Tão longa fora a jornada

Para encerrar longe da declarada

Abra os olhos para o estopim celestial

Desça mais fundo para a arena de cristal

Creia na força e na fúria do passado

Para sobreviver ao futuro atrasado

Eu, enquanto caminhava pela rua, sentia o peso que a profecia fazia sobre meus pensamentos. Não parava de pensar naquelas palavras, cada letra ecoava, flutuava como pétalas ao vento. Falando em pétalas, havia aquele que iria me enfrentar, aquele que era meu futuro. Eu precisaria usar o passado, mas como?

Será que eu teria que me desafiar mais do que eu havia feito? Tudo era estranho. A rua estava deserta e escura. O dia caíra há algumas horas. Eu não conseguia me mover naquela hora, o peso da morte ainda estava em mim, eu precisava parar e jogá-lo fora. Contudo, algo me fez mover. Era uma luz, branca como uma explosão. Eu não sabia como agir, apenas contemplar aquilo.

Com passos carregados de amargura, eu consegui me levantar e andar, arrastando as solas descalças, pois eu perdi meus sapatos quando saí da água. Aquela sensação foi agradável, pois o que me fizera respirar embaixo d' água desaparecera, me deixando à deriva da morte.

Novamente, eu vi aquela luminosidade, que parecia trazer o dia novamente, mesmo que fosse apenas por alguns segundos, raramente era um minuto completo. Eu, morrendo de fome e de sede, o que era estranho isso ocorrer só agora, pois eu não comia desde o festival, andei vagarosamente em direção do meu alvo brilhante.

A rua, apenas com as iluminações das casas, estava basicamente solitária, a não ser um morcego planando entre uma árvore ou outra e umas formigas voltando ao seu formigueiro. Eu, com a esfera de cristal em minha bolsa, prosseguia firme e forte até o parque, lugar onde eu vira a luz.

Mentira, aquilo não era um parque. Logo desconfiei assim que comecei a descer uma longa ladeira, que caía como uma cachoeira. Com muros altos, incomuns e quase inexistentes em parques públicos, eu via a luz dentro do lugar. Eu precisaria entrar e passar pelo portão de entrada, que já estava selado.

Em uma placa de bronze, toda adornada de detalhes dourados que, com certeza, não era ouro, talvez um metal pintado de dourado, havia o nome do lugar. Aquilo acuou o meu estômago, já que eu detestava esse tipo de recinto, contudo, eu teria que adentrar. Havia algo lá dentro.

"Cemitério do Bom Retiro" era o nome do lugar. Certeza que eu não seria bem-vindo lá, se o lugar estivesse aberto. Eu, todo destruído, todo maltrapilho, sem roupas descentes, estava desolado de tudo e todos. Não haveria uma alma boa que me ajudaria naquela situação, isso se pudessem me ver.

—Venha! – Esse foi um sussurro carregado pela brisa até meus ouvidos. Alguém, dentro do cemitério, do recanto dos mortos, me chamava. Eu, com as poucas forças que me restava, teria que pular aquele portão, teria que desaparecer lá dentro. – Por favor, me ajude!

Novamente, alguém dependia de mim para sobreviver. Não me recordo quantas almas já ajudei ou já prejudiquei, não me lembro quem mais precisava de mim. Eu, assim que me aproximei do portão, apoiei sobre suas barras de ferro antigo, quase enferrujado e, com meu peso, forcei e comecei a subir.

Era estranho. Meu coração batia forte, minha respiração falhava, como se eu fosse um gatuno, que precisava agir nas sombras. Lá no topo, com o máximo de cuidado, pois as barras terminavam em pontas afiadas como lanças, eu passei por cima delas e pulei no solo. Olho para trás e vejo um felino, um pequeno gato preto, que me encara com seus olhos esverdeados.

Era só isso. Ele se vira e vai embora quando alguém gritou "Cornélio". Eu retornei meu olhar para o corredor de lápides e andei sentindo a terra molhada e gelada, sentindo a vibração que aquelas almas deixaram para trás, percebendo o limite da vida.

Mais à minha frente, eu vi um corpo caído e fui, às pressas, para ajudá-lo. Era um homem bem sujo e com fortes olheiras e feridas pelo corpo todo. Ele tinha um cabelo loiro, levemente acastanhado, quase uma queimadura devido ao Sol. Ele não respirava direito e seus lábios, pés e mãos estavam roxos.

Eu não tinha remédios ou qualquer forma de curá-lo. Novamente, uma luz surgiu do nada, porém, veio de trás de mim. Além disso, um peso sumiu das minhas costas e dos meus ombros. Olhei a bolsa. A esfera desaparecera. Fitei ao meu redor e nada.

Quando voltei minha visão ao homem, havia uma mulher ao lado dele. Sua pele era ressecada e bem enrugada, seu olhar era amarelo como duas esferas iluminadoras de horizontes. Seu nome era Rosália, a vidente que disse a minha profecia.

—Fico feliz que não se assustou ao me rever. – Sua voz era um pouco menos esganiçada do que antes.

—Achei que você tinha morrido quando a cidade foi destruída.

—Então foi isso que aconteceu com a cidade? – Ela tinha dois dedos segurando o pulso do homem, mas sua feição estava triste. – Quando você adentrou o Megalodon, Abigail morreu tentando lhe proteger. Ela sabia que, se você entrasse, seria o fim da cidade. Você era o último pilar que restara para aquele ambiente.

—Se você sabia disso, por que não me disse antes?

—Eu não sabia. – Ela tirou, de dentro de seu longo casaco azulado, lotado de cascalhos, uma pequena esfera, uma miniatura da sua, daquela que eu carregara. – Ela tinha uma profecia, todos nós temos. Alguns, com um pouco de azar, tem mais durante a vida. – Eu sabia que aquilo era para mim. Ela me revelou uma profecia quando me conheceu e me deu outra, pois, com certeza, estava escondida na esfera, quando eu voltei à cidade.

A primeira eu já passara por tudo:

Aquele que sobreviver ao festival

Caminhar pelos Sussurros e servir a morte

Salvará a alma do sacrifício inválido

E será aprisionado perante o conhecimento

Adentrará duas guerras invisíveis

E afundará nas profundidades

Não será a fruta podre das almas mortas,

Mas este será o novo arauto

Que trará esperança para os desalmados

Agora, a segunda estava em andamento. Ela se virou para mim e continuou a dizer:

—Eu tentei descobrir qual era a profecia de Abigail, porém, esse tipo de profecia, a mesma profecia que você poderá receber, se tiver ainda mais azar, são secretas. Apenas vocês podem saber e não conseguem revelar. Seu corpo impede.

—Ou seja, eu receberei mais uma profecia?

—Como eu disse, se você tiver um pouco mais de azar, além do que você já tem. – Ela se virou para o homem, que estava caído no chão. Ele, mesmo destruído, vestia uma roupa amarela, que parecia um roupão. – Apenas sinto muito por esse aqui. Creio que significa que estamos próximos dele.

—Você está falando do Destino? – Ela concordou e prosseguiu.

—Ele é um dos mensageiros mais importante do Destino. Dependendo da crença daquele que vê, ele terá uma forma. Eu apenas vejo um mero ser humano, que apenas tem uma velocidade extraordinária. Por isso subiu a cargo de mensageiro. E você, o que vê?

Eu me aproximei e coloquei as mãos sobre as costas, que mostravam um alto relevo.

—Para mim, ele também é um humano, assim como eu, mas... – e retirei sua roupa. Ele tinha enormes asas, "pretas como as asas de um corvo". – Ele parece um anjo.

—Eu também vejo isso. – Ela se ajoelhou ao lado do morto e tentou ressuscitá-lo. Ela dizia palavras em outra língua. Com cuidado, o viramos e ela começou a massagear o peito dele. – Se um anjo morreu, quer dizer que algo está fora dos eixos, algo está em desarmonia.

—Você acha que a destruição de Atlântida foi o que causou isso?

—Se ele fosse um tritão, eu até pensaria nisso, mas ele é um anjo. Sua força, apenas com um sopro, teria mandado aquele Megalodon para longe. Se ele morreu, alguém está domando o Destino, alguém está domando a Morte. Alguém tomou a Tríade de Diamante.

Para variar, eu não entendia nada do que ela dizia. Por fim, ela se levantou e me arrastou para o fim do cemitério, onde havia umas casinhas pequenas, todas enfeitadas com flores e imagens de pessoas.

—Para onde está me levando?

—Preciso me reunir com os outros Mestres da Visão. – Mais um nome que eu e nem ninguém vai entender.

Ela abriu uma porta e me empurrou para dentro. Para um mausoléu pequeno por fora, parecia uma mansão por dentro.

—Por que você escolheu esse aqui?

—Minha mãe está enterrada aqui embaixo. – E olhei a foto na parede. A mulher era idêntica a Rosália, porém com os olhos costumeiros, assim como os meus, ou os seus. – Apenas se segura para não vomitar.

Ela pegou a esfera e a jogou no chão. Ela se quebrou em milhões de pedaços. Cada pedaço grudou em nossa pele. A minha começou a arder intensamente, como se eu fosse cremado vivo. Eu senti a mão dela me apertando. Para variar um pouco,minha visão escureceu do nada.