Assim que eu retornei o meu olhar para o homem, esse já desaparecera e tudo ao meu redor começou a ruir. Corri para fora do lugar, desviando das enormes corrente e de pequenos morcegos que plainavam por ali. Assim que passei pelo pequeno campinho de grama, pisei na areia fofa e avistei o último resquício de água do lago. Assim que eu pulei dentro dele, caí em um enorme vazio. Não era mais água que havia ali, mas um vácuo que me sugava para o fundo.

Quando a força me jogou para fora, eu caí em um terreno seco e áspero. Acabei com as mãos cortadas e sujas por um pó preto. Eu olhei para todos os lados. Eu achei que voltaria à Cidade de Platina, contudo, estava – no que parecia – a Cidade de Carvão. Eu só não conseguia me lembrar quem era o Guardião daqui. Se não me engano, era a Yoko, mas ela estava na Cidade de Platina. Como ela saberia que eu estou aqui?

—Não precisa falar mais nada.

Tomei um susto quando ouvi aquela voz. Eu virei para trás e vi a mulher japonesa pacífica, mas de olhar vermelho como lava.

—Como soube que eu cheguei aqui?

—Você acha que está vivo ainda por quê? – Eu estava assustado, mas também confuso. – O ar aqui está repleto de gases tóxicos, como enxofre e monóxido de carbono. Em suas veias sanguíneas, fariam um estrago magnífico. Gostaria de vê-lo sofrer, aliás. Talvez parasse de correr da gente.

—Mas eu não corri de vocês.

—Imagina. Você saiu voando com aquele anjo do nosso salão de reuniões e nem disse para onde iam. Ficamos como loucos correndo e procurando vocês.

—Nós não ficamos lá.

—Logo desconfiamos quando vimos os Lagos das Memórias ativados.

—Só acho que eles podem estar com um pequeno problema. – Eu contei para ela o que ocorreu na primeira memória e que foi tudo bem; porém, a segunda – foi a que eu interferi – o Destino falou comigo. Para mim, era impossível, pois era apenas uma memória.

—Isso significa que ele está ainda mais forte. Sorte a sua que, naquele momento, você já estava enfrentando o último desafio antes da sua profecia ser proclamada. Se não, ele o impediria e o mataria.

—Agora entendi o que o anjo tentou me dizer.

—E onde ele está?

—Ele foi morto. Sumiu no ar assim como a serpente azul, o Tempo, o meu eu do futuro quando o vi pela primeira vez: voaram como pétalas.

—Você não pode estar falando sério?

—Pior que estou. – Ela esboçava um espanto pior que o meu. – Por quê?

—Ele poderá retornar à vida, mas não será como esperamos.

—O que você quer dizer com isso?

—Por exemplo, como que você reencontrou o seu eu do futuro?

—Ele estava da mesma forma, porém, ele me atacou. Foi totalmente diferente de quando nos encontramos pela primeira vez, quando ele até tentou me ajudar.

—Ele não voltou como esperamos. A mentalidade dele mudou totalmente.

Ela, com sua pequena bengala de madeira, foi andando ao meu lado. O cheiro fétido impregnava o meu nariz e fazia escorrer um pouco de sangue. Ela me guiou até um enorme palácio, semelhante ao de Atlântida: enormes torres que subiam e eu não via as suas pontas; portões gigantescos guardados por centuriões enormes, com um semblante sombrio e irritadiço, além da pele quebradiça e gosmenta que eles tinham; o terreno tinha algumas estátuas, no entanto, eram tristes e tortuosas, revelando cenas de brigas, guerras e atrocidades

—Por favor, queira entrar. Não é seguro ficarmos desfilando pelos Campos da Discórdia.

Nome super sugestivo para aquele lugar. Dentro do castelo, era levemente diferente. O lugar era pacífico, com pequenas estátuas brancas – todas traziam a imagem dos Mestres da Visão – além disso, o cheiro do lado de fora não impregnava tanto assim o meu nariz.

—Como você chegou aqui? – Contei toda a segunda visão, novamente, e o momento em que eu pulei no Lago, mas pouca água havia e, o que me puxou foi um forte vento, semelhante ao vácuo. – Parece que nossos caminhos para entrar ou sair da Cidade de Platina estão se fechando.

—Obra do Destino. – Assim que eu olhei para trás, me deparei com Rosália. – Bom revê-lo. – Ela se aproximou e me deu um forte abraço. Aquele tipo de afeto foi muito estranho e por vários motivos: primeiro, ela nunca fez isso comigo; segundo, seu corpo era esquelético, basicamente; terceiro, fazia tanto tempo que eu não era abraçado que quase me esqueci do que era isso.

—O que você faz aqui?

—Ela foi a única que conseguiu asilo para mim, afinal, Atlântida está destruída. Além do mais, aqui é um encontro entre alguns caminhos, portanto, a sua missão pode parar um pouco e você descansar. Não será fácil o seu próximo passo.

—Você já sabe qual será meu próximo passo?

—Tenho minhas desconfianças, como todos nós. Eu acho que nosso encontro com aquele anjo não foi acidental.

—Um plano Dele? Mesmo ele tendo me afirmado que era um traidor e desertor.

—Os anjos não tem muitas escolhas. Ou escolhem o Carvão ou escolhem o Cristal. Até hoje, nós nunca vimos um que pudesse rejeitar os dois caminhos, mesmo tendo o terceiro.

—E qual seria esse terceiro?

—A Cidade de Marfim, o lar das histórias, o único lugar do mundo para onde um anjo que não queria os dois extremos possa ir. Entretanto, são poucos aqueles que conseguem ir para lá. Além de terem que enfrentar Násser, eles precisarão se adaptar ao clima e ao meio de vida.

—E o que muda dos extremos para o Marfim?

—Se ele não tiver com a mente em seu lugar, ele começará a criar alma e se humanizará.

—No fim, ele morrerá.

—Bem trágico. – Nisso, ouvimos uma explosão ao longe. Yoko não parecia se importar, afinal, ali era seu lar e conhecia tudo e todos dali. Contudo, aquilo não parou e começou a se aproximar.

—Yoko, o que está acontecendo?

—Eu sei o que é, mas eles anteciparam, e muito. – Ela correu até uma janela enorme, que permitia a entrada de uma forte luz para dentro do lugar. – As chamas estão se aproximando. O lugar inteiro está sendo destruído.

—Você não pode fazer nada?

—Sem o poder da Morte, não há quem traga as almas das pessoas mortas e daquelas que não mereceram o Cristal.

—Ou seja, assim como Atlântida, aqui será destruído.

—Isso não pode acontecer! – Yoko, com sua bengala, abriu a imensa porta de madeira que impedia o forte calor de adentrar o lugar. Eu suava horrores e isso sujava as minhas roupas. Diferente de Rosália, que tremia de frio. Suas mãos e corpo estavam arroxeando de tanto frio que sentia.

—Você está bem?

—Eu estou, mas isso que estamos sentindo é o fortalecimento dos Campos da Discórdia. Se ele tomar mais da metade da Cidade, estaremos perdidos. Não haverá mais lugares para as almas irem. – Eu e a vidente olhamos para o lugar de onde vinha a intensa chuva de cores vermelhas. Yoko estava diante de uma onda avassaladora de almas de lava, todas tentando penetrar no castelo. – Você precisa ir. Precisa chegar a Cidade de Cristal e pedir ajuda a Salústio.

—Mas ele ainda não está desaparecido.

—Está sim, porém, ele deixou algum rastro na Cidade. Por favor, ache-o. Vou ficar para ajudar Yoko.

Outra explosão surgiu e jogou Yoko para perto da porta. Assim que olhei para frente, me deparei com uma pessoa, um homem alto e de braços fortes. Ele tinha várias cicatrizes e uma foice em suas mãos. Em seu pescoço, um pingente em forma de relógio.

—Destino... – Rosália ficou sem voz em seguida. A foice, símbolo da Morte, e o relógio, símbolo do Tempo. Finalmente, Ele tomou o poder de seus companheiros.

—Ele está muito forte. – Olhamos para ele e seu traje de Diamante, símbolo de seu autoritarismo sobre os demais da Tríade. – Por favor, mande o garoto para Salústio. Ele estará esperando-o.

Rosália tocou em minha cabeça e eu senti um forte choque. De repente, eu me vi dentro d'água e a Cidade de Pérolas à minha frente. Eu estava no lugar de Rosália e me vi adentrando o enorme Megalodon, o imenso tubarão branco. Depois, corri até Abigail, a sereia que eu havia salvado.

—Saia daqui! Se ele voltar, será o nosso fim! – Assim, olhei em volta e a bola de cristal estava ao meu lado, no entanto, algo me empurrou e ela saiu correndo, para o lugar onde eu acharia.

Abigail corria para o mais longe que podia. Do nada, eu vi uma espada voando na direção dela, perfurando a suas costas. No final, ela desapareceu em uma nuvem de pétalas de flores. Aquilo tinha um único sinal e eu sabia o que era. Tudo começou a se deformar ao meu redor, significando que Rosália estava saindo daquele lugar.

Contudo, eu voltara a usar o meu corpo quando ela estava se dirigindo para "sabe sei lá onde". No final, eu apareci de joelhos em um pequeno chão branco de mármore puro. Achei que era Platina, contudo, era muito mais claro e mais intenso. Ao olhar para todos os lados, me deparei com enormes fontes com águas límpidas. Ali, a paz reinava, por enquanto.

Ouvi passos perto de mim e me deparei com um homem grande e um pouco gordo. Ele vestia um pano branco e bem limpo, quase transparente. Não havia cabelos e sua pele era uma miscigenação de diversas cores e quantidades diferentes de melanina. Aqui era branco, ali era negro, acolá era mais vermelho ou amarelo.

—Quem é você?

—Salústio, é você? – Ele se espantou e esticou a mão para me ajudar a levantar. – Fui enviado por Rosália, um pouco antes dela... – Eu não sabia se ela estava viva ou não. O mesmo era com Yoko.

—Então, é verdade os rumores? A Cidade de Carvão caiu?

—Sim, ela está em chamas e foi tomada pelas almas de lava.

—Misericórdia.Um golpe, um Coup d'État, uma lástima. – Ele era um pouco dramático, ainda mais que disse a mesma palavra duas vezes e em línguas diferentes. Além do mais,parecia que ele estava perdido sobre os últimos acontecimentos. E, se ele estava desaparecido, como apareceu aqui? E por que Yoko disse que ele estava bem? O que está acontecendo?