Desafios do Destino II - Prelúdios e Premonições
3 Retorno do Desconcerto/ As Asas do Anjo
Notas iniciais
O Retorno do Desconcerto
Não era nova aquela sensação, de uma quase morte. Eu estava convivendo tão bem com esse sentimento de ceifação da alma que eu quase estava acostumando. Eu ainda via a escuridão, mas não porque a escuridão reinava a minha visão, mas porque uma venda cobria os meus olhos, com toda a maciez que ela podia ter.
Eu sentia, em minha face, o toque enrugado e frio de uma pessoa. Ela tinha mãos grossas e firmes, que passavam uma espécie de líquido pelo meu corpo. Quando respirei mais fortemente, demonstrando que eu acordara, ela, com toda a delicadeza, fechou as cortinas – eu ouvi o barulho de argolas grossas correndo por uma barra metálica e vi a escuridão aumentar – e começou a retirar a venda de meus olhos.
Era um homem, cujos olhos não existiam, apenas um enorme vácuo, que permitia eu ver o interior das cavidades. Ele segurava uma pequena flanela rosada para passar um óleo amarelado em meus ferimentos, principalmente os causados pela serpente.
Na cama ao lado da minha, estava o garoto que eu salvei. Ele estava muito pior, seu corpo, ainda esquelético, estava rodeado por um anel enorme de cipós, cujas raízes percorriam seu corpo.
—Esse tipo de cura é usado pelos Mestres da Visão, a única que eles veem como segura para a nossa espécie. – A voz do homem era grave, como um trovão em céu chuvoso.
—Neófito*, por favor, deixe os dois garotos dormirem. – A ordem veio de uma mulher do fundo da sala. Seus longos cabelos, mais amarelos que os raios do sol, escorriam por suas costas. Ela tinha um corpo definido, mas um olhar escuro, como se as trevas corrompessem a sua visão.
O homem, se curvando, terminou de passar os óleos em mim e saiu do quarto. O aposento, todo decorado com azulejos desenhados à mão, com riscos azulados e prateados, estava um pouco frio, mesmo que aquela descida tenha nos colocado perto do núcleo magmático da Terra.
—Meu garoto, pode voltar a dormir. Seu corpo estará restaurado quando o Sol raiar. – Eu não vi mais nada, apenas ela indo embora, pois o sono me abraçou e adormeci em minha cama. Puxei, com muita dificuldade, as colchas grossas sobre meu corpo.
No instante em que eu acordei, percebi que estava sendo observado por duas pessoas. Rosália, a vidente da Cidade de Pérolas, Atlântida, e pelo garoto, que tentava adormecer novamente enquanto seu corpo era entrelaçado pelos cipós.
—Bom dia. – a voz dela era doce, mas eu sabia que ela não olhava para mim. Como sabia que eu acabara de acordar? – Vejo que seu corpo está bem mais sossegado e está quase sem nenhum vestígio de veneno.
—Rosália, o que era aquela cobra?
—Ela era a representação do Destino. Com certeza, não era o lado mais forte dele, pois você ficou vivo, além do veneno não ser tão forte. – A resposta veio de um homem, cuja pele era morena, queimada do Sol, era escondida por uma longa túnica arroxeada, que cobria todo o seu corpo. Seu olhar, diferente da mulher loira e de Rosália, era esverdeado, como a mais bela esmeralda.
—Násser**, não era para você ter contado ao garoto sobre a criatura. – Rosália demonstrava um olhar mais sereno do que tinha quando enfrentou a cobra, contudo, ela lançou um olhar negativo sobre o homem. – Ele ainda não tem forças para se levantar e você quer entupi-lo com essa preocupação.
—Claro que consigo levantar. – Eu me esforcei para sair de onde estava, mas nenhum dos dois permitiu.
—Garoto, fiquei quieto. Ainda há resquícios de veneno em seu corpo e isso pode matá-lo. – Lógico que o medo incorporou todo o meu ser. – O Destino, assim que assumiu a imagem de uma cobra e te picou, jogou para seu corpo todo o fel que tinha ao redor de seus corpos.
—Além do mais, você inalou muito daquele gás quando salvou o garoto. – E o pequeno me encarava, com um olhar jovial e gentil, diferente daqueles que lançavam olhar de reprovação. – Você precisa descansar ainda mais.
Aquelas palavras não me convenceram, eles me escondiam alguma coisa, alguma informação importante. Eu sabia que estávamos em uma ala da Cidade de Platina, o local onde os Mestres da Visão se reuniam. Rosália era um deles, uma vidente que me revelou duas profecias sobre mim.
Nisso, uma mulher, a mesma que pedira para me deixarem descansar, adentrou o local, toda preocupada e descabelada.
—Precisamos de todos vocês na Sala de Reunião. – E apontou para o garoto, Rosália, o tal do Násser e para mim. – Há uma mensagem da Cidade de Carvão.
O olhar de repressão dos dois que cuidavam de mim mudou, como a água para o vinho. Eles, com muito cuidado, levavam as nossas camas, que tinham pequenas rodinhas em seus pés, para fora do lugar. Eles pararam por um instante. Eu e o garoto vimos que uma passarela, que aparecia e desaparecia em segundos, era nosso caminho até uma enorme sala no meio do lugar.
A Cidade de Platina flutuava em um enorme mar, cujo líquido era prateado. As construções eram poucas, apenas a sala central, que parecia uma igreja, especificadamente a de Notre Dame, e a ala onde estávamos, um gigantesco cubo prateado com tonalidades amareladas.
Com uma pequena aceleração, nós nos dirigíamos até a Sala de Reunião que, ao adentrarmos, revelou uma mulher japonesa, cuja feição era dócil e pacífica, contudo, a preocupação reinava em seu olhar avermelhado, como enormes rios de lava.
—Yoko***, o que aconteceu em sua Cidade?
—Parece que a terceira parte da Tríade de Diamante foi tomada. Só não sabemos por quem.
Eu e o garoto, que de nada sabia sobre isso, encarava a troca de olhares coloridos entre as pessoas. Como eles eram as únicas pessoas que eu via até esse momento, com certeza, eram esses os Mestres da Visão.
—Será que o Destino está por trás disso?
—Se ele tentou tomar tanto a Morte quanto o Tempo, ele causou um desconcerto enorme. O desequilíbrio entre a Tríade irá causar uma rachadura enorme.
—Ele não está pensando em se tornar um Tirano? – Todos jogaram o olhar para o pequeno garoto, que conseguiu ter um pouco de força para falar. – Essa ditadura será bem drástica, não é?
Rosália aproximou-se dele e acariciou a cabeça careca. A pele dele, nesse exato instante, se destacava da decoração prateada do lugar. Sua pele marrom, assim como a terra molhada, já não apresentava mais ferimentos e ele parecia restaurado, até um pouco de peso ganhara.
—O pequeno está certo. O equilíbrio entre a Tríade não pode ser desfeito e, se for Destino que está por trás disso, desde a queda de um anjo até a destruição da Cidade de Pérolas, precisaremos agir o mais rápido possível.
Estávamos todos preocupados com aquilo. Eu notava que a positividade da sala já não mais existia, ela nos abandonara nesse momento de maior necessidade. Rosália se aproximou da mulher loira e segurou a mão dela.
—Etzel****, se você permitir, eu ficarei na Cidade de Platina para te ajudar com a proteção do lugar.
—Rosália, eu aprecio a sua ajuda, entretanto, Salústio***** ainda está desaparecido. Você precisa encontrá-lo. – Ao meu lado, apareceu aquele homem que cuidou de mim e do garoto.
—Prazer, meu nome é Neófito. – Ele começou a apresentar todos os Mestres da Visão para nós dois.
Násser era o vidente da Cidade de Marfim, o lar da História; Yoko, a vidente da Cidade de Carvão, o lugar da desolação das almas; Etzel, vidente da Cidade de Platina; e Salústio, vidente da Cidade de Cristal, o recinto da salvação eterna.
—Rosália me disse que eram apenas quatro videntes.
—Etzel, apesar de ser vidente como os demais, tem como função principal a segurança da Cidade de Platina.
No instante em que eu iria me levantar da cama para me aproximar dos Mestres, um forte estrondo veio do lado de fora e uma incrível e barulhenta pancada colidiu com a porta. Todos nos assustamos, mas apenas Neófito foi ver quem era.
Quando a porta abriu, um enorme lobo branco pulou sobre o homem. Suas garras quase perfuraram a sua pele, que era um pouco delicada. Ele avançou sobre mim, como se eu fosse o principal alvo dele. Rosália, em segundos, apareceu diante de mim e levantou uma espécie de barreira. O lobo colidiu e foi ricocheteado para trás.
Sua pelagem branca tinha marcas estranhas, como se fossem marcas de um ritual, ou de nascença ou, pior, marca de domínio.
Ele, sem se esforçar muito, se levantou e voltou a pular sobre Rosália que, desta vez, não conseguiu levantar a barreira. Eu via a mulher e a criatura rolando para o outro lado do salão. Ninguém conseguia se mover, com exceção do pequeno garoto, que estava impaciente em sua maca.
Ele se debatia cruelmente entre os cipós que pareciam machucá-lo. O menino, diferente do esforço do lobo, conseguiu se soltar das amarras e, armado com as raízes, partiu para atacar o lobo, que não viu sua chegada. A criatura, ao ver o garoto se aproximando, largou Rosália e pulou sobre seu corpo pequeno e frágil.
No entanto, uma forte luz emanou do corpo do garoto. Eu não via nada, pois minha visão clareou, mas eu tinha certeza de que asas apareceram atrás de suas costas.
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As Asas do Anjo
Minha visão ainda estava atordoada com aquela rajada de luzes que atingiram meus olhos. Assim que eu recobrei a minha consciência, pude ver melhor o que o garoto havia feito. Ele, com as suas pequenas mãos, conseguiu parar o lobo, que estava planando no ar. O olhar desesperado do animal era inconfundível. Como aquele pequeno e indefeso garoto conseguiu defender todos nós?
Aliás, de onde eu vi aquelas asas? Elas desapareceram, ou melhor, nem mesmo existiram, creio eu. Rosália estava espantada assim como os demais Mestres. Eu não estava tanto quanto eles, pois nada mais me surpreendia naquele lugar, naquele mundo, naquela vida.
Eu, com muita dor ainda em meu corpo, me dirigi para perto de todos. Muito sangue saía da boca do lobo, mas o sangue não era dele. Ele havia mordido alguém antes de entrar naquela sala, pois não fora nenhum de nós. A criança, que o encarava com um olhar penetrante, estourou em fúria e raiva.
—Nunca mais perturbe essas pessoas! – A voz fina que eu imaginava não saiu, mas uma grave e vibrante, que estourou todos os vidros e espelhos daquela sala. O grito do menino foi o suficiente para o lobo sair correndo dali e pular no mar prateado. As gotas de sangue sujavam o chão, mas nada que um pano molhado não resolveria.
Rosália foi em direção ao garoto que, assim que colocou as mãos em seus ombros, sentiu um forte choque e foi lançada para longe. Todos, inclusive eu, foram ajudá-la. Para variar, eu não entendia o que aquilo significava. Como eu sabia que eles tinham a resposta? A troca de olhares, aquela que sempre ocorre em filmes e séries, foi o que os entregou.
—O que perdi? – Foi o que perguntei. Lógico que tentar esconder alguma coisa de mim não ajudaria nada, afinal, eu estava na profecia (Eu vou me exibir muito por estar em uma profecia. Se não gostar, continua lendo e me ignora).
—Ele possui uma aura bem forte. Poucos são aqueles que não podemos tocar. – A criança, apesar de exausta, continuava em pé, com as mãos soltas ao lado do corpo manchado com os pelos e sangue do lobo. – Acho que ele não é um humano.
—Acho que deu para perceber assim que ele levantou um lobo de quase meia tonelada com as mãos.
—Por favor, mais respeito conosco. Todos nós somos humanos. A única diferença entre nós e os outros humanos é que temos o poder da Visão e somos servos da Tríade de Diamante.
—Se vocês são servos, não deveriam estar por dentro do que passa entre aqueles três?
—Nós sabíamos de tudo, até que o Destino decidiu diminuir os nossos poderes para o bem próprio.
—E os outros dois não desconfiaram de nada?
—Eles concordaram com isso. Sabiam que, juntos, tínhamos mais poderes que os três. Dessa forma, se preveniram retirando parte das nossas forças.
—Acho que ele deveria falar com a Tríade, ou melhor, o que sobrou.
—É perigoso. Ele está destinado a enfrentar o Destino.
—Ele precisará da ajuda da Morte e do Tempo. Ele precisará trabalhar com o passado e o futuro.
"Trabalhar com o passado e o futuro". Aquelas palavras eram estranhas se fossem proferidas antes daquele festival. Era tão bizarro, porém, nada mais seria tão bizarro quanto o que eu estava passando. Os Mestres da Visão discutiam o que eu deveria fazer, sem ao menos me perguntar o que achava daquilo tudo.
Eu notei que o menino estava sentado no chão, encarando aquela balbúrdia entre os Mestres, que apontavam para mim como se fosse uma obra de arte em exposição. Cansei daquela ladainha e sentei com o garoto, que não movia o olhar dos Mestres. Eu segui o exemplo dele. Eles gesticulavam de tal forma que fazia o ar circular fortemente.
—Eles são estranhos, não são? – Agora, ele parecia uma criança, com suas dúvidas e incertezas. Ele, apenas com uma roupa parecida com uma toga, estava com os joelhos encostados no chão. – Por que será que eles não contam tudo de uma vez para você?
—Eu acho que é para me defender.
—Do que adianta tanta proteção se no final você não terá nenhum deles para te ajudar?
Eu não sabia como reagir: se eu ficava espantado, triste ou nervoso; contudo, ele tinha razão. Eu, então, me levantei e fui até a entrada. Como ninguém estava se importando conosco naquele momento, ele também me seguiu. A porta, ainda escancarada com o impacto do lobo, tinha como visão uma imensidão líquida e prateada, um enorme lago, ou mar, por onde a Cidade estava flutuando.
—Como você sabe de tudo isso?
—Eu posso te mostrar. – E ele retirou a toga, ficando somente com uma espécie de cueca. Depois, ele cruzou os braços sobre o peito e fechou os olhos. Em segundos, uma explosão revelou duas enormes asas brancas e com penas leves. – Segure a minha mão.
Assim que estendi minha mão, ele a segurou e levantou voo. Eu não vi a reação dos Mestres, apenas me encantava a forma como ele voava e plainava sobre a imensidão que estava abaixo de nós. Mais à frente, havia uma pequena ilhota onde paramos por um tempo, achei que era para descansar, porém, ele levantou as mãos e vários laguinhos, circundados por muretas com tijolos dourados, surgiram.
—Qual você vai querer?
—O que eles vão me mostrar?
—Eles vão revelar o passado de cada Mestre da Visão e você entenderá o medo deles.
—E por que você quer me mostrar?
—Irá precisar para sua luta contra meu mestre, o Destino.
—Como?!
—Eu me rebelei. Não sirvo mais a ele e o quero destruído.
—E o que você é?
—Sou apenas um guerreiro, não como a Morte, nem como o Tempo, apenas um fraco guerreiro.
E ele me empurrou para dentro de um laguinho, onde não caía mais luz alguma.
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