Desafios do Destino II - Prelúdios e Premonições
2 A Descida do Mausoléu
Eu ainda sentia as mãos de Rosália em minhas mãos, mas eu não a via. Não por causa da escuridão que me rondava e sim, porque ela não estava do meu lado. Eu não sentia nada sob meus pés, eu não compreendia o que ocorria ao meu redor, apenas queria desaparecer dali.
Do nada, minha visão voltou a sentir as cores e a brisa. Eu tocava em meu corpo, prestando atenção em cada detalhe de minha pele ferida e maltrapilha. As cicatrizes eram profundas, tanto física quanto psicologicamente. Quando encarei o lugar que me cercava, me deparei com Rosália, que visualizava o lugar, a imensidão desolada à nossa frente.
Afinal, onde estávamos? Estávamos em uma pequena redoma de vidro, em um lugar escuro, sombrio, onde a luz não podia chegar. A pequena esfera cuidava para que nossos olhos vissem tudo.
—Por favor, tome cuidado aqui. – A voz de Rosália me bambeou um pouco. Ela estava fraca e rouca. – Isso vai tentar despertar os seus piores pesadelos.
—E o que é isso?
—Estamos nas entranhas da Terra, estamos circulando por todo o fel que está abaixo dos pés daqueles que vagam pelo solo.
—Por que tivemos que vir para cá?
—Para chegarmos à Cidade de Platina, precisaremos passar por esse único desafio.
—Olha, se você quiser nos espantar de qualquer pesadelo meu, poderia me explicar todos esses nomes que você disse? – Ela encarou o olhar de dúvida, mas o esclarecimento estava em seu semblante. Ela sabia quais eram as minhas perguntas. – Quem é a Tríade de Diamante? E os Mestres da Visão? E essa Cidade de Platina?
—Iremos por parte. – Como a redoma tinha um tamanho sensato, ambos sentamos. – Os Mestres da Visão são parecidos comigo, são videntes e guardiões das profecias que rodeiam mundo afora. No total, somos quatro pessoas, quatro videntes, um para cada cidade.
—Quais são as cidades?
—A Cidade de Platina, o Refúgio dos Perdidos, é onde nos reunimos em casos de emergência. Esse é um desses momentos, só que eu pressinto... Que o pior ainda está por vir.
Ela parou por um tempo e ficou encarando a nuvem negra que nos cercava. Com as mãos nas paredes da esfera, ela recitou um pequeno cântico. A redoma começou a avançar com mais velocidade, deixando um pequeno rastro na fumaça. Eu, bem no fundo, via alguém se aproximando. Não era alguém, era algo. Ele tinha algumas presas ferozes e bem afiadas.
Parecia ser uma serpente marinha, porém, flutuava ao invés de nadar. Seu corpo era repleto de escamas, colorido como cinzas de enterrados. Sua bocarra era repleta de dentes e presas afiadas, todos corroídos com podridão. Ela se aproximava de nós.
—Qual o seu pior pesadelo? – Eu não consegui responder à vidente, pois encarava com afinco aquilo que nos perseguia. – Se aquilo não for um dos seus e, sem dúvida, não é um dos meus, há mais alguém aqui conosco.
Aquilo não era fruto da minha mente. Com certeza, Ele não iria deixar nada pacífico para nós. A criatura, repentinamente, mudou de direção e perseguiu uma sombra que flutuava mais ao longe, mais diante de nós dois.
Seguimos em direção do alvo do monstro, que atacava cruelmente aquele que plainava adiante. Parecia uma pequena pessoa, cujos cabelos raspados mostravam a calvície de seu couro cabeludo. Ele tinha a pele negra, como a terra molhada em dias de chuva. Eu, sem medo do que poderia acontecer, pedi para Rosália se aproximar, já que eu defenderia aquela pessoa de um metro de altura.
Quando a nossa esfera se aproximou da criança, eu pulei e a puxei para dentro. Ela estava magra, com o corpo repleto de ferida, todas sangrando cruelmente. Entretanto, havia um problema.
Eu estava para fora da esfera, todo cercado pela incrível neblina escura que nos rondava. Claro, eu estava em perigo, mas Rosália nada fazia. Ela estava, provavelmente, me testando. Eu, ainda com a criança em meu colo, comecei a "nadar" em direção à esfera.
Assim que eu me aproximei, joguei a criança para dentro, pois eu teria que enfrentar a criatura, que estava em cima da gente. Ela tinha olhos vermelhos de ira, cuja fúria emanava de forma cruel e sanguinária.
Seu corpo musculoso se contorcia em minha direção até eu, totalmente indefeso, ficar cercado pelo extenso corpo cilíndrico da cobra. Ela, com a boca sedenta de sangue, se aproximou de minha barriga para mordê-la, mas eu desviei, pulando para cima.
Eu não tinha armas para lutar, apenas...
Por fim, eu me lembrei que havia aquelas pedras que transformavam água em gelo. Será que funcionariam com aquela neblina? Eu, testando a minha teoria, agarrei uma das cinco que restavam e arremessei perto da cabeça. Ela, por muito pouco, passou reto e atingiu o que seria a região entre o pescoço e o corpo inteiro.
A serpente aparentou estar com um colarinho atrás de sua cabeça. Como a cor do lugar era acinzentada, a coloração esbranquiçada se destacou e a visão amedrontadora piorou ainda mais. Na tentativa de voltar para a esfera, a cobra, com sua cauda, me arremessou para longe.
Meu corpo doía, pois eu sentia meus músculos se estirando todos. Eles se repuxavam de tal forma que meu corpo aparentava um desmembramento intenso. Minha visão se tornou turva. Antes mesmo de recobrar as minhas forças, a serpente apareceu diante de mim e, com a cabeça, colidiu com a minha barriga. Eu sentia, também, meu estômago sangrando.
Cuspi no ar e vi o líquido vermelho perambulando. Logo que fui procurá-la, ela me atacou e mordeu a minha panturrilha. Eu notava seu veneno adentrando as minhas veias, eu vivenciava a minha sensação de morte. Eu seria enterrado nas terras fofas daquele Mausoléu.
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