Desafios do Destino II - Prelúdios e Premonições
4 A Casa da Desolação
Para variar, eu não enxergava mais nada depois que eu fui jogado no lago prateado. Era uma caída, tipo aquela da menina loira, mas não tinha um chão mais abaixo, e sim, outro lago. Eu voei para fora e caí em um gramado bem esverdeado. Estava, eu, em frente de uma casa. Olhei para trás para ver de onde eu havia saído, porém, a rua toda estava seca, como se não tivesse chovido há meses.
Apesar de sentir um pouco de dor nas pernas, eu estava bem. Em minha frente, estava se levantando a enorme casa de madeira branca. Parecia pacífica de longe, porém, eu sentia uma forte vibração que me chacoalhava um pouco.
Suas janelas grandes iam de um lado para o outro, revelando os cômodos da mansão. Eu me aproximei da casa quando percebi uns rumores. Era um andar de passos pesados, que compactavam o chão de madeira – sabia disso porque ouvia o ranger das tábuas semi-soltas – e cambaleavam sob a mobília antiga.
A curiosidade me tomou e adentrei a casa com tanta pressa que quase tropecei no tapete de entrada. Era um lugar simples, bem antigo. Havia várias camadas de poeira sobre a cantoneira de madeira da entrada. Lá estavam alguns objetos, como óculos, relógio e uma pequena carteira de couro com algumas moedas. Olhei ao redor: à minha direita havia uma biblioteca, com uma poltrona perto da enorme janela que auxiliava na iluminação do recinto, várias estantes do teto ao chão com livros novos e velhos e, por fim, um pequeno pedestal com um livro grande aberto em uma página qualquer; à minha esquerda tinha uma sala de jantar, com a mesa posta com alguns potes de comida estragada.
Um barulho e mau cheiro atraíram minha atenção para outro cômodo da casa: a cozinha. Era relativamente maior que a sala de jantar, porém, seus utensílios pendurados ou acomodados no chão diminuíam o espaço para andar. Na mesa, havia cinco pessoas, de rostos familiares, porém mais jovens. Eram os Mestres da Visão.
—Acho que todos sabem o que tem ocorrido na Cidade de Carvão? – Todos confirmaram com um acenar de cabeça a pergunta de Rosália. – Agora, o motivo daquela rebelião é o que precisamos descobrir.
—Não vale dizer que o Destino tem uns parafusos faltando?
—Acho que isso o enfureceria. Além disso, não temos mais os poderes para nos ajudar.
—Será que ele já escolheu o predestinado?
—Eu creio que já. Vocês lembram do que a profecia dizia. – Sim, eu lembrava muito bem das duas profecias, que martelavam sempre em minha mente. – Mas quem será a pessoa?
—Não pode ser qualquer uma. Ele irá testá-la, irá fazer com que passe por diversos desafios.
—Será que conseguiremos descobrir quem seja? Se nossa força for suficiente, talvez a ajudaremos com o tempo.
—Só nos resta testar. – Rosália, com seus cabelos juvenis amarrados em um belo arranjo de lenços e uma pequena flor, pegou as mãos de Násser e de Yoko, que pegou a de Etzel, que pegou a de Neófito, que ajudava na redistribuição de forças. – Agora, todos juntos.
Era um cântico estranho, que ecoava pelo lugar inteiro. Eu sentia a casa chacoalhando inteira. Muitos vidros das janelas trincavam, alguns explodiam; quadros caíam das paredes e a comida da sala se incinerou. Do centro deles, uma chama bem vermelha, quase um escarlate, surgiu. Da fumaça emanada, minha imagem apareceu. Eu estava indo em direção ao Festival Japonês.
—Esse é o escolhido? Como saberemos que não é um erro nosso?
—Ali, bem na frente dele. – Eu forçava a minha vista para ver o que se passava. Eu sentia um cheiro podre, o mesmo que eu senti no Festival. Era aquele homem, de casaco marrom todo esfarrapado, todo imundo, gosmento. Lixo e chorume escorriam de seus poros. – Nele, aparecerá um símbolo rúnico: a Fehu invertida.
—Ela significará que haverá perdas e será necessária cautela excessiva.
Eu não lembrava desse símbolo. Bom, não tive muito tempo para analisar meu corpo depois que quase fui atacado. De onde eu estava, eu via um espelho do banheiro. Entrei em tudo, mas nada encontrei. Eu levantei a camisa e vi o símbolo estampado em minhas costas, bem no meio. Era uma espécie de 'F', só que invertido.
—Como ajudaremos o garoto?
—Seguiremos planos distintos e ajudaremos conforme ele precisar. Lembrem-se de que ele precisa fazer tudo sozinho, não podemos interferir inteiramente. – Eles me ajudarão quando?
Nisso, eu senti algo em minhas pernas. Era uma pequena serpente azulada. Eu a reconheci do bosque. Ela parecia atordoada, até que achou a saída e seguiu à cozinha, onde subiu pelas pernas de Rosália.
—Como? Aquele homem está aqui? – De quem eles estavam falando?
Eu demorei a perceber que aquele cheiro da visão não desaparecia, já que a chama desaparecera. Eu, pelo espelho, vi aquele homem parado atrás de mim. Não me notava, mostrando que aquilo era apenas uma visão. Ele, sem demoras, avançou sobre os Mestres e agarrou a cobra.
—Salve-o! Ele precisa de você!
O réptil foi esmagado e sangue dele caiu no chão. Houve uma gritaria, o que forçou o homem a correr para fora, para o quintal. Todos foram atrás dele. Era um arremesso de esferas de energia, de correntes, de qualquer coisa que eles achavam pela frente. Acho que, para piorar a situação, uma chuva foi posta ali, só não sei por quem.
—Deixe que a cobra salve o garoto! Ele está no Bosque! – Aquelas palavras pararam todos que, em meio aos ataques, flutuações no ar e afins, pararam para ouvir. – O Primeiro Desafio está acontecendo!
—E como você sabe disso?
—Não precisam saber, é só verem! – Etzel levantou as mãos e uma pequena esfera voou de dentro da casa. Nela, os Mestres viram uma pessoa, eu para ser mais exato, correndo dentro de um bosque.
Rosália, sem paciência, se dirigiu à pessoa. Ela tinha uma pele bem amarelada, com vários furos, várias feridas que liberavam muito pus.
—O que você sabe e que não sabemos?!
—Não importa! Apenas ajudem o garoto! Vocês sabem da profecia! Ainda há muito o que fazer! – Ele gritava, mas isso não espantava os Mestres. Eles olhavam estagnados para mim, para Rosália, para o homem e entre si.
—Espere um pouco. – Násser, como a luz, apareceu do lado dele e retirou o capuz dele. – TEMPO! – O espanto foi geral, inclusive meu. Como aquele ser poderia ser um integrante de Tríade de Diamante? – O que aconteceu com você?
—Foi ele! Foi o Destino! Ele já acabou comigo! Anulou meus poderes!
—Falta apenas a Morte...
Um grito saiu do orbe e todos voltaram o olhar: eu pulei do precipício para salvar aquela garota. Eu lembro que, como milagre, eu a salvei.
—Nenhum dos dois morreu?
—Se sim, isso mostra que a Morte já caiu...
—Na verdade, não. Eles têm um futuro diferente. Vejam a profecia novamente:
Aquele que sobreviver ao festival
Caminhar pelos Sussurros e servir a morte
Salvará a alma do sacrifício inválido
E será aprisionado perante o conhecimento
Adentrará duas guerras invisíveis
E afundará nas profundidades
Não será a fruta podre das almas mortas,
Mas este será o novo arauto
Que trará esperança para os desalmados
Isso ecoou pelo lugar inteiro.
—Agora, voltem às suas cidades e se protejam! – Ele desapareceu no ar. Todos se viraram e, ao jogarem umas bolinhas de vidro no chão, os pedaços cravaram em suas peles e eles sumiram.
—Agora é a nossa vez.
O anjo estava atrás de mim.Sua pele negra reluzia no Sol forte que surgiu após a chuva. Acho que ela apenas veio para criar uma poça, onde pulamos e desaparecemos dali.
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