Descendente
3 Capítulo 2
Era o único dia na semana que não tinha aula com Ray e estava aliviada por isso. Ambos se encontraram no refeitório, mas ninguém tocou no assunto da noite passada o que indicava que não tinha sido nada demais. Faith estava feliz com isso, não queria nada sério com ninguém, nem indicar que viraria uma perseguidora apaixonada por ele.
O pior ainda, não queria que ninguém soubesse. Seria ruim demais se Joan soubesse que ela estava dentro de um carro beijando outra pessoa, no mesmo dia em que terminara tudo com ele; segundo, porquê a paixonite de Marie não parecia ser passageira. Tudo que ela conseguia falar, era em como Ray era lindo e maravilhoso.
Sabia que uma hora teria que conversar com a amiga sobre isso, mas por enquanto queria deixar as coisas bem escondidas.
Notou um brilho prateado do outro lado do refeitório, que lhe cegou por alguns segundos. O que lhe deixou desfocada era o fato de vir do que parecia uma faca. Estava na mão de um garoto do primeiro ano, que a segurava com as mãos trêmulas. Por instinto, Faith continuou olhando para ver o que aconteceria.
O garoto parecia deslocar-se devagar, para a mesa ao lado. Então, a garota percebeu o que viria a seguir. Suas pernas se mexeram antes mesmo de perceber o que estava fazendo. Correu em direção a ele o mais rápido possível.
Ele não a percebeu se aproximar, e agora de perto, podia perceber que a faca lhe lembrava muito uma adaga. Faith segurou a mão dele, com toda sua força, fazendo com que ele virasse o rosto em sua direção. Ele parecia mais apavorado do que determinado.
—Por favor, faça parar. —Ele choramingou baixinho.
Seu braço continuava tentando se libertar, conseguindo rapidamente. Faith pensou que estava imaginando aquilo, mas o braço não parecia ser controlado pelo garoto. Ficou sem reação enquanto ele continuava avançando até onde um dos garotos do time de futebol estava e lhe cortou a garganta com a adaga.
Depois disso tudo foi um alvoroço. As pessoas gritavam e corriam, o garoto estava chorando falando que não era culpa dele. E Faith continuava paralisada no mesmo lugar.
Então, sentiu alguém segurar seu braço e lhe puxar para fora do pavilhão do refeitório; Era Ray.
—Você está bem? —Ele perguntou, sua voz estava mais doce e calma, com um tom de preocupação.
—Eu não sei. —Sua voz mais parecia um sussurro. Como ela poderia ter visto a faca daquela distância, e ainda mais, acreditava naquele garoto. Ela realmente estava acreditando que ele não queria fazer isso.
—Vem, vou te levar embora.
—Não, eu vou ficar. Preciso fazer uma coisa.
Não deu tempo pra Ray falar algo, porque ela já corria em direção a enfermaria.
Era incrível o porquê de não haver ninguém na enfermaria, além de Ganson, o garoto que havia sido esfaqueado. Ele estava sentado em uma maca, onde olhava incrédulo para cima. O corte na garganta, parecia ter sido superficial, o que não chegara a lhe causar nenhum dano.
Faith se aproximou devagar, tentando ter uma visão melhor do seu machucado, mas infelizmente ele já estava de curativo. Ganson então, percebeu que ela estava ali e lhe deu um sorriso torto, como se mostrasse que era mais forte do que aquele machucadinho.
—Posso te fazer uma pergunta? —Ela tentou soar o mais delicado e amigável possível.
Ele apontou para a própria garganta, como se dissesse que não poderia falar.
—Por que aquele garoto tentou te machucar?
Dava pra ver que o rosto do grandalhão se contorcia em uma careta de raiva e dor. Ele balançou a cabeça negativamente. E depois, apontou o dedo em direção a ela. Ficou em dúvida se ele estava tentando lhe dizer que a culpa era dela.
Logo em seguida Faith foi a procura do outro garoto, mas ele não estava em lugar algum. A secretária e a diretoria estavam vazias. Era tão estranho porque normalmente ele estaria sendo punido ou esperando os pais o buscar, mas não. Ali não havia ninguém.
As pessoas ficaram tão atordoadas que as aulas foram canceladas o resto do dia. Não queria ter que ir pra casa e ficar ouvindo os próprios pensamentos, então, foi ao único lugar que era o mais improvável.
O Martvez’s estava vazio quando Faith chegou. Era estranho ver aquele lugar assim, sem ninguém dançando ou bebendo. Um dos bartender olhou pra ela surpreso, mas logo se recompôs e lhe ofereceu uma bebida.
—Vodca, pura. —Precisa de algo que a fizesse parar de pensar, de remoer algo que não era da sua conta. —E, será que você poderia pôr algo pra tocar, bem alto?
Ele assentiu, deixando Faith sozinha enquanto ia do outro lado do ambiente.
Esperava que a música não lhe deixasse ouvir seus pensamentos, mas isso não aconteceu. Quanto mais tentava não pensar, pior era. Estava tão absorta em deixar sua curiosidade de lado, em não se meter nos assuntos alheios, que não percebeu que Ray havia sentado ao seu lado, vestido de uma maneira muito engraçada.
—Oh meu Deus. —Faith engasgou-se com a vodca, não sabendo se ria ou tossia.
Ele estava irreconhecível, com um macacão de mecânico azul cheio de graxa, uma boina da mesma cor e óculos escuros. Faith havia assistido alguns filmes com sua mãe onde havia um stripper, e ela sabia reconhecer um quando via.
—Continuo irresistível como sempre. —Ray tentava manter-se sério, mas ela podia ver o esforço que estava fazendo para não rir. —O garoto que fica encarregado disso não pode vir, então, eles perceberam o quão gato eu sou, e me pediram para substitui-lo.
—Cheguei na hora certa então.
Ela sorriu, e olhou para o copo vazio. Já sentia uma leve tontura, mas estava começando a gostar dos efeitos que o álcool lhe trazia. Como se tudo que ela fosse aos poucos, entrava em desfoco.
—Qual é o problema? —Ray perguntou.
Ela não sabia exatamente como dizer pra ele que sentia que algo estava errado. Agora que estava mais solta de si, podia lembrar a sensação que sentira ao tocar no braço daquele garoto. Parecia uma luta entre a luz e as trevas, uma sensação gélida na espinha.
Será que fora tudo imaginação, que estava mentindo pra si mesma? Então, por quê não conseguia parar de pensar nisso?
—Eu queria poder saber.
Ray havia feito ela prometer que iria embora antes de seu show começar, e mesmo odiando isso, ela obedeceu. Sentia-se leve por ele não ter comentado sobre o dia anterior ou deixado as coisas constrangedoras; as invés disso, ele parecia muito mais transparente com ela.
Estava deitada no quarto olhando pro teto, tentando encontrar um pouco de inspiração para escrever. Quando não conseguia fazer a mente se calar, costumava escrever poesias, porém, a única coisa que conseguira fora um pequeno trecho.
“Não há paz, sem guerra.
Não há amor, sem o outro.
Não há trevas, sem a luz.
Enquanto existir um Descendente
O Imortal retornará
para eternidade permanecente.”
Depois de alguns minutos, desistiu e saiu do quarto. Todas as luzes estavam apagadas, com exceção da que vinha da televisão. Sua mãe estava dormindo profundamente, que não vira Faith passar por ela, e desligar a TV. Era estranho vê-la assim, tão silenciosa e vulnerável, sempre costumara pensar nela como uma pessoa temerosa e imponente.
Abriu a porta silenciosamente e saiu, sentando-se na escada da varanda, observando as estrelas. Era uma das coisas que a deixava maravilhada, e com o tempo, aprendera a compartilhar com Joan.
Era estranho pensar nele, como alguém que não era mais nada seu. Nem um amor, nem um amigo.
Naquele momento, desejou voltar no tempo e mudar as coisas. Não darem o primeiro beijo assistindo aquele filme horrível do É o Fim. Não ter aceitado o pedido de namoro; não ter perdido a virgindade com ele; não ter feito planos para um futuro tão incerto.
Poderiam ter sido só amigos, e agora, ela ainda teria o melhor amigo de volta, assim, não se sentiria tão sozinha.
Pensou em correr até a casa dele e dizer o quanto sentia sua falta, ou pelo menos, lhe dar um telefonema; mas nada disso parecia uma boa ideia.
Mas logo esqueceu quando viu parado na calçada o garoto do primeiro ano. Ele usava as mesmas roupas, e seus olhos, mesmo no escuro, estavam vermelhos e inchados. Seus cabelos louros deixavam sua pele tão pálida e sem vida, que Faith estava assustada.
Mesmo contra todos seus instintos, ela correu até ele. Para sua surpresa, um sorriso fino formou-se em seus lábios, mas, era tão irônico que arrepiava-lhe o corpo inteiro.
—Você se saiu bem hoje, estava em dúvida se viver como uma mortal todos esses anos lhe afetaria.
Faith deu um passo para trás. Desejava poder correr, mas seu corpo sempre reagia de forma contrária, fazendo-a ficar pregada ali.
—Do que você está falando? —Gaguejou. Costumava ser mais corajosa que isso, mas aquele garoto lhe causava espasmos.
—Ah Faith, você vai descobrir. Confio em você.
Então, sentiu-se ligeiramente tonta, com uma sensação de que estava em queda livre. Sentiu novamente aquela confusão, uma luta por dentro, como se algo quisesse sair.
Ela estava de volta, em uma sala onde os blocos das paredes começaram a se separar e a luz novamente apareceu. Porém dessa vez, ela estava mais fraca e amarelada, que quando a escuridão veio, ela não teve nenhuma chance. Era fraca demais.
O choque veio em seguida, e Faith acordou subitamente. Seus cabelos emaranhados estavam molhados pelo suor, assim como seu pijama. Lembrava-se da noite passada como um vislumbre de um sonho, do qual não sabia se fora real ou não.
Tomou banho e se arrumou, não se importando de olhar no espelho. Estava tão atordoada que ao menos pensar em se arrumar, parecia algo muito distante.
Sua mãe a esperava novamente na cozinha, mas desta vez, totalmente arrumada.
—Ei, espere um pouco. —Ela gritou, enquanto a garota passava direto por ela, como se estivesse fugindo. —Vou ir até a Cidade, então, só vou voltar anoite. Não espere acordada.
—O que vai fazer lá?
—Não é da sua conta. —Gritou Agnes da porta, enquanto vestia sua jaqueta.
Faith olhou para a mãe e percebeu o quão bonita e nova ela era, e não entendia o porquê de nunca ter se casado novamente. Ela nunca comentava sobre o pai da garota, e fugia do assunto sempre que podia. Costumava brincar, falando que havia “roubado” Faith, por isso que ela não conhecia o pai.
Encontrou as amigas no segundo período. Marie continuava obcecada por Ray, o que começava a irritar Faith. Lola por outro lado estava nervosíssima com a prova de Geometria. Ela sonhava acordada em passar em uma Faculdade de Medicina, e cada A+ que ela tirava, a deixava mais próxima de seu sonho.
—Gente, porquê será que ninguém tá comentando sobre o que aconteceu ontem? —Faith vinha se perguntando isso, desde o primeiro período, onde não havia nenhum cochicho que indicasse que as pessoas estavam comentando sobre o ocorrido do dia anterior. O que era muito estranho se tratando de uma cidade tão pequena.
—Do que você está falando? —Perguntou Marie, que parecia finalmente ter se interessado por algo do qual não era Ray.
—Vocês estão brincando, não é?
—Você que está, Fai. Não aconteceu nada ontem, a não ser Joy sendo uma piranha como sempre, e se jogando pra cima do Ray.
Faith sentiu um mal-estar. Ela se lembrava perfeitamente do dia anterior, então, como Marie e Lola não? Estaria realmente enlouquecendo?
Sem se despedir, correu até a porta mais próxima do jardim e puxou um tanto de ar, até seus pulmões enxerem. Procurou por algum cigarro na bolsa, e por sua felicidade, encontrou um. Enquanto se deliciava com aquele gosto horrível, tentava encontrar uma saída daquele sonho inacabável. Até que o impensável se tornou coerente. Talvez, ela não estivesse sonhando com a noite anterior. Fora tudo verdade.
—Posso ir com você para o Martvez’s hoje? —De todas as pessoas que conhecia, a única que realmente queria ficar perto era Ray. Não era nada romântico que sentia por ele, ou mesmo sequer amizade. Mas, era algo diferente, como se, se conhecessem a muitos anos e estivessem acostumados com a companhia um do outro.
—Por quê?
—Minha mãe vai ficar o dia inteiro fora, e não quero ficar sozinha.
—Então vamos pra sua casa. —Ray mantinha os olhos na professora, mas depois de cada frase soltava um sorriso malicioso.
—Nem pensar. Somos dois adolescentes com hormônios. Prefiro ficar em lugares públicos com você.
—Como se isso adiantasse algo. —Ele sorriu mais uma vez, e depois olhou diretamente pra Faith. —Desculpa, mas hoje não vou trabalhar. Tenho um encontro.
Não era que sentisse ciúmes dele, mas ela estava tão acostumada em lhe pedir favores e ele ajudar, que ouvir um quase não, lhe deixou enjoada.
Quando o sinal tocou, ela esperou Ray levantar-se primeiro, e ficou olhando ele sair, que para sua surpresa, fora com Joy.
Agora sem Ray, Faith estava perdida. Não queria chamar as amigas para ficar com ela, porquê não estava com humor para ouvi-las falar sobre faculdades, garotos e coisas assim. Já estava pirada com os próprios problemas.
Resolvera que a melhor saída era ligar a TV no último volume, pegar um cobertor e um balde de pipoca, e se aconchegar no sofá. Parecia uma eternidade desde que fizera isso pela última vez. Escolheu um filme aleatório e começou assistir.
Já passava das dez, quando o filme terminou. Faith começava a sentir-se preocupada e amedrontada da mãe não chegar logo. Foi então, que a campainha tocou.
De súbito levou um susto, depois, disse a si mesma que não atenderia; então, quando tocou pela segunda vez, correu até a porta.
Não esperava que ver Lola tão tarde da noite, parada em sua porta da frente. Ela estava com uma aparência horrível, estivera chorando, com o rosto inchado e os lábios trêmulos.
—Lola? O que aconteceu?
A amiga se jogou em seus braços, e a abraçou forte. Enquanto ouvia Lola soluçar, chorando desesperadamente, puxou a garota pra dentro, e a levou até o sofá. Depois, buscou um copo de água com açúcar, tentando acalmá-la.
—Eu estou desesperada Fai, acho que vou morrer. —Ela deu um longo suspiro, tentando controlar o choro. —Estou grávida.
Faith reagiu da maneira esperada, arregalou os olhos e fez um som com a boca, indicando susto. Lola era a última pessoa que achava que isso não aconteceria. Ela era certinha e muito centrada, sempre falando de faculdades e notas boas, além de seus pais serem muito religiosos.
—Meus pais vão me matar! E o pior de tudo não vou poder fazer faculdade. O que eu faço Faith?!
—Oh meu Deus! Calma! Quem é o pai? Você já contou pra ele?
—Sim, e ele agiu de uma maneira horrivelmente calma. Disse que vai me amparar e ficar ao meu lado. Mas, eu não sei como reagir a tudo isso.
Faith percebeu que ela fizera questão em não mencionar quem era o pai, o que era estranho, já que elas não costumavam ter segredos.
—Lola, você precisa contar aos seus pais. Se eles não aceitarem, a gente dá um jeito. Eu vou te apoiar da maneira que eu puder.
Lola apertou forte a mão da outra, e respirou profundamente. Faith imaginou a confusão de emoções das quais ela deveria estar sentindo, e sentiu-se muito mal. Era tão incerto aquele futuro, e ela sabia, que agora tudo mudaria.
Depois, Lola avisou os pais que ficaria na casa de Faith, e ambas subiram pro quarto e ficaram conversando até dormirem. Era estranho pensar que algo tão normal e corriqueiro, se tornaria algo tão distante.
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