Descendência - volume um - Alice

1 Capítulo um: Á ruiva heterocromática


No ano de 1980 eu e minha mãe fomos morar com vovó, após meu pai ter-nos colocado para fora, para abrigar sua amante quarentona de lábios rubros e unhas rosa chiclete.

A residência dos Jhonson’s na rua do rosário tinha uma cerca que um dia fora branca e trazia algumas estacas soltas, um “jardim” composto de mato, ervas daninhas e capim seco.

Lembro-me da sua expressão quando chegamos com as malas nas mãos, olhando em volta como se temesse que alguém nos visse, fez sinal para que entrássemos rapidamente e trancou a porta as nossas costas.

— Graças a Deus seu pai não viveu o suficiente para ter um desgosto desses! – apontou o dedo para mamãe – Isso foi culpa sua desde o principio! Se você tivesse se casado com o jovem Joseph não seria uma divorciada!

E assim começou nossa nova vida, com mamãe sendo constantemente humilhada e servindo de escrava para aquela carola asquerosa; quanto a mim, foram designadas as tarefas braçais (para as quais meu corpo franzino não estava preparado) de forma que fui obrigado no primeiro dia a consertar a cerca e pintá-la, arrancar todo mato e plantar grama nova.

Regras para uma “boa convivência familiar”:

1º Frequentar a igreja católica aos domingos;

2º Acordar as sete;

3º Almoço meio-dia;

4º Jantar às dezenove horas;

5º Vinte e uma horas as luzes eram apagadas;

6º Metade dos salários deveriam lhe ser entregues para auxiliar nas contas.

No ultimo caso, mamãe intercedeu por mim, pois eu estava em vias de me formar e precisava estudar para enfrentar a faculdade em setembro, claro, que isso deixou a velha de cabelo em pé, já que achava as universidades antros “de ateísmo e homossexualismo” (primeiro: não fiquem alvoroçados por eu ter usado o termo “homossexualismo”, ninguém via a homossexualidade de forma tão natural quanto hoje, isso era considerado uma doença. Se você fosse gay, se não te internassem, te tratavam como se fosse uma aberração, pois você queimaria no inferno por livre e espontânea vontade) para convencê-la mamãe jurou que a universidade era católica e que sem estudo eu não ia muito longe profissionalmente.

Nenhuma das minhas noites de estudo preguiçoso e masturbação com as meias e calcinhas de mamãe, (é, eu fiz isso e muito mais, como vão descobrir, por muito tempo e com frequência já que era a única mulher que poderia chegar perto nas atuais circunstâncias) merecem ser mencionadas, na verdade, estou relatando tudo isso para desabafar com estranhos, pois mortos também sofrem de formas inexplicáveis.

No final da rua havia um casarão muito velho e mal conservado, mamãe dizia estar abandonado há pelo menos trinta anos. Em uma noite preguiçosa enquanto vovó papeava na casa de um vizinho entramos nesse assunto, ela deitou sua cabeça no meu colo e me contou o que se lembrava dos antigos moradores.

“O senhor Burdwell era um homem alto de olhar severo, porém de coração bondoso, ele e sua esposa dedicavam a vida a ajudar os pobres e inválidos, acolhendo-os em sua casa os alimentando e cuidando até que tivessem condições de retomarem suas próprias vidas.

Os Burdwell tinham filhas gêmeas de cabelos ruivos e cacheados, e olhos esquisitos: um verde e um azul. Lembro-me delas correndo livremente pela rua, brincando com as outras crianças, também me lembro do dia em que uma delas Sierra, acho, aproximou-se da cerca fixou os olhos em mim e perguntou ‘porque não sai e brinca conosco?’, fiquei apavorada com a hipótese de seu avô me ver conversando com uma das garotas dos ‘olhos do demônio’, então corri para dentro de casa.

Fiquei fascinada pela garota por dias, mas não tinha coragem de desobedecer meu pai, então eu a vigiava da janela do meu quarto, acho que ela sabia que eu a observada, pois sempre acenava na minha direção. Certo dia brincaram a tarde toda na frente de casa, mas naquele em específico, Sierra ficou sentada na calçada dos Wilson's lendo, desviando-se para mim poucas vezes, até que a deslumbrante senhora Burdwell as chamou para o jantar, a gêmea que estava brincando na rua correu para casa, enquanto a outra encaminhou calmamente até a minha e colocou um pedacinho de papel na nossa caixa de correio, fitou-me uma ultima vez, e correu para casa.

Depois que as Gêmeas se foram, o grupo de crianças se dispersou, provavelmente para ir à igreja (no dia em questão, não iria por estar com sarampo), enquanto eu estava louca de vontade para descer para descobrir o que aquela garota colocara no correio. Mamãe abriu uma fresta da porta e deixou outro pinico, outra jarra de água, e me avisou que os armários e as geladeiras estavam trancados para que eu não quebrasse o jejum.

Escutei sua avó passando a chave na minha porta como fazia toda vez que eu precisava ficar sozinha em casa, deprimida por ter consciência que meu pai pegaria o bilhete antes de mim e viria me punir por falar com as crianças daquela família. Deitei em silêncio, deprimida e com muita fome, (jejuava fazia três dias) mesmo assim eu não melhorava, não sabia o que eu fizera de tão ruim para que Deus não se apiedar de mim.

Ventava muito aquela noite, agradeci por meu quarto estar bem fechado para evitar o contágio de terceiros, embora ficar completamente trancada me perturbava.

Sem motivo maior a janela escancarou-se, encolhi-me de baixo das cobertas de pavor, o vento inundou o local renovando-lhe o ar e trazendo consigo o bilhete que escapara da caixinha, deixando-o na ponta da minha cama, notei que assim que o toquei o vento se acalmou.

Assustei-me com aquilo, amassei o bilhete e o arremessei no canto do quarto. Eu rezei, pedindo perdão por desobedecer a mamãe e por almejar a amizade daquelas jovens que me eram proibidas. Não tem ideia da paz que senti ao terminar de fazê-lo, estava tudo bem, pois Deus estava ali.

Fechei a janela deixando o ar parado, deitei novamente na cama decidida a ignorar o bilhete, pois o meu Senhor deixara claro que me amava, então eu não devia desejar ler nada além da bíblia. Fui ficando mole, o sono me fazia carinho e apaziguando meu estômago, quando o vidro da janela explodiu permitindo o vento (que voltara a castigar as árvores ) invadir derrubando souvenires, o pinico cheio no chão, e o bilhete largado no canto voou na minha direção acertando-me em cheio na têmpora esquerda, segurei a bolinha e a lancei pela janela quebrada, mas ela voou de volta atingindo-me novamente com força. Entreguei-me, era melhor abrir, devia ser um sinal divino, Deus queria que eu lesse o bilhete, tanto que a ventania começou a diminuir, abri o papel em busca de consolo, mas nele só havia duas palavras que pouco me fizeram sentido.

‘Beba água’- li em voz alta

Fiquei decepcionada, esperava mais! Só não sabia o que... Olhei para o quarto cheio de pó, vidro, urina e folhas, suspirei sabendo que seria castigada assim que meus pais vissem aquilo, desviei da urina, a garganta estava seca, tudo o que queria um copo d’água. O primeiro gole desceu gelado e refrescante, uma sensação de alivio se espalhou por mim, já não sentia tanta fome nem tanto frio, depois o copo começou a esquentar, não quente em temperatura ambiente, e sim fervendo, acabei soltando o copo produzindo cacos.

Irritada com todos aqueles estranhos eventos fechei os olhos para conter as lágrimas, e quando os abri o quarto estava limpo! Acho que foi o que mais me assustou (hoje entendo que devo ter delirado pela febre) tanto que me escondi de baixo das cobertas.

Umas três horas da manhã fui acordada, já sem frio, fome ou sinal das erupções vermelhas da pele, a rua estava lotada de vizinhos curiosos, os paramédicos corriam para dentro do casarão, não dei muita importância na época, pois pouco sabia sobre a morte nem quanto ela poderia devastar uma comunidade.

Voltei para cama para ser acordada horas depois, sem resquícios da doença, para me arrumar e irmos a um velório.

O senhor Burdwell tivera um mal súbito durante a noite e sua boa mulher católica implorou ao padre para convocar todos os paroquianos ao velório para que rezássemos por sua alma pagã. Achei estranhíssimo os meus pais irem a esse velório já que não gostavam daquela família por conta das diferenças religiosas, mas sua avó teve a boa vontade de me fornecer essa resposta enquanto estávamos a caminho da igreja.

Acontece que o padre viera pessoalmente falar com papai de forma que ele não poderia recusar sem cair no conceito do clérigo, ainda sim, o fazia de má vontade, tanto que fui instruída a não aceitar qualquer coisa que oferecessem-me, nem deveria tocar ou falar com as gêmeas.

Foi uma cerimônia triste, provavelmente o bairro todo fora prestar as ultimas homenagens aquele bom homem, mesmo que a maioria tivesse deixado a religião após obterem sucesso financeiro – outro fato estranha: todos que se aproximavam daquela família tinham uma sorte tremenda, exceto os próprios Burdwell, aliás, que pessoas azaradas!

Apesar da sua benevolência, eles tinham muitos problemas financeiros, mal ganhavam para comer, principalmente, porque se esforçavam realmente para ajudar todos a quem acolhiam, as vezes até monetariamente.

Os ajudados quase nunca devolviam o que emprestaram, mesmo que TODOS, sem exceção, viessem a beirar o enriquecimento após certo tempo na companhia dos Burdwell, e estes, por sua vez, jamais cobravam as dividas.

No final do velório a casa funerária recolheu o caixão para levá-lo ao crematório, as pessoas foram cumprimentar a família a maioria aos prantos (os seus avós ficaram para trás intencionalmente), a mãe e a irmã de Sierra choravam muito, (senti muita pena de ambas) mas a garota em si parecia não sentir nada, ignorava a solidariedade que prontamente lhe ofereciam, mantendo seus olhos vagos. Quando finalmente chegou a nossa vez, meus pais pareciam nervosos, porém firmes em suas decisões de se limitarem a cumprimenta-las com acenos de cabeça e foi o que fizeram, eu murmurei um ‘sinto muito’ e já ia me retirar quando senti bracinhos fortes me envolverem.

Demorei alguns segundos antes de me dar conta de que uma das gêmeas abraçara-me com força, paralisada de horror, medo e surpresa virei meus olhos para mamãe que parecia tão chocada quanto eu, a mãe e a irmã da garota, a expressão de papai era sinistra.

— Solte-a, ela estava com sarampo até ontem... — a garota de afastou devagarinho e encarou meu pai de forma petulante.

Muito dura os segui calada, lamentando o ocorrido, pois apesar de muito jovem eu tinha conhecimento que aquela expressão prometia a punição mais severa, mas eu não esperava por aquilo...

Quando chegamos em casa, fui levada ao sótão, mamãe mandou que me despisse, enquanto espalhava milho no chão; ajoelhei-me sentindo a ponta do milho perfurar a pele fina dos meus joelhos, quando seu avó chegou trazendo um chicote de couro. Fiquei assustado, pois ele nunca me aplicara uma punição daquela forma, mas, para a minha surpresa, ele entregou-me o objeto com um rosário, tomando cuidado para não tocar-me.

— Peça perdão a Deus! Cada conta desse rosário será uma chicotada que aplicará em si mesma, se diminuir a força você fará tudo de novo. Comece...

Então eles sentaram na minha frente deram-se as mãos (‘a dor purga os pecados’) e olharam enquanto me autoflagelava, isso durou a noite inteira, depois mamãe levou-me para o quarto, me deitou de bruços e colocou sal nas feridas.

O que sobrou da família Burdwell mudou-se na semana que se seguiu e a casa nunca foi colocada à venda.”

Quando mamãe terminou o relato, estava pálida, parecia perdida e frágil demais para uma mulher que conviveu com um bêbado adultero por dezessete anos. Naquele momento entendi o porquê dela suportar o porco asqueroso do marido, meu avô conseguia fazer meu pai parecer um gentleman. Pergunto-me até hoje se ela não se casara com ele para fugir de casa.

Toquei sua face rosada, jovem demais para a sua idade, fitei aqueles enormes olhos cor de mel, ela retribuiu meu olhar com a mesma intensidade, abaixei meu rosto devagarinho, desejando diminuir aquela distância opressora, meu coração disparou ao ver que ela também queria aquilo, então ouvimos o portão abrir, mamãe se sentou muito dura olhando para as próprias mãos, olhei para baixou e amaldiçoei meus hormônios, tratando de deixar o cômodo antes que a velha adentrasse o local.

Sim caro leitor, eu quase beijara minha mãe, acho importante frisar que esse relato não está dotado de pudores morais, as coisas vão piorar e muito, então se tiver estômago fraco, creio que é melhor parar por aqui, e você, jovem excitado que está achando que essa é uma história erótica muito se engana. Sim, fui um depravado durante uma parte dela, e sim, minhas atitudes influenciaram negativamente meu futuro, mas mesmo que não as tomasse essa história não seria diferente.

Nos dias que se seguiram, mamãe fez questão de me evitar. Sabe, tudo isso me deixou muito frustrado, pois na época eu não entendia as implicações morais de tudo aquilo para ela, não que eu não tivesse consciência que era errado, eu sei que era, mas convenci a mim mesmo, que se eu a amava estava tudo bem a querer de todas as formas, principalmente fisicamente.

“Ora, ora... Você não era um jovem católico?” vocês devem se perguntar.

Bom, eu era um jovem católico e ateu... Bom, deixe-me explicar esse aspecto antes que vocês se confundam demais. Desde muito jovem lembro-me de ser levado à igreja, onde fui ensinado sobre Deus, anjos, demônios, céu, inferno, Jesus Cristo, homens bons e virgens que apareciam grávidas, também entendi que Deus era poderosíssimo, que, se necessário mandaria dilúvios, pragas e tudo que tivesse em seu arsenal antes de nos mandar para o inferno se não seguíssemos a bíblia.

Levantávamos cedo aos domingos, nos arrumávamos bem, comíamos rapidinho enquanto meu pai assistia ao jornal matinal, depois íamos à igreja como uma família feliz, rezávamos por nossas almas imortais e por fim íamos almoçar em qualquer lugar diferente. Gostava muito dos domingos quando era criança, era o único dia da semana que meu pai não brigava ou bebia, até nos tratava bem, acho que mamãe também gostava.

Nossa antiga casa era muito pequena, a cozinha dividia espaço com a lavanderia, na sala cabia o sofá de três lugares e a televisão, havia um quarto e um pequeno quintal. Durante a semana meu pai acordava e ia para seu emprego de meio período dando as caras em casa de madrugada, sempre muito bêbado, tombavam desacordado na cama até despertador tocar no outro dia. Minha mãe também acordava cedo, me vestia para ir à aula e ia para o próprio trabalho, essa voltava para casa às cinco da tarde, para limpar, cozinhar, me ajudar com os deveres de casa e outras coisas que as mães costumavam fazer.

Eu tinha um amiguinho na igreja, ele era coroinha, os pais dele gostavam da nossa amizade, tanto é que eu tinha permissão de dormir em sua casa uma vez por mês, nessas divertidas ocasiões brincávamos com nossos carrinhos, enquanto ele me contava que gostaria muito de ser padre, que Deus lhe sussurrava que aquele era seu caminho. Sempre achei bonito o jeito que falava, embora pouco entendesse aos meus onze anos.

Nossa, por que comecei a contar essas coisas mesmo? Ah sim, estava querendo explicar como virei um católico ateu.

Aquele domingo foi sem duvida o melhor, meu pai nos levou para comer em um restaurante italiano, com uma torta de chocolate com morangos que duvido ter provado igual depois, naquele mesmo dia também iria dormir na casa do meu amiguinho coroinha, que parecia muito estranho durante a missa, mas já que eu perdera meu ultimo dente de leite, havíamos combinado ficar noite toda acordados para pegar a fada dos dentes. Aquela era a ocasião perfeita, pois os pais do garoto não estariam em casa aquela noite, e a adulta responsável por nós era sua velha bisavó que passava a maior parte do tempo dormindo, de forma que não seriamos atrapalhados.

Arrumei a mochila, minha mãe tinha me deixado ir sozinho, pediu só que eu tomasse cuidado ao atravessar a rua, fui andando muito atento, pois queria provar que era um jovem digno da confiança que me fora depositada, trazia o dente dentro de um guardanapo dobrado, apertado na mão.

Entrei animado, a velha bisavó dormia profundamente na sala, ri baixinho, o plano ia bem, subi as escadas devagarinho, afim de pregar um susto no menino, quando ouvi soluços estranhos vindos do quarto do meu amigo. Diminui o ritmo evitando fazer barulho, para entender melhor o que se passava, escutei um choro baixinho.

— Por favor, padre! Deixe-me ir, eu não quero fazer isso novamente! — era a voz do meu amigo.

— Você vai fazer e não vai contar para ninguém, garoto profano! O que é a sua vontade comparada a minha, um mensageiro do Senhor! Comece imediatamente, antes que aquela mulher venha ver o que estamos fazendo.

Então tudo ficou quieto por alguns instantes, antes de começarem os gemidos. Assustei-me, então fui me abaixando para olhar pela fechadura a tempo de deparar-me com meu bom amigo coroinha com a boca no pênis do padre...

— Por que está parado ai menino? — a velha bisavó encontrava-se atrás de mim — O que houve? Você está branco como cera!

Os gemidos no quarto tinham cessado, "eles nos ouviram" pensei, passos rápidos foram na direção da porta, e um padre sorridente a abriu, projetando seu corpo para que bloqueasse a imagem do garoto.

O desespero que me acometeu foi tão grande que esbarrei na senhora, quase derrubando-a, quando desatei a correr, só queria abrir a maior distância entre mim e aquele homem porco. E assim na minha jovem cabeça Deus começara a parecer um monstro, pois seus eleitos violavam crianças... (espere, não foi só por esse motivo) Lembro-me de não sentir cansaço enquanto corria para casa, parando para espiar por cima do ombro algumas vezes, entrei em casa passei a chave na porta, fui para o quarto e me escondi de baixo da cama, como fazia sempre que sentia medo de algo, chorei, chorei até as lágrimas fazerem meus olhos arderem, chorei pelo meu amigo que passava por aquilo, chorei pela velha senhora que não fazia ideia do que estava acontecendo com o neto e principalmente, chorei por mim, pois algo se rachara na minha cabeça e muito me doía.

Acabei dormindo embaixo da cama por um tempo, mas não foi um sono tranquilo, hora sim hora não eu despertava de sonhos perturbadores, em uma dessas vezes ouvi meu pai chegando bêbado como sempre, estranhei "ele não bebe aos domingos", escutei quando tombou na cama, mas ele não estava só, risadinhas histéricas encheram o ambiente.

— Você gosta disso não querida? — sua voz embargada sussurrava.

— Adoro! Rápido tire as calças! — ouvi a voz de uma estranha, que vim a descobrir anos depois ser de Dafne, a amante.

Fiquei paralisado, aquilo era demais para qualquer ser humano, onde estava mamãe para impedir aquilo? A cama de casal ao lado da minha rangia muito, aquele chiado enlouquecia-me, tampei com força os dois ouvidos, eu não queria ouvir, não queria pensar, não queria estar ali, eu não DEVIA estar ali.

Foi uma noite horrível, pois eu não dormira mais, o pó e a friagem do chão ameaçava minha frágil saúde infantil, e sua dureza deixava meus músculos tensos, ainda sim, não me atrevia a deixar meu posto. Sei que entre quatro ou cinco da manhã, vi os pés da mulher deslizarem para fora do quarto e não voltarem mais, as seis o despertador tocou, como de costume meu pai calçou as botas e saiu, provavelmente para trabalhar, e não voltou mais, pela luminosidade que passava pela cortina da janela devia ser oito ou oito e meia talvez, não tinha certeza, no momento que rolei para fora.

Sai do quarto devagarinho, vi mamãe sentada na sala olhando fixamente para a televisão desligada, aquele era o mesmo olhar que vi após seu relato (aquele da cena anterior, caso vocês fiquem confusos), aproximei-me de mansinho.

— Mamãe? — aquilo não era mais que um sibilo, mas foi suficiente para sobressaltá-la.

Quando nossos olhares se encontraram foi uma troca de energia tão forte que eu tive a certeza que ela sabia o que tinha acontecido, e sei que ela entendeu que eu tinha presenciado, mamãe abriu seus braços "Thom...", convidando-me a aconchegar-me.

Deus não era real para mim, aquele que detinha todo o poder do universo não seria capaz de observar tal tristeza e deixá-la persistir, o que existia era o homem em sua versão mais profana e a mulher que nascera para amá-lo que consertar seus erros (novamente: eu não penso mais assim, não me perturbem com discursos de igualdade, só peço que entendam o contexto desse pensamento machista).

Já expliquei o porquê de ser ateu, agora falta o porquê de ser católico. Essa parte é mais simples, era uma comunidade católica, uma família católica em um mundo predominantemente católico, minha interação social limitava-se a escola (que também era católica) e a igreja, ou seja, ser católico era cômodo.

Nt: Para aqueles que ficaram curiosos sobre meu amigo que era violado, ele se matou quando fez doze anos, lamento informar que nessa data já não éramos mais amigos, porque ele era o símbolo da minha inocência perdida, passei a ignorá-lo, assim como as outras crianças que o chamavam de bicha nas suas costas.

Durante o verão eu cortava a grama dos vizinhos para ter algum dinheiro e um refúgio do ambiente frio e pouco convidativo que se tornara a casa de vovó, de forma que eu voltava no final do dia sempre sujo e cansado demais para ligar para os gritos. Nessa nova atividade puder constatar que em trinta anos aquelas pessoas pioraram um bocado, a maioria beirava a miséria, em todas as casas, com exceção a de vovó, encontrei infiltrações, pragas urbanas e a grama que eu plantava não ia para frente, o mato por outro lado, crescia de forma monstruosa.

As casas dos vizinhos não traziam vestígios de seus morados anteriores, em outras palavras não existiam velhos, todos morreram prematuramente anos antes, então as casas eram ocupadas por seus herdeiros que não obtiveram qualquer sucesso profissional ou financeiro, sendo obrigados a depender de subempregos para sustentar uma casa herdada e totalmente destruída.

Na segunda semana de julho foi a primeira vez que eu a vi... Um carro muito velho seguido por um caminhão de mudanças atravessou a rua do Rosário, parando na frente do casarão abandonado, do carro desceu uma ruiva estonteante. Alice que me perdoe, mas (mesmo que a própria Alice fosse a imagem refletida da mãe), jamais encontrei beleza que se comparasse com a dela, mesmo depois de morrer. Nesse dia em especial usava um vestido florido igual a um que mamãe tinha, só que nela caia muito melhor, seu cabelo ia até a altura dos quadris em uma cascata de cachos ruivos com as pontas douradas, vi de relance seus rubros lábios que não hipnotizavam tanto quanto seu andar ágil e gracioso.

A porta de trás do carro se abriu, saltando dela uma garotinha tão intensamente ruiva quanto a primeira. Minha primeira impressão da garota foi de uma que criança adorável, do tipo que se poderia se confundir com uma boneca de tamanho real, provavelmente quando crescesse ficaria tão bela quanto a mãe (nesse momento eu já havia deduzido que era mãe e filha, seria um estúpido se não o notasse).

A ruiva tentava retirar uma caixa grande de dentro do porta-malas, antes que eu desse por mim estava ao seu lado a ajudando a carregar aquela caixa, muito pesada para dentro dos portões da propriedade. Quando depositamos o objeto no chão, ela tirou o cabelo do rosto, mostrando-me aqueles olhos estranhos, que, com o tempo, aprendi a repudiar, mas que no momento eram-me apaixonantes, um verde esmeralda e outro azul celeste, seus lábios se curvaram em um sorriso mostrando-me dentes muito brancos e covinhas infantis em suas bochechas, aquela mulher não podida ser muito mais velha que eu.

— Muito obrigada, é ótimo saber que terei vizinhos tão amigáveis. — estendeu-me a mão — Prazer, sou Serena Burdwell.

— Sou Thomas Pince, Thom se preferir... — e apertei aquela mão macia, porém firme com todo o cuidado do mundo.

Não conversamos muito, pois eu tinha que terminar o serviço que começara e ela tinha que indicar para os carregadores onde colocar os móveis. No final da tarde quando voltei para casa, vovó parecia inquieta, segurava o rosário com força, rezando baixinho de olho na janela, vez ou outra murmurava coisa como: "eles voltaram" ou "estão com a nova geração", tive certeza que ela caducara de vez.

Mamãe parecia curiosa sobre a nova moradora, mas não se atrevia falar em voz alta por causa das maluquices de vovó.

— Você a viu, Thom? — sussurrou-me baixinho enquanto eu a ajudava com os pratos, aquela era a primeira vez que me dirigia a palavra em semanas. Fiz que sim com a cabeça. — Como ela é?

Pensei por um instante, sua imagem me veio, fazendo meu corpo inteiro estremecer.

— Linda... — disse sem pensar direito. Mamãe ficou muito quieta, olhei de esgueira em sua direção, ela parecia chateada com alguma coisa, finalmente, assentiu e voltou a lavar os pratos. Aquela reação era atípica, poderia ser que ela estivesse com ciúmes/ Resolvi cutucar, para ver se a tartaruga saia do casco — Jamais vi mulher mais bela em toda minha vida e que corpo...

Antes que eu continuasse, ela me beijou. Sim caros leitores, minha mãe me beijou e foi embora, deixando-me só e atordoado.

Nove horas em ponto minha avó saiu de seu posto, mandou que eu fosso para o quarto e ouvi quando trancou a porta atrás de mim, em seguida a força foi desligada, então ficamos no completo breu (eu dividia quarto com a minha mãe), ela já estava dormindo, ou só me evitando como de costume, eu não sabia bem, nem me importava mais, pois me acostumara com aquele tratamento, naquela noite a única mulher com quem queria me importar era a tal Serena.

— Thom? — ouvi a voz de mamãe baixinho.

— Sim? — Vislumbrei sua silhueta no escuro aproximando-se de mim.

— Você me acha feia? — fiz que não com a cabeça, mesmo sabendo que ela não conseguiria me ver, ela continuou. — Você me deseja, Thom?

— Sim, mamãe... — a beijei com todo furor da minha adolescência.

Não vou contar os detalhes sórdidos da minha primeira da noite de sexo, só que aquilo terminou de selar nossa relação. Tínhamos um ao outro...

Serena Burdwell não era só linda, como também uma excelente cozinheira, sua primeira atitude, após organizar a mudança, foi enviar brownies aos vizinhos em sinal de boa vontade junto com convites para a festa que daria para comemorar a volta da família a velha casa. Quando nos visitou, por sorte, vovó não se encontrava, então a convidamos para entrar e pude obter mais algumas informações sobre a esta.

Como eu havia julgado ela não era muito mais velha que eu, tinha apenas vinte e cinco anos, casara-se aos dezesseis, por conta de uma gravidez (acreditem se quiserem, mas minha mãe incestuosa torceu o nariz para essa informação, para vocês entenderem o quão podre é o ser humano, até os toscos e inofensivos) e ficara viúva faziam alguns meses; essa ultima informação gerou tal simpatia da parte de mamãe que tornaram-se amigas instantaneamente, acho que, porque ela também se considerava um pouco viúva, claro que, nenhuma simpatia no mundo a impedira de me lançar olhares inquisidores, para ver se eu estava olhando ou não para as pernas, que a moça fazia questão de exibir.

Não fiquei na sala quando elas resolveram prolongar a conversa, primeiro: homem nenhum resistiria, sem olhar ao menos algumas vezes para uma mulher daquela e mamãe se mostrara uma amante extremamente ciumenta; segundo: precisava aproveitar que ela estava distraída para terminar de empacotar minhas coisas para a mudança; terceiro: se vovó chegasse e encontrasse Serena em casa declararia guerra àquele que permitira sua entrada e eu não queria ser envolvido.

Fazia apenas uma semana que nós fizemos sexo no colchão puído da minha cama, mas o quarto mudara já totalmente, mamãe havia juntado as camas e as coberto com um edredom de casal, colocara as minhas roupas dentro do armário dela e arrumou um tapete amarelo horroroso parecido com um que tinha no nosso antigo quarto na casa de papai. No dia que ela colocou aquele tapete ali tive a certeza de que ela estava fazendo planos, também entendi que eu não tinha a menor intenção de participar deles pelos seguintes motivos:

1 — Ela era mentalmente instável e me chamava de Greg (nome do meu pai), com frequência, principalmente na cama;

2 — Seu ciúme me assombrava, aquele olhar psicótico que aparecia em suas feições quando eu ia cortar a grama dos vizinhos dava-me calafrios;

3 — A palavra “universidade” sumira de seu vocabulário e simplesmente parecia que não se importava com o futuro que economizara tanto para me dar.

Nt: Adoro colocar meus motivos em tópicos e meu número da sorte também é três, vou fazer muito isso, acostumem-se.

Abri o terceiro livro da estante, tinha guardado a carta da universidade ali. Não havia contado nada sobre ela a ninguém, meu instinto me falava que minha mãe não ia reagir muito bem aquilo. Abri a tábua solta do assoalho onde escondi o dinheiro que tinha conseguido economizar, meus documentos, os anúncios de emprego de cidades próximas à universidade que eu havia recortado e as roupas que consegui furtar dos achados e perdidos de alguns lugares, visto que eu não podia colocar as minhas na mala sem fazer alarde, e enfiei a carta, artigos de toalete e algumas roupas de cama que peguei do enxoval de casamento de vovó (as quais ela nunca usava ou olhava) dentro da mala.

Quando ouvi o portão da cerca do jardim se abrindo os pelos da minha nuca se eriçaram, a vizinha ainda estava em casa e a velha chegara, provavelmente mamãe nem notaram, pois conseguia ouvir suas risadas no andar de baixo, escondi a mala no buraco e devolvi a tábua no lugar, encostei o ouvido na porta do quarto (como eu disse antes, não tinha a menor intenção de me envolver).

Ouvi a porta da sala se abrindo, fiquei muito apreensivo, um silêncio mortal apoderou-se da casa, passos ecoaram e a porta da sala bateu novamente, mamãe deu uma risadinha nervosa e voltou a tagarelar com a vizinha. Cara, como aquilo foi estranho, eu estava esperando a velha ter um ataque de fúria pelo menos, mas ela fora embora, suspirei aliviado como qualquer garoto tolo e facilmente tranquilizado, na minha cabeça a desgraçada não tinha coragem de destratar a moça no final das contas.

Serena foi para casa umas nove horas da noite, ouvi mamãe subindo as escada e entrando no banheiro. O som do chuveiro ligando me excitou, eu sabia o que viria em seguida, despi o pijama rapidamente, e esperei completamente nu.

Ela entrou no quarto apenas de toalha, aquilo me surpreendeu, afinal vivíamos com uma católica senil.

— A senhora enlouqueceu? Se vovó te pega andando assim pela casa ela nos põe para fora! — me cobri um tanto desesperado.

— Ela não vai voltar hoje, Thom... — sua voz tinha um tom travesso — Eu verifiquei! Quando ela saiu a segunda vez deixou todas as chaves da casa e eu a tranquei para fora, sem querer... — vez uma vozinha de criança pulando em cima de mim.

— Mamãe, espere... — engrolei em meio aos beijos. — Não devíamos pelo menos fechar a porta?

Ela parou um instante, levantou-se deixando a toalha para trás, foi a primeira vez que a via nua de luz acesa, minha ereção diminuiu um pouco ao vislumbre de seu corpo flácido, da celulite e das estrias na região do abdômen, aquele não era exatamente o corpo agradável de se olhar, mas era o que tinha a disposição na época. Minha maior preocupação era ela notar que eu não estava mais excitado, quando graça aos Deuses, involuntariamente pensei nas curvas do corpo firme da ruiva.

— Está bem animado hoje, querido... — ela voltara a subir em cima de mim.

Digamos que tive uma crise de consciência enquanto fazia sexo com a minha mãe pela enésima vez naquela semana, e isso me fez amolecer de novo e dessa vez não consegui esconder. Ela pareceu surpresa, minhas faces queimaram de frustração e vergonha, era a primeira vez que acontecia, tampei o rosto com as mãos, aquilo me pareceu tão errado ali de luz acesa, olhando para aquela expressão pervertida... Deitei-me de bruços.

— Boa noite, mamãe... — sussurrei entre os travesseiros.

Não obtive resposta, senti ela se movendo do meu lado quando se levantou e apagou a luz, também quando voltou, porém não me abraçou como de costume. Olhei-a de canto de olho, estava sentada de braços cruzados sobre os seios desnudos, seu olhar vidrado, focando o nada.

— Você me ama? — disse quase meia hora depois. Eu ergui o corpo vagarosamente, ela não me encarava.

— Claro que amo, mamãe! — fiz menção de abraça-la, mas ela me deteve com uma aceno de mão.

— Não me chame de mamãe... — seu olhar se perdeu mais no nada. Após outra hora de silêncio desconfortável, uma lágrima melancólica escorreu por seu rosto. — Você repudia meu corpo, não é mesmo Greg...

Arregalei os olhos, ela nunca tinha pronunciado o nome dele tão claramente, ela não estava em pleno poder das suas faculdades mentais...

— Você prefere aquela vagabunda, não é mesmo Gregory? — ela levantou da cama trêmula. — Eu sei que você está vendo aquela Barbie magricela! Eu sei que você torra todo seu salário com ela, que lhe compra joias que não pode pagar, que a leva em restaurantes caros, e que pega dinheiro da minha bolsa para pagar esses motéis imundos! Sei que anda com ela de dia e a apresenta como sua namorada para seus amigos! — Chorava descontroladamente agora, era uma imagem de cortar o coração... — O que ela tem de tão bom, Gregory? O quê? Aquela piranha ainda é mais velha que eu! Como você consegue fazer isso comigo? Como?

Ela caiu de joelhos em um desespero profundo. Foi a primeira vez que me senti como o homem porco que sou (se é que ainda posso ser chamado de homem), me abaixei ao seu lado envolvendo-a com meus braços magros, pois era só o que podia fazer...

O primeiro tremor na porta do quarto foi o que nos despertou, o sol ainda não nascera, tínhamos cochilado no chão, engatinhamos para o canto do quarto vendo a porta sacudir, quando finalmente as dobradiças cederam, a pouca luz que invadia o quarto pela janela delineava uma silhueta pequena e encurvada.

— O Diabo profanou a minha casa e foi o meu sangue que permitiu a sua entrada — a voz alterada de vovó projetou-se no quarto, sua mão trêmula levantou, a lua iluminou o cutelo — Eu vou destruir os corpos dos que pecam para purificar suas almas hereges e corruptas, e Deus me perdoará, pois sabes que tudo que faço é por Ele. — Ela avançou na nossa direção balançando a arma freneticamente.

Por puro reflexo empurrei mamãe para a parede, coloquei os braços na frente do corpo e esperei. Não faço a menor ideia do que aconteceu (depois do ocorrido me convenci que fora uma alucinação por conta do estresse), então vou descrever o que me lembro, uma corrente escarlate saiu do teto e enrolou-se no pulso de vovó e a puxou para trás com toda força, a velha caiu e bateu a cabeça. Assim que ela tombou uma bolinha de luz saiu de seu peito, outras duas correntes escarlates brotaram do teto, prendendo os polos da bolinha, depois foram se dissolvendo levando uma alma consigo...

Fui reanimado pelos paramédicos, a polícia já estava colhendo depoimento de mamãe, que parecia muito pálida. Ao notarem que eu estava acordado um homem fardado se aproximou e me informou que eu também devia prestar esclarecimentos, fiquei um pouco indignado com aquilo, pois tinham tentado me matar faziam alguns minutos e eu ainda ia ser questionado quanto a isso.

Sinceramente, não estou querendo contar como foi o interrogatório, só que achei o procedimento totalmente inútil, pois nenhuma das pessoas que me interrogaram queria saber realmente o que aconteceu, na verdade, não acreditaram em uma só palavra que eu dissera, tudo bem que uma velha invadir a própria casa, derrubar uma porta e tentar matar a filha e o neto com um cutelo enquanto ambos dormiam, parecia uma história altamente fantasiosa, mas o que podia fazer eu se era verdadeira?

Nesse dia entendi o quão importante é ser um bom vizinho, levem isso para vida, se você não for um cretino com aqueles que moram perto, eles podem ajudá-los em momentos difíceis. Depois de algumas horas dentro daquela delegacia suja, de pijama, irritado e mentalmente esgotado, alguns vizinhos começaram a chegar com roupas limpas e lanches, transformando o local em uma feira de peixe. No meio daquele falatório, os moradores para quem eu costumava trabalhar começaram a contar as histórias sobre a penúltima geração de devotos da família Johnson, até o padre (sim, o padre apareceu na delegacia) achava a velha fanática demais.

Depois de todas aquelas novas informações as perguntas certas nos começaram a ser feitas, aproveitei para contar que das neuroses com a vizinha, do sumiço depois das nove, e do hábito de vigiar os vizinhos enquanto falava sozinha. Estarrecidos resolveram puxar a ficha criminal da velha, (vocês não tem noção de como era extensa), agressões verbais, perturbação da paz, depredação de patrimônio, intolerância religiosa (acredite, não época ninguém ligava se você dava uma surra em um muçulmano), eram os tópicos que mais apareciam, pouco tempo depois foram informados que as marcas encontradas no corpo da velha eram autoprovocadas, de forma, que tiveram certeza que toda aquela bagunça era fruto de uma crise mental, logo, nós éramos as vitimas.

— Vocês são pessoas de muita sorte, ela realmente pretendia matá-los... — foi a ultima coisa que o detetive nos disse.

Assim que esclarecemos nossa história, fomos direcionados ao hospital onde levaram vovó, lá ficamos sabendo que quando batera a cabeça sofrera danos incorrigíveis ao cérebro, de forma que, se acordasse, ficaria em estado vegetativo, passado essa informação, o médico nos entregou vários panfletos de casas de repouso (sabe? Aqueles lugares onde deixamos os velhos na desculpa que seria melhor para eles, quando na verdade só não queremos assumir essa responsabilidade). Sinceramente, adorei a ideia, tudo o que eu queria é que ela morresse naquele hospital mesmo, mas, se por acaso ela acordasse, não queria viver no mesmo teto que ela, pena que mamãe não pensou assim.

Olha, cristãos são criaturas muito bizarras, aprendem o que é pecado muito cedo, pecam escondido, jogam a culpa no Diabo por suas ações totalmente conscientes e apesar de crucificarem homens e mulheres em vida, durante a doença costumam perdoá... Não, perdão não é bem a palavra, é culpa mesmo, sentir remorso te leva ao céu. Tanto faz, seja o que for, trouxe, três dias depois, o corpo inerte de vovó para casa.

Ela não se movia, não podia comer sozinha, ou fazer as próprias necessidades, era um peso morto e insistiam em deixá-la viva.

Nossos vizinhos se apiedaram da nossa situação, principalmente a ruiva. Fora a primeira a nos receber após o ocorrido, ajudava a alimentar vovó, a limpar a casa, mas principalmente distraia mamãe, que agora, mais que nunca decidira de eu era tóxico, não me olhava, não falava comigo e não me tocava, então me sobrava sumir de casa o dia todo e voltar de noite, quando geralmente encontrava a vizinha e a filha dentro de casa, tomando chá e papeando.

Chegamos em um bom ponto, a menina Burdwell era um demônio, ela invadia meu quarto pegava meus brinquedos antigos, destruía-os, maltratava os animais de rua, provocava os filhos dos vizinhos, tudo isso longe dos olhos atentos dos adultos, o mais bizarro é que parecia não sentir prazer nenhum nas traquinagens, realmente, não parecia sentir absolutamente nada.

Claro que na época isso só me causou certa estranheza, mas de resto eu não ligava, naquela altura do campeonato eu só pensava em ir embora naquele pedaço de fim de mundo e a faculdade começava a parecer um sonho cada vez mais palpável.

Uma semana antes de viajar resolvi contar a mamãe sobre a carta. Ela puxou um papel e rabiscou alguns números, disse-me que eu podia sacar o dinheiro daquela conta poupança para as mensalidades, mas que teria de arcar com o resto das despesas, pois no atual estado de vovó, depois que pagasse as contas e os remédios, pouco sobraria até para comprar comida.

Eu lembrava bem daquela expressão, as contas que não paravam de chegar, as dívidas de jogo de Greg, o medo constante de ser despejado, o trabalho exaustivo, começaria de novo aquele inferno, mas agora estaria sozinha, eu estava indo embora... Notei o convite, a muito esquecido colado na geladeira, o peguei displicentemente, a festa de Serena aconteceria naquela noite.

— Mamãe?

— Sim?

— A senhora vai à festa?

— Não, Thom, não estou com cabeça para essas coisas ultimamente.

— É uma pena, pois eu queria ir... — essa afirmação a surpreendeu — Mamãe, você não pode ficar em casa para sempre! — tomei sua mão — Se arrume, e vamos comigo, será minha festa de despedida, o que acha?

Ela me olhou de esgueira, como uma sombra de um sorriso nos lábios.

— E sua avó?

— Ela não vai a lugar algum, agora vá se vestir, pois vamos nos divertir muito essa noite!)


A água quente acabara na metade do banho, praguejei baixinho por deixar os “hormônios” falarem mais alto, mas era difícil voltar ao estágio “masturbação” quando se acostuma com o sexo, principalmente, porque agora não tinha mais tanta inspiração quanto antes.

Onde eu estava com a cabeça quando disse que iria a essa maldita festa? Nunca gostei de festas, mas queria tanto agradar mamãe, por culpa mesmo, e parecia ter surtido o efeito, pois ela parecia tão feliz enquanto entupia a cara de maquiagem (Aliás, por que vocês usam tanta maquiagem? Na maior parte das vezes não ajuda em nada). Bom, me arrumei rapidamente e encontrei mamãe pronta na sala, usava um vestido azul bonito.

— Pronto, podemos ir. — anunciei. — Você está bonita...

Suas bochechas ficaram rosadas, dei-lhe o braço e saímos caminhando em silêncio pela rua. Ia ser uma festa e tanto, muitas crianças, jovens e adultos que moravam do bairro iam entrando, não somente as pessoas da rua. O velho casarão sujo e coberto de teias de aranhas, estava limpo e enfeitado com várias lanternas coloridas, o jardim repleto de mato e ervas daninhas, dera lugar a grama verdinha e algumas flores do campo.

Assim que adentramos o terreno senti algo muito estranho, eu estava tão... feliz... Não estou falando de contentamento, mas da mais genuína felicidade, aquela que só sente o ser completo, não era só comigo, meus vizinhos encurvados de aparência piedosa, naquele momento, exalavam autoconfiança e determinação, as moças simples do bairro pareciam quase tão belas quanto a própria anfitriã, ri sozinho da minha surpresa, elas provavelmente sempre foram assim.

O "pequeno demônio Alice" dava as boas vindas aos convidados na porta, ela era a única que não parecia feliz, quando nos cumprimentou seu semblante mudou um pouco, por um momento identifiquei aquela expressão como sendo a de pena, mas foi só por um momento, mamãe abaixou para que seus olhos ficassem na altura dos da garota.

– Onde está sua mãe, meu bem? — perguntou, a menina sem falar uma palavra, pegou sua mão, a levando para o salão que começava a se encher e apontou para o alto da escadaria.

Serena estava tão linda, usava um vestido vermelho, os cabelos soltos, com muita, MUITA maquiagem mesmo (realmente não entendo vocês! E ainda ela tenta me convencer que eu devo valorizar a beleza natural das mulheres!). Era impossível não ficar admirado com ela, o público masculino estava alvoroçado, podia-se ver as esposas lhes beliscando os braços, ainda que estivessem tão pasmas quanto eles.

– É um prazer recebê-los essa noite! — começou a belíssima anfitriã — Essa casa foi da minha família durante anos, recebiam pessoas de todos os cantos, lhes davam abrigo, comida e conforto, quando necessário. Porém, nem sempre os bons são valorizados, nosso patriarca morreu, e foram criadas diversas histórias de péssimo gosto quanto ao seu caráter, o restante dos meus antepassados foram embora, deixando, durante as três ultimas décadas o casarão trancado. – fez uma pausa teatral — Isso mudará hoje! Quero que aproveitem a festa, a casa é de vocês!

Ela desceu devagar as escadas, sorrindo e cumprimentando os convidados. Nunca, até hoje me senti tão atraído por alguém, claro que eu não era o único, todos queriam ficar perto dela, e aparentemente ela gostava da atenção que recebia. Minha mãe encontrara algumas amigas e estava a papear alegremente, deixando-me a vontade para flertar com as moças da vizinhança.

Devia ter percebido que tinha algo muito errado ali, eu não flertava com ninguém, e NINGUÉM queria flertar comigo, mas aquelas garotas pareciam interessadas em mim! Vocês não entendem como e quem eu era aos dezoito anos. Fui buscar algumas bebidas para nós, anormalmente animado.

— Eu não tomaria isso se fosse você... — ouvi uma voz desconhecida. Foi a primeira vez que ouvi a voz de Alice, e foi sua voz que me trouxe de volta para a terra como ela era, a vida voltou a ser um pedaço de excremento... Senti uma dor aguda nas mãos e derrubei os copos, chamando a atenção do salão.

A garota disparou pela porta comigo ao seu encalço, saiu da casa e sumiu! Não estou falando em sumir como se eu tivesse ficado para trás ou a tivesse perdido de vista, mas sim desaparecido na minha frente como se fosse um fantasma. Fiquei muito assustado, aquela festa já tinha dado o que tinha que dar, precisava sair dali. Caminhei pela rua deserta, trêmulo e exausto sem ter certeza se realmente era por causa do exercício, sentia-me doente, fui para casa e sentei naquele gramado que me dera tanto trabalho para plantar fechei, os olhos respirando vagarosamente , quando senti meu coração se acalmar, quando os abri novamente ela estava ali, me encarando com aqueles enormes olhos azuis.

— Você é mesmo um grande covarde, Thomas Pince... — eu estava incrédulo, sentia o calor abandonar meu corpo, seus pézinhos não tocavam o chão e eu não podia me mexer. — Tão covarde que não admite ser feliz só por ser, você gosta da sua vidinha miserável, pois foi nela que criou suas raízes podres... Sabe, vou te salvar dessa vez, porque você me diverte, mas não se acostume. — deu uma gargalha aguda e sem emoção. De repente ela parou e começou a farejar o ar, arregalou os olhinhos e uma lágrima rolou — O coração da velha acabou de parar... Bom, vou te dar um ultimo presente, antes da sua vida acabar, sim? — sua voz agora era melancólica, enxugou o rosto com a uma das mãozinhas e com a outra segurou meu rosto, aproximou-se de mim, e roçou seus lábios nos meus levemente.

Desmaiei (sim, eu vou desmaiar muito até o fim do capitulo dois!), não lembro quem me achou, nem ao menos me lembro se sonhei, só abri os olhos em um quarto de paredes cor de vomito, conectado a um soro, entendendo instantes depois: me encontrava no hospital.

— Thom? — ouvi a voz angustiada de mamãe. — Meu Deus, você acordou! Meu amor, disseram-me que talvez não acordasse!

Ela me abraçou com força com os olhos marejados, depois uma enfermeira entrou e precisaram tirá-la do quarto para que se acalmasse. Enquanto examinavam todos os meus sentidos, deram-me uma breve descrição dos fatos, fui encontrado desmaiado na porta de casa, muito frio e com o pulso fraco, fiquei desacordado durante três dias... Comecei a recordar-me de um sonho, um em que a garotinha Burdwell flutuava e falava de uma velha morta... Velha morta... Um arrepio subiu-me a espinha.

— Como está minha avó? — perguntei a uma mãe mais calma que tivera permissão para voltar ao quarto.

— Oh querido... — parecia tentada a abraçar-me novamente, mas conteve-se — Mamãe... érrrr... Mamãe foi encontrada sem vida, ela teve um infarto fulminante, não puderam fazer nada...

Fiquei muito quieto, apático; eu não sonhara com aquela garota, tudo era real, minha velha, decrépita e paralisada avó estava morta e por algum motivo, ela sabia...