Salústio estava em minha frente, olhando para o incrível céu azul. Ele não esboçava mais aquele surto dramático que teve. Eu comecei a encarar ainda o lugar ao meu redor. Não havia nada demais. Tudo era muito limpo. Na verdade, era muito entediante – não que a Cidade de Carvão fosse incrivelmente excitante – mas eu esperava algo a mais da Cidade de Cristal.

Ele apontava para mim e fazia movimentos com o dedo, o que significava "Por favor, me siga" – na verdade, desconfiava que era isso. Por onde ele andava, pisava sem jeito sobre a grama verde do extenso gramado e afofava a terra molhada recentemente.

—Bem-vindo à minha cidade, a Cidade de Cristal. – Nisso, meu queixo com certeza caiu, pois eu estava desacreditado com o que via: eram torres de cristal para todos os lados, eram pedestais com estátuas de anjos por onde você olhava, era espetacular. "Retiro o que eu pensei anteriormente...". – Garoto, por favor, venha comigo. Acho que sei o porquê da sua vinda.

Conforme íamos passando por entre as torres, o mundo ia escurecendo um pouco. Nós nos dirigíamos até uma pequena porta de madeira. Assim que ele abriu a porta, dei de cara com muitas penas e muita palha pelo ar. Cinco enormes aves voavam pelo imenso lugar. Pelo lado de fora, você nem desconfia daquilo.

—Aqui estão as Aves da Vida. – Cada uma tinha um detalhe especial: além das penas mais brancas que algodão, uma forte gargantilha estava presa em seus pescoços.

—Elas não ficam incomodadas com isso preso nelas? – E apontei para as criaturas, que mais pareciam uma espécie de gavião, só que com três metros de altura.

—São mágicas, portanto, elas se ajustam conforme a ave necessite. Se reparar melhor, cada uma é decorada com o símbolo de sua respectiva cidade. – Só neste momento eu reparei os enfeites: um de carvão, outro de pérolas, platina, cristal e marfim. A Ave da Pérola era a mais cansada de todas.

—Se elas são a vida de cada cidade, por que estão aqui?

—Estou aqui para protegê-las. Aqui foi o único lugar que o Destino não conseguiu penetrar.

—E você não estava desaparecido?

—Ainda estou, mas foi um plano meu e de Yoko. Mais dela do que meu. Toda a vez que um Mestre se ausenta de sua cidade, uma forte onda protetora surge em todas as entradas possíveis e impossíveis. Dessa forma, ninguém entra. Lógico, com exceção daqueles que a Cidade saiba que são bons, como você.

—Se você está desaparecido, por que estou falando com você?

—É uma ilusão de ótica, presente de Rosália. Enquanto eu estiver seguro e desaparecido, Destino não me encontrará, não entrará em nossa cidade e as aves estarão protegidas. – Eu as encarava e elas pareciam não gostar, exceto das Aves do Carvão e da Pérola, que estavam mais calmas. – Elas sentem que suas relativas cidades estão sob ataque. A pequena Pérola é a que mais está ferida por dentro e não há nada que podemos fazer.

—Atlântida foi destruída e Rosália também. Nem consigo imaginar o que ela estará sentindo. E os Mestres sabem onde você está?

—Ninguém sabe e nem você poderá saber. É mais seguro assim. – Eu sei o que ele quer dizer: quanto mais pessoas souberem, menos força tem um segredo. – Agora, o que o traz para a minha formosa Cidade?

—Rosália e Yoko me mandaram para cá. Não tive muito tempo para raciocinar ou para perguntar a elas. Foi tudo muito rápido, muito intenso. Depois que eu desapareci e não mais as vi, tive uma visão de quando eu lutei comigo mesmo dentro do Megalodon. Em seguida, eu apareci aqui. – Eu sentei no chão. De repente, faltou ar em meus pulmões. – Yoko disse que você estaria aqui. Então, ela acredita ou que você retornou ou não sabe sobre a ilusão.

—Todos eles sabem da ilusão. Na verdade, antes de eu ir embora, deixei um bilhete forjado sobre mim. Era uma espécie de testamento, um bilhete de ajuda. Em seguida, mudei a mente deles.

—Vocês têm esse poder?

—Apenas o Mestre do Cristal que tem. Afinal, trabalhar em um lugar tão solitário tem que ter as suas vantagens.

—E essa solidão ocorre por quê?

—Você sabe quantas pessoas ficam presas em Marfim ou vão direto para as Minas? Poucas são aquelas que vem para cá. O mundo está tão diferente que não sei mais se haverá mais pessoas aqui. Násser quer a minha ajuda em sua Cidade, pois a quantidade de pessoas presas lá é imensa.

—Com certeza a briga entre a Tríade está deixando tudo bem mais "fácil"... – Acho que ele pegou a minha ironia.

—Ele dificultou tudo. O Tempo parou e a Morte morreu. A frase fica até estranha se pararmos para analisar. Porém, ninguém mais morre, ninguém mais tem pressa, ninguém mais sente a vida parando.

—Não tem ninguém que possa pará-lo?

—Sim, há apenas uma pessoa e ela tem um poder que ninguém sabe como controlar, nem como ensinar. Ela deverá descobrir sozinha.

—E onde ela está? – Ele parou por um momento e eu senti certo repulso para responder.

—Esqueça isso. – Ele se virou e focou na Ave do Cristal. – Você se lembra da profecia por inteiro? – Eu parei um pouco e busquei em minha mente toda a profecia que eu decorei:

Tão longa fora a jornada

Para encerrar longe da declarada

Abra os olhos para o estopim celestial

Desça mais fundo para a arena de cristal

Creia na força e na fúria do passado

Para sobreviver ao futuro atrasado

Após eu ter recitado, ele se virou para mim e, com um olhar piedoso, continuou:

—Essa pessoa ainda não está pronta. Somente quando ela se enfrentar, é que esse poder será emanado. – Não entendi nada que ele disse. Ele apontou o dedo para mim e pediu que eu cuidasse das aves enquanto ia atrás de um livro que queria me mostrar.

As aves, sem dúvidas, tinham algum receio em olhar para mim. Talvez soubessem o que eu carregava em minhas costas, eu tinha medo disso e que usassem esse sentimento para me matar. Entretanto, conforme eu conversava com elas, elas aproximavam seus bicos para eu fazer carinho. Elas piavam docemente quando eu entregava um pouco dos grãos usados para alimentá-las.

Depois de quase meia hora, elas não tinham medo de mim, nem eu, delas. O mais divertido era a tentativa delas de me levantarem no ar, contudo, eu era um pouco mais pesado do que aparentava. Salústio apareceu atrás de mim carregando um grande livro de capa toda degastada.

—Garoto, aqui está o que você precisa saber para encontrar aquele, cujo poder é tão extenso quanto o do Destino. Será mais uma árdua caminhada para você, porém, creio que você conseguirá.

As Aves me soltaram e eu peguei, com muito cuidado, o livro. Ao abrir as páginas, senti uma forte poeira adentrar as minhas vias nasais e isso me incomodou um pouco. Fora isso, eu conseguia ler o livro facilmente. Apesar da linguagem mais rebuscada e mais descritiva, eu conseguia adentrar nas páginas e buscar o que eu precisava.

—Porém, ainda há uma parte da sua profecia que eu não consegui decifrar. "Arena de Cristal" é aqui, mas essa confiança no passado para vencer o futuro? – Salústio e eu trocamos de lugar e ele ficou brincando com as aves.

—Acho que você não soube como a Cidade de Pérolas foi destruída.

—Rosália me relatou, porém, ficou vago em alguns pontos.

—O guerreiro do Destino usado para aniquilar a cidade foi a minha imagem futura. Eu já o havia enfrentado, contudo, era uma pessoa mais pacífica. Não que era um poço de bondade, mas era mais calmo.

—Eu vi a sua visão. Ele aniquilou aquelas seis pessoas.

—Eu ainda não entendi muito bem aqueles desafios.

—Você sobreviveu a todos, o que demonstra a sua perseverança. Sem ela, você não teria conseguido pular atrás daquela menina. – Enquanto conversávamos, reparei que as Aves começaram a ficar um pouco inquietas. Não apenas eu, mas ele também reparou. – Tem alguém na entrada da Cidade e parece que nenhuma delas gostou da visita.

Eu e ele fomos correndo para o lado de fora e voltamos a subir o imenso caminho. Seguimos um caminho diferente, já que o local onde eu aparecera era o centro do lugar, onde eram feitas as reuniões. Salústio me contou isso enquanto nos dirigíamos até o enorme portão de cristal que nos separava daqueles que queriam adentrar o lugar. Como tudo era transparente, não foi difícil identificar quem estava do lado de fora dos portões. Era um homem alto com braços fortes e uma forte e resistente armadura de diamante.

—Destino! – Nós dois exclamamos, mas acho que ele não nos percebeu ali. – Nós podemos ver quem estava lá fora, mas ele não pode nos ver.

Eu notei que ele levantou o braço. Em suas mãos, havia a foice da Morte. Essa não estava mais cega, como no dia em que eu a usei. Ela brilhava intensamente com o aço todo limpo e reluzente. Com a força tremenda que ele tinha, cortou o ar. Por sorte, o portão ficou intacto.

—As forças externas estão conseguindo proteger a Cidade, mas não sei por quanto mais tempo tudo ficará inteiro. Ele está muito mais forte, ainda mais com a unificação das forças da Morte e do Tempo.

Eu senti um forte estrondo atrás da gente e olhei de onde veio. A torre das Aves estava sem teto. Os enormes pássaros da vida estavam piando intensamente. No fim, elas voaram até onde estávamos.

—Elas não deveriam ficar seguras?

—A Cidade sabe quando está sendo atacada e convoca seus guerreiros para defendê-la. – Eu não via ninguém se aproximando, muito menos algum guerreiro armado para defender o lugar. – Mas acho que nossas forças não conseguirão aguentar o Destino.

—Que forças? Eu não estou vendo ninguém!

—Calma, meu pequeno, tenha muita calma. Eles chegarão daqui a pouco. – Eu tinha calma, mas ver a foice cortando o ar muitas vezes fazia com que meu medo florescesse.

Quanto mais aquela foice se levantava, mais cacos de cristal caiam aos meus pés. Do nada, a Ave do Cristal levantou voo e jogou uma rajada de vento sobre o portão, o que o fez se abrir. Eu me assustei, mas Salústio não. Não sabia qual era a ideia dele, mas acho que aquilo fazia parte do seu plano. Destino, então, começou a caminhar para dentro da Cidade enquanto nos encarava com aqueles olhos de ganância.

Do nada, uma forte luz surgiu e caiu sobre ele. Ele, assustado, não se mexia. Uma onda de esqueletos com enormes asas brancas surgiu do chão e o agarrou. Eu também assustei, pois aquilo foi muito repentino, foi muito estrondoso. Ele estava sendo massacrado por pequenos e delicados esqueletos que não conseguiam se mover mais depois da sua morte.

—Isso vai segurá-lo por algum tempo. – Salústio já comemorava a vitória em cima do velho senhor, mas eu achava que aquilo não o seguraria nada. Apesar de solitário, Destino era mais forte, tinhas as armas da Tríade. Como ele seria destruído? – Eu preciso que você fique aqui e ajude os esqueletos para eu levar as aves para outro lugar seguro.

E ele saiu correndo para ajudar as aves. Eu olhei para o Destino, que não mais esboçava uma cara de frustrado, mas sim um sorriso cínico. Ele, sem muito esforço, causou uma explosão que fez com que os esqueletos desaparecessem. Eu pulei sobre ele, porém, ele me jogou para longe. Ele pulou na direção das aves e, com a foice, cortou o ar. O impulso as atingiu e fez com que caíssem no chão. Salústio parou na frente dele.

—Você é louco! Não sabe o que pode acontecer caso essas aves caiam!

—Eu sei muito bem, mas você não estará aqui para descobrir! – A foice foi levantada e cortou Salústio ao meio. Seu sangue, seus órgãos, tudo foi ao chão. A Ave do Cristal gritou tristemente, mas pulou sobre o homem.

Corri para ajudar as demais aves, porém, uma força me impedia. Era uma mão que me segurava e me puxava para longe deles. Eu ouvia leves sussurros de "Ainda não!", só que eu não via ninguém. Assim que retornei meu olhar para a cena, eu vi quatro das cinco aves alinhadas, todas inconscientes, todas submissas. Apenas a do Marfim que ainda lutava.

—Ajude-a, por favor, eu só peço isso. – Eu disse baixinho para só aquele que me puxou pudesse ouvir.

—Ela está bem.

Nisso, a foice cortou os pescoços das aves e mais sangue veio ao chão. A última ave estava destruída internamente, pois era a última que restara. Ela levantou voo e fugiu para longe. Eu ouvia o seu choro, a sua angústia, mas não podia socorrê-la. Ainda havia uma batalha para duelar e era contra o Destino.

Continua...