra.

—Bom, o que aconteceu é que Joy não é tão vadia como eu pensava. Ela me disse que entre ela e Ray não está acontecendo nada, mas que ela iria me ajudar a conquistar ele. Você acredita? Ela até me emprestou algumas roupas.

—E deu certo?

—Sim! Ontem ele veio falar comigo e disse que eu fiquei muito mais bonita assim. —Ela sorria de orelha a orelha, o que era muito desconfortável para Faith. Desde a noite passada, não conseguia tirar a reação de Ray da mente, e agora, falando sobre ele não estava ajudando. —Estou nas nuvens.

—E o que ele veio te perguntar? —Peguntou Faith, curiosa.

—Se eu sabia onde você estava. Essa parte foi um pouco estranha pra mim, por isso, vim até aqui lhe perguntar uma coisa. —Marie fez uma pausa, que Faith tinha certeza que ela descobrira sobre o beijo, e brigaria com ela, mas ao invés disso, ela disse: — Joy me disse que vocês conversam bastante, então, você poderia falar algumas coisas de mim, não é? Assim, como se não tivesse intenção.

—Ah, claro. —Disse aliviada.

Então a expressão de Marie mudou. Tornou-se séria e preocupada, o que não era comum pra ela. Mesmo tendo um estilo punk, costumava ser bem-humorada e sempre tentando ajudar; mas naquele momento, ela estava totalmente ao contrário.

—Há uma coisa que eu preciso te falar Faith. É sobre Joy. —Uma pausa silenciosa. —Ela e Joan estão namorando.

Era como se um balde de gelo caísse sobre Faith.

—O quê?

—Aí, eu não deveria te contar isso, mas ontem eu estava sentada com Joy no almoço e ela deixou escapar, e não reparou nisso. Eu realmente não acreditei na hora, mas depois eu os vi entrarem juntos no carro. Sinto muito amiga.

Faith sentou-se na beirada da cama tentando assimilar aquilo. “Impossível! Eles se odiavam!” Era tudo que conseguia pensar. Mas aquilo não era problema seu, já que fora ela que terminara tudo. Mesmo assim, estava corroendo por dentro.

—Marie, quero ficar sozinha, pode ser?

A amiga assentiu e foi embora.

Sem consentimento, sentiu uma lágrima escorrer. Não era tristeza ou arrependimento, mas sim, frustração. Fazia apenas uma semana que as coisas estavam agitadas e mudando constantemente, cheio de surpresas, e parecia uma eternidade.

Queria voltar quando sua vida era mais sossegada.


**

Passou a tarde inteira deitada na cama, algumas horas dormindo outras pensando, mas não tinha vontade nenhuma de levantar. Parecia perigoso demais toda vez que saia daquele espaço, e estava tão cansada de ter que sentir medo de coisas que deveriam ser impossíveis.

Lá pela hora do jantar, sua mãe bateu à porta pedindo para descer. Mesmo não querendo, cedeu quando a mãe começou a gritar do andar debaixo.

Enquanto comiam o silêncio reinava sobre o ambiente. Nenhuma tinha vontade de conversa, ainda mais, por terem brigado alguns dias atrás. Faith costumava guardar rancor das pessoas muito fácil.

Depois que terminaram, ela ajudou a mãe a limpar a cozinha e depois, subiu novamente para o quarto.

Já estava quase anoitecendo quando ouviu a mãe chamar novamente o seu nome.

—Joan está lá fora, quer falar com você. Por acaso vocês brigaram?

Então lembrou-se que não havia comentado com a mãe que eles não estavam mais juntos. Isso com certeza a deixaria muito triste.

Passou direto por ela, e foi até a porta onde Joan a esperava. Saiu para a noite, fechando a porta atrás de si. No momento em que seus olhos se encontraram com os dela, Faith sentiu toda sua raiva voltar subitamente.

—Faith.

—O que você quer? —Perguntou ela rispidamente.

—Ah, você sabe. Eu vim até aqui te contar pessoalmente, mas alguém foi mais rápido. Porque está brava comigo? Foi você quem terminou tudo.

—Você a odiava! —Sua voz saiu mais alta do que pretendia, mas não se importou. Estava machucada sim, e não estava ligando se suas razões não eram certas. —De todo mundo, por que logo ela?

Todo o ressentimento que tinha por Joy costumava voltar de tempos e tempos, e lhe dar um tapa na cara.

—Fai, não entendo você. Não me quer e não quer que eu fique com mais ninguém! Por acaso você ainda me ama?

Assim que essas palavras foram ouvidas por Faith, ela não pensou duas vezes e se jogou nos braços de Joan novamente. No momento em que seus lábios se encontraram, parecia uma festa de fogos de artificiosos. Estava tão familiarizada com aquele beijo, que se deliciou dele como sempre costumava fazer.

Joan a puxava para mais perto, uma mão em sua cintura e outra em seu pescoço. Até seu toque era especial. Não era um beijo cálido, mas sim, doce de uma maneira única.

Quando Joan se afastou abruptamente, ficou desnorteada.

—O que isso significa Fai?

Ainda estava aturdida com que havia acontecido, e estava confusa de como responder aquela pergunta.

—Joan, há tanta coisa acontecendo que eu não posso dizer que eu posso voltar pra você. Simplesmente não posso!

—Você tem que decidir o que você quer Fai, não vou te esperar pra sempre.

**

Procurou o número de Ray no celular e apertou para chamar. Não sabia muito bem o porque de fazer isso, mas realmente parecia a única maneira. Do outro lado da linha, ouviu alguém atender, e um som horrivelmente alto no ambiente.

—Alô?

—Onde você está?

—Faith? No Martvez’s

—To indo aí.

Pegou a chave do carro escondida e saiu silenciosamente para que a mãe não percebesse. Depois, dirigiu igual uma louca para o Martvez’s. A única coisa que precisava agora, era de uma boa dose de tequila.

Como era sábado anoite, o lugar estava lotado. Não dava nem para se mexer enquanto passava pela multidão aglomerada na entrada. Então, teve que usar seu tamanho abaixo do normal, para conseguir fazer sua entrada no local.

Lá dentro, foi direto a procura de Ray no bar, mas ele não estava lá. Parecia uma perda de tempo ir procurar por ele naquela multidão, e já que estava ali, resolveu que deveria começar suas lamentações com algo bem forte.

Começou a perder a conta de quantas havia bebido, quando Ray finalmente apareceu. Ele estava do outro lado do bar, servindo, quando olhou para a garota. Ele veio em sua direção, com um ar preocupado e isso aborreceu Faith.

Ela não precisava ser lembrada de nada que estava acontecendo nesses últimos dias, e olhar aquela expressão no rosto de Ray, só lhe trazia lembranças que não queria. Talvez ter ido até ali tenha sido uma má ideia.

Minutos depois, estava do lado de fora, encostada em uma das paredes, fumando. Era uma sensação boa, já que anoite estava mais fria do que percebera a sair de casa. Estava olhando tudo o que acontecia em volta; pessoas bêbadas, prostitutas, adolescentes iguais ela dando risada, tudo de uma só vez. Era estranho observar todos eles, e se perguntar o que eram fora dali. Teria uma vida confusa e sobrenatural, da qual devessem esconder?

Estava perdida em pensamentos quando uma mão gélida tocou seu pescoço. Virou-se abruptamente para ver um homem olhando-a como de modo horripilante. Seu sorriso amarelo apareceu logo em seguida, como se estivesse saboreando a confusão no rosto de Faith.

—Você é realmente muito mais bonita pessoalmente. E tem um cheiro muito mais saboroso do que me falaram.

Faith deu um passo atrás, o que não fora uma boa ideia, pois o estranho percebeu que ela pretendia correr, e segurou seu braço instantaneamente. Era uma força sobrenatural.

—O que é você?

Ele abriu um sorriso ainda mais largo, agora mostrando todos os dentes.

—Eu sou um Wendigo. Mas você me chamar de Moe. Agora, se você ficar quieta, juro que não vou te machucar.

Moe começou a puxar Faith para a outra extremidade, onde ficava os carros estacionados. Ela queria gritar por ajuda, mas sabia que estaria morta antes de qualquer som sair de sua boca. Havia lido algumas histórias sobre Wendigos, mas não conseguia lembrar exatamente o que ele era, só que costumava comer suas vítimas.

Ele a forçou entrar em um carro azul-turquesa, onde foi direto para o banco de trás, e depois, ele sentou no banco do motorista.

—Sabe. Faz anos que provei um da sua espécie, e só de pensar no gosto do seu sangue me dá água na boca. Meus irmãos vão ficar tão contentes.

Isso fez Faith estremecer. Ela precisava sair daquele carro o mais rápido possível. O carro entrava na rodovia agora, que levava à floresta onde aconteciam as caçadas. Era o momento que ela tinha antes de chegarem ao seu destino.

A adrenalina que pulsava em seu corpo era nova pra ela, mas deixou que tomasse completo controle. A única coisa que conseguia pensar era em pular para fora do carro, mas isso era muito arriscado, mesmo assim, era o que deveria ser feito.

Rezou para que a porta não estivesse trancada, e puxou o trinco. Felizmente, ela estava certa. No momento em que Moe percebeu o que ela iria fazer, fora tarde demais. A garota tomou um impulso e se jogou para fora do carro.

O impulso com que bateu no chão, a fez rodopiar e jogar-lhe morro abaixo. Rolava pela terra fofa, sem nenhum controle do seu corpo, até que bateu com tudo na água gelada. O único problema, é que não sabia nadar.

Não conseguia também sentir seu braço esquerdo, por causa da dor que sentia, o que deixou tudo ainda mais difícil, mas tentava a todo custo deixar a cabeça fora d'água para sugar todo o ar que conseguisse.

Batendo as pernas com toda força e o braço direto, começou a deslocar-se para a beirada, até que conseguiu segurar um galho de uma árvore caída e arrastar-se até a margem. Assim, depois fora d'água, deixou que seu corpo caísse na terra, cansado e todo dolorido.

Lágrimas caiam pelo seu rosto, e Faith não tinha forças nem para enxugá-las. Parecia que morreria de qualquer jeito, mesmo depois de todo o trabalho que teve.

Então, a imagem de Claire veio em sua mente. Ela havia dito algo sobre pensar no Campus, mas não conseguia se lembrar do que ela estava falando.

Porém, ela começou a se lembrar daquele lugar esplêndido, que mais parecia um sonho. Lembrou-se das grandes árvores que tanto lhe chamaram a atenção, as casas rústicas, os equipamentos de treinamento, e por último, se lembrou de Claire. Subconscientemente pedia sua ajuda; havia sentido algo sobre ela da qual lhe dava confiança, e naquele momento, queria poder lhe ver novamente.

Minutos antes de desmaiar, a única coisa que viu, foram grandes olhos verdes lhe encarando, então tudo escureceu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.